Literatura em Mente: Conto “Viver!”, de Machado de Assis

“Os homens têm tal apego à própria miserável vida que aceitam as mais duras condições para conservá-la.” – Montaigne

Machado de Assis provavelmente é o maior nome da literatura nacional. Escritor de enorme reconhecimento, fundador da Academia Brasileira de Letras, escreveu clássicos da literatura nacional como Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Infelizmente, tenho a impressão que, ou por erro nosso, ou infelicidade da nossa querida língua portuguesa, Machado não tem o reconhecimento internacional que merece (e, não fosse pelas leituras obrigatórias de vestibular, talvez não tivesse o nacional também). No entanto, especialmente este ano de 2015 em que o Salão do Livro de Paris escolheu homenagear a literatura brasileira, Machado parece estar ganhando mais espaço internacional.

Apesar de ser um dos mais famosos romancistas brasileiros, alguns críticos defendem que é como contista que Machado atinge seu ápice artístico. E entre os diversos contos escritos por ele, separo especialmente o conto “Viver!” para uma breve discussão. Se você ainda não leu este conto, aconselho que o faça. Tomará no máximo uns 10 a 15 minutos, quando muito. Este conto faz parte da coletânea Várias Histórias, publicada em 1896 e pode ser facilmente encontrado na internet (a obra de Machado já se encontra em domínio público, então pode baixá-la sem peso na consciência).

machado e varias historias

Machado de Assis e seu livro “Várias Histórias”, de 1896, onde se encontra o conto “Viver!”, citado no texto

“Viver!” é o relato de um diálogo de Ahasverus, o último homem vivo, no fim dos tempos, com Prometeu, aquele que na mitologia grega teria dado o fogo da vida para os homens. Machado escolhe Ahasverus como o último homem tendo como base a lenda do “Judeu Errante”. Isso é uma história, realmente uma lenda, de origem medieval, na qual um homem judeu, vivendo em Jerusalém à época da crucificação de Cristo, teria sido cruel com este durante a sua via crucis. Como consequencia à sua instigância para que Jesus continuasse a caminhar, ele foi condenado a caminhar até o fim dos tempos, ou seja, não morreria até lá.

“Chego à cláusula dos tempos; este é o limiar da eternidade. A terra está deserta; nenhum outro homem respira o ar da vida. Sou o último; posso morrer. Morrer! Deliciosa idéia! Séculos de séculos vivi, cansado, mortificado, andando sempre, mas ei-los que acabam e vou morrer com eles.”

Como podemos ver, Ahasverus não tem uma visão otimista da vida, claro, e vê na morte o fim de um milenar sofrimento. Em geral, esta é a visão dos escritores realistas sobre a vida e a morte e Machado descreve isso muito bem em sua obra. Ao encontrar-se com Prometeu, Ahasverus continua a descrever a “alegria” de finalmente ter a possibilidade de pôr fim a tanto martírio.

O diálogo dos dois realmente é muito interessante, sendo realmente a riqueza do conto. E Prometeu passa a contra argumentá-lo até que lhe faz uma oferta de continuar a vida e ser o começo de uma nova criação. A ideia, que parecia inicialmente ridícula ao humano, passa, a consumi-lo de forma que, de repente, já está completamente vislumbrado com ela. E mesmo um homem que viveu milênios, passa a se apegar a sua centelha de vida como uma criança que busca o fôlego ao nascer. Ao final do conto, duas águias que circulavam à visão de Ahasverus travam um último diálogo, ao olhar para o homem, dando a entender que tudo aquilo não passava de um delírio de um homem morimbundo, que odiava tanto a vida, justamente porque a amava muito.

“Uma águia. — Ai, ai, ai deste último homem, está morrendo e ainda sonha com a vida. A outra. — Nem ele a odiou tanto, senão porque a amava muito.”

A citação de Montaigne no início do texto, se encaixa muito bem com a moral de “Viver!”. Não existe ser humano que não nasça com essa “sede” de viver!, assim mesmo, com exclamação. E não há homem que não sofra com a possibilidade do fim de sua existência.

Jesus Cristo sabia disso, e não foi à toa que ele chorou à porta da sepultura de Lázaro, entendendo a situação humana, e o ressuscitou, dando esperança a todos nós. Ao morrer não era o fim da existência de Lázaro e Jesus pode provar isso mostrando que é Senhor sobre os céus e sobre a terra, e tem poder para trazer, manter ou salvar toda alma e espírito humano.

Todo homem tem sede de viver, e esse sentimento só pode ser saciado em Cristo Jesus.

“… Eu vim para que tenham vida e a tenham com abundância.” Jo 10.10b
“Aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna.” Jo 4.14

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