Conto: “A Descoberta” de Anton Tchekhov

Ciscando num monte de esterco, o galo encontrou uma pérola…” Da fábula O galo e a pérola, de Krylov (1769-1849), prefácio do conto “A descoberta” de Tchékhov, descrito abaixo. 

Essa semana, decidi trazer para nossa análise com enfoque cristão, um conto de Anton Tchekhov (1860-1904). Este escritor russo, que também era médico e dramaturgo, é tido como um dos maiores contistas da história. O conto escolhido é “A descoberta”. Anton Tchékhov tem centenas de contos, e esse não é um dos mais famosos. Aqui no Brasil, podemos encontrá-lo pela editora L&PM POCKET na coletânea: “Um negócio fracassado e outros contos de humor”, com tradução do russo de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares. Além disso, a Editora Livro falante, tem o audiobook “Contos de Tchekhov”, que inclui o conto em questão, e apresenta tradução de Tatiana Belynki.

contos de tchekhov

À esquerda na imagem: Livro “Um negócio fracassado e outros contos de humor” de Anton Tchekhov, com tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares, Editora L&PM Pocket 2011. À direita: Audiobook “Contos de Tchékhov” da Editora Livro Falante, com tradução de Tatiana Belinky, disponível em www.livrofalante.com.br .

Quem puder, leia o conto, não demora mais de 10 minutos. Você encontra o ebook do livro acima em qualquer livraria virtual com valor em torno de R$7,00. Ou pode comprar o audiobook para ouvir o conto.

A história tem como protagonista o engenheiro Bakhromin, um homem importante e rico da sociedade, que ocupava o cargo de conselheiro de estado. Tchékhov inicia o conto descrevendo o engenheiro sentado em sua escrivaninha, melancólico, pensando num encontro que tivera algumas horas antes com uma mulher que ele teria sido apaixonado na sua juventude (o engenheiro conta agora com 52 anos). Segundo sua descrição, a mulher teria perdido toda a beleza da juventude, e agora era “uma velha seca, faladeira, de olhos azedos e dentes amarelados”. Em uma espontaneidade e realidade que lembram muito os romances machadianos ele fala:

“Nenhuma força maléfica é capaz de escarnecer de uma pessoa tanto quanto a natureza. Se, naquela época, a beldade soubesse que iria se transformar nessa coisa insignificante, ela teria morrido de pavor.

Nesse pensamento melancólico, Bakhromin começa a fazer alguns desenhos em um papel. De repente, ele percebe que os desenhos que vem fazendo são muito bons! E ele repete os desenhos, e eles continuam muito bons, e começa então a desenhar diversas coisas, ficando extasiado com o novo talento que descobrira em si. Essa é “a descoberta” do conto.

Bakhromin, segundo o próprio, nunca tinha percebido nenhum talento de verdade em si. E agora, aos 52 anos, ao fazer desenhos tão belos, percebe que tem grande talento para as artes. Isso o deixa em verdadeiro êxtase. Como não teria percebido esse dom antes?

“E se eu tivesse descoberto quando era jovem que tinha talento, enquanto era tempo, e tivesse me tornado um pintor ou um poeta? Hein? E na sua imaginação, descortinou-se uma vida diferente de milhões de outras vidas. Seria impossível compará-la com a vida de pessoas comuns.”

Nesse momento então, o rico engenheiro começa a se deleitar em seus pensamentos, em como seria sua vida se tivesse se tornado um artista. Enquanto correm esses pensamentos, o criado lhe traz a ceia, com uma bebida e logo em seguida o auxilia e prepara sua cama para se deitar. Ele pensa na fama, e na glória duradoura se fosse um artista renomado, bem diferente do que poderia alcançar como engenheiro e funcionário público:

“E a glória, e a fama? Por mais largos que sejam meus passos,…, meu nome não irá mais longe do que os limites de um formigueiro. Com eles já é completamente diferente.”

“É, uma vida fora do comum. Um dia as estradas de ferro serão esquecidas, mas Fídias e Homero serão sempre lembrados. Trediakóvski, ruinzinho como é, e mesmo dele lembram-se.”

De repente, Bakhromin começa a imaginar-se como artista, naquele exato momento. Os artistas, em geral, não têm criados, não têm carruagens, não têm camas tão confortáveis como aquela em que o criado estava lhe ajudando a se deitar. Não têm muito dinheiro, não têm talão de cheques. “O nome é homenageado, mas a pessoa é esquecida.” Ele então conclui:

“Ele que vá para o inferno! (o talento). Que vá para o inferno! Que bom que eu não o descobri quando ainda era jovem!

Esse conto de Tchékhov, por meio de uma situação absurda e cômica, nos traz o real desafio daqueles que optam por desenvolver ou trabalhar seus talentos. Quem está disposto a sacrificar certas regalias e a segurança de um trabalho sério e uma boa colocação na sociedade para alcançar alguma glória mais duradoura?

É claro que o pensamento de Tchékhov no texto está centrado em glórias humanas, por isso ele faz questão de citar um grande escultor e um grande poeta da Antiguidade (Fídeas e Homero, respectivamente), que tem seus nomes até hoje aclamados. Mas esse texto, imediatamente me faz refletir e extrapolar isso para o lado cristão. Quem pode abrir mão do seu conforto, do seu dinheiro e de seu status na sociedade em prol de um galardão, digamos, mais celestial?

Uma das mais famosas parábolas de Jesus é a Parábola dos Talentos, descrita em Mateus, no capítulo 25, a partir do versículo 14. Lembrem-se que “talento” aqui tem sentido monetário, era um grande valor na época. Mas ele pode ser facilmente transposto para o seu sentido em português: é uma ótima metáfora para sua palavra homônima. Como descrito na parábola, o servo que recebeu apenas um talento, teve medo de investi-lo ou desenvolvê-lo para que se tornasse algo melhor. Por conta do medo, ele “enterrou” o talento. No conto, Bakhromin, nas ocupações do dia-a-dia e na busca por uma boa colocação e status na sociedade, deixou seu talento ser enterrado e negou ao mundo, e a si mesmo, quem sabe, um grande artista. Que contribuição temos deixado de dar ao mundo e a nós mesmos? E à posteridade, e à Deus?

Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” Mt.6-19-21

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