Artigo | Selma – A verdade está marchando

Truth forever on the scaffold, Wrong forever on the throne,—
Yet that scaffold sways the future, and, behind the dim unknown,
Standeth God within the shadow, keeping watch above his own

“A verdade sempre no cadafalso. O pecado sempre no trono
No entanto, esse estrado balança o futuro, E, atrás deste turvo desconhecido,
Permanece Deus dentro da sombra, Mantendo acima sua vigilância.”

Trecho de “The Present Crisis” (1844), do poeta americano James Russell Lowell, citado por Martin Luther King em seu discurso de 1965 em Montgomery.

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Sem querer polemizar ou entrar a fundo nesse tipo de discussão, adianto antes de tudo minha opinião: Política e religião em geral não devem se misturar. Deixando claro esse meu ponto de vista (e implícito minha opinião sobre a maior parte dos políticos que formam a chamada “bancada evangélica”), reafirmo, a parte em que escrevo “em geral”. Ou seja, há momentos específicos em que a comunidade cristã de um país deve se movimentar. Ou até marchar. Não, não estou me referindo à nossa conhecida “Marcha pra Jesus” (nada contra). Me refiro a marchas de luta por direitos humanos, sociais ou religiosos, como as que aconteceram em Selma, no estado do Alabama em 1965.

Esses eventos ficaram mais famosos recentemente após terem sido contados no filme Selma – Uma Luta pela Igualdade”, de 2014. O filme, dirigido por Ava DuVernay, e estreado por David Oyelowo no papel de “Martin Luther King”, peca um pouco no ritmo, e no excesso de preocupação em ser linear, cronológico e explicativo, que deixam uma boa parte do filme meio “sonolenta”, na minha opinião. Tirando esse fato (e também o fato de escolherem um ator inglês, mas que se esforçou bastante, para interpretar Luther King), o filme é uma boa homenagem a esses corajosos homens que em determinado momento decidiram se mover e lutar por igualdade de direitos, direito ao voto e civilidade.

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Selma – Filme de 2014 dirigido por Ava DuVernay

Não vou me apegar à descrição de todos fatos, e dos detalhes de cada uma das três marchas realizadas em prol desses direitos à população negra americana. Fato é que a primeira pode ser resumida em uma imagem:

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O episódio acima ocorreu em 18 de fevereiro de 1956, e foi chamado de “Domingo Sangrento”. Tropas avançaram com gás lacrimogênio e cassetetes em um grupo de cerca de 550 manifestantes. 17 foram hospitalizados, e diferente de marchas anteriores, nenhum manifestante morreu. No entanto, havia um fator importante diferente nesse caso: a presença de redes televisivas registrando a crueldade. Imagens como a de Amelia Boyton Robinson (abaixo) rodaram o país e o mundo.

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Amelia Boyton Robinson, ferida na primeira Marcha de Selma a Montgomery.

Claro, que isso gerou repercussão, e a partir de então, os manifestantes de Selma, passaram a receber apoio de boa parte do país (inclusive de muitos cidadãos brancos).

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Manifestantes em Nova Iorque apoiam os movimentos de Selma (1965)

Mediante tal situação, o pastor Martin Luther King e os líderes da SCLC (Conferência da Liderança Cristã Sulista), organizam uma segunda marcha, que por motivos de segurança e também pela proibição judicial que havia, foi suspensa pelo Dr. King em cima da ponte Edmund Pettus, após uma breve oração. Nessa mesma noite, um grupo de ministros religiosos brancos que vieram a Selma para participar da marcha, foi atacado por membros do Ku Klux Klan e, dois dias depois, James Reeb, o mais atingido desses, veio a falecer.

Uma semana após, os manifestantes conseguiram finalmente o direito judicial de marchar. E com isso em 21 de março, domingo, iniciaram então a terceira marcha, que concluiu-se após 3 dias na cidade de Montgomery. No dia 25 de março, em frente ao capitólio do estado do Alabama, Martin Luther King realizou mais um de seus discursos memoráveis de título “How long? Not long.” (“Quanto tempo? Não muito”), mas mais conhecido como “Our God is Marching On” (“Nosso Deus está marchando”). Descrevo a tradução de alguns trechos deste discurso abaixo:

“… Eu posso dizer, como a Irmã Pollard disse – uma senhora negra de 70 anos de idade que viveu nessa comunidade durante o boicote do ônibus –  e um dia, ela foi perguntada enquanto andava se ela não queria uma carona. E ela então respondeu, “Não”, a pessoa disse “Bom, você não está cansada?” E com sua profundidade não gramatical, ela disse: “Meus pés estão cansados, mas minha alma repousa”. E em um sentido real, esta tarde, podemos dizer que os nossos pés estão cansados, mas nossas almas repousam….

… Sim, estamos em movimento e nenhuma onda de racismo pode nos parar. Estamos em movimento agora. A queima de nossas igrejas não vai nos deter. O bombardeio de nossas casas não vai dissuadir-nos. Estamos em movimento agora. O espancamento e morte de nossos clérigos e os jovens não vai desviar-nos. Estamos em movimento agora. A liberação desenfreada de seus assassinos conhecidos não iria desencorajar-nos. Estamos em movimento agora. Como uma idéia cujo tempo chegou, nem mesmo a marcha de exércitos poderosos podem nos deter. Estamos nos movendo para a terra da liberdade.

… Eu sei que vocês estão perguntando hoje, “Quanto tempo isso levará?”. Alguém pergunta: “Quanto tempo a visão cega dos homens permanecerá prejudicada, escurecendo seu entendimento e conduzindo a sabedoria de olhos abertos do Seu trono sagrado? Alguém se pergunta “Quando a justiça maculada, jazendo prostrada nas rua de Selma e Birminhgham e todas as comunidades do Sul, será levantada dessa poeira da vergonha que reina suprema entre os filhos dos homens? Alguém se pergunta: “Quando a estrela radiante da esperança imergirá contra o peito noturno desta adorável noite, arrancada de almas cansadas com correntes de medo e algemas da morte? Quanto tempo será crucificada a justiça, e a verdade suportará?

Quanto tempo? Não muito tempo, porque “nenhuma mentira pode viver para sempre”

Quanto tempo? Não muito tempo, porque “você colhe aquilo que você planta”

Quanto tempo? Não muito. * …

Quanto tempo? Não muito tempo, porque o arco do universo moral é longo, mas ele se curva em direção à justiça.

Quanto tempo? Não muito, porque ** …

Sua verdade está marchando.”

* Nesse momento ele cita o  poema de James Russel Lowell ** Nesse momento ele cita o hino “Our God is Marching On”

Esse discurso, não tão famoso como o “I´ve a dream” (“Eu tenho um sonho”), mas tão importante quanto, é recheado de referências externas, incluindo o poema do poeta americano James Russel Lowell, citado no prefácio deste artigo, e alguns corinhos muito famosos, inclusive aqui no Brasil, como “Joshua Fit the Battle of Jericho.” (“Vem com Josué lutar em Jericó”), “Lift Every Voice and Sing” de James Weldon Johnson, um famoso ativista americano negro, do início do século XX, e a incomparável, “Our God is marching on” (Glória, glória, Aleluia, aqui no Brasil).

As marchas de Selma a Montgomery foram um momento crucial da história da luta racial nos Estados Unidos. Após esse evento, muitos cidadãos de todo o país passaram a apoiar a causa, e o posicionamento do presidente Johnson, a favor do direito do voto a estes cidadãos, foi um grande passo para a mudança. Em pouco tempo, o número de cidadãos negros com direito ao voto se multiplicaria. O negro passa a ter representatividade política e, hoje, a nação mais poderosa do mundo, é liderada por um presidente negro, em seu segundo mandato.

Claro que até hoje ainda existem muitos resquícios dessa divisão racial nos Estados Unidos e em outros países também, como o Brasil. Mas é incomparável com os absurdos que já existiram. Fato é que fica marcado na história um momento em que uma comunidade cristã de um grande país se mobilizou para mudar e vencer uma grande injustiça. E essa luta fica como uma vitória de pessoas que entendiam seu lugar na sociedade, e se expuseram por uma causa que valia a pena lutar. Martin Luther King, mesmo não sendo um homem perfeito, ao longo de sua luta, angariou poder político, se sentou com presidentes e foi capaz de influenciá-los. Hoje infelizmente, somos assombrados por cristãos que se sentam com políticos para corromper e serem corrompidos. Não há cristãos marchando pela miséria e pelos injustiçados. Que Deus tenha misericórdia, e que a sociedade nos perdoe quando marchamos pelos motivos errados.

“Lembrai-vos, porém, dos dias anteriores, em que, depois de iluminados, sustentastes grande luta e sofrimentos; ora expostos como em espetáculo, tanto de opróbrio quanto de tribulações, ora tornando-vos co-participantes com aqueles que desse modo foram tratados…

… Com efeito, tendes necessidade de perseverança, para que, havendo feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa. Porque, ainda dentro de pouco tempo, aquele que vem virá e não tardará;Hb 10.32-33, 36-37

One thought on “Artigo | Selma – A verdade está marchando

  1. Texto excelente!! Parabéns!!

    “Hoje infelizmente, somos assombrados por cristãos que se sentam com políticos para corromper e serem corrompidos. Não há cristãos marchando pela miséria e pelos injustiçados. Que Deus tenha misericórdia, e que a sociedade nos perdoe quando marchamos pelos motivos errados.”

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