Literatura em Mente – Rubem Alves e “O Povo”

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Pensem em uma persona contraditória. Agora pensem em Rubem Alves, provavelmente o teólogo brasileiro de maior expressão no meio secular, artístico e internacional. Digo isso, porque ao se falar no nome deste mineiro de Boa Esperança (irônico não?), falecido em Campinas em 19 de julho de 2014 aos 80 anos de idade, diversas pessoas do meio cristão se levantarão para defendê-lo, criticá-lo ou execrá-lo. De gênio a herege, muitos serão os adjetivos que se vêem associados a este senhor que, além de teólogo, foi psicanalista, educador, escritor e ex-pastor presbiteriano.

A verdade é que Rubem Alves foi muita coisa. E falou e escreveu muita coisa também. Algumas muito polêmicas, outras retiradas erroneamente de todo um contexto. É inegável que uma análise biográfica e da obra de Rubem Alves nos leva a enxergar um artista humano, sim, um artista, com todo o lirismo e sensibilidade que lhe é peculiar que, ao longo dos anos foi se separando cada vez mais da fé, ao menos, em seu sentido tradicional. É difícil bater o martelo mas, amargurado no final de sua vida com a doença que sofria, é provável que Rubem Alves tenha flertado com o ateísmo (minha opinião).

Ainda assim, não há como não respeitar uma pessoa tão inteligente e tão habilidosa em escrever. Veja só essa crônica, uma das últimas que escreveu à Folha de São Paulo, em novembro de 2012:

O Povo

“Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece”, observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo.

Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega: “Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos”. Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem.

Vou dizer aquilo sobre o que me calei: “O povo unido jamais será vencido”, é disso que eu tenho medo.

Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o “povo” tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo. Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se integrasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.

E a história do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão. Até que ela o abandonou.

Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos. E o que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: “Agora você será minha para sempre.” Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.

Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável.

O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras.

As mentiras são doces; a verdade é amarga.

Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo.

No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões.

E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos!

As coisas mudaram.

Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.

O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas.

As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.

Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro “O Homem Moral e a Sociedade Imoral” observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se “responsáveis” por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas.

Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.

Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras.

O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.

Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás.

Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer. O povo, unido, jamais será vencido!

Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos. Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol. Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de “boca-de-forno”, à semelhança do que aconteceu na China. De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção.” Isso é tarefa para os artistas e educadores.

O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança!

Rubem Alves – colunista da Folha de S. Paulo Em, 11 NOV 2012

Que crônica realmente genial. De modo abrangente, abarca um pouco de tudo o que Rubem Alves tanto ama: teologia, humanidade, civilização, filosofia, artes e educação. E digo mais, fala até mesmo de psicologia de grupo, julgando e investigando as atitudes do “povo”. Utilizando-se de exemplos bíblicos e históricos, Rubem Alves realiza uma crítica amarga ao ser humano, no momento em que este se insere num grupo, no caso, a sociedade como um todo.

Como explicar amontoados de pessoas que se agrupavam em praça pública, para assistirem a sessões de assassinatos e tortura? Para assistirem “bruxas” queimarem? Ou para gritarem “Barrabás”? E hoje ainda vemos grupos que se ajuntam para matar indivíduos que torcem para um time rival, ou para colocar fogo em um mendigo na rua, ou para estuprar uma adolescente em uma festa. Não que o homem seja inocente individualmente mas, sob o anonimato e a proteção do grupo, o homem às vezes se torna cruel:

“Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo”

Há uma imagem (errada) que temos do povo: a imagem do homem simples capinando sua roça para subsistência ou a da mulher que cozinha o pouco de comida que tem para seus filhos. As imagens, em si, não são incorretas. Nem os indivíduos que vivem de modo tão simplório. Mas entender a sociedade , ou o povo, como um agrupado de pessoas simplórias que são exploradas por companhias, aristocracias, burguesias, ou por políticos corruptos não está correto. O povo também é quem permite todas essas injustiças. De onde vem a cultura do “jeitinho” ou da “lei de Gérson”, ou da alienação, ou do “a culpa é toda deles”.

A Bíblia desde o Gênesis até o Apocalipse fala de “povos” e sociedades que erraram. E erraram demais. O povo pré-diluviano. O povo de Sodoma e Gomorra. O povo de Israel. O povo das 7 Igrejas do Apocalipse. Sempre que há um povo, há registro de erros graves. A isso, registra-se talvez algumas poucas exceções: lampejos de bons momentos do povo de Israel, e a Igreja Primitiva. E é interessante que, em sua crônica, Rubem Alves, qualifica alguns momentos em que “o povo fica bonito”, especialmente quando guiado por pessoas e sentimentos especiais.

O povo de Israel teve seu auge quando guiado pelo homem mais sábio de todos os tempos. A Igreja Primitiva era guiada por um sentimento singular de altruísmo e abandono das coisas deste mundo em prol de algo muito maior. Quando Rubem Alves diz “isso é tarefa para os artistas e educadores”, consigo compreender totalmente a importância que estes dois tem na sociedade de hoje. Se os artistas são sensíveis às questões que realmente são importantes, eles são capazes de alertar o povo para tais. Já em relação aos educadores, digo que este pode ser o grande diferencial das sociedades contemporâneas. Isso porque a educação tem poder transformador, em tornar pessoas do povo, em cidadãos. Rubem Alves, como um grande educador, entendia bem disso. Uma sociedade que valoriza o estudo é uma sociedade que evolui e aprende com os erros do passado. Uma sociedade que tende a não queimar pessoas e livros em praças públicas. E que tende a gerar, ler, entender, aceitar ou refutar grandes pensadores como o cidadão brasileiro Rubem Alves, sem precisar que isso se torne uma verdadeira guerra religiosa.

“O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras.” Tito 2.14

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