Filme e Livro em Mente | Na Natureza Selvagem – A felicidade em um ser social

O ser humano é um ser social. Desde a nossa mais tenra idade, somos voltados para o desenvolvimento de importantes habilidades sociais, que irão moldar toda a nossa vida. Em casos específicos, em geral patológicos, essas habilidades podem encontrar-se deficitárias, variando conforme o tipo e o momento do surgimento em um grande leque de alterações: autismo, esquizotipias, transtornos da personalidade, fobias sociais.

No entanto, apesar da nossa inerente capacidade de sermos sociais, até hoje ainda não sabemos ao certo qual o tipo de sociedade ideal e, por isso, ainda nos degladiamos em discussões sem fim acerca do capitalismo, socialismo, democracia, etc. E, mais que isso, ainda sofremos em meio a uma sociedade que cobra demais e marginaliza a muitos. É no meio desse conflito que temos a história real de Christhopher McCandles, conhecida pelo livro de Jon Krakauer e pelo filme homônimo “Na Natureza Selvagem” (Into the Wild – 2007).

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“Na Natureza Selvagem” (“Into the Wild”). Filme e livro

Christhopher era o filho de Walt e Whilhelmina McCandles, donos de uma empresa de consultoria. Walt já havia trabalhado para a NASA e tinha uma inteligência, aparentemente proporcional à sua rigidez. Um casal bem-sucedido dentro do “american way of life”. Já adolescente, Christhopher e sua irmã descobriram que o pai tinha outro filho de um relacionamento anterior e isso parece ter mexido bastante com eles.

A crescente raiva da sociedade, do materialismo e de toda falsidade moral inerente a esses, não impediram que Christhopher se graduasse na Universidade de Atlanta em História e Antropologia. No entanto, após a graduação, ele decidiu fazer uma viagem sozinho pelos vários estados americanos, após ter doado todo seu dinheiro que tinha no banco a instituições de caridade, decidido a depender somente da natureza e dos que encontrava no caminho. Nesse momento ele muda seu nome para Alexander “Supertramp” (algo como super-andarilho), e deixa a todos que conhece sem saberem de seu paradeiro.

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Christhopher McCandles, durante sua peregrinação como “Alexander Supertramp”

Toda a história, as aventuras, as amizades, muito interessantes, vocês podem ver nas obras sobre a vida do Chisthopher, em especial no famoso filme de 2007, dirigido por Sean Penn, com Emile Hirsch no papel principal, e a presença de diversos atores conhecidos: Vince Vaugn, Kristen Stewart, William Hurt, Marcia Gay Harden. Não irei me deter aqui nessas histórias, mas vale a pena assistir ao excelente filme (que tem seus problemas de ritmo talvez, mas mesmo assim excelente), que conta ainda com uma trilha sonora toda especial, composta e cantada por Eddie Vedder (ex-vocalista do Pearl Jam).

Fato é que o objetivo de Christhopher após dois anos de peregrinação, foi chegar ao Alasca, onde objetivava viver dependendo totalmente da natureza, como escrevia em suas notas em seu diário e em seus livros que o acompanhava:

“Sem jamais ter de voltar a ser envenenado pela civilização, foge e caminha sozinho pela terra para se perder na floresta.”

Christhopher, ou Alexander Supertramp, viveu nessa região totalmente sozinho e isolado, se abrigando em um ônibus abandonado durante cerca de 4 meses. O ônibus é um capítulo à parte. Até hoje é trilha para aventureiros que desejam refazer a rota feita pelo Supertramp. O que um ônibus fazia abandonado em meio ao nada na região é um mistério, mas serviu de abrigo para Christhopher que o apelidou de “magic bus”, mostrando o caráter aparentemente místico com que encarava toda a sua experiência.

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Christhopher McCandles e o “Magic Bus”. Uma porção da sociedade, no meio do nada.

Os relatos escritos por Chris em seu diário e em suas notas que fazia em meio aos livros de Thoreau, Tolstoy, Jack London, demonstram como ele viveu da euforia ao extremo desespero, vendo-se em determinado momento “aprisionado” pela natureza que o cercava. Vivendo de pequenas caças que realizava e de sementes, Christhopher se viu cada vez mais magro, fraco e, possivelmente, envenenado pelas sementes que ingeria. Em 6 de setembro de 1992 foi encontrado morto por um grupo de caçadores, dentro do ônibus, com o corpo já em decomposição dentro de um saco de dormir. Na porta do ônibus:

“S.O.S. Preciso de ajuda. Estou aleijado, quase morto e fraco demais para sair daqui. Estou totalmente só, não estou brincando. Pelo amor de Deus, por favor, tentem me salvar. Estou lá fora apanhando frutas nas proximidades e devo voltar esta noite. Obrigado, Chris McCandles.”

Como essa frase tristemente se contrapõe à alegria inicial da aventura é de chocar os corações. E como ao final dela, diferente de em outros momentos, ele assina seu nome real e não Alexander “Supertramp”. Como consolo, dentro do ônibus, uma frase deixada por ele acalanta um pouco mais:

“Tive uma vida feliz, e agradeço ao Senhor. Adeus e que Deus vos abençoe a todos.”

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Entre as polêmicas que envolvem a história de McCandles, entre os muitos que o consideram um herói e entre aqueles que o consideram um suicida, muitas lições podem ser tiradas. Na natureza ou na sociedade, muitas vezes o homem irá se ver deslocado em sua existência. Desde as primeiras civilizações o homem forma grupos como um meio de adaptação a um ambiente possivelmente hostil. E desde as primeiras civilizações os grupos exigem do homem uma adaptação que nem sempre é simples. Se McCandles tinha algum transtorno psiquiátrico? Talvez. Me parece uma personalidade bastante esquizotípica. Mas que as angústias e a revolta apresentadas por ele são uma coisa real e viva nas sociedades de hoje, isso não há dúvidas.

Esse falso moralismo tão presente, não é exclusividade das sociedades ocidentais, nem muito menos de nosso tempo. O farisaísmo, em sua essência mais criticada, é exatamente isso. E como Jesus criticava o farisaísmo. Como Jesus era crítico da sociedade de sua época. Talvez hoje, diriam que ele era “de esquerda”.  Jesus inclusive, antes de iniciar seu ministério, se exilou por 40 dias no deserto, mantendo-se longe de toda contaminação espiritual que a sociedade poderia lhe trazer naquele momento.

No entanto, o que homens como Chris McCandles, Thimoty Treadwell (outro famoso morador de áreas selvagens habitadas por ursos), e outros tantos eremitas não percebem (ou percebem tarde demais), é que sem o convívio social, não somos completos. Sem pessoas para partilharmos nossas tristezas, nossas angústias, nossas alegrias não podemos ser felizes, como Chris escreveu em meio a um exemplar de Dr. Jivago, pouco tempo antes de morrer:

“A felicidade só é real quando compartilhada”

Viver socialmente é algo intrínseco a nós. Está em nosso DNA. No Gênesis, Adão não era completo e feliz, antes que Deus lhe desse uma “adjutora que estivesse como diante dele”. Isso, mesmo com Adão vivendo em total harmonia com a fauna e flora de um jardim natural que em nada lhe era hostil. Somente após a existência de um outro ser humano com quem pudesse compartilhar sua vida, suas alegrias, ele poderia ser realmente feliz. Outros grandes homens da Bíblia, passaram seus piores momentos quando estavam abandonados e se sentiam sozinhos, em especial em ambientes selvagens como o deserto: Elias, Jonas, Moisés, Agar. Parafraseando Tom Jobim: “… é impossível ser feliz sozinho.”

“O olhar de amigo alegra ao coração; as boas-novas fortalecem até os ossos.” Pv 15.30

Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também. E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição.” Cl 3.13-14

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Séries em Mente – Black Mirror, S01Ep02 – Fifiteen Million Merits

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Contém spoilers do Episódio 2 da Primeira Temporada de “Black Mirror”.

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Há algum tempo não poderia imaginar que chegaria o momento em que discutiria sobre um episódio de série aqui no site. Isso porque até há algum tempo, série era entretenimento popular, voltado para a TV. No entanto, nos últimos anos estamos assistindo a um crescimento e proliferação de diversas séries muito bem produzidas, com episódios que se comparam às produções cinematográficas. Além disso, serviços de streaming como o Netflix, desvincularam a existência da série à programação de TV, tornando-as histórias com possibilidades infinitas a serem contadas em episódios.

Assistindo recentemente à série Black Mirror, que é produzida pela Netflix, me deparei com um episódio simplesmente sensacional e que me trouxe diversas reflexões. Estou falando do episódio 2 da Primeira Temporada, chamado “Fifteen Million Merits”. Estou até agora impressionado pela qualidade da produção, incluindo as atuações, o cenário, a música. É realmente um filme, com uma duração um pouco menor.

Black Mirror é uma série de antologia, pois cada episódio conta uma história diferente e independente dos outros. No entanto, existe entre eles uma premissa de questionamento moral e da relação da humanidade com as novas tecnologias. O “espelho negro” do título faz referência à todas às telas que se tornaram tão comuns ao nosso redor: nas mesas, nas paredes, na palma das mãos: tablets, smartphones, monitores, televisores. Charlie Brooker, criador da série afirma que seu objetivo é trabalhar neste espaço, entre “a apreciação e o desconforto” relacionado às novas tecnologias: “se a tecnologia é como uma droga, quais são exatamente seus efeitos colaterais?”.

Até o momento só assisti aos 2 primeiros episódios. O primeiro apesar de um ótimo e original questionamento moral, não me chamou tanto a atenção quanto o segundo. “Fifteen Milion Merits” se passa em futuro distópico, no estilo “1984” de George Orwell. Nele, acompanhamos Bing, interpretado por Daniel Kaluuya, um cidadão que pertence à uma classe trabalhadora, cuja função é pedalar diariamente em bicicletas capazes de gerar energia para tudo ao redor. Esse conceito já é fantástico, pois existe energia mais limpa que a gerada pelo próprio humano? Além de limpa, garantiria corpos saudáveis e atléticos. O que, automaticamente, gera uma diferença de classes de pessoas que não seriam capazes de pedalar, em geral obesos, que irão cuidar da limpeza ou irão ser alvos de programas de humor físico, no estilo “vídeo-cassetadas”. Esses “bikers”, como Bing, vivem cercados de telas que lhes garantem entretenimento a todo o tempo, mas também, repletas de propagandas, individualmente selecionadas. Bing, desde o início, mostra como esse mundo de “pedalar sem sair do lugar”, o levou a uma apatia intensa e infelicidade. Bing é acordado por um sistema automatizado e tem que fazer as mesmas coisas, para poder viver o mesmo entretenimento, diariamente, num mundo onde nada é realmente real senão a maçã artificial que tende a emperrar na máquina que lhe oferece o almoço.

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Todo esse marasmo será sacudido no momento em que surge uma nova ciclista, por quem Bing irá se apaixonar. Isso irá tirá-lo momentaneamente do seu mundo infeliz, ao perceber que algo real poderia acontecer. No entanto, a sociedade volta a frustrar Bing ao cooptarem a moça com uma proposta indecente que irá afastá-los. Dessa forma, ele “explode” e passa a ter um único objetivo: ganhar dinheiro para ir à frente de todos no concurso à la “American Idol” e expor todo o absurdo da sociedade em que vive.

E de fato isso acontece. Em uma atuação magistral do ator, ficamos pasmos quando por cerca de 2 minutos ele expõe toda a fraqueza da sociedade em que vive. Mas o que vem depois, nos deixa ainda mais pasmos: uma sociedade tão anestesiada, que até mesmo a crítica tem que ser “empacotada” e colocada na grade de programação. E isso é tão atual! Criticar se tornou um dos maiores entretenimentos da população, basta ver a maioria das redes sociais.

Em nossa sociedade estamos vivendo justamente assim: enjaulados pela tecnologia, escravos de trabalhos sem perspectiva, em que pedalamos, pedalamos, sem sair do lugar, cujo único objetivo é juntar dinheiro para o nosso consumo de mais telas e entretenimento. E os sentimentos gerados por esse ciclo vicioso são igualmente empacotados, não utilizados para quebrar a estrutura tão rígida em que estamos aprisionados.

Alguns estão tão moldados a esse sistema, que nem percebem mais. Somente aceitam tudo que lhes é empurrado, e com tantas opções, fica cada vez mais fácil ser atraído por um entretenimento espúrio (nem que seja criticar o entretenimento). Estão tão moldados e conformados que, se conseguissem enxergar a si mesmos seriam paródias de si. Mas com tantos olhos para tantas telas, não há olhos para enxergar a si mesmo. E mantém-se neste ciclo, gargalhando em um mar de infelicidade. Até o dia em que afunda-se de vez.

“Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos.” Is. 59.10

“ E não se conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” Rm 12.2

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Revista PSICOTEO / CPPC

No último mês, tive o prazer de publicar dois artigos na Revista PsicoTeo, publicação semestral do CPPC (Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos). É muito bom poder contribuir para a manutenção de uma comunidade cristã forte em meio à ciência e a academia, e o CPPC tem essa função. Se alguém tiver o interesse em adquirir a revista, envie email para secretaria@cppc.org.br

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Revista Psicoteologia

Edição nº 57 – primeiro semestre de 2016

Temática livre

Entrevista – Guilherme Falcão e Ageu Lisboa

Artigos: 

Agathofobia e a cidade dos demônios – Anderson Clayton Pires

Imagens – Amauri Munguba Cardoso

Desafios de uma interseção – Alice Levy Supino

A metacognição em relacionamento com Deus – Leonardo Afonso dos Santos

A recessão da esperança – Anderson Clayton Pires

O suicídio filosófico e a realidade do apego à vida – Leonardo Afonso dos Santos

CPPC – Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos – www.cppc.org.br

Música em Mente – “Dust in the Wind”

 

Dust In The Wind | Poeira no vento

 

I close my eyes | Eu fecho meus olhos

Only for a moment | Apenas por um momento

And the moment’s gone | E o momento se foi

All my dreams | Todos os meus sonhos

Pass before my eyes, in curiosity | Curiosamente passam diante dos meus olhos

 

Dust in the wind | Poeira ao vento

All we are is dust in the wind | Tudo o que somos é poeira no vento

 

Same old song | A mesma velha música

Just a drop of water in an endless sea | Apenas uma gota d’água em um mar infinito

All we do | Tudo o que fazemos

Crumbles to the ground though we refuse to see | Cai em pedaços embora nós nos recusemos a enxergar

 

Dust in the wind | Poeira ao vento

All we are is dust in the wind | Tudo o que somos é poeira no vento

 

Now, don’t hang on | Agora, não fique esperando

Nothing lasts forever but the earth and sky | Nada dura para sempre, apenas a terra e o céu

It slips away | O tempo foge

And all your money won’t another minute buy | E todo o seu dinheiro não comprará outro minuto

 

Dust in the wind | Poeira ao vento

All we are is dust in the wind | Tudo o que somos é poeira no vento

Dust in the wind | Poeira ao vento

Dust in the wind | Poeira ao vento

Everything is dust in the wind | Tudo isso é poeira no vento

 

Existem algumas bandas e músicas que podem não ser muito conhecidas da maioria das pessoas, mas provavelmente estão no “inconsciente musical coletivo”, quero dizer, é aquela música que você ouve e sabe que já ouviu antes, é capaz até de cantarolá-la. “Dust in the Wind” é provavelmente um desses casos e se você executar a versão abaixo, disponível no youtube, você irá perceber isso.

Digo isso porque recentemente esta música me chamou a atenção enquanto ouvia uma playlist em meu celular. Primeiro pela beleza da melodia e pelo belo solo de violino, mas especialmente pela letra também. Você pode acompanhar a tradução da música acima.

Percebendo o conteúdo da letra, não pude deixar de notar que de alguma forma ele teria se baseado em conceitos e metáforas extraídos da Bíblia. Fui investigar e, de fato, descobri que o autor da música, Kerry Livgren, tomou como base o “mais mal-humorado livro da Bíblia”, (parafraseando o famoso livro do pastor Ed René Kivitz), Eclesiastes, especialmente em seu tão presente texto “correr atrás do vento” (Ec. 1.14; 1.17; 2.11; 2.17; 2.26; 4.4; 4.6; 4.16; 6.9) associado também ao texto de Gênesis “és pó e ao pó voltarás” (Gn 3.19). A letra da música é simples e auto-explicativa, mas cabe uma boa reflexão em cada verso.

Kerry Livgren foi um dos fundadores da famosa Banda Kansas em 1974. Em 1977 compôs a música acima, que tornou-se um dos maiores sucessos da banda. Interessantemente, alguns anos após ter feito esta música, Livgren se converteu, tornando-se cristão protestante. Na verdade, ao ler a biografia dele, consigo perceber um interesse muito grande em cobrir o seu “vazio”. Eu diria que, uma pessoa que escreve um texto desse, com clara percepção de como nossa vida, nossos sonhos, nossas obras são tão passageiros, como “poeira no vento”, está perto de descobrir algo mais.

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Kerry Livgren – Um dos fundadores da Banda Kansas e autor de “Dust in the Wind”.

Livgren primeiramente teria se aproximado da “Doutrina Urântia”, baseada no “Livro de Urântia”. O “Livro de Urântia” trata-se de alguns textos escritos da década de 1930 em Chicago baseado em supostas revelações e que abordam ciência, religião e filosofia. Aborda o cristianismo de maneira própria que não caberia discutir aqui, mas cabe saber que até hoje ainda há seguidores. De qualquer forma, esse interesse por religião e, especialmente por Jesus Cristo, teria levado Livgren a uma série de debates na parte de trás do ônibus de seus tours, com Jeff Pollard da banda Lousiana´s Le Roux que fazia a abertura dos shows da Kansas. Jeff Pollard, vinha de uma família cristã e inclusive, pouco tempo depois, se dedicaria exclusivamente a seu ministério cristão, sendo hoje um conhecido pastor na Providence Baptist Church em Ball, Los Angeles. Após essas discussões, Kerry Livgren, teria abandonado a doutrina Urântia, para se apegar ao cristianismo evangélico. A experiência de conversão teria ocorrido em um quarto privado de hotel.

Após a conversão, Kerry Livgren passou a dedicar boa parte de sua carreira à música gospel, criando seu primeiro álbum solo “Seeds of Change” em 1980. Manteve-se na Banda Kansas até 1983, inclusive compondo músicas com cunho bastante religioso. Em 1983 se desliga da banda, vindo a formar o grupo AD, de rock cristão, que não fez tanto sucesso. Depois segue diversos projetos, especialmente em carreira solo, vindo inclusive a reintegrar a banda Kansas por alguns períodos na década de 90 e anos 2000.

Curiosamente, no início da década de 80 a banda Kansas chegou a ter três de seus integrantes cristãos: Kerry Livgren, Dave Hope e John Elefante. John Elefante, juntamente com seu irmão Dino é bastante conhecido no meio gospel por ter produzido músicas para a banda Petra e Shout. Apesar de tanto “amor cristão” na banda, as coisas não andaram bem por muito tempo, tendo os diversos conflitos de interesse levado ao desmantelamento da Kansas.

Hoje, Kerry Livgren tem diversas músicas de cunho religioso. Aparentemente se dedica a um de seus maiores projetos, uma cantata orquestrada chamada “A Ressurreição de Lázaro”. Além disso, é professor de escola dominical em sua igreja em Topeka, no estado de Kansas nos Estados Unidos (Topeka Bible Church). Apesar de tão famoso por suas músicas, Livgren afirma que isso é apenas uma parte de sua vida. Em sua biografia Seeds of Change: The Spiritual Quest of Kerry Livgren (“Sementes da Mudança: A Busca Espiritual de Kerry Livgren”), ele afirma:

“Eu sou um homem de família, tenho um papel na minha igreja, eu estou correndo com uma gravadora, um estúdio, uma empresa de produção, uma fazenda, e eu tenho mais hobbies e interesses do que há horas no dia.”

Um homem tão produtivo tem a certeza de que somente em Deus podemos encontrar algo mais do que “poeira no vento”. Salomão, o homem mais sábio e, provavelmente, um dos mais produtivos de sua época, chegou a essa conclusão há mais de 2500 anos. Claro que isso não nos impede de nos deleitar e “louvar a alegria” como está em Eclesiastes 8.15, como a feliz melodia do solo de violino da música Dust in the Wind, que me dá a clara impressão de estar sendo levado tranquilamente pelo vento.

“Tenho visto tudo o que é feito debaixo do sol; tudo é inútil, é correr atrás do vento… Fiquei pensando: Eu me tornei famoso e ultrapassei em sabedoria todos os que governaram Jerusalém antes de mim; de fato adquiri muita sabedoria e conhecimento. Por isso me esforcei para compreender a sabedoria, bem como a loucura e a insensatez, mas aprendi que isso também é correr atrás do vento.” Eclesiastes 1.14,16-17

Documentário em Mente – O Sal da Terra

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O que significa ser o “Sal da Terra”? Essa expressão, muito conhecida no mundo cristão, é uma metáfora sublime e, ao mesmo tempo, complexa, citada por Jesus, e registrada no Evangelho de Mateus 5.13. Essa expressão também dá nome ao ótimo documentário de Win Wenders e Juliano Salgado, sobre a obra do grande fotógrafo brasileiro Sebastião SalgadoO Sal da Terra (2014) é uma produção franco-ítalo-brasileira e foi bastante aclamado e premiado, tendo sido nomeado ao Oscar em 2015.

Apesar da experiência do alemão Win Wenders à frente de ótimos filmes e documentários, a impressão que tenho aqui é que ele, espertamente, deixou o filme “rolar”. Ele opta por fazer “o simples”: contar um pouco da vida e obra de Sebastião Salgado, de forma lógica, direta e cronológica. No entanto, como ele mesmo reconhece, filmar um fotógrafo como Salgado não é simples pois, quase automaticamente, este toma as rédeas de enquadramento, cenário, iluminação e tende a não se mostrar frente às lentes de uma câmera. Por conta disso, o filme passa a impressão de ser uma grande obra do próprio Sebastião, só que em movimento. Tanto que, ao final, tive a impressão de não saber quase nada ainda sobre a pessoa de Sebastião Salgado, mas de ter aprendido muito sobre a natureza humana.

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Da esquerda para a direita: Win Wenders, diretor do documentário; Juliano Salgado, filho de Sebastião e co-diretor; Sebastião Salgado, fotógrafo “do homem e da terra”

Sebastião Salgado, por incrível que pareça, se formou em Economia. Quando jovem foi um ativista político durante a Ditadura Militar, época na qual optou por se exilar na Europa. Em Paris morou com a sua esposa Lélia onde teve dois filhos. O primeiro, Juliano, é co-diretor do documentário em questão.

Apesar de aparentemente bem-sucedido como economista, em Paris, Sebastião Salgado descobriu a fotografia, que acabou se tornando sua grande paixão. Apoiado pela esposa Lélia decidiu então se aventurar em grandes projetos com a câmera nas mãos. Viaja pela América Latina, Europa, África. Ao buscar se encontrar como profissional, Sebastião Salgado acabou encontrando a lastimável realidade humana.

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Sebastião Salgado em um dos seus primeiros projetos: “Outras Américas”, em que viajou por cerca de 7 anos pelas mais remotas regiões da América Latina.

O filme conta passo a passo a transformação de um economista em um aventureiro que passou a se especializar no registro das mais duras experiências humanas. O foco da maior parte do trabalho de Salgado no “Homem” e sua interação no meio, é o que dá o nome ao filme “o sal da Terra”. O homem é o sal da Terra. É o que dá ação a uma paisagem, sentimento a um horizonte ou sentido a um fenômeno qualquer da natureza. Mas em pouco tempo Sebastião descobriu o quanto esse sal é muitas vezes simplesmente (e violentamente) jogado por terra.

Ao fotografar refugiados, homens em guerra e miséria, Sebastião aparentemente perdeu a fé na humanidade. A “gota d´água” foi em Ruanda, onde após testemunhar genocídio tal, onde o corpo humano nada mais é do que um amontoado na rua, e onde uma população inteira simplesmente “desaparece”, Sebastião decide parar com o ofício. Tirar fotos e testemunhar tamanha crueldade humana, passa a não fazer mais sentido. Como ele diz: “quando voltei, minha alma estava doente”.

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Sebastião Salgado fotografando um campo de refugiados em Ruanda, no seu projeto “Êxodos”. A realidade encontrada no massacre em Ruanda foi demais para o fotógrafo.

O filme conta um pouco de como a ideia de se restaurar uma grande área de Mata Atlântica da antiga fazenda da Família Salgado, traz nova perspectiva ao fotógrafo que decide retornar ao ofício em um projeto que ele chama de “uma grande homenagem ao planeta Terra”: Gênesis. Quem já teve a oportunidade folhear esse livro, sabe de que obra maravilhosa estamos falando.

Apesar de não abandonar o sentimento humano, a partir desse momento o documentário embarca em uma proposta ambientalista que, apesar de fundamental, não parecia ser a ideia original. O sal então é deixado de lado, em prol da Terra.

É triste perceber o quanto o homem prejudicou a Terra. O quanto destruiu ecossistemas, habitats, faunas. Mas é ainda mais triste perceber o quanto o homem prejudicou a si mesmo. Como já fomos capazes de tantas maldades com outros da nossa própria espécie?

Não sei se ao final a mensagem do filme é positiva ou negativa. Entendo que a iniciativa do Instituto Terra mostra capacidade do homem em restaurar e corrigir. Não sei se isso vale para as perseguições, genocídios, holocausto.

Digo que, biologicamente, o corpo humano é em boa parte formado por água e sal. A mesma água e o mesmo sal que estão na Terra e já estavam lá no Gênesis. A mesma água e o mesmo sal que foram derramados das veias dos milhões de pessoas que um dia já sofreram atrocidades e que formam o sangue que hoje choca e clama a injustiça, como o de Abel clamou. A mesma água e o mesmo sal da terra… (Mas às vezes tão insípido…)

“Vós sois o sal da terra; mas se o sal se tornar insípido, com que se há de restaurar-lhe o sabor? para nada mais presta, senão para ser lançado fora, e ser pisado pelos homens.” Mateus 5.13

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Sebastião Salgado folheando “Gênesis”. Sua “carta de amor ao planeta”.

Literatura em Mente – Rubem Alves e “O Povo”

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Pensem em uma persona contraditória. Agora pensem em Rubem Alves, provavelmente o teólogo brasileiro de maior expressão no meio secular, artístico e internacional. Digo isso, porque ao se falar no nome deste mineiro de Boa Esperança (irônico não?), falecido em Campinas em 19 de julho de 2014 aos 80 anos de idade, diversas pessoas do meio cristão se levantarão para defendê-lo, criticá-lo ou execrá-lo. De gênio a herege, muitos serão os adjetivos que se vêem associados a este senhor que, além de teólogo, foi psicanalista, educador, escritor e ex-pastor presbiteriano.

A verdade é que Rubem Alves foi muita coisa. E falou e escreveu muita coisa também. Algumas muito polêmicas, outras retiradas erroneamente de todo um contexto. É inegável que uma análise biográfica e da obra de Rubem Alves nos leva a enxergar um artista humano, sim, um artista, com todo o lirismo e sensibilidade que lhe é peculiar que, ao longo dos anos foi se separando cada vez mais da fé, ao menos, em seu sentido tradicional. É difícil bater o martelo mas, amargurado no final de sua vida com a doença que sofria, é provável que Rubem Alves tenha flertado com o ateísmo (minha opinião).

Ainda assim, não há como não respeitar uma pessoa tão inteligente e tão habilidosa em escrever. Veja só essa crônica, uma das últimas que escreveu à Folha de São Paulo, em novembro de 2012:

O Povo

“Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece”, observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo.

Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega: “Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos”. Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem.

Vou dizer aquilo sobre o que me calei: “O povo unido jamais será vencido”, é disso que eu tenho medo.

Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o “povo” tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo. Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se integrasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.

E a história do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão. Até que ela o abandonou.

Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos. E o que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: “Agora você será minha para sempre.” Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.

Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável.

O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras.

As mentiras são doces; a verdade é amarga.

Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo.

No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões.

E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos!

As coisas mudaram.

Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.

O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas.

As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.

Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro “O Homem Moral e a Sociedade Imoral” observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se “responsáveis” por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas.

Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.

Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras.

O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.

Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás.

Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer. O povo, unido, jamais será vencido!

Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos. Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol. Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de “boca-de-forno”, à semelhança do que aconteceu na China. De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção.” Isso é tarefa para os artistas e educadores.

O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança!

Rubem Alves – colunista da Folha de S. Paulo Em, 11 NOV 2012

Que crônica realmente genial. De modo abrangente, abarca um pouco de tudo o que Rubem Alves tanto ama: teologia, humanidade, civilização, filosofia, artes e educação. E digo mais, fala até mesmo de psicologia de grupo, julgando e investigando as atitudes do “povo”. Utilizando-se de exemplos bíblicos e históricos, Rubem Alves realiza uma crítica amarga ao ser humano, no momento em que este se insere num grupo, no caso, a sociedade como um todo.

Como explicar amontoados de pessoas que se agrupavam em praça pública, para assistirem a sessões de assassinatos e tortura? Para assistirem “bruxas” queimarem? Ou para gritarem “Barrabás”? E hoje ainda vemos grupos que se ajuntam para matar indivíduos que torcem para um time rival, ou para colocar fogo em um mendigo na rua, ou para estuprar uma adolescente em uma festa. Não que o homem seja inocente individualmente mas, sob o anonimato e a proteção do grupo, o homem às vezes se torna cruel:

“Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo”

Há uma imagem (errada) que temos do povo: a imagem do homem simples capinando sua roça para subsistência ou a da mulher que cozinha o pouco de comida que tem para seus filhos. As imagens, em si, não são incorretas. Nem os indivíduos que vivem de modo tão simplório. Mas entender a sociedade , ou o povo, como um agrupado de pessoas simplórias que são exploradas por companhias, aristocracias, burguesias, ou por políticos corruptos não está correto. O povo também é quem permite todas essas injustiças. De onde vem a cultura do “jeitinho” ou da “lei de Gérson”, ou da alienação, ou do “a culpa é toda deles”.

A Bíblia desde o Gênesis até o Apocalipse fala de “povos” e sociedades que erraram. E erraram demais. O povo pré-diluviano. O povo de Sodoma e Gomorra. O povo de Israel. O povo das 7 Igrejas do Apocalipse. Sempre que há um povo, há registro de erros graves. A isso, registra-se talvez algumas poucas exceções: lampejos de bons momentos do povo de Israel, e a Igreja Primitiva. E é interessante que, em sua crônica, Rubem Alves, qualifica alguns momentos em que “o povo fica bonito”, especialmente quando guiado por pessoas e sentimentos especiais.

O povo de Israel teve seu auge quando guiado pelo homem mais sábio de todos os tempos. A Igreja Primitiva era guiada por um sentimento singular de altruísmo e abandono das coisas deste mundo em prol de algo muito maior. Quando Rubem Alves diz “isso é tarefa para os artistas e educadores”, consigo compreender totalmente a importância que estes dois tem na sociedade de hoje. Se os artistas são sensíveis às questões que realmente são importantes, eles são capazes de alertar o povo para tais. Já em relação aos educadores, digo que este pode ser o grande diferencial das sociedades contemporâneas. Isso porque a educação tem poder transformador, em tornar pessoas do povo, em cidadãos. Rubem Alves, como um grande educador, entendia bem disso. Uma sociedade que valoriza o estudo é uma sociedade que evolui e aprende com os erros do passado. Uma sociedade que tende a não queimar pessoas e livros em praças públicas. E que tende a gerar, ler, entender, aceitar ou refutar grandes pensadores como o cidadão brasileiro Rubem Alves, sem precisar que isso se torne uma verdadeira guerra religiosa.

“O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras.” Tito 2.14

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Cinema, Teatro, Literatura em Mente – Macbeth: A Ambição que corrompe e mata.

Macbeth-PosterAssisti recentemente ao filme Macbeth: Ambição e Guerra (2015) do diretor Justin Kurzel, com Michael Fassbender e Marion Cotillard. Fui com grande expectativa, pois Macbeth (peça escrita por William Shakespeare), é uma história de que eu gosto muito e, que já tinha tido a oportunidade de assistir sendo executada em teatro popular e também já tinha tido contato com a ópera homônima (e baseada na peça), de Giuseppe Verdi. Não digo que saí decepcionado, mas também não me impressionei com as cenas em câmera lenta “a la” Zack Snider em 300 de Esparta e com a brutalidade desejada pelo diretor em sua versão. Mas, ao mesmo tempo, é uma das versões mais fiéis à obra original, respeitando o texto integralmente.

Certa vez ouvi de alguém, não lembro quem, nem em que ocasião, que “todas as histórias já haviam sido contadas por Shakespeare”. Isso claro, era uma alusão ao fato de que toda história hoje, por mais original que fosse, se baseia e possui aspectos humanos que já foram trabalhados algum dia, afinal, os dramas humanos, dentro de realidades bem diversas, são os mesmos desde o início das civilizações. E Shakespeare possui o mérito de ter trabalhado os mais diversos dramas humanos magistralmente em suas peças. Esse é o fator “eternizador” de suas obras que são o foco de tantas releituras e transcrições há mais de 4 séculos.

Hoje em dia podemos “consumir” Shakespeare das mais diversas formas. Somente Macbeth já foi adaptada por grandes nomes do cinema (como Orson Welles e Akira Kurosawa), mais de cinco vezes. Além disso temos a famosa ópera de Verdi, as milhares de versões teatrais, as versões para televisão, as versões em “hqs” e, é claro, o texto original. Entre uma versão e outra, muitas vezes veremos diferenças que parecem tornar a peça irreconhecível, mas basta prestar mais atenção que o tema da ambição e da culpa sempre estarão presentes quando falamos de Macbeth. E como a ambição pode levar à destruição total de um homem.

macbeth

Macbeth e as diversas formas de se “consumir” Shakespeare hoje em dia.

Resumidamente, Macbeth é um general da Escócia, que após grandes vitórias em batalha, ouve uma profecia que diz que ele se tornaria rei. Há muitas análises possíveis, inclusive mestrados sobre esse assunto, mas não é claro se esse já era um desejo interior do personagem-título, ou se essa ideia (olha a referência a Inception do Christopher Nolan), foi implantada em sua mente após ouvir a profecia. Fato é que essa se torna então sua obsessão, que o fará matar, ferir e enlouquecer.

“Essa solicitação tão sobrenatural pode ser boa, como pode ser má… Se não for boa, por que me deu as arras de bom êxito, relatando a verdade? Sou o thane de Cawdor. Sendo boa, por que causa ceder à sugestão, cuja figura pavorosa os cabelos me arrepia, fazendo que me bata nas costelas o coração tão firme, contra as normas da natureza? O medo que sentimos é menos de temer que as mais terríveis mas fictícias criações. Meu pensamento no qual o crime por enquanto é apenas um fantasma, a tal ponto o pobre reino de minha alma sacode, que esmagada se torna a vida pela fantasia, sem que haja nada além do que não é.” Macbeth – Ato I Cena III.

Perceba no texto acima como uma ideia é absorvida por um homem e em pouco tempo ela passa a dominá-lo, sacudindo o “pobre reino de sua alma”. A vida real se torna “esmagada” pela fantasia, e a pessoa só tem olhos para aquilo que ainda não tem ou não existe. Isso me remete diretamente ao texto de Provérbios 4.22 “Sobre tudo o que deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida”. Coração é uma objetificação das ideias que mais valorizamos e amamos, que nos ambicionam, que nos mobilizam. Por isso, o sábio conselho bíblico, pois dessas ideias, procedem os nossos atos e ações. Macbeth deixou seu coração se inundar de uma ideia gananciosa, de onde procederam todos os outros atos da história.

Diversos personagens bíblicos pecaram, e morreram, por se deixar levar pela ambição. A própria concepção do pecado original se dá justamente pela ambição (“e se tornarão como o próprio Deus”). E em Macbeth, vemos quase que uma releitura da passagem de Adão e Eva e o pecado original, nas figuras de Macbeth e Lady Macbeth. Quando o rei visita a casa do personagem-título, sua esposa o seduz ardilosamente a assassiná-lo para chegar ao trono. E este, não isento de culpa claro, come desse fruto vistoso.

Como Davi tramando a morte de Urias após o erro de deitar-se com Betseba, assim Machbeth tem que tramar a morte de tantos outros para encobrir o seu erro. E como o sangue de Abel que clamava justiça após o seu homicídio, o sangue de tantos irá atormentar a mente de Macbeth e de sua esposa.

“MACBETH — … Não podes encontrar nenhum remédio para um cérebro doente, da memória tirar uma tristeza enraizada, delir da mente as dores aí escritas e com algum antídoto de oblívio doce e agradável aliviar o peito que opresso geme ao peso da matéria maldosa que comprime o coração?

O MÉDICO — Para isso deve o doente achar os meios.

MACBETH — Então atira aos cães a medicina. Não quero saber dela.”

Macbeth Ato V Cena III

A ambição e a culpa atormentam Macbeth até o seu fim, “sugando” dele sua força e sanidade mental. Ainda assim, ele se apega à segurança de que não poderia ser ferido por alguém “nascido de mulher”. A solução, entregue por Shakespeare, por certo não tem hoje o mesmo apelo que em sua época, e hoje pode soar “piegas”: seu opositor teria sido “retirado do ventre antes do tempo”. No entanto, tem seu valor, em demonstrar a fragilidade das “verdades” a que nos apegamos. Muitos retiram suas forças de bases extremamente frágeis, que as têm como “rochas”. Ou pior, muitos tem essa “rocha” baseada em suas próprias forças e não conseguem ver quão frágeis e pequenos são. Isso é exaustivamente mostrado e condenado na Bíblia, que aponta o grande erro que é “construir sua casa na areia”. O trecho de Jeremias 17, constantemente utilizado de forma incorreta pelos cristãos atuais, fala disso:

“Assim diz o Senhor: Maldito é o homem que confia no homem, que faz da humanidade mortal a sua força, mas cujo coração se afasta do Senhor. Ele será como um arbusto no deserto; não verá quando vier algum bem. Habitará nos lugares áridos do deserto, numa terra salgada onde não vive ninguém. Mas bendito é o homem cuja confiança está no Senhor, cuja confiança nele está. Ele será como uma árvore plantada junto às águas e que estende as suas raízes para o ribeiro. Ela não temerá quando chegar o calor, porque as suas folhas estão sempre verdes; não ficará ansiosa no ano da seca nem deixará de dar fruto. O coração é mais enganoso que qualquer outra coisa e sua doença é incurável. Quem é capaz de compreendê-lo? “Eu sou o Senhor que sonda o coração e examina a mente, para recompensar a cada um de acordo com a sua conduta, de acordo com as suas obras”. Jeremias 17.5-10

Não façamos do nosso braço a nossa força, e nem do braço de outros homens. Não nos deixemos levar pelos nossos corações enganosos, mas guardemos os nossos corações para não sermos ludibriados pelas falsas ideias de sucesso, vitória, ou poder. Essas são as lições que nós cristãos, podemos tirar da bela história humana escrita por Shaskespeare que, se não escreveu todas as histórias, ao menos contou sobre alguns dos principais dilemas humanos. E a ambição é um desses dilemas que, desde Adão, tem levado muitos homens à corrupção e à morte.

“O homem que obtém riquezas por meios injustos é como a perdiz que choca ovos que não pôs. Quando a metade da sua vida tiver passado, elas o abandonarão, e, no final, ele se revelará um tolo.” Jeremias 17.11

Livro em Mente | Em busca de sentido, de Viktor Frankl

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Em busca de Sentido (“Man´s Search for Meaning”) – Livro do psiquiatra judeu Viktor Frankl, escrito logo após sua experiência como prisioneiro em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

Hoje em dia gosta-se muito de se publicar listas com “livros que você deveria ler antes de morrer”. Ora, se esse predicado é verdadeiro, na minha opinião o livro “Em busca de sentido”, de Viktor Frankl, que trago para discussão neste texto, é um dos que deveriam encabeçar tais listas. Não pelo valor literário em si, haja vista, não trata-se de uma ficção ou romance (embora muitos trechos nos custa acreditar serem verdade), mas pelo simples e honesto relato de seu autor, e sua visão como psiquiatra e, ao mesmo tempo, homem religioso, de todo o seu sofrimento.

Viktor Frankl (1905-1997) foi um psiquiatra austríaco judeu, autor de uma linha psicoterapêutica conhecida como logoterapia, que tem como base a busca do sentido existencial de cada ser humano. Não tenho a pretensão neste texto de esmiuçar a parte prática ou conceitual da logoterapia, e por isso, não me aterei à segunda parte do livro em questão, que fala dos conceitos desta escola, e que foi acrescentada em edições posteriores. O que mais me interessou e me comoveu neste livro, foi o próprio relato da experiência de um psiquiatra em um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, de forma franca, e com análises das situações sobre a ótica de um dos maiores nomes da psiquiatra no século XX, autor da conhecida Terceira Escola Vienense de Psicoterapia (as duas primeiras são a Psicanálise de Sigmund Freud e a Psicologia Individual de Alfred Adler).

UNSPECIFIED - CIRCA 1994: Portrait of austrian psychologist Viktor Frankl, Photograph, 1994 (Photo by Imagno/Getty Images) [Portr?t Viktor Frankl, Photographie, 1994]

Viktor Frankl em 1994 (Photo by Imagno/Getty Images)

No prefácio do livro, Frankl nos revela tê-lo escrito inicialmente sem grandes pretensões. O escreveu em 9 dias, no pós-guerra em 1945 e pretendia publicar o livro anonimamente. Dissuadido por amigos, Frankl tornou-se conhecido mundialmente, especialmente nos Estados Unidos, onde o livro se tornou best-seller. Ao ser questionado por repórteres como ele via seu sucesso, ele respondia:

“Vejo (meu livro) não tanto como uma conquista e realização da minha parte, mas como uma expressão da miséria dos nossos tempos: se centenas de milhares de pessoas procuram um livro cujo título promete abordar o problema do sentido da vida, deve ser uma questão que as está queimando por dentro.

No prefácio ele completa:

“Havia querido simplesmente transmitir ao leitor, através de exemplo concreto, que a vida tem um sentido potencial sob quaisquer circunstâncias, mesmo as mais miseráveis.”

No livro, Viktor Frankl tem o intuito de descrever (e, de certa forma, analisar) o que se passava pela mente do “prisioneiro comum e desconhecido” dos campos de concentração. Isso porque nem todos os prisioneiros eram “comuns”, existiam por exemplo os “capos”, que mandavam nos outros, e tinham certas regalias, além de agirem com os demais prisioneiros muitas vezes mais cruelmente que os próprios guardas do campo. Sendo assim, ele faz um relato de sua própria experiência, o prisioneiro Nº 119104, em um ensaio psicológico.

“Não é sem orgulho que digo não ter sido mais que um prisioneiro “comum”, nada fui senão o simples nº 119104….

…já foi publicado um número mais que suficiente de relatos contando os fatos nos campos de concentração. Aqui todavia, apresentaremos os fatos apenas na medida em que eles desencadearam uma experiência na própria pessoa; é para a experiência pessoal em si que se voltará o estudo psicológico que segue.”

Dessa forma, Frankl descreve muitos dos sentimentos que ocorriam ao longo do tempo no campo: o choque de recepção, o desapego de tudo, senão de sua existência nua e crua, a revolta, a apatia, a perda da sensibilidade, o irônico humor e, para alguns, algo que se poderia revelar salvador: “a fuga para dentro de si” e, principalmente a “capacidade de ser livre interiormente”. Durante o livro ele esmiúça cada um desses sentimentos. Mas, em especial, em contraste à prisão e falta de liberdade inerentes a um campo de concentração, ele irá falar da liberdade que ainda resiste dentro da mente de cada homem.

Onde fica a liberdade humana? Não haveria ali um mínimo de liberdade interior (geistg) no comportamento, na atitude frente às condições ambientais ali encontradas? Será que a pessoa nada mais é que um resultado da sua constituição física, da sua disposição caracterológica e da sua situação social?…

…A experiência da vida no campo de concentração mostrou-me que a pessoa pode muito bem agir “fora do esquema”… Quem dos que passaram pelo campo de concentração não saberia falar daquelas figuras humanas que caminhavam pela área de formatura dos prisioneiros, ou de barracão em barracão, dando aqui uma palavra de carinho, entregando ali a última lasca de pão? E mesmo que tenham sido poucos, não deixa de constituir prova de que no campo de concentração se pode privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas.

Percebamos: Viktor Frankl, psiquiatra, que perdeu tudo nos campos de concentração, entre posses, posição social e entes queridos. Sofreu uma das maiores barbáries da humanidade. Este mesmo, é capaz de dizer, que mesmo diante da perda de tudo, uma coisa sobra ao homem e não lhe pode ser tirada: sua liberdade interior (geistg). Sim, e é essa liberdade interior, que será a chave para a questão principal, o cerne do livro, como está no título: a busca de um sentido.

“Em princípio, portanto, toda pessoa, mesmo sob aquelas circunstâncias, pode decidir de alguma maneira no que ela acabará dando, em sentido espiritual: um típico prisioneiro de campo de concentração, ou então uma pessoa humana, que ali permanece sendo ser humano e conserva a sua dignidade….

…A liberdade interior (geistig) do ser humano, a qual não se lhe pode tirar, permite-lhe até o último suspiro configurar a sua vida de modo que tenha sentido.

Analisemos ainda esse outro trecho:

“A maioria se preocupava com a questão: ´será que vamos sobreviver ao campo de concentração? Pois caso contrário todo esse sofrimento não tem sentido´. Em contraste, a pergunta que me afligia era outra: ´Será que tem sentido todo esse sofrimento, essa morte ao nosso redor? Pois caso contrário, afinal de contas, não faz sentido sobreviver ao campo de concentração.´ Uma vida cujo sentido depende exclusivamente de se escapar com ela ou não e, portanto, das boas graças de semelhante acaso – uma vida dessas nem valeria a pena ser vivida.”

Vemos aqui então, que o que Viktor Frankl propõe, e que é a base de sua ciência, a logoterapia (logo, que vem do grego e que, apesar de uma palavra de significado muito abrangente, refere-se a “sentido”), é que faça-se uma “viravolta em toda a colocação da pergunta pelo sentido da vida”. Ele sugere que nós não perguntemos mais pelo sentido da vida, mas que, ao contrário, respondamos à vida a cada pergunta que ela nos faz, diariamente e a cada hora, de que forma agiremos para dar o sentido adequado à nossa vida.

“Em última análise, viver não significa outra coisa que arcar com a responsabilidade de responder adequadamente às perguntas da vida, pelo cumprimento das tarefas colocadas pela vida a cada indivíduo, pelo cumprimento da exigência do momento.

Essa exigência, e com ela o sentido da existência, altera-se de pessoa para pessoa e de um momento para o outro. Jamais, portanto, o sentido da vida humana pode ser definido em termos genéricos, nunca se poderá responder com validade geral a pergunta por este sentido…

… Mesmo diante do sofrimento, a pessoa precisa conquistar a consciência de que ela é única e exclusiva em todo o cosmo-centro deste destino sofrido. Ninguém pode assumir dela isso, e ninguém pode substituir a pessoa no sofrimento. Mas na maneira como ela própria suporta esse sofrimento está também a possibilidade de uma vitória única e singular.”

Viktor Frankl era religioso (judeu), e ele deixa isso transparecer em diversos momentos do livro. E dentro de toda a genialidade de sua análise, o livro, linha após linha parece gritar em meus ouvidos: “cristianismo, cristianismo”. Sim, porque, se houve um judeu que, em um momento de sofrimento intenso, soube utilizar da sua liberdade interior para dar sentido a toda a humanidade, este é Jesus Cristo. A liberdade individual que nos permite dar sentido às nossas vidas, só existe porque Ele assumiu sim, o nosso sofrimento e nos permitiu que pudéssemos ter o direito de escolher pelo “Logos”, que é traduzido também em nossas Bíblias pelo “Verbo”, que é o Sentido da Vida. Pois o sofrimento que nos era esperado era eternamente doloroso e impassível de vitória ou sentido. Mas agora, não há sofrimento que não possa ser passageiro, não há sofrimento que não possa terminar em uma grande vitória, mesmo que transcendente.

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.”

“Considero que os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada.” Romanos 8.18

O sofrimento pode parecer não ter limite. A maldade humana já provou até onde pode chegar. Mas desde o sofrimento de Jó, sabe-se que tudo pode ser tirado do homem: seus bens, suas posses, seus títulos honoríficos, sua saúde, sua família. Mas não se pode tirar a liberdade interior. Enquanto houver vida, o homem pode optar por Deus. Seja em algum lugar do oriente, ou em um campo de concentração, estejamos sempre prontos para responder a razão que nos dá sentido às nossas vidas.

“Mas, ainda que venhais a sofrer por causa da justiça, bem-aventurados sois. Não vos amedronteis, portanto, com as suas ameaças, nem fiqueis alarmados; “antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós” 1Pe 3.14-15

Artes Plásticas | Joan Miró – A Força (e a Ressignificação) da Matéria

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Na última semana estive em Florianópolis e pude visitar a exposição “Joan Miró – A Força da Matéria”. Foi uma das melhores coisas que eu pude fazer durante minha estadia nesta bonita cidade (em que choveu durante toda a semana). Aconselho aos que não tiveram a oportunidade de ver essa exposição lá ou em São Paulo, que aproveitem os últimos dias em que esta estará no MASC (Museu de Arte de Santa Catarina). E, preferencialmente, tentem uma visita guiada, pois é espetacular.

“Joan Miró – A Força da Matéria”, como o nome diz, é uma exposição montada com obras deste artista abstrato e surrealista do século XX, que tende a valorizar a relação de Miró, não só com a ideia expressa na obra, mas com a matéria de que se utiliza para criá-la. Dessa forma veremos obras de todos os tipos, desde pinturas realizadas em papel e tinta guache, a esculturas, obras em madeira e pano.

Joan Miró, como outros artistas de seu tempo, se utiliza muito da ressignificação. Ou seja, ao pegar um pedaço de madeira que foi desprezado, cheio de marcas e defeitos próprios e utilizá-lo para realizar a sua obra, ele literalmente transforma “lixo em luxo”. E vai também de caminho contrário, ao realizar uma escultura em bronze, material nobre, utilizado por gregos e romanos para suas esculturas de deuses e de atos vitoriosos, e jogar-lhe tinta em cima, o que, para esses artistas clássicos, seria uma espécie de “crime contra a arte”. Ao dar uma ressignificação a um pano velho e com marcas, ou a um objeto qualquer de metalurgia, Miró torna algo desprezível em uma obra valiosa, enriquecida não só com o sentido que este lhe a imprime ao pintá-la ou montá-la, mas com toda a história existente por trás de um objeto como este.

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Miró e a Matéria – À esquerda acima, obra em papelão, à direita, obra em madeira reutilizada (repare nas marcas e defeitos inerentes a esta), e abaixo escultura em bronze, reutilizando-se de materiais industriais.

Miró ainda demonstra uma relação mais forte com a matéria de suas obras. Para que elas possam ser palco da expressão psicanalítica de suas pulsões* e da livre associação de ideias*, Miró pinta, risca, bate e até mesmo pisa em suas obras, agredindo-as ao mesmo tempo em que lhes dá significância. Dessa forma a matéria existe com uma espécie de divã, no qual o artista irá despejar as suas relações transferenciais. A obra é o resultado da “impregnação” do artista àquilo que a sustenta.

Muito mais se poderia falar sobre a obra deste artista catalão: a importância do “primitivo”, a proximidade com as pinturas rupestres e também com a cultura oriental, da qual ele “importa” o uso e a ideia dos “ideogramas”, marca da obra de Miró. Mas nesse momento prefiro me concentrar na ideia da ressignificação e da riqueza desta metáfora que fala de nós mesmos. Afinal a ressignificação do homem é quase sinônimo de cristianismo.

“…Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são;” 1Co 1.27-28

Um homem não é uma tela em branco. Um homem tem história, tem marcas, tem cicatrizes e traumas. E muitas vezes esses traumas são suficientes para torná-lo desprezível e à margem da sociedade. Mas é justamente nessa matéria, que Deus escolheu pintar as mais belas obras de toda a humanidade. Nessa matéria que Deus escolheu imprimir sua personalidade e criar uma forma de se mostrar ao mundo. Sim, se um artista se mostra através de sua obra, Deus se mostra através de toda a criação, em especial, através do homem.

“Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.” Sl 19.1

“Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento.” 2 Co 2.14

É interessante perceber que em Miró, e na verdade, na arte em geral, a matéria tem força somente quando o autor lhe imprime um significado. Claro que em Miró isso ganha uma característica em especial, mas em suma, tudo não passa de telas, tintas, metais. Pode-se dizer que em temos de matéria, um homem não passa de uma estrutura viva baseada em carbono. Mas veja a força da matéria quando esta se associa de forma organizada. Quanto muito mais não será quando esta espelha a grandeza da graça de Deus.

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Essa fotografia termina a exposição e mostra um Miró já consagrado, em que ele sabia que cada uma de suas obras poderia valer milhões, trabalhando na areia da praia, uma matéria passageira, que a qualquer momento pode ser apagada pelas ondas, mas ao mesmo tempo única em suas propriedades.

* Pulsão: termo psicanalítico que define a energia psíquica que leva às ações, desejos. / Livre-associação: termo psicanalítico utilizado para definir a técnica em que se permite ao paciente falar deixando as ideias surgirem e encadearem-se livremente.

Filosofia e Poesia | De Caeiro a Camus – A metafísica de se dar sentido aos atos

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Guardando o Rebanho – Pintura a óleo de Antonio de Carvalho Silva Porto, de 1893, em exposição no Museu Nacional de Soares dos Reis, em Porto. Essa Obra do Realismo/Naturalista português representa bem a valorização da simplicidade do campo tão presente em Alberto Caeiro.

Alberto Caeiro era um dos heterônimos de Fernando Pessoa. Para quem não está familiarizado, essa era uma forma bastante comum de Pessoa se expressar, ou seja, ele criava personalidades, com nomes, biografias, datas de nascimento e até mesmo de morte, que se expressavam de formas determinadas e criavam suas próprias obras.

Alberto Caeiro, junto com Álvaro de Campos e Ricardo Reis são os mais famosos heterônimos. Caeiro era um poeta do campo e, apesar de pouca instrução, era tido pelos outros como “O Mestre”. Caeiro, em toda a sua obra, sempre irá defender a vida simples do campo, sem a necessidade de grandes luxos, mas principalmente sem a necessidade de grandes questionamentos, ou filosofias. Para ele, o que importa é o que vê e o que sente, e pensar sobre as coisas é simplesmente deixar de enxergá-las e aprisionar-se num quarto com cortinas. Nesse sentido, Alberto Caeiro é anti-metafísico. A poesia dele fala por si mesmo:

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei.  Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas?  Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica?  Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Alberto Caeiro.

Meu objetivo aqui, claro, não é rebater o pensamento de Alberto Caeiro, haja visto que nem mesmo se trata de uma pessoa de verdade. Mas é também claro, que um site que tem por objetivo “pensar” vai diretamente contra esse tipo de ideia expressa por Caeiro. O homem é questionador por natureza. As crianças, por exemplo, têm uma curiosidade natural. Mas pensar também gera consequências. Gera sofrimento, gera dúvidas, gera incertezas. E talvez seja por isso que vemos tantas pessoas que, mesmo sem saber, vivem exatamente dentro da filosofia de vida de Alberto Caeiro. Preferem não parar para pensar.

Já ouvi de um grande amigo meu: “quem me dera fosse apenas um pescador da Amazônia, e pudesse viver ignorantemente sem que meus questionamentos me afligissem”. Será mesmo? Seria, como diz o ditado, verdadeiramente “a ignorância uma benção”? Não acredito. Aliás também não acredito nessa figura que rodeia nosso imaginário, do cidadão simples, humilde e não questionador. Tenho certeza que uma hora ou outra esse “pescador” deve olhar para o céu e se perguntar “por que tudo isso?”. Alberto Caeiro não existe na realidade.

No entanto, após questionar-se, o homem pode sim optar pela opção de resignar-se. E aí sim, viver a vida, simplesmente porque é o que precisa ser feito. Acordar, comer, trabalhar e dormir, porque é o que precisa ser feito. Um (não) eterno ciclo que não leva a lugar algum. Um trabalho de Sísifo.

Sísifo era na mitologia grega, um homem que quis desafiar a morte, e por isso foi condenado ao pior trabalho de todos: o trabalho inútil. Todos os dias era obrigado a carregar com muito esforço uma grande pedra até o cume de um monte, simplesmente para vê-la rolar depois. É interessante que apesar dessa história ter pelo menos uns 2500 anos, no século XX, um outro Alberto, não o Caeiro, mas o Albert Camus, realizou um ensaio filosófico, tendo como base esse mito. Para Camus, a questão central da humanidade seria: diante da “absurdidade” da condição humana, não seria a única resposta para isso o suicídio? É claro que a discussão de Camus é muito mais profunda, mas a resposta a essa pergunta é basicamente “não”. E (ainda bem), não vemos tantas pessoas se suicidando por aí, alegando convicções filosóficas. Mas vemos milhões simplesmente aguardando a morte, reprimindo e/ou postergando seus pensamentos sobre Deus, a vida e a morte.

camus

Albert Camus e sua obra “O Mito de Sísifo”

“Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia

… Galileu, que detinha uma verdade científica importante, abjurou-a com a maior facilidade desse mundo quando ela lhe pôs a vida em perigo. Em um certo sentido, ele fez bem. Essa verdade não valia a fogueira. Se é a Terra ou o Sol que gira em torno um do outro é algo profundamente irrelevante. Resumindo as coisas, é um problema fútil. Em compensação, vejo que muitas pessoas morrem por achar que a vida não vale a pena ser vivida. Vejo outras que paradoxalmente se fazem matar pelas idéias ou as ilusões que lhes proporcionam uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é, ao mesmo tempo, uma excelente razão para morrer). Julgo, portanto, que o sentido da vida é a questão mais decisiva de todas.”

“Da mesma forma, e ao longo de todos os dias de uma vida sem brilho, o tempo nos carrega. Mas sempre chega um momento em que é preciso carregá-lo. Vivemos para o futuro: “amanhã”, “mais tarde”, “quando você tiver uma situação”, “com o tempo você vai compreender.” Essas inconsequências são admiráveis porque, afinal, se trata de morrer. Mas chega um dia e o homem verifica ou diz que tem trinta anos. Afirma assim sua juventude. Mas, nesse mesmo lance, se situa com relação ao tempo. Ocupa ali seu lugar. Reconhece que está num dado momento de uma curva que confessa ter de percorrer. Ele pertence ao tempo e, nesse horror que o agarra, reconhece nele seu pior inimigo.”

Albert Camus, em “O mito de Sísifo”

Para Camus, o verdadeiro sofrimento de Sísifo não estava no seu trabalho em si. Mas estava na sua condição humana que o levava a refletir sobre o trabalho. Camus descreve que a verdadeira pena estava não no momento em que ele subia o monte carregando a pedra, mas no momento em que ele descia o monte, tendo consciência de sua condição. De fato, não podemos afirmar que um rato que todos os dias corre em sua roda, que não lhe leva a lugar algum, esteja sofrendo pelo ato em si, haja visto que este não tem consciência do que o ato significa (no caso, nada). Mas um homem que passasse uma vida inteira girando uma roda do Conan (*referência ao filme Conan – O Bárbaro, de 1982), se não tivesse a esperança de mudar sua situação, por certo se angustiaria demais.

“Se esse mito é trágico (o mito de Sísifo), é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo o sustentasse a esperança de ser bem-sucedido? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consicente.”

Fato é que, um tema tão importante da filosofia não poderia passar “batido” ao “homem mais sábio de todos os tempos”. Inclusive, o próprio Camus chega a citar Eclesiastes em sua obra, mostrando que foi beber também de Salomão ao escrevê-la. E este imortaliza a expressão, que ao meu ver é sinônimo de Trabalho de Sísifo: “correr atrás do vento”.

“Contudo, quando avaliei tudo o que as minhas mãos haviam feito e o trabalho que eu tanto me esforçara para realizar, percebi que tudo foi inútil, foi correr atrás do vento; não há nenhum proveito no que se faz debaixo do sol.” Eclesiastes 2.11

Paulo, que em seu tempo teve que debater com filosófos da linha dos estóicos e epicureus, (que têm bases muito semelhantes as de Caeiro), valorizava muito a “fé racional”, ou seja a fé que tem uma base e um pensamento racionais, de um homem que se questiona, que opta e delibera. Paulo valorizava o pensar.

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”

Romanos 12.1-2

Ele sabia que as coisas de Deus se discerniam espiritualmente, mas ao mesmo tempo, não deixava de lado seu entendimento, raciocínio e intelectualidade. Pelo contrário, os abastecia com a graça e a convicção que lhe era dado por meio da fé, afim de justamente desvendar os conhecimentos mais ocultos. Paulo acima de tudo era um filósofo. Um filósofo do cristianismo.

“… Para que o coração deles seja confortado e vinculado juntamente em amor, e eles tenham toda a riqueza da forte convicção do entendimento, para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo, em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos.” Cl 2.2-3

Como o texto acima diz, todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão em Cristo. Pode ser que ainda estejam ocultos a nós, mas estão nEle. E Cristo é algo acessível a todos e a qualquer um. Seja um grande intelectual como Albert Camus, um homem do campo como Caeiro, ou apenas um simples e humilde pescador na Amazônia. Essa é a grande maravilha do cristianismo: ser a resposta a essa grande “absurdidade” da vida, que permeia a mente de sábios e indoutos. Ser o sentido que faz com que não sejamos apenas ratos correndo em uma roda ou “Sísifos” carregando pedras pela eternidade para, simplesmente, serem roladas de volta. Não precisamos viver como Sísifo.

Tiziano_-_Sísifo

Sísifo, de Tiziano Vecellio, de 1548. Essa pintura a óleo deste artista renascentista encontra-se exposta hoje no Museu do Prado, em Madri.