Cinema | Resenha: “Invencível” – A impressionante história de Louis Zamperini

o-invencivel-poster

Contém “spoilers” do filme “Invencível” (Unbroken – 2014)

“O que permanece contigo mais longa e profundamente?
De curiosos alarmes,
De batalhas duras ou de cercos tremendos o que permanece mais profundamente?”
Walt Whitman, The Wound-Dresser (O médico de feridas). Prefácio do livro “Invencível” de Laura Hillembrand.

Impressionante. Esse é o adjetivo simples que vem à minha mente ao assitir ao filme dirigido por Angelina Jolie, com nome e adjetivo simples: “Invencível” (2014). Impressionante, não pela qualidade técnica, ou pelo fato de ser o segundo filme dirigido por essa grande estrela de Hollyhood. Impressionante porque nos faz embarcar e reviver a história real de Louis Zamperini (interpretado por Jack O’Connell), atleta olímpico que se tornou um prisioneiro de guerra no Japão.

zamperine e angelina

Angelina Jolie e Louis Zamperini aos 97 anos. Vizinhos em Hollyhood, desenvolveram importante amizade antes da realização do filme.

Antes que os mais afoitos venham se queixar, é claro que em Hollyhood há supervalorização, exageros e sensacionalismo. E é claro que é bem provável que possamos ver tudo isso nesse filme, na tentativa de impressionar o telespectador. Mas, ao sair do filme, pude pesquisar um pouco sobre a vida desse senhor, que faleceu no ano passado, aos 97 anos, ao mesmo tempo que pude folhear brevemente o livro escrito por Laura Hillebrand, que deu origem ao filme, e posso te dizer que, se há exagero, é menor do que imaginamos, e ao menos em relação aos fatos mais importantes do filme, atesta-se a sua veracidade.

Para melhor entendimento desta resenha, vou dividir a análise em partes.

Parte I – O Filme

O filme se inicia com cenas de de Zamp (como é chamado pelos colegas), já na guerra, como bombardeiro em um avião, e intercala um pouco de sua história, contando sua infância difícil, como imigrante italiano no período de crise na América. A ideia do filme é mostrar como uma criança pouco obediente e quase marginalizada foi resgatada pelo empenho em um esporte, o atletismo, com o apoio incondicional de seu irmão mais velho Peter. E como esse empenho e imensa determinação puderam levá-lo a diversos recordes, e à disputa da Olimpíada de 1936, em Berlim, com apenas 19 anos, tendo desempenho marcante.

“Um instante de dor vale uma vida de glória” Frase de Peter, irmão de Louis, antes deste embarcar para os Jogos Olímpicos de Berlim.

Claro que o filme não perde minutos preciosos mostrando como esse atleta promissor teve seus sonhos adiados com a ocorrência da Segunda Guerra Mundial, seu alistamento, e o cancelamento dos Jogos Olímpicos que ocorreriam em 1940, no Japão. Tudo isso está implícito. Mas ele demonstra que mesmo na guerra, Zamperini continuava treinando e ainda aspirava ser um grande atleta.

Em uma missão de resgate o avião de Zamperini cai no oceano Pacífico e é aqui que o verdadeiro sofrimento começa. Foram 45 dias de angústia à deriva no oceano, bem vivenciados no filme, até ser encontrado, junto com o amigo Phil, por um navio japonês e se tornar um prisioneiro de guerra. No campo de concentração, seu histórico como atleta olímpico é descoberto e, a partir de então, se torna alvo da crueldade do Cabo Watanabe, “A Ave”. Todo o sofrimento e toda a sua luta para se manter vivo são o grande mote do filme que quer mostrar como a força de vontade intensa e determinação é capaz de torná-lo “invencível”.

Em determinado momento do filme, em seu sofrimento no mar, Zamperini tenta encontrar a sua fé e, conversando com Deus diz que se sobrevivesse, entregaria toda a sua vida a Ele.

Parte II – Louis x “A Ave”

O mais interessante do filme, além da própria história vivida por Zamperini, é o paralelo que este faz entre Louis e Watanabe (“A Ave”). O filme quer mostrar como os golpes e a crueldade desferidos por Watanabe vinham da sua frustração, por não ter atingido os objetivos esperados em sua própria vida e, ao olhar para Zamperini, um atleta olímpico e um oficial capaz de olhá-lo nos olhos, toda essa frustração vinha mais à tona. A cena clímax do filme deixa isso bem claro, quando Watanabe se desespera em enxergar em Louis tanto mais perseverança e determinação do que ele jamais teria demonstrado.

Após o resgate dos prisioneiros, Zamperini visita o escritório de Watanabe, vendo uma foto deste ainda criança, com seu pai, com aparência séria (tentando transmitir toda a provável austeridade deste pai japonês). Isso fica como um paralelismo à relação do Louis, criança rebelde, com seu pai austero, e como, por intervenção de Peter e do esporte, ele teria escapado a uma trágica relação entre pai e filho. Tal sorte por certo não teria tido Watanabe.

Parte III – Fim do filme e a Redenção de Zamperini

O filme termina com o fim da guerra e o retorno de Zamperini à sua terra e sua família. No entanto, a história de Louis não termina aí. Em alguns aspectos ela está só começando. Uma legenda no final do filme conta um pouco da história deste senhor após a guerra, mostrando ao mesmo tempo, fotos reais:

“Em 1946 Louie Zamperini conheceu e se casou com sua amada, Cynthia Aplewhite. Eles tiveram uma filha, Cissy, e um filho, Luke…
Depois de anos de Estresse Pós-Traumático, Louie cumpriu sua promessa de servir à Deus, uma decisão que tomou por ter sobrevivido. Motivado por sua fé, Louie percebeu que a maneira de seguir em frente era o perdão e não a vingança. Ele voltou para o Japão onde encontrou e perdoou seus captores. Somente Bird (A Ave) se recusou a encontrá-lo. Louie finalmente realizou seu sonho, e correu em uma Olimpíada novamente. Aos 80 anos. No Japão.” Neste momento mostra-se vídeo de Zamperini correndo com a tocha olímpica em 1998, nos Jogos Olímpicos de Inverno no Japão

Parte IV – A vida de Zamperini

Como foi dito, o filme termina no pós-guerra, adicionando apenas algumas legendas no final com um resumo da história de Zamperini. O livro não pára por aí e muito menos a biografia deste senhor.

A verdade é que ao voltar da guerra, Louis revela que tinha muitos pesadelos, refere que via-se estrangulando seus captores em ação de vingança e começou a beber muito, tentando esquecer sua experiência como prisioneiro de guerra. Agora, veja só: sua esposa, Cynthia frequentou uma das cruzadas evangelísticas lideradas por, ninguém mais ninguém menos que Billy Graham, o famoso pregador evangélico, muito conhecido entre nós. Em 1949, após muita insistência de sua esposa, Louis aceitou relutantemente participar de uma dessas Cruzadas e, nessa pregação, se lembrou da promessa que tinha feito a Deus, ainda no bote salva-vidas. Nesse momento, Louis Zamperini decide entregar sua vida a Cristo.

Seguido a isso, Louis decidiu perdoar seus captores e seus pesadelos cessaram. Posteriormente, Billy Graham ajudou Zamperini a iniciar uma nova carreira como orador inspiracional, e um de seus temas recorrentes era justamente o perdão.

zamperini e billy graham

Louis Zamperini (a esquerda na foto) e Billy Graham em 1949.

No início do texto, deixei a citação do poeta americano Walt Whitman, que também se encontra no livro sobre a história de Zamperini. Realmente é difícil dizer as marcas e as sequelas que uma vivência como a guerra pode deixar na vida das pessoas. Mas, independente de quão profundas quaisquer sequelas possam estar, temos a certeza de que existe uma Palavra, uma Verdade, capaz de penetrar juntas e medulas, até a divisão da alma e do espírito e que é capaz de transformar qualquer vida, qualquer entendimento e salvar qualquer ser humano. Louis Zamperini é a prova disso.

“Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.” Hb 4.12

Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.” Rm 12.19-21

zamperini63

Louis Zamperini discursa na Cruzada Evangelística de Billy Graham em 1963, no Los Angeles Coliseum.

zamperini e billy graham 2011

Louis Zamperini e Billy Graham se reencontram em 2011, aos 95 e 94 anos respectivamente.

Leave a Reply