Documentário em Mente – O Sal da Terra

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O que significa ser o “Sal da Terra”? Essa expressão, muito conhecida no mundo cristão, é uma metáfora sublime e, ao mesmo tempo, complexa, citada por Jesus, e registrada no Evangelho de Mateus 5.13. Essa expressão também dá nome ao ótimo documentário de Win Wenders e Juliano Salgado, sobre a obra do grande fotógrafo brasileiro Sebastião SalgadoO Sal da Terra (2014) é uma produção franco-ítalo-brasileira e foi bastante aclamado e premiado, tendo sido nomeado ao Oscar em 2015.

Apesar da experiência do alemão Win Wenders à frente de ótimos filmes e documentários, a impressão que tenho aqui é que ele, espertamente, deixou o filme “rolar”. Ele opta por fazer “o simples”: contar um pouco da vida e obra de Sebastião Salgado, de forma lógica, direta e cronológica. No entanto, como ele mesmo reconhece, filmar um fotógrafo como Salgado não é simples pois, quase automaticamente, este toma as rédeas de enquadramento, cenário, iluminação e tende a não se mostrar frente às lentes de uma câmera. Por conta disso, o filme passa a impressão de ser uma grande obra do próprio Sebastião, só que em movimento. Tanto que, ao final, tive a impressão de não saber quase nada ainda sobre a pessoa de Sebastião Salgado, mas de ter aprendido muito sobre a natureza humana.

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Da esquerda para a direita: Win Wenders, diretor do documentário; Juliano Salgado, filho de Sebastião e co-diretor; Sebastião Salgado, fotógrafo “do homem e da terra”

Sebastião Salgado, por incrível que pareça, se formou em Economia. Quando jovem foi um ativista político durante a Ditadura Militar, época na qual optou por se exilar na Europa. Em Paris morou com a sua esposa Lélia onde teve dois filhos. O primeiro, Juliano, é co-diretor do documentário em questão.

Apesar de aparentemente bem-sucedido como economista, em Paris, Sebastião Salgado descobriu a fotografia, que acabou se tornando sua grande paixão. Apoiado pela esposa Lélia decidiu então se aventurar em grandes projetos com a câmera nas mãos. Viaja pela América Latina, Europa, África. Ao buscar se encontrar como profissional, Sebastião Salgado acabou encontrando a lastimável realidade humana.

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Sebastião Salgado em um dos seus primeiros projetos: “Outras Américas”, em que viajou por cerca de 7 anos pelas mais remotas regiões da América Latina.

O filme conta passo a passo a transformação de um economista em um aventureiro que passou a se especializar no registro das mais duras experiências humanas. O foco da maior parte do trabalho de Salgado no “Homem” e sua interação no meio, é o que dá o nome ao filme “o sal da Terra”. O homem é o sal da Terra. É o que dá ação a uma paisagem, sentimento a um horizonte ou sentido a um fenômeno qualquer da natureza. Mas em pouco tempo Sebastião descobriu o quanto esse sal é muitas vezes simplesmente (e violentamente) jogado por terra.

Ao fotografar refugiados, homens em guerra e miséria, Sebastião aparentemente perdeu a fé na humanidade. A “gota d´água” foi em Ruanda, onde após testemunhar genocídio tal, onde o corpo humano nada mais é do que um amontoado na rua, e onde uma população inteira simplesmente “desaparece”, Sebastião decide parar com o ofício. Tirar fotos e testemunhar tamanha crueldade humana, passa a não fazer mais sentido. Como ele diz: “quando voltei, minha alma estava doente”.

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Sebastião Salgado fotografando um campo de refugiados em Ruanda, no seu projeto “Êxodos”. A realidade encontrada no massacre em Ruanda foi demais para o fotógrafo.

O filme conta um pouco de como a ideia de se restaurar uma grande área de Mata Atlântica da antiga fazenda da Família Salgado, traz nova perspectiva ao fotógrafo que decide retornar ao ofício em um projeto que ele chama de “uma grande homenagem ao planeta Terra”: Gênesis. Quem já teve a oportunidade folhear esse livro, sabe de que obra maravilhosa estamos falando.

Apesar de não abandonar o sentimento humano, a partir desse momento o documentário embarca em uma proposta ambientalista que, apesar de fundamental, não parecia ser a ideia original. O sal então é deixado de lado, em prol da Terra.

É triste perceber o quanto o homem prejudicou a Terra. O quanto destruiu ecossistemas, habitats, faunas. Mas é ainda mais triste perceber o quanto o homem prejudicou a si mesmo. Como já fomos capazes de tantas maldades com outros da nossa própria espécie?

Não sei se ao final a mensagem do filme é positiva ou negativa. Entendo que a iniciativa do Instituto Terra mostra capacidade do homem em restaurar e corrigir. Não sei se isso vale para as perseguições, genocídios, holocausto.

Digo que, biologicamente, o corpo humano é em boa parte formado por água e sal. A mesma água e o mesmo sal que estão na Terra e já estavam lá no Gênesis. A mesma água e o mesmo sal que foram derramados das veias dos milhões de pessoas que um dia já sofreram atrocidades e que formam o sangue que hoje choca e clama a injustiça, como o de Abel clamou. A mesma água e o mesmo sal da terra… (Mas às vezes tão insípido…)

“Vós sois o sal da terra; mas se o sal se tornar insípido, com que se há de restaurar-lhe o sabor? para nada mais presta, senão para ser lançado fora, e ser pisado pelos homens.” Mateus 5.13

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Sebastião Salgado folheando “Gênesis”. Sua “carta de amor ao planeta”.

Livro em Mente | Em busca de sentido, de Viktor Frankl

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Em busca de Sentido (“Man´s Search for Meaning”) – Livro do psiquiatra judeu Viktor Frankl, escrito logo após sua experiência como prisioneiro em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

Hoje em dia gosta-se muito de se publicar listas com “livros que você deveria ler antes de morrer”. Ora, se esse predicado é verdadeiro, na minha opinião o livro “Em busca de sentido”, de Viktor Frankl, que trago para discussão neste texto, é um dos que deveriam encabeçar tais listas. Não pelo valor literário em si, haja vista, não trata-se de uma ficção ou romance (embora muitos trechos nos custa acreditar serem verdade), mas pelo simples e honesto relato de seu autor, e sua visão como psiquiatra e, ao mesmo tempo, homem religioso, de todo o seu sofrimento.

Viktor Frankl (1905-1997) foi um psiquiatra austríaco judeu, autor de uma linha psicoterapêutica conhecida como logoterapia, que tem como base a busca do sentido existencial de cada ser humano. Não tenho a pretensão neste texto de esmiuçar a parte prática ou conceitual da logoterapia, e por isso, não me aterei à segunda parte do livro em questão, que fala dos conceitos desta escola, e que foi acrescentada em edições posteriores. O que mais me interessou e me comoveu neste livro, foi o próprio relato da experiência de um psiquiatra em um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, de forma franca, e com análises das situações sobre a ótica de um dos maiores nomes da psiquiatra no século XX, autor da conhecida Terceira Escola Vienense de Psicoterapia (as duas primeiras são a Psicanálise de Sigmund Freud e a Psicologia Individual de Alfred Adler).

UNSPECIFIED - CIRCA 1994: Portrait of austrian psychologist Viktor Frankl, Photograph, 1994 (Photo by Imagno/Getty Images) [Portr?t Viktor Frankl, Photographie, 1994]

Viktor Frankl em 1994 (Photo by Imagno/Getty Images)

No prefácio do livro, Frankl nos revela tê-lo escrito inicialmente sem grandes pretensões. O escreveu em 9 dias, no pós-guerra em 1945 e pretendia publicar o livro anonimamente. Dissuadido por amigos, Frankl tornou-se conhecido mundialmente, especialmente nos Estados Unidos, onde o livro se tornou best-seller. Ao ser questionado por repórteres como ele via seu sucesso, ele respondia:

“Vejo (meu livro) não tanto como uma conquista e realização da minha parte, mas como uma expressão da miséria dos nossos tempos: se centenas de milhares de pessoas procuram um livro cujo título promete abordar o problema do sentido da vida, deve ser uma questão que as está queimando por dentro.

No prefácio ele completa:

“Havia querido simplesmente transmitir ao leitor, através de exemplo concreto, que a vida tem um sentido potencial sob quaisquer circunstâncias, mesmo as mais miseráveis.”

No livro, Viktor Frankl tem o intuito de descrever (e, de certa forma, analisar) o que se passava pela mente do “prisioneiro comum e desconhecido” dos campos de concentração. Isso porque nem todos os prisioneiros eram “comuns”, existiam por exemplo os “capos”, que mandavam nos outros, e tinham certas regalias, além de agirem com os demais prisioneiros muitas vezes mais cruelmente que os próprios guardas do campo. Sendo assim, ele faz um relato de sua própria experiência, o prisioneiro Nº 119104, em um ensaio psicológico.

“Não é sem orgulho que digo não ter sido mais que um prisioneiro “comum”, nada fui senão o simples nº 119104….

…já foi publicado um número mais que suficiente de relatos contando os fatos nos campos de concentração. Aqui todavia, apresentaremos os fatos apenas na medida em que eles desencadearam uma experiência na própria pessoa; é para a experiência pessoal em si que se voltará o estudo psicológico que segue.”

Dessa forma, Frankl descreve muitos dos sentimentos que ocorriam ao longo do tempo no campo: o choque de recepção, o desapego de tudo, senão de sua existência nua e crua, a revolta, a apatia, a perda da sensibilidade, o irônico humor e, para alguns, algo que se poderia revelar salvador: “a fuga para dentro de si” e, principalmente a “capacidade de ser livre interiormente”. Durante o livro ele esmiúça cada um desses sentimentos. Mas, em especial, em contraste à prisão e falta de liberdade inerentes a um campo de concentração, ele irá falar da liberdade que ainda resiste dentro da mente de cada homem.

Onde fica a liberdade humana? Não haveria ali um mínimo de liberdade interior (geistg) no comportamento, na atitude frente às condições ambientais ali encontradas? Será que a pessoa nada mais é que um resultado da sua constituição física, da sua disposição caracterológica e da sua situação social?…

…A experiência da vida no campo de concentração mostrou-me que a pessoa pode muito bem agir “fora do esquema”… Quem dos que passaram pelo campo de concentração não saberia falar daquelas figuras humanas que caminhavam pela área de formatura dos prisioneiros, ou de barracão em barracão, dando aqui uma palavra de carinho, entregando ali a última lasca de pão? E mesmo que tenham sido poucos, não deixa de constituir prova de que no campo de concentração se pode privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas.

Percebamos: Viktor Frankl, psiquiatra, que perdeu tudo nos campos de concentração, entre posses, posição social e entes queridos. Sofreu uma das maiores barbáries da humanidade. Este mesmo, é capaz de dizer, que mesmo diante da perda de tudo, uma coisa sobra ao homem e não lhe pode ser tirada: sua liberdade interior (geistg). Sim, e é essa liberdade interior, que será a chave para a questão principal, o cerne do livro, como está no título: a busca de um sentido.

“Em princípio, portanto, toda pessoa, mesmo sob aquelas circunstâncias, pode decidir de alguma maneira no que ela acabará dando, em sentido espiritual: um típico prisioneiro de campo de concentração, ou então uma pessoa humana, que ali permanece sendo ser humano e conserva a sua dignidade….

…A liberdade interior (geistig) do ser humano, a qual não se lhe pode tirar, permite-lhe até o último suspiro configurar a sua vida de modo que tenha sentido.

Analisemos ainda esse outro trecho:

“A maioria se preocupava com a questão: ´será que vamos sobreviver ao campo de concentração? Pois caso contrário todo esse sofrimento não tem sentido´. Em contraste, a pergunta que me afligia era outra: ´Será que tem sentido todo esse sofrimento, essa morte ao nosso redor? Pois caso contrário, afinal de contas, não faz sentido sobreviver ao campo de concentração.´ Uma vida cujo sentido depende exclusivamente de se escapar com ela ou não e, portanto, das boas graças de semelhante acaso – uma vida dessas nem valeria a pena ser vivida.”

Vemos aqui então, que o que Viktor Frankl propõe, e que é a base de sua ciência, a logoterapia (logo, que vem do grego e que, apesar de uma palavra de significado muito abrangente, refere-se a “sentido”), é que faça-se uma “viravolta em toda a colocação da pergunta pelo sentido da vida”. Ele sugere que nós não perguntemos mais pelo sentido da vida, mas que, ao contrário, respondamos à vida a cada pergunta que ela nos faz, diariamente e a cada hora, de que forma agiremos para dar o sentido adequado à nossa vida.

“Em última análise, viver não significa outra coisa que arcar com a responsabilidade de responder adequadamente às perguntas da vida, pelo cumprimento das tarefas colocadas pela vida a cada indivíduo, pelo cumprimento da exigência do momento.

Essa exigência, e com ela o sentido da existência, altera-se de pessoa para pessoa e de um momento para o outro. Jamais, portanto, o sentido da vida humana pode ser definido em termos genéricos, nunca se poderá responder com validade geral a pergunta por este sentido…

… Mesmo diante do sofrimento, a pessoa precisa conquistar a consciência de que ela é única e exclusiva em todo o cosmo-centro deste destino sofrido. Ninguém pode assumir dela isso, e ninguém pode substituir a pessoa no sofrimento. Mas na maneira como ela própria suporta esse sofrimento está também a possibilidade de uma vitória única e singular.”

Viktor Frankl era religioso (judeu), e ele deixa isso transparecer em diversos momentos do livro. E dentro de toda a genialidade de sua análise, o livro, linha após linha parece gritar em meus ouvidos: “cristianismo, cristianismo”. Sim, porque, se houve um judeu que, em um momento de sofrimento intenso, soube utilizar da sua liberdade interior para dar sentido a toda a humanidade, este é Jesus Cristo. A liberdade individual que nos permite dar sentido às nossas vidas, só existe porque Ele assumiu sim, o nosso sofrimento e nos permitiu que pudéssemos ter o direito de escolher pelo “Logos”, que é traduzido também em nossas Bíblias pelo “Verbo”, que é o Sentido da Vida. Pois o sofrimento que nos era esperado era eternamente doloroso e impassível de vitória ou sentido. Mas agora, não há sofrimento que não possa ser passageiro, não há sofrimento que não possa terminar em uma grande vitória, mesmo que transcendente.

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.”

“Considero que os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada.” Romanos 8.18

O sofrimento pode parecer não ter limite. A maldade humana já provou até onde pode chegar. Mas desde o sofrimento de Jó, sabe-se que tudo pode ser tirado do homem: seus bens, suas posses, seus títulos honoríficos, sua saúde, sua família. Mas não se pode tirar a liberdade interior. Enquanto houver vida, o homem pode optar por Deus. Seja em algum lugar do oriente, ou em um campo de concentração, estejamos sempre prontos para responder a razão que nos dá sentido às nossas vidas.

“Mas, ainda que venhais a sofrer por causa da justiça, bem-aventurados sois. Não vos amedronteis, portanto, com as suas ameaças, nem fiqueis alarmados; “antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós” 1Pe 3.14-15

Artes Plásticas | Joan Miró – A Força (e a Ressignificação) da Matéria

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Na última semana estive em Florianópolis e pude visitar a exposição “Joan Miró – A Força da Matéria”. Foi uma das melhores coisas que eu pude fazer durante minha estadia nesta bonita cidade (em que choveu durante toda a semana). Aconselho aos que não tiveram a oportunidade de ver essa exposição lá ou em São Paulo, que aproveitem os últimos dias em que esta estará no MASC (Museu de Arte de Santa Catarina). E, preferencialmente, tentem uma visita guiada, pois é espetacular.

“Joan Miró – A Força da Matéria”, como o nome diz, é uma exposição montada com obras deste artista abstrato e surrealista do século XX, que tende a valorizar a relação de Miró, não só com a ideia expressa na obra, mas com a matéria de que se utiliza para criá-la. Dessa forma veremos obras de todos os tipos, desde pinturas realizadas em papel e tinta guache, a esculturas, obras em madeira e pano.

Joan Miró, como outros artistas de seu tempo, se utiliza muito da ressignificação. Ou seja, ao pegar um pedaço de madeira que foi desprezado, cheio de marcas e defeitos próprios e utilizá-lo para realizar a sua obra, ele literalmente transforma “lixo em luxo”. E vai também de caminho contrário, ao realizar uma escultura em bronze, material nobre, utilizado por gregos e romanos para suas esculturas de deuses e de atos vitoriosos, e jogar-lhe tinta em cima, o que, para esses artistas clássicos, seria uma espécie de “crime contra a arte”. Ao dar uma ressignificação a um pano velho e com marcas, ou a um objeto qualquer de metalurgia, Miró torna algo desprezível em uma obra valiosa, enriquecida não só com o sentido que este lhe a imprime ao pintá-la ou montá-la, mas com toda a história existente por trás de um objeto como este.

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Miró e a Matéria – À esquerda acima, obra em papelão, à direita, obra em madeira reutilizada (repare nas marcas e defeitos inerentes a esta), e abaixo escultura em bronze, reutilizando-se de materiais industriais.

Miró ainda demonstra uma relação mais forte com a matéria de suas obras. Para que elas possam ser palco da expressão psicanalítica de suas pulsões* e da livre associação de ideias*, Miró pinta, risca, bate e até mesmo pisa em suas obras, agredindo-as ao mesmo tempo em que lhes dá significância. Dessa forma a matéria existe com uma espécie de divã, no qual o artista irá despejar as suas relações transferenciais. A obra é o resultado da “impregnação” do artista àquilo que a sustenta.

Muito mais se poderia falar sobre a obra deste artista catalão: a importância do “primitivo”, a proximidade com as pinturas rupestres e também com a cultura oriental, da qual ele “importa” o uso e a ideia dos “ideogramas”, marca da obra de Miró. Mas nesse momento prefiro me concentrar na ideia da ressignificação e da riqueza desta metáfora que fala de nós mesmos. Afinal a ressignificação do homem é quase sinônimo de cristianismo.

“…Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são;” 1Co 1.27-28

Um homem não é uma tela em branco. Um homem tem história, tem marcas, tem cicatrizes e traumas. E muitas vezes esses traumas são suficientes para torná-lo desprezível e à margem da sociedade. Mas é justamente nessa matéria, que Deus escolheu pintar as mais belas obras de toda a humanidade. Nessa matéria que Deus escolheu imprimir sua personalidade e criar uma forma de se mostrar ao mundo. Sim, se um artista se mostra através de sua obra, Deus se mostra através de toda a criação, em especial, através do homem.

“Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.” Sl 19.1

“Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento.” 2 Co 2.14

É interessante perceber que em Miró, e na verdade, na arte em geral, a matéria tem força somente quando o autor lhe imprime um significado. Claro que em Miró isso ganha uma característica em especial, mas em suma, tudo não passa de telas, tintas, metais. Pode-se dizer que em temos de matéria, um homem não passa de uma estrutura viva baseada em carbono. Mas veja a força da matéria quando esta se associa de forma organizada. Quanto muito mais não será quando esta espelha a grandeza da graça de Deus.

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Essa fotografia termina a exposição e mostra um Miró já consagrado, em que ele sabia que cada uma de suas obras poderia valer milhões, trabalhando na areia da praia, uma matéria passageira, que a qualquer momento pode ser apagada pelas ondas, mas ao mesmo tempo única em suas propriedades.

* Pulsão: termo psicanalítico que define a energia psíquica que leva às ações, desejos. / Livre-associação: termo psicanalítico utilizado para definir a técnica em que se permite ao paciente falar deixando as ideias surgirem e encadearem-se livremente.

Filosofia e Poesia | De Caeiro a Camus – A metafísica de se dar sentido aos atos

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Guardando o Rebanho – Pintura a óleo de Antonio de Carvalho Silva Porto, de 1893, em exposição no Museu Nacional de Soares dos Reis, em Porto. Essa Obra do Realismo/Naturalista português representa bem a valorização da simplicidade do campo tão presente em Alberto Caeiro.

Alberto Caeiro era um dos heterônimos de Fernando Pessoa. Para quem não está familiarizado, essa era uma forma bastante comum de Pessoa se expressar, ou seja, ele criava personalidades, com nomes, biografias, datas de nascimento e até mesmo de morte, que se expressavam de formas determinadas e criavam suas próprias obras.

Alberto Caeiro, junto com Álvaro de Campos e Ricardo Reis são os mais famosos heterônimos. Caeiro era um poeta do campo e, apesar de pouca instrução, era tido pelos outros como “O Mestre”. Caeiro, em toda a sua obra, sempre irá defender a vida simples do campo, sem a necessidade de grandes luxos, mas principalmente sem a necessidade de grandes questionamentos, ou filosofias. Para ele, o que importa é o que vê e o que sente, e pensar sobre as coisas é simplesmente deixar de enxergá-las e aprisionar-se num quarto com cortinas. Nesse sentido, Alberto Caeiro é anti-metafísico. A poesia dele fala por si mesmo:

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei.  Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas?  Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica?  Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Alberto Caeiro.

Meu objetivo aqui, claro, não é rebater o pensamento de Alberto Caeiro, haja visto que nem mesmo se trata de uma pessoa de verdade. Mas é também claro, que um site que tem por objetivo “pensar” vai diretamente contra esse tipo de ideia expressa por Caeiro. O homem é questionador por natureza. As crianças, por exemplo, têm uma curiosidade natural. Mas pensar também gera consequências. Gera sofrimento, gera dúvidas, gera incertezas. E talvez seja por isso que vemos tantas pessoas que, mesmo sem saber, vivem exatamente dentro da filosofia de vida de Alberto Caeiro. Preferem não parar para pensar.

Já ouvi de um grande amigo meu: “quem me dera fosse apenas um pescador da Amazônia, e pudesse viver ignorantemente sem que meus questionamentos me afligissem”. Será mesmo? Seria, como diz o ditado, verdadeiramente “a ignorância uma benção”? Não acredito. Aliás também não acredito nessa figura que rodeia nosso imaginário, do cidadão simples, humilde e não questionador. Tenho certeza que uma hora ou outra esse “pescador” deve olhar para o céu e se perguntar “por que tudo isso?”. Alberto Caeiro não existe na realidade.

No entanto, após questionar-se, o homem pode sim optar pela opção de resignar-se. E aí sim, viver a vida, simplesmente porque é o que precisa ser feito. Acordar, comer, trabalhar e dormir, porque é o que precisa ser feito. Um (não) eterno ciclo que não leva a lugar algum. Um trabalho de Sísifo.

Sísifo era na mitologia grega, um homem que quis desafiar a morte, e por isso foi condenado ao pior trabalho de todos: o trabalho inútil. Todos os dias era obrigado a carregar com muito esforço uma grande pedra até o cume de um monte, simplesmente para vê-la rolar depois. É interessante que apesar dessa história ter pelo menos uns 2500 anos, no século XX, um outro Alberto, não o Caeiro, mas o Albert Camus, realizou um ensaio filosófico, tendo como base esse mito. Para Camus, a questão central da humanidade seria: diante da “absurdidade” da condição humana, não seria a única resposta para isso o suicídio? É claro que a discussão de Camus é muito mais profunda, mas a resposta a essa pergunta é basicamente “não”. E (ainda bem), não vemos tantas pessoas se suicidando por aí, alegando convicções filosóficas. Mas vemos milhões simplesmente aguardando a morte, reprimindo e/ou postergando seus pensamentos sobre Deus, a vida e a morte.

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Albert Camus e sua obra “O Mito de Sísifo”

“Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia

… Galileu, que detinha uma verdade científica importante, abjurou-a com a maior facilidade desse mundo quando ela lhe pôs a vida em perigo. Em um certo sentido, ele fez bem. Essa verdade não valia a fogueira. Se é a Terra ou o Sol que gira em torno um do outro é algo profundamente irrelevante. Resumindo as coisas, é um problema fútil. Em compensação, vejo que muitas pessoas morrem por achar que a vida não vale a pena ser vivida. Vejo outras que paradoxalmente se fazem matar pelas idéias ou as ilusões que lhes proporcionam uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é, ao mesmo tempo, uma excelente razão para morrer). Julgo, portanto, que o sentido da vida é a questão mais decisiva de todas.”

“Da mesma forma, e ao longo de todos os dias de uma vida sem brilho, o tempo nos carrega. Mas sempre chega um momento em que é preciso carregá-lo. Vivemos para o futuro: “amanhã”, “mais tarde”, “quando você tiver uma situação”, “com o tempo você vai compreender.” Essas inconsequências são admiráveis porque, afinal, se trata de morrer. Mas chega um dia e o homem verifica ou diz que tem trinta anos. Afirma assim sua juventude. Mas, nesse mesmo lance, se situa com relação ao tempo. Ocupa ali seu lugar. Reconhece que está num dado momento de uma curva que confessa ter de percorrer. Ele pertence ao tempo e, nesse horror que o agarra, reconhece nele seu pior inimigo.”

Albert Camus, em “O mito de Sísifo”

Para Camus, o verdadeiro sofrimento de Sísifo não estava no seu trabalho em si. Mas estava na sua condição humana que o levava a refletir sobre o trabalho. Camus descreve que a verdadeira pena estava não no momento em que ele subia o monte carregando a pedra, mas no momento em que ele descia o monte, tendo consciência de sua condição. De fato, não podemos afirmar que um rato que todos os dias corre em sua roda, que não lhe leva a lugar algum, esteja sofrendo pelo ato em si, haja visto que este não tem consciência do que o ato significa (no caso, nada). Mas um homem que passasse uma vida inteira girando uma roda do Conan (*referência ao filme Conan – O Bárbaro, de 1982), se não tivesse a esperança de mudar sua situação, por certo se angustiaria demais.

“Se esse mito é trágico (o mito de Sísifo), é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo o sustentasse a esperança de ser bem-sucedido? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consicente.”

Fato é que, um tema tão importante da filosofia não poderia passar “batido” ao “homem mais sábio de todos os tempos”. Inclusive, o próprio Camus chega a citar Eclesiastes em sua obra, mostrando que foi beber também de Salomão ao escrevê-la. E este imortaliza a expressão, que ao meu ver é sinônimo de Trabalho de Sísifo: “correr atrás do vento”.

“Contudo, quando avaliei tudo o que as minhas mãos haviam feito e o trabalho que eu tanto me esforçara para realizar, percebi que tudo foi inútil, foi correr atrás do vento; não há nenhum proveito no que se faz debaixo do sol.” Eclesiastes 2.11

Paulo, que em seu tempo teve que debater com filosófos da linha dos estóicos e epicureus, (que têm bases muito semelhantes as de Caeiro), valorizava muito a “fé racional”, ou seja a fé que tem uma base e um pensamento racionais, de um homem que se questiona, que opta e delibera. Paulo valorizava o pensar.

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”

Romanos 12.1-2

Ele sabia que as coisas de Deus se discerniam espiritualmente, mas ao mesmo tempo, não deixava de lado seu entendimento, raciocínio e intelectualidade. Pelo contrário, os abastecia com a graça e a convicção que lhe era dado por meio da fé, afim de justamente desvendar os conhecimentos mais ocultos. Paulo acima de tudo era um filósofo. Um filósofo do cristianismo.

“… Para que o coração deles seja confortado e vinculado juntamente em amor, e eles tenham toda a riqueza da forte convicção do entendimento, para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo, em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos.” Cl 2.2-3

Como o texto acima diz, todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão em Cristo. Pode ser que ainda estejam ocultos a nós, mas estão nEle. E Cristo é algo acessível a todos e a qualquer um. Seja um grande intelectual como Albert Camus, um homem do campo como Caeiro, ou apenas um simples e humilde pescador na Amazônia. Essa é a grande maravilha do cristianismo: ser a resposta a essa grande “absurdidade” da vida, que permeia a mente de sábios e indoutos. Ser o sentido que faz com que não sejamos apenas ratos correndo em uma roda ou “Sísifos” carregando pedras pela eternidade para, simplesmente, serem roladas de volta. Não precisamos viver como Sísifo.

Tiziano_-_Sísifo

Sísifo, de Tiziano Vecellio, de 1548. Essa pintura a óleo deste artista renascentista encontra-se exposta hoje no Museu do Prado, em Madri.

Artigo | Selma – A verdade está marchando

Truth forever on the scaffold, Wrong forever on the throne,—
Yet that scaffold sways the future, and, behind the dim unknown,
Standeth God within the shadow, keeping watch above his own

“A verdade sempre no cadafalso. O pecado sempre no trono
No entanto, esse estrado balança o futuro, E, atrás deste turvo desconhecido,
Permanece Deus dentro da sombra, Mantendo acima sua vigilância.”

Trecho de “The Present Crisis” (1844), do poeta americano James Russell Lowell, citado por Martin Luther King em seu discurso de 1965 em Montgomery.

lutherking

Sem querer polemizar ou entrar a fundo nesse tipo de discussão, adianto antes de tudo minha opinião: Política e religião em geral não devem se misturar. Deixando claro esse meu ponto de vista (e implícito minha opinião sobre a maior parte dos políticos que formam a chamada “bancada evangélica”), reafirmo, a parte em que escrevo “em geral”. Ou seja, há momentos específicos em que a comunidade cristã de um país deve se movimentar. Ou até marchar. Não, não estou me referindo à nossa conhecida “Marcha pra Jesus” (nada contra). Me refiro a marchas de luta por direitos humanos, sociais ou religiosos, como as que aconteceram em Selma, no estado do Alabama em 1965.

Esses eventos ficaram mais famosos recentemente após terem sido contados no filme Selma – Uma Luta pela Igualdade”, de 2014. O filme, dirigido por Ava DuVernay, e estreado por David Oyelowo no papel de “Martin Luther King”, peca um pouco no ritmo, e no excesso de preocupação em ser linear, cronológico e explicativo, que deixam uma boa parte do filme meio “sonolenta”, na minha opinião. Tirando esse fato (e também o fato de escolherem um ator inglês, mas que se esforçou bastante, para interpretar Luther King), o filme é uma boa homenagem a esses corajosos homens que em determinado momento decidiram se mover e lutar por igualdade de direitos, direito ao voto e civilidade.

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Selma – Filme de 2014 dirigido por Ava DuVernay

Não vou me apegar à descrição de todos fatos, e dos detalhes de cada uma das três marchas realizadas em prol desses direitos à população negra americana. Fato é que a primeira pode ser resumida em uma imagem:

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O episódio acima ocorreu em 18 de fevereiro de 1956, e foi chamado de “Domingo Sangrento”. Tropas avançaram com gás lacrimogênio e cassetetes em um grupo de cerca de 550 manifestantes. 17 foram hospitalizados, e diferente de marchas anteriores, nenhum manifestante morreu. No entanto, havia um fator importante diferente nesse caso: a presença de redes televisivas registrando a crueldade. Imagens como a de Amelia Boyton Robinson (abaixo) rodaram o país e o mundo.

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Amelia Boyton Robinson, ferida na primeira Marcha de Selma a Montgomery.

Claro, que isso gerou repercussão, e a partir de então, os manifestantes de Selma, passaram a receber apoio de boa parte do país (inclusive de muitos cidadãos brancos).

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Manifestantes em Nova Iorque apoiam os movimentos de Selma (1965)

Mediante tal situação, o pastor Martin Luther King e os líderes da SCLC (Conferência da Liderança Cristã Sulista), organizam uma segunda marcha, que por motivos de segurança e também pela proibição judicial que havia, foi suspensa pelo Dr. King em cima da ponte Edmund Pettus, após uma breve oração. Nessa mesma noite, um grupo de ministros religiosos brancos que vieram a Selma para participar da marcha, foi atacado por membros do Ku Klux Klan e, dois dias depois, James Reeb, o mais atingido desses, veio a falecer.

Uma semana após, os manifestantes conseguiram finalmente o direito judicial de marchar. E com isso em 21 de março, domingo, iniciaram então a terceira marcha, que concluiu-se após 3 dias na cidade de Montgomery. No dia 25 de março, em frente ao capitólio do estado do Alabama, Martin Luther King realizou mais um de seus discursos memoráveis de título “How long? Not long.” (“Quanto tempo? Não muito”), mas mais conhecido como “Our God is Marching On” (“Nosso Deus está marchando”). Descrevo a tradução de alguns trechos deste discurso abaixo:

“… Eu posso dizer, como a Irmã Pollard disse – uma senhora negra de 70 anos de idade que viveu nessa comunidade durante o boicote do ônibus –  e um dia, ela foi perguntada enquanto andava se ela não queria uma carona. E ela então respondeu, “Não”, a pessoa disse “Bom, você não está cansada?” E com sua profundidade não gramatical, ela disse: “Meus pés estão cansados, mas minha alma repousa”. E em um sentido real, esta tarde, podemos dizer que os nossos pés estão cansados, mas nossas almas repousam….

… Sim, estamos em movimento e nenhuma onda de racismo pode nos parar. Estamos em movimento agora. A queima de nossas igrejas não vai nos deter. O bombardeio de nossas casas não vai dissuadir-nos. Estamos em movimento agora. O espancamento e morte de nossos clérigos e os jovens não vai desviar-nos. Estamos em movimento agora. A liberação desenfreada de seus assassinos conhecidos não iria desencorajar-nos. Estamos em movimento agora. Como uma idéia cujo tempo chegou, nem mesmo a marcha de exércitos poderosos podem nos deter. Estamos nos movendo para a terra da liberdade.

… Eu sei que vocês estão perguntando hoje, “Quanto tempo isso levará?”. Alguém pergunta: “Quanto tempo a visão cega dos homens permanecerá prejudicada, escurecendo seu entendimento e conduzindo a sabedoria de olhos abertos do Seu trono sagrado? Alguém se pergunta “Quando a justiça maculada, jazendo prostrada nas rua de Selma e Birminhgham e todas as comunidades do Sul, será levantada dessa poeira da vergonha que reina suprema entre os filhos dos homens? Alguém se pergunta: “Quando a estrela radiante da esperança imergirá contra o peito noturno desta adorável noite, arrancada de almas cansadas com correntes de medo e algemas da morte? Quanto tempo será crucificada a justiça, e a verdade suportará?

Quanto tempo? Não muito tempo, porque “nenhuma mentira pode viver para sempre”

Quanto tempo? Não muito tempo, porque “você colhe aquilo que você planta”

Quanto tempo? Não muito. * …

Quanto tempo? Não muito tempo, porque o arco do universo moral é longo, mas ele se curva em direção à justiça.

Quanto tempo? Não muito, porque ** …

Sua verdade está marchando.”

* Nesse momento ele cita o  poema de James Russel Lowell ** Nesse momento ele cita o hino “Our God is Marching On”

Esse discurso, não tão famoso como o “I´ve a dream” (“Eu tenho um sonho”), mas tão importante quanto, é recheado de referências externas, incluindo o poema do poeta americano James Russel Lowell, citado no prefácio deste artigo, e alguns corinhos muito famosos, inclusive aqui no Brasil, como “Joshua Fit the Battle of Jericho.” (“Vem com Josué lutar em Jericó”), “Lift Every Voice and Sing” de James Weldon Johnson, um famoso ativista americano negro, do início do século XX, e a incomparável, “Our God is marching on” (Glória, glória, Aleluia, aqui no Brasil).

As marchas de Selma a Montgomery foram um momento crucial da história da luta racial nos Estados Unidos. Após esse evento, muitos cidadãos de todo o país passaram a apoiar a causa, e o posicionamento do presidente Johnson, a favor do direito do voto a estes cidadãos, foi um grande passo para a mudança. Em pouco tempo, o número de cidadãos negros com direito ao voto se multiplicaria. O negro passa a ter representatividade política e, hoje, a nação mais poderosa do mundo, é liderada por um presidente negro, em seu segundo mandato.

Claro que até hoje ainda existem muitos resquícios dessa divisão racial nos Estados Unidos e em outros países também, como o Brasil. Mas é incomparável com os absurdos que já existiram. Fato é que fica marcado na história um momento em que uma comunidade cristã de um grande país se mobilizou para mudar e vencer uma grande injustiça. E essa luta fica como uma vitória de pessoas que entendiam seu lugar na sociedade, e se expuseram por uma causa que valia a pena lutar. Martin Luther King, mesmo não sendo um homem perfeito, ao longo de sua luta, angariou poder político, se sentou com presidentes e foi capaz de influenciá-los. Hoje infelizmente, somos assombrados por cristãos que se sentam com políticos para corromper e serem corrompidos. Não há cristãos marchando pela miséria e pelos injustiçados. Que Deus tenha misericórdia, e que a sociedade nos perdoe quando marchamos pelos motivos errados.

“Lembrai-vos, porém, dos dias anteriores, em que, depois de iluminados, sustentastes grande luta e sofrimentos; ora expostos como em espetáculo, tanto de opróbrio quanto de tribulações, ora tornando-vos co-participantes com aqueles que desse modo foram tratados…

… Com efeito, tendes necessidade de perseverança, para que, havendo feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa. Porque, ainda dentro de pouco tempo, aquele que vem virá e não tardará;Hb 10.32-33, 36-37

Artigo | A metacognição em relacionamento com Deus

Hoje em dia é quase um mantra dizer: “o homem é um animal… Mas, um animal racional”. Mas afinal de contas, o que significa ser um animal racional?

Psicopatologicamente falando a consciência do homem se diferencia das dos animais pela chamada consciência superior, ou, consciência reflexiva (além de uma amplitude maior de consciência básica e de inconsciente). Nela se dão os processos de metacognição: auto-consciência, introspecção, reflexão.

Através da consciência superior é possível dar conta dos próprios processos mentais, e não só percebê-los, mas refletir sobre eles, evitá-los, desejá-los, transformá-los.  Também por meio dessa capacidade, é possível olhar no futuro, onde estará e como será em consequência dos atos, podendo decidir se quer continuar por esse caminho ou, por meio do uso da deliberação e da vontade, seguir caminhos diferentes. De certa forma, isso é o que o provê do assim chamado livre-arbítrio*.

A mim, parece claro que quando a Bíblia diz que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança (Gen 1.26), a consciência superior está exatamente implícita nesta frase. Afinal, não pode se tratar de semelhança física, já que Deus é espírito (Jo 4.24), muito menos da mente de Deus, como um todo, já que, antes ou depois da “Queda”, o homem jamais foi onisciente ou onipotente. A mim, trata-se justamente da capacidade de realizar processos que lhe permitem tomar decisões que realmente transforme seu destino. Deus tomou uma decisão ao criar ao mundo. E avaliou cada passo da criação (ao concluir que cada passo era bom). E decidiu assim tomar outros passos que culminaram naquela que seria a sua “obra-prima”: o homem. Mas para que o homem fosse essa “imagem e semelhança” era necessário dar-lhe exatamente essa consciência que lhe permitiu o livre-arbítrio e a capacidade de tomar decisões e avalia-las como o próprio Deus realizou. A “obra-prima” de Deus é uma criatura que só poderia adorá-lo de livre e espontânea vontade. Por isso, infelizmente, pudemos escolher pelo “pecado”. E cada homem que nasce deve fazer suas escolhas.

A grande questão aqui é exatamente fazer escolhas. E não só fazê-las, mas avaliá-las. E ao avaliá-las tomar novos passos. No entanto, muitos optam por ignorar a sua metacognição. Ou melhor, preferem utilizá-la somente para seus objetivos pequenos ou mundanos. Cansam-se facilmente em refletir sobre sua realidade, sua vida, sua morte, ou sobre o próprio Deus. Adiam as decisões que podem realmente mudar a sua vida. Que grande erro é ignorar exatamente aquilo que nos torna tão diferentes dos animais.

Quanto trabalho sem sentido. Quanto dinheiro acumulado, sem real valor. Quantos prazeres facilmente esquecidos, quanto entretenimento consumindo todo o finito tempo. Para quê? Para quem?

“Louco! Esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” Lc 12.20

Todo dia somos instigados a tomar diversas decisões. Deve-se decidir que horas irá acordar, o que irá comer, o que irá vestir, com que irá se relacionar. Você pode se contentar em tomar decisões como essas com muito mais habilidade que um outro animal. Ou pode optar por mergulhar em sua própria consciência da forma que só um ser humano pode fazer. E, possivelmente, se relacionar com Deus da forma que só um ser humano pode se relacionar.

“Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo.”Ap. 3.20

“Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem.” Jo 4.23

*Fonte: Compêndio de Psiquiatria Clínica do IPQ-USP. 1ª Edição – 2013.

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Música: “God is love”, de Marvin Gaye – Um músico entre os extremos

God Is Love |Deus É Amor

Oh don’t go and talk about my father | Oh, não fale mal de meu pai
God is my friend | Deus é meu amigo
Jesus is my friend | Jesus é meu amigo
He made this world for us to live in, and gave us everything | Ele fez esse mundo para nós vivermos, e nos deu tudo
And all he asks of us is we give each other love. | E tudo que ele pediu em troca, foi nós darmos amor para cada um
Oh ya | Oh sim
Don’t go and talk about my father | Oh, não fale mal de meu pai
Cause God is my friend | Porque Deus é meu amigo
Jesus is my friend | Jesus é meu amigo
He loves us whether or not we know it | Ele nos ama independentemente de nós sabermos ou não
Just loves us, oh ya | Ele simplesmente nos ama
And He’ll forgive all our sins | E ele vai perdoar todos nossos pecados
Forgive all our sins | Perdoar todos nossos pecados
And all He asks of us, is we give each other love. | E tudo que ele pediu em troca, foi nós darmos amor para cada um
Oh ya | Oh sim
Love your mother, she bore you | Ame sua mãe, ela lhe deu a luz
Love your father, he works for you | Ame seu pai, ele trabalha pra você
Love your sister, she’s good to you | Ame sua irmã, ela é boa pra você
Love your brother, your brother | Ame seu irmão, ele é seu irmão
Don’t go and talk about my father, He’s good to us, | Oh, não fale mal de meu pai, ele é bom para nós
God is my friend | Deus é meu amigo
Jesus is my friend | Jesus é meu amigo
For when we call in Him for mercy, Mercy Father | Quando você o chamar para pedir clemência
He’ll be merciful, my friend | Ele vai ser misericordioso, meu amigo
Oh, yes He will |Oh sim, ele vai
All he asks of us, I know, is we give each other love, | E tudo que ele pediu em troca, foi nós darmos amor para cada um
Oh ya | Oh sim

A uma primeira vista parece apenas uma música gospel, com mensagem simples e correta, e um título já visto por diversas vezes no cenário musical religioso. E realmente é, e talvez passasse desapercebida não fosse ela escrita e interpretada por Marvin Gaye (com a ajuda de Anna Gordy Gaye, James Nyx e Elgie Stover), em 1971, no auge de sua carreira e em um de seus álbuns mais consagrados: “What´s going on”, album este que angariou a sexta colocação na lista da revista Rolling Stone, dos 500 maiores álbuns de todos os tempos e é tido por alguns como o maior álbum de soul music da história. Repare bem na letra da música acima e depois associe-o aos fatos que se seguem.

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What´s going on – Álbum de 1971. O mais icônico álbum de Marvin Gaye, foi considerado em 2003 pela Revista Rolling Stone o sexto melhor álbum de todos os tempos.

Marvin Gaye, para aqueles que não conhecem ou nunca ouviram falar (o que eu duvido), é um dos mais famosos cantores de soul e R&B americano, conhecido por músicas que provavelmente você já ouviu por aí como “Let´s get it on“, “Got to give it Up“, “Ain´t no mountain high enough” e “Sexual Healing“. Seu estilo e originalidade até hoje inspiram artistas no mundo inteiro.

O que poucos sabem, especialmente aqui no Brasil, é sobre a sua trágica biografia. E apesar de extremamente triste, muito tem a ver com o tema de nosso site. Marvin Gaye nasceu em Washington D.C., em 1939. Seu pai, Marvin Pentz Gay Sr., era pastor na Igreja evangélica “The House of God”, que tem em seu cerne um pouco de judaísmo ortodoxo e pentecostalismo (me parece próximo à Igreja Adventista do Sétimo Dia, aqui no Brasil). Desde cedo, Marvin Gaye começou a cantar e tocar na Igreja de seu pai, demonstrando grande talento.

A criação de Marvin na sua casa, até onde se sabe, sempre foi muito rígida, e ele costumava apanhar do pai diariamente. Seu envolvimento com a música começou com o doo-woop, e mais tarde viria a ingressar na famosa gravadora Motown, primeiramente como baterista, mas depois veio a demonstrar seu talento com discos-solo. Apesar de diversas desavenças com a gravadora ao longo dos anos, Marvin Gaye conseguiu com o tempo se impor como um artista original e de muito respeito, atingindo seu ápice artístico com o disco citado acima, “What´s going on“.

Na vida pessoal, durante sua carreira como músico, Marvin sempre oscilou entre as drogas e a depressão. E a relação com o pai se já era ruim, tornava-se cada vez pior. No ano de 1983, com a saúde mental muito abalada, Marvin se isola e retorna para a casa dos pais. Por diversas vezes ameaçou cometer suicídio. Em meio às diversas brigas e embates com seu pai, numa manhã, em 1 de abril de 1984, após uma discussão por causa de alguns documentos, seu pai toma um revólver, que havia sido lhe presenteado pelo próprio filho algum tempo antes, e dispara contra ele. Marvin Gaye morre, um dia antes de completar 45 anos.

Essa biografia, de um artista que é tido como um dos maiores da música popular americana, especialmente do soul e do R&B, nos traz diversas reflexões e joga por terra muitos conceitos presentes até hoje entre religiosos mais tradicionais:

– A educação rígida religiosa não foi suficiente para livrar Marvin Gaye dos “males” deste mundo, muito menos torná-lo mais religioso.

– Seu talento musical, o dom que possuia, não foi suficiente para trazer-lhe felicidade ou paz, ainda que fosse seu escape em muitos momentos difíceis.

– O fato de Marvin Gay Sr, ser um pastor, não impediu que lhe faltasse o amor necessário entre pai e filho. Ainda que alguns defendam, que à época do homicídio estivesse senil ou mesmo alterado por conta de um tumor cerebral, cometeu um dos mais horrendos crimes que um homem poderia cometer.

Ou seja, em tudo, precisamos ter sabedoria. Quantas famílias de cristãos, ou até mesmo pastores, vemos destruídas, por conta de uma relação extremamente rígida ou autoritária? Isso é extremamente comum. Devemos nos lembrar que Deus está acima de tudo, mas a família, está acima da Igreja. Nada deve impedir uma boa e saudável relação familiar. E o cristão não deve se eximir de buscar na ciência e na pedagogia a melhor forma de orientar os seus filhos. O que não falta é literatura nesta área, bem como profissionais aptos a ajudar.

Além disso, devemos considerar para as nossas vidas, uma boa orientação com relação aos nossos talentos. Não existe uma fórmula para isso, e eu também não serei tão puritano para dizer que ao músico só lhe serve caminho da música religiosa. Com certeza não. Mas muitos, infelizmente passarão a vida como Marvin Gaye, que revezava em suas músicas o temor a Deus, como compôs na ótima música descrita acima, e em outras, um erotismo exacerbado, como em “Sexual Healing”. Além disso, a vida de shows e estrada dos músicos está diretamente ligada à exposição às drogas e promiscuidade. Não que muitos não possam vencer essa terrível ligação, mas não há como negar que a exposição entre estes é maior.

Sabedoria. Sejamos pais e filhos sábios. Músicos e artistas sábios. Homens e cristãos cada dia mais sábios. Pois, de que vale ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder a sua alma? De que vale ser um grande ícone musical se, isto não lhe traz paz? Se a família Gay (somente Marvin filho adicionou o sufixo “e” ao sobrenome) levasse mais em consideração toda a letra da música descrita acima, talvez toda a história fosse diferente. Poderíamos ter Marvin Gaye. Talvez com outras músicas. Talvez com outras ideias. Talvez cantando até hoje.

Quando eu era filho em companhia de meu pai, tenro e único diante de minha mãe, então, ele me ensinava e me dizia: Retenha o teu coração as minhas palavras; guarda os meus mandamentos e vive; adquire a sabedoria, adquire o entendimento e não te esqueças das palavras da minha boca, nem delas te apartes. Não desampares a sabedoria, e ela te guardará; ama-a, e ela te protegerá. O princípio da sabedoria é: Adquire a sabedoria; sim, com tudo o que possuis, adquire o entendimento. Estima-a, e ela te exaltará; se a abraçares, ela te honrará; dará à tua cabeça um diadema de graça e uma coroa de glória te entregará.” Pv. 4.3-9

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Conto: “A Descoberta” de Anton Tchekhov

Ciscando num monte de esterco, o galo encontrou uma pérola…” Da fábula O galo e a pérola, de Krylov (1769-1849), prefácio do conto “A descoberta” de Tchékhov, descrito abaixo. 

Essa semana, decidi trazer para nossa análise com enfoque cristão, um conto de Anton Tchekhov (1860-1904). Este escritor russo, que também era médico e dramaturgo, é tido como um dos maiores contistas da história. O conto escolhido é “A descoberta”. Anton Tchékhov tem centenas de contos, e esse não é um dos mais famosos. Aqui no Brasil, podemos encontrá-lo pela editora L&PM POCKET na coletânea: “Um negócio fracassado e outros contos de humor”, com tradução do russo de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares. Além disso, a Editora Livro falante, tem o audiobook “Contos de Tchekhov”, que inclui o conto em questão, e apresenta tradução de Tatiana Belynki.

contos de tchekhov

À esquerda na imagem: Livro “Um negócio fracassado e outros contos de humor” de Anton Tchekhov, com tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares, Editora L&PM Pocket 2011. À direita: Audiobook “Contos de Tchékhov” da Editora Livro Falante, com tradução de Tatiana Belinky, disponível em www.livrofalante.com.br .

Quem puder, leia o conto, não demora mais de 10 minutos. Você encontra o ebook do livro acima em qualquer livraria virtual com valor em torno de R$7,00. Ou pode comprar o audiobook para ouvir o conto.

A história tem como protagonista o engenheiro Bakhromin, um homem importante e rico da sociedade, que ocupava o cargo de conselheiro de estado. Tchékhov inicia o conto descrevendo o engenheiro sentado em sua escrivaninha, melancólico, pensando num encontro que tivera algumas horas antes com uma mulher que ele teria sido apaixonado na sua juventude (o engenheiro conta agora com 52 anos). Segundo sua descrição, a mulher teria perdido toda a beleza da juventude, e agora era “uma velha seca, faladeira, de olhos azedos e dentes amarelados”. Em uma espontaneidade e realidade que lembram muito os romances machadianos ele fala:

“Nenhuma força maléfica é capaz de escarnecer de uma pessoa tanto quanto a natureza. Se, naquela época, a beldade soubesse que iria se transformar nessa coisa insignificante, ela teria morrido de pavor.

Nesse pensamento melancólico, Bakhromin começa a fazer alguns desenhos em um papel. De repente, ele percebe que os desenhos que vem fazendo são muito bons! E ele repete os desenhos, e eles continuam muito bons, e começa então a desenhar diversas coisas, ficando extasiado com o novo talento que descobrira em si. Essa é “a descoberta” do conto.

Bakhromin, segundo o próprio, nunca tinha percebido nenhum talento de verdade em si. E agora, aos 52 anos, ao fazer desenhos tão belos, percebe que tem grande talento para as artes. Isso o deixa em verdadeiro êxtase. Como não teria percebido esse dom antes?

“E se eu tivesse descoberto quando era jovem que tinha talento, enquanto era tempo, e tivesse me tornado um pintor ou um poeta? Hein? E na sua imaginação, descortinou-se uma vida diferente de milhões de outras vidas. Seria impossível compará-la com a vida de pessoas comuns.”

Nesse momento então, o rico engenheiro começa a se deleitar em seus pensamentos, em como seria sua vida se tivesse se tornado um artista. Enquanto correm esses pensamentos, o criado lhe traz a ceia, com uma bebida e logo em seguida o auxilia e prepara sua cama para se deitar. Ele pensa na fama, e na glória duradoura se fosse um artista renomado, bem diferente do que poderia alcançar como engenheiro e funcionário público:

“E a glória, e a fama? Por mais largos que sejam meus passos,…, meu nome não irá mais longe do que os limites de um formigueiro. Com eles já é completamente diferente.”

“É, uma vida fora do comum. Um dia as estradas de ferro serão esquecidas, mas Fídias e Homero serão sempre lembrados. Trediakóvski, ruinzinho como é, e mesmo dele lembram-se.”

De repente, Bakhromin começa a imaginar-se como artista, naquele exato momento. Os artistas, em geral, não têm criados, não têm carruagens, não têm camas tão confortáveis como aquela em que o criado estava lhe ajudando a se deitar. Não têm muito dinheiro, não têm talão de cheques. “O nome é homenageado, mas a pessoa é esquecida.” Ele então conclui:

“Ele que vá para o inferno! (o talento). Que vá para o inferno! Que bom que eu não o descobri quando ainda era jovem!

Esse conto de Tchékhov, por meio de uma situação absurda e cômica, nos traz o real desafio daqueles que optam por desenvolver ou trabalhar seus talentos. Quem está disposto a sacrificar certas regalias e a segurança de um trabalho sério e uma boa colocação na sociedade para alcançar alguma glória mais duradoura?

É claro que o pensamento de Tchékhov no texto está centrado em glórias humanas, por isso ele faz questão de citar um grande escultor e um grande poeta da Antiguidade (Fídeas e Homero, respectivamente), que tem seus nomes até hoje aclamados. Mas esse texto, imediatamente me faz refletir e extrapolar isso para o lado cristão. Quem pode abrir mão do seu conforto, do seu dinheiro e de seu status na sociedade em prol de um galardão, digamos, mais celestial?

Uma das mais famosas parábolas de Jesus é a Parábola dos Talentos, descrita em Mateus, no capítulo 25, a partir do versículo 14. Lembrem-se que “talento” aqui tem sentido monetário, era um grande valor na época. Mas ele pode ser facilmente transposto para o seu sentido em português: é uma ótima metáfora para sua palavra homônima. Como descrito na parábola, o servo que recebeu apenas um talento, teve medo de investi-lo ou desenvolvê-lo para que se tornasse algo melhor. Por conta do medo, ele “enterrou” o talento. No conto, Bakhromin, nas ocupações do dia-a-dia e na busca por uma boa colocação e status na sociedade, deixou seu talento ser enterrado e negou ao mundo, e a si mesmo, quem sabe, um grande artista. Que contribuição temos deixado de dar ao mundo e a nós mesmos? E à posteridade, e à Deus?

Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” Mt.6-19-21

Cinema | Resenha: “A Teoria de Tudo” – A vida de Stephen Hawking

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Contém “spoilers” do filme “A Teoria de Tudo” (The Theory of Everything – 2014)

“A teoria de tudo” trata da vida do famoso cientista Stephen Hawking, especialmente em seu aspecto pessoal, visto que é baseado no livro escrito por sua primeira esposa, e mãe de seus três filhos, Jane Wilde (interpretada no filme por Felicity Jones). É claro que o filme também mostra um pouco de sua vida acadêmica, em especial as teses que defendeu a respeito do espaço e tempo. Mas, ao meu ver, o filme fica devendo um pouco quando trata das verdadeiras contribuições científicas do Dr. Hawking, e não foi tão feliz em caracterizar seu pensamento, como foi por exemplo o filme “Uma mente brilhante”, que trata da vida do matemático John Nash.

No entanto, no aspecto pessoal, o filme é bem interessante, e apesar de ter o viés da literatura de Jane Wilde, não se vê problema em mostrar as dificuldades e até mesmo as fraquezas de um e de outro personagem. Vale ressaltar a impressionante atuação de Eddie Redmayne interpretando Stephen Hawking. Esse ator já ganhou o Bafta por esta atuação e concorre ao Oscar. Ele, além de ser fisicamente muito parecido com Stephen Hawking, consegue encenar todo a evolução de sua doença (Esclerose Lateral Amiotrófica) de forma marcante. Em alguns momentos parecer ser o próprio Hawkings interpretando.

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Eddie Redmayne e Stephen Hawking juntos na estreia do filme “A Teoria de Tudo”

“A teoria de tudo” foca em dois aspectos importantes na vida pessoal de Stephen Hawking: sua relação com o tempo, e sua relação (ou não relação) com Deus. Stephen Hawking, como cosmologista, sempre estudou as relação do espaço e tempo, os buracos negros e singularidades. Uma de suas principais teorias, tem o intuito de provar que o espaço e o tempo tiveram um início, assim como o universo se mantém em expansão. Essa relação com o tempo, é interessante, pois a Esclerose Lateral Amiotrófica é uma doença até hoje sem cura, cuja expectativa de vida é de 2 a 3 anos. Hawking convive com a doença há mais de 30 anos. Nesse tempo, teve filhos, viu-os crescer, continuou estudando, escreveu livros e viu-se tornar o cientista mais famoso de nossa época. Muita coisa para quem não tinha muito tempo de vida.

Já a sua relação com Deus, permanece obscura. Na verdade, Stephen Hawking se declara ateu, mas ele admite que algumas teorias, em especial a que trata do início do universo e da existência, suportam a existência de Deus. Mas ao mesmo tempo, ele refuta essa existência com outras teorias e ideias. Nos livros dele (em breve gostaria de fazer uma resenha sobre “O universo em uma casca de noz”, livro que li há algum tempo), percebemos essa dualidade, além do maravilhoso senso de humor que ele possui e que é bastante mostrado no filme.

O clímax do filme se dá justamente quando em uma entrevista ele é questionado sobre o seu ateísmo, e pergunta-se se há alguma filosofia ou ideia que lhe traz conforto. Nesse momento vemos Stephen se levantando e andando como em um milagre, mostrando que talvez, lá no fundo, Stephen Hawking ainda espera um grande milagre da existência que irá libertá-lo de sua condição. Na sequencia deste “delírio”, ele responde:

“É claro que somos apenas primatas evoluídos, vivendo em um planeta pequeno que orbita uma estrela comum, localizada no subúrbio de uma de bilhões de galáxias. Mas, …

… desde o começo da civilização, as pessoas tentam entender a ordem fundamental do mundo. Deve haver algo muito especial sobre os limites do universo. E o que pode ser mais especial do que não haver limites? Não deve haver limites para o esforço humano. Somos todos diferentes. Por pior que a vida possa parecer, sempre há algo que podemos fazer em que podemos obter sucesso. Enquanto houver vida, haverá esperança.

Stephen entende que há algo muito especial, além dos limites de nosso entendimento. Sua posição é acreditar naquilo que as teorias e os estudos lhe dão, e nenhuma teoria ou pensamento científico é capaz de provar (ou desprovar) a existência de Deus. Por isso, o ateísmo. Mas ele admite, que enquanto houver vida, há esperança, de sermos resgatados de uma realidade física tão insignificante, com corpos tão frágeis, doentes ou não, no planeta pequeno que orbita essa estrela comum, no subúrbio de uma galáxia (nessa mesma linha de pensamento, leia o post “O pálido ponto azul”, publicado neste blog alguns meses atrás).

Stephen Hawking é um exemplo magnífico de uma pessoa que, apesar de todas as dificuldades impostas, conseguiu obter extremo sucesso em sua vida. É o exemplo clássico para aquela passagem em João, capítulo 9, em que perguntam para Jesus quem havia pecado, para que o homem em questão fosse cego. E Jesus responde: “Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus.“. Ora, digam-me se não é ao menos supreendente, que a maior mente de nosso tempo, esteja “encarcerada” em um corpo debilitado, incapaz até mesmo de falar. E como esse ser incapaz de falar é a maior voz da ciência atual. Veja se isso não é uma espécie de milagre.

Enquanto houver vida, haverá esperança. Não há homem que em algum aspecto de sua vida, não esteja debilitado, atrelado a uma cadeira de rodas. E ao mesmo tempo, não há homem que não sonhe com o momento em que se libertará dessas limitações e desses sofrimentos, e poderá ser realmente pleno. Stephen Hawking sonha com essa plenitude. E todos nós também. Devo dizer, que a partir daqui, entra a questão da?

“E, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus.” Efésios 3.17-19

“Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia, porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.” Colossenses 1.15-20

stephen hawking

Poesia | Análise – “E agora, José?”

JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Joaquim?
e agora, você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais!
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade (In Poesias – 1942)

Esse é um dos poemas mais conhecidos de Carlos Drummond de Andrade. “José” aqui é usado como uma metonímia para o próprio autor ou para qualquer ser humano. No entanto, ao usar um nome tão comum aos brasileiros, temos a sensação de ser alguém aqui do nosso meio. Não é à toa que usa metáforas e regionalismos como “bicho-do-mato”, tornando essa poesia ainda mais nacional (realmente uma das riquezas da nossa literatura). Mas é claro que o que se trata aqui é algo bem mais universal.

José se encontra em um momento de sua vida que já não tem mais nada. Por certo já não está mais em sua juventude, por isso “a festa acabou”, já não pode beber, não pode fumar. Além disso, já não tem o apoio e a alegria de uma mulher, não tem familiares para se apoiar (“parede nua para se encostar”), não existe saídas (não há porta). Tudo que ele fez até então, agora não lhe serve mais (seus versos, seus protestos, seus amores e até sua zombaria, citados na primeira estrofe). Tudo que ele possui também não lhe adianta, suas riquezas (sua lavra de ouro), seu conhecimento (sua biblioteca), os momentos que realizou alguma coisa (instantes de febre), os momentos de fartura ou de dificuldade (gula e jejum). Encontra-se vulnerável, frágil, percebido por seu “terno de vidro”. Nem a incoerência ou o ódio lhe servem de alguma coisa.

Este homem, ao se ver nessa situação, se pergunta “e agora?”. Não há mais festa. Não pode voltar para Minas, que aqui traz a ideia de sua terra natal, talvez como uma metáfora para sua própria Infância. E assim, neste momento que se encontra, da mesma forma que não é capaz de voltar para a sua infância também não consegue avançar e abraçar a morte, pois é “duro”.

Essa reflexão de Carlos Drummond me traz à tona a mesma reflexão de Albert Camus em seu ensaio “O mito do Sísifo” (assunto que trarei em outro post em breve). José é o “homem-absurdo” descrito por Camus. O homem que vive e se depara de repente com a “absurdidade” (descrevo o termo como cunhado na obra de Camus) da vida. O ensaio de Camus é toda uma reflexão sobre isso, e traz junto a questão se esse homem deve ou não buscar o suicídio, visto que nada tem um sentido de ser. Mas na poesia, para José, suicídio não é uma opção, pois ele continua marchando (marcha pra onde?). Mesmo sozinho, sem apoio, e sem a existência de fé ou religião, representados aqui pela palavra “teogonia”.

Não tenho dúvida de que não existe ser humano consciente que não chegará até essa pergunta, que se tornou até mesmo um ditado popular no Brasil: “E agora, José?”. E nesse momento, quando a pergunta chegar, alguns poderão responder: a fé. Pois a fé traz a esperança. E a esperança dá um sentido para essa absurdidade. Talvez José não concorde. Provavelmente Camus e muitos outros gênios também não. Mas é claro, isso é ter fé. Isso é a loucura da salvação.

“Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo; Pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus.” Rm 5.1-2

Na Primeira Epístola aos Coríntios, no capítulo 13, uns 1900 anos antes de Drummond ou Camus, o apóstolo Paulo já faz uma descrição da absurdidade da vida, sem a fé ou sem possibilidade da vida eterna, veja só:

“Ora, se é corrente pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois, afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, então, Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé; e somos tidos por falsas testemunhas de Deus, porque temos asseverado contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, ao qual ele não ressuscitou, se é certo que os mortos não ressuscitam. Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram. Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.” 1Co 15.12-19

É meus amigos, se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens. Somos todos “José”.

estatua-drummond

Estátua de Carlos Drummond de Andrade na Praia de Copacabana no Rio de Janeiro.