Cinema | Resenha: “Invencível” – A impressionante história de Louis Zamperini

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Contém “spoilers” do filme “Invencível” (Unbroken – 2014)

“O que permanece contigo mais longa e profundamente?
De curiosos alarmes,
De batalhas duras ou de cercos tremendos o que permanece mais profundamente?”
Walt Whitman, The Wound-Dresser (O médico de feridas). Prefácio do livro “Invencível” de Laura Hillembrand.

Impressionante. Esse é o adjetivo simples que vem à minha mente ao assitir ao filme dirigido por Angelina Jolie, com nome e adjetivo simples: “Invencível” (2014). Impressionante, não pela qualidade técnica, ou pelo fato de ser o segundo filme dirigido por essa grande estrela de Hollyhood. Impressionante porque nos faz embarcar e reviver a história real de Louis Zamperini (interpretado por Jack O’Connell), atleta olímpico que se tornou um prisioneiro de guerra no Japão.

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Angelina Jolie e Louis Zamperini aos 97 anos. Vizinhos em Hollyhood, desenvolveram importante amizade antes da realização do filme.

Antes que os mais afoitos venham se queixar, é claro que em Hollyhood há supervalorização, exageros e sensacionalismo. E é claro que é bem provável que possamos ver tudo isso nesse filme, na tentativa de impressionar o telespectador. Mas, ao sair do filme, pude pesquisar um pouco sobre a vida desse senhor, que faleceu no ano passado, aos 97 anos, ao mesmo tempo que pude folhear brevemente o livro escrito por Laura Hillebrand, que deu origem ao filme, e posso te dizer que, se há exagero, é menor do que imaginamos, e ao menos em relação aos fatos mais importantes do filme, atesta-se a sua veracidade.

Para melhor entendimento desta resenha, vou dividir a análise em partes.

Parte I – O Filme

O filme se inicia com cenas de de Zamp (como é chamado pelos colegas), já na guerra, como bombardeiro em um avião, e intercala um pouco de sua história, contando sua infância difícil, como imigrante italiano no período de crise na América. A ideia do filme é mostrar como uma criança pouco obediente e quase marginalizada foi resgatada pelo empenho em um esporte, o atletismo, com o apoio incondicional de seu irmão mais velho Peter. E como esse empenho e imensa determinação puderam levá-lo a diversos recordes, e à disputa da Olimpíada de 1936, em Berlim, com apenas 19 anos, tendo desempenho marcante.

“Um instante de dor vale uma vida de glória” Frase de Peter, irmão de Louis, antes deste embarcar para os Jogos Olímpicos de Berlim.

Claro que o filme não perde minutos preciosos mostrando como esse atleta promissor teve seus sonhos adiados com a ocorrência da Segunda Guerra Mundial, seu alistamento, e o cancelamento dos Jogos Olímpicos que ocorreriam em 1940, no Japão. Tudo isso está implícito. Mas ele demonstra que mesmo na guerra, Zamperini continuava treinando e ainda aspirava ser um grande atleta.

Em uma missão de resgate o avião de Zamperini cai no oceano Pacífico e é aqui que o verdadeiro sofrimento começa. Foram 45 dias de angústia à deriva no oceano, bem vivenciados no filme, até ser encontrado, junto com o amigo Phil, por um navio japonês e se tornar um prisioneiro de guerra. No campo de concentração, seu histórico como atleta olímpico é descoberto e, a partir de então, se torna alvo da crueldade do Cabo Watanabe, “A Ave”. Todo o sofrimento e toda a sua luta para se manter vivo são o grande mote do filme que quer mostrar como a força de vontade intensa e determinação é capaz de torná-lo “invencível”.

Em determinado momento do filme, em seu sofrimento no mar, Zamperini tenta encontrar a sua fé e, conversando com Deus diz que se sobrevivesse, entregaria toda a sua vida a Ele.

Parte II – Louis x “A Ave”

O mais interessante do filme, além da própria história vivida por Zamperini, é o paralelo que este faz entre Louis e Watanabe (“A Ave”). O filme quer mostrar como os golpes e a crueldade desferidos por Watanabe vinham da sua frustração, por não ter atingido os objetivos esperados em sua própria vida e, ao olhar para Zamperini, um atleta olímpico e um oficial capaz de olhá-lo nos olhos, toda essa frustração vinha mais à tona. A cena clímax do filme deixa isso bem claro, quando Watanabe se desespera em enxergar em Louis tanto mais perseverança e determinação do que ele jamais teria demonstrado.

Após o resgate dos prisioneiros, Zamperini visita o escritório de Watanabe, vendo uma foto deste ainda criança, com seu pai, com aparência séria (tentando transmitir toda a provável austeridade deste pai japonês). Isso fica como um paralelismo à relação do Louis, criança rebelde, com seu pai austero, e como, por intervenção de Peter e do esporte, ele teria escapado a uma trágica relação entre pai e filho. Tal sorte por certo não teria tido Watanabe.

Parte III – Fim do filme e a Redenção de Zamperini

O filme termina com o fim da guerra e o retorno de Zamperini à sua terra e sua família. No entanto, a história de Louis não termina aí. Em alguns aspectos ela está só começando. Uma legenda no final do filme conta um pouco da história deste senhor após a guerra, mostrando ao mesmo tempo, fotos reais:

“Em 1946 Louie Zamperini conheceu e se casou com sua amada, Cynthia Aplewhite. Eles tiveram uma filha, Cissy, e um filho, Luke…
Depois de anos de Estresse Pós-Traumático, Louie cumpriu sua promessa de servir à Deus, uma decisão que tomou por ter sobrevivido. Motivado por sua fé, Louie percebeu que a maneira de seguir em frente era o perdão e não a vingança. Ele voltou para o Japão onde encontrou e perdoou seus captores. Somente Bird (A Ave) se recusou a encontrá-lo. Louie finalmente realizou seu sonho, e correu em uma Olimpíada novamente. Aos 80 anos. No Japão.” Neste momento mostra-se vídeo de Zamperini correndo com a tocha olímpica em 1998, nos Jogos Olímpicos de Inverno no Japão

Parte IV – A vida de Zamperini

Como foi dito, o filme termina no pós-guerra, adicionando apenas algumas legendas no final com um resumo da história de Zamperini. O livro não pára por aí e muito menos a biografia deste senhor.

A verdade é que ao voltar da guerra, Louis revela que tinha muitos pesadelos, refere que via-se estrangulando seus captores em ação de vingança e começou a beber muito, tentando esquecer sua experiência como prisioneiro de guerra. Agora, veja só: sua esposa, Cynthia frequentou uma das cruzadas evangelísticas lideradas por, ninguém mais ninguém menos que Billy Graham, o famoso pregador evangélico, muito conhecido entre nós. Em 1949, após muita insistência de sua esposa, Louis aceitou relutantemente participar de uma dessas Cruzadas e, nessa pregação, se lembrou da promessa que tinha feito a Deus, ainda no bote salva-vidas. Nesse momento, Louis Zamperini decide entregar sua vida a Cristo.

Seguido a isso, Louis decidiu perdoar seus captores e seus pesadelos cessaram. Posteriormente, Billy Graham ajudou Zamperini a iniciar uma nova carreira como orador inspiracional, e um de seus temas recorrentes era justamente o perdão.

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Louis Zamperini (a esquerda na foto) e Billy Graham em 1949.

No início do texto, deixei a citação do poeta americano Walt Whitman, que também se encontra no livro sobre a história de Zamperini. Realmente é difícil dizer as marcas e as sequelas que uma vivência como a guerra pode deixar na vida das pessoas. Mas, independente de quão profundas quaisquer sequelas possam estar, temos a certeza de que existe uma Palavra, uma Verdade, capaz de penetrar juntas e medulas, até a divisão da alma e do espírito e que é capaz de transformar qualquer vida, qualquer entendimento e salvar qualquer ser humano. Louis Zamperini é a prova disso.

“Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.” Hb 4.12

Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.” Rm 12.19-21

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Louis Zamperini discursa na Cruzada Evangelística de Billy Graham em 1963, no Los Angeles Coliseum.

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Louis Zamperini e Billy Graham se reencontram em 2011, aos 95 e 94 anos respectivamente.

Livro em Mente: “12 anos de escravidão”

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Quando foi lançado o filme “12 anos de escravidão”, me interessei pela história apresentada (com base em todo o alvoroço com relação às premiações e ao próprio Oscar), e decidi que deveria ler o livro antes de assistir ao filme. Isso porque, o livro é um marco na literatura americana, pois trata-se da auto-biografia de Solomon Northup, um negro livre americano, forçosamente tornado escravo durante um período de 12 anos. Isso me chamou muito a atenção, pois antes do lançamento do livro eu não conhecia essa obra e é sabido que poucos negros do tempo da escravidão poderiam escrever seus próprios relatos, seja por falta de oportunidade ou de instrução.

Durante o período de leitura do livro, fiz diversas marcações e gostaria de fazer algumas pontuações aqui neste texto. Já faz quase 1 ano que eu li o livro, portanto ele não está mais tão “fresco” em minha memória, por isso posso me confundir em alguns aspectos. Primeiro devo relatar que o livro é muito mais rico que o filme em explicar as situações vivenciadas por Solomon durante o período em que esteve como escravo, mas isso não tira o mérito do filme de resumir a história e mostrar a realidade de um negro escravo americano no século XIX. Mas uma coisa que eu senti no livro e não percebi no filme, foi justamente a inocência ou o entendimento do personagem com relação a sua situação. Pois o filme nos deixa ver com os nossos olhos o horror e a loucura da escravidão, enquanto que no livro, vemos pelos olhos de Solomon, que, por incrível que pareça, não condena os senhores de escravos, mas condena o sistema a que todos foram submetidos. É claro que ele condena a crueldade e os maus-tratos, e os senhores que são claramente maus, mas em certo aspecto ele deixa a entender que são todos vítimas de um sistema sem sentido que foi passado de geração a geração.

“Não é culpa do proprietário de escravos se ele é cruel; antes, é culpa do sistema no qual ele vive. Ele não consegue se opor à influência do hábito e das relações que o cercam. Ensinado desde a mais tenra idade por tudo o que vê e ouve que a vara foi feita para as costas do escravo, na idade madura não consegue mudar de opinião.”

Isso foi realmente uma das coisas que mais me fez refletir: como um homem que está sob a subordinação forçada de outro pode não condená-lo inteiramente? Isso mostra como nós temos a (in)feliz capacidade de se adaptar. Nós nos adaptamos ao sistema. Isso muitas vezes pode tornar as coisas suportáveis. Mas ao mesmo tempo, pode impedir que mudemos as coisas ao nosso redor. Acho que essa acabou sendo a grande questão para Solomon: não começar a acreditar que aquilo tudo era natural e que não havia meios de mudar sua condição, apesar de todas as tentativas frustradas que tivera até a sua libertação.

“Além disso, de ter uma inteligência igual à de pelo menos muitos homens de pele mais clara, eu era ignorante demais, talvez independente demais, para entender como alguém poderia se contentar em viver na condição abjeta de escravo.”

Ironicamente, Salomon Northup que era um homem livre no estado de Nova York foi sequestrado e acorrentado enquanto fazia uma viagem a Washington, a capital americana. No livro ele descreve essa ironia, a de que no próprio lugar em que era torturado podia avistar o Capitólio, o centro legislativo de sua nação:

“As vozes de representantes patrióticos enchendo a boca para falar de liberdade e igualdade e o clangor das correntes dos pobres escravos quase se mesclavam. Uma casa de escravos sob a sombra do Capitólio!”

“Então passamos, algemados e em silêncio, pelas ruas de Washington, atravessando a capital de uma nação cuja teoria de governo, dizem, repousa sobre a fundação do direito inalienável de qualquer homem à vida, à LIBERDADE e à busca da felicidade! Ave! Colúmbia, que terra feliz de fato!”

Sobre a crueldade dos homens que o açoitavam ele diz:

“Um homem com uma centelha de misericórdia na alma não espancaria nem mesmo um cachorro dessa forma cruel.”

Em determinado momento, Solomon passa a ser escravo de William Ford um pastor batista e é justamente com relação a ele que Solomon parece demonstrar até afeição. Em determinado momento ele faz uma análise psicológica dessa pessoa, brilhantemente escrita no texto abaixo. Análise esta que, acredito, pode ser estendida a muitos outros cristãos:

“… e nada mais faço senão justiça quando digo que, em minha opinião, nunca houve um cristão mais gentil, nobre, cândido do que William Ford. As influências e relações que sempre o cercaram o cegaram para o erro fundamental que está na base do sistema de escravidão. Ele nunca questionou o direito moral de um homem fazer de outro homem seu escravo. Olhando através das mesmas lentes que seu pai antes dele, via as coisas na mesma luz. Crescido em circunstâncias diferentes e sob outras influências, suas ideias sem dúvida teriam sido outras.”

Ainda que seja possivelmente uma verdade, é impressionante que um escravo tenha tal entedimento de seu senhor.

Em determinadas partes do livro, o terror vivido por Solomon é tão grande que podemos fazer um paralelismo com o livro de Jó. Veja a semelhança entre os textos:

“Por que eu não havia morrido em meus primeiros anos – antes que Deus me desse filhos para amar e pelos quais viver?”

“Por que não morri ao nascer, e não pereci quando saí do ventre? Por que houve joelhos para me receberem e seios para me amamentarem?” Trecho do livro de Jó 3.11-12

Há diversos personagens detalhados no livro com histórias impressionantes também. E é impressionante a tristeza que os cerca. Solomon teve sucesso em descrever como a escravidão é capaz de podar e destruir talentos, e como são moldados e destruídos por esse sistema vil. É o caso de Eliza e o caso de Patsey (personagem que deu o Oscar de atriz codjuvante a Lupita Nyong´o). Veja como ele a descreve:

“Havia algo de imponente em seus movimentos, que nem o trabalho pesado nem a exaustão nem a punição conseguiam destruir. Na verdade, ela era um animal esplêndido, e, se a escravidão não houvesse amortalhado seu intelecto em uma escuridão absoluta e permanente, seria líder de seu povo.”

Posteriormente ele diz:

“Ainda assim uma luz fraca jogava seus raios sobre seu intelecto, de forma que não era totalmente obscurecido. Patsey tinha alguma percepção de Deus e da eternidade, e uma percepção menor de um Salvador que morrera por causa até mesmo de pessoas como ela.”

A relação dos escravos com a religião e a forma como muitas vezes os senhores a utilizam como justificativa para seus atos é bem demonstrada no livro e no filme. Ainda assim, percebe-se claramente que Solomon tem boa parte da sua esperança de redenção apoiado na sua fé. Mostra-se isso na sua oração, nos seus cânticos, e também na sua crença de que justiça seria feita à tanta maldade:

“…sim, ele nos deixaria a todos mais quentes do que o reino de chamas no qual às vezes tendo a acreditar que ele próprio algum dia morará.”

“… um tribunal humano permitiu que ele escapasse; mas há outro tribunal, e mais alto, onde o falso testemunho não triunfa e onde estou disposto, pelo menos no que diz respeito a essas declarações, a ser enfim julgado.”

Ao final, ele dá uma impressionante conclusão:

“Não tenho comentários a fazer sobre o tema da Escravidão. Quem ler este livro poderá formar sua própria opinião sobre essa “peculiar instituição”...Isto não é uma ficção, nenhum exagero. Se falhei em algo, foi ao apresentar ao leitor de forma exagerada o lado positivo de tudo.”

Pois bem, vale a pena ler o livro “12 anos de escravidão”, mesmo aqueles que já viram o filme, ganhador do Oscar de 2013, pois é interessante perceber as diferenças e fazer essa análise de tudo, através dos olhos de um homem que vivenciou tal horror. É impressionante percebermos que o único animal racional deste planeta, seja capaz de tal feito com outro de sua própria espécie. E o mais importante, que possamos entender a partir disso os nossos dias atuais, e não nos deixemos cegar pelo sistema, como aconteceu a Willian Ford, mas que estejamos sempre atentos ao sofrimento e contrários à crueldade ao nosso redor.

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Ps: Para aqueles que se confundiram ou se escandalizaram com o texto bíblico utilizado no filme pelos senhores de escravos para justificar os açoites aos escravos (Lucas 12), primeiramente, o texto traz uma descrição da realidade da época, justamente para fazer uma comparação na parábola, segundo, não serve de base para justificar a escravidão ou o açoite. Se nos lembrarmos bem, a escravidão vigorava durante o início do período cristão, e era algo normal, mas o apóstolo Paulo, com a carta de Filemon, nos deixa bem claro qual deve ser a nova postura do cristão diante desta prática, ao recomendar que Filemon receba o ex-escravo foragido, agora como um irmão, assim como ele próprio o considerava:

“Talvez ele tenha sido separado de você por algum tempo, para que você o tivesse de volta para sempre, não mais como escravo, mas, acima de escravo, como irmão amado. Para mim ele é um irmão muito amado, e ainda mais para você, tanto como pessoa quanto como cristão“. Fm 1.15-16

Há muitas recomendações para servos e senhores na Bíblia. Mas em nenhuma delas se vê base para suportar um sistema de depreciação e degradação humana (Ef 6; Cl 3 e 4 entre outras).

Literatura em Mente: Conto “Viver!”, de Machado de Assis

“Os homens têm tal apego à própria miserável vida que aceitam as mais duras condições para conservá-la.” – Montaigne

Machado de Assis provavelmente é o maior nome da literatura nacional. Escritor de enorme reconhecimento, fundador da Academia Brasileira de Letras, escreveu clássicos da literatura nacional como Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Infelizmente, tenho a impressão que, ou por erro nosso, ou infelicidade da nossa querida língua portuguesa, Machado não tem o reconhecimento internacional que merece (e, não fosse pelas leituras obrigatórias de vestibular, talvez não tivesse o nacional também). No entanto, especialmente este ano de 2015 em que o Salão do Livro de Paris escolheu homenagear a literatura brasileira, Machado parece estar ganhando mais espaço internacional.

Apesar de ser um dos mais famosos romancistas brasileiros, alguns críticos defendem que é como contista que Machado atinge seu ápice artístico. E entre os diversos contos escritos por ele, separo especialmente o conto “Viver!” para uma breve discussão. Se você ainda não leu este conto, aconselho que o faça. Tomará no máximo uns 10 a 15 minutos, quando muito. Este conto faz parte da coletânea Várias Histórias, publicada em 1896 e pode ser facilmente encontrado na internet (a obra de Machado já se encontra em domínio público, então pode baixá-la sem peso na consciência).

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Machado de Assis e seu livro “Várias Histórias”, de 1896, onde se encontra o conto “Viver!”, citado no texto

“Viver!” é o relato de um diálogo de Ahasverus, o último homem vivo, no fim dos tempos, com Prometeu, aquele que na mitologia grega teria dado o fogo da vida para os homens. Machado escolhe Ahasverus como o último homem tendo como base a lenda do “Judeu Errante”. Isso é uma história, realmente uma lenda, de origem medieval, na qual um homem judeu, vivendo em Jerusalém à época da crucificação de Cristo, teria sido cruel com este durante a sua via crucis. Como consequencia à sua instigância para que Jesus continuasse a caminhar, ele foi condenado a caminhar até o fim dos tempos, ou seja, não morreria até lá.

“Chego à cláusula dos tempos; este é o limiar da eternidade. A terra está deserta; nenhum outro homem respira o ar da vida. Sou o último; posso morrer. Morrer! Deliciosa idéia! Séculos de séculos vivi, cansado, mortificado, andando sempre, mas ei-los que acabam e vou morrer com eles.”

Como podemos ver, Ahasverus não tem uma visão otimista da vida, claro, e vê na morte o fim de um milenar sofrimento. Em geral, esta é a visão dos escritores realistas sobre a vida e a morte e Machado descreve isso muito bem em sua obra. Ao encontrar-se com Prometeu, Ahasverus continua a descrever a “alegria” de finalmente ter a possibilidade de pôr fim a tanto martírio.

O diálogo dos dois realmente é muito interessante, sendo realmente a riqueza do conto. E Prometeu passa a contra argumentá-lo até que lhe faz uma oferta de continuar a vida e ser o começo de uma nova criação. A ideia, que parecia inicialmente ridícula ao humano, passa, a consumi-lo de forma que, de repente, já está completamente vislumbrado com ela. E mesmo um homem que viveu milênios, passa a se apegar a sua centelha de vida como uma criança que busca o fôlego ao nascer. Ao final do conto, duas águias que circulavam à visão de Ahasverus travam um último diálogo, ao olhar para o homem, dando a entender que tudo aquilo não passava de um delírio de um homem morimbundo, que odiava tanto a vida, justamente porque a amava muito.

“Uma águia. — Ai, ai, ai deste último homem, está morrendo e ainda sonha com a vida. A outra. — Nem ele a odiou tanto, senão porque a amava muito.”

A citação de Montaigne no início do texto, se encaixa muito bem com a moral de “Viver!”. Não existe ser humano que não nasça com essa “sede” de viver!, assim mesmo, com exclamação. E não há homem que não sofra com a possibilidade do fim de sua existência.

Jesus Cristo sabia disso, e não foi à toa que ele chorou à porta da sepultura de Lázaro, entendendo a situação humana, e o ressuscitou, dando esperança a todos nós. Ao morrer não era o fim da existência de Lázaro e Jesus pode provar isso mostrando que é Senhor sobre os céus e sobre a terra, e tem poder para trazer, manter ou salvar toda alma e espírito humano.

Todo homem tem sede de viver, e esse sentimento só pode ser saciado em Cristo Jesus.

“… Eu vim para que tenham vida e a tenham com abundância.” Jo 10.10b
“Aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna.” Jo 4.14

Resenha – Êxodo: Deuses e Reis

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Atenção: contém “spoilers” do filme “Êxodo: Deuses e Reis”.

Esta semana assisti ao mais novo filme religioso da atualidade: Exôdo: Deuses e Reis. Pelo nome, todos já adivinharam tratar-se da história de Moisés e da forma como este liderou o povo hebreu na sua saída/libertação do Egito. Mas apesar do nome, já adianto a vocês leitores, que este se trata muito mais de um filme baseado em um roteiro típico hollyhoodiano, do que em um filme que leve a sério o livro homônimo da Bíblia.

A direção fica a cargo de Ridley Scott e, te garanto, isso já diz muito do que esperar do filme. Ridley Scott é o diretor de alguns filmes de muito sucesso (e alguns fracassos também), incluindo alguns dos meus filmes favoritos como Blade Runner (1982) e Gladiador (2000) além de outros como Cruzada (Kingdom of Heaven – 2005), Alien, o Oitavo Passageiro (1979) e Prometheus (2012). Em geral, seus filmes são ricos em cenas de guerra, lutas, e personagens heróicos, além de cenários suntuosos. Tudo isso se vê em Exôdo. Um Egito tão épico quanto a Roma do Gladiador, e um Moisés tão general quanto Maximus Decimus Meridius. Sim, um general, esqueça o profeta neste filme.

Christian Bale interpreta Moisés neste filme. Na minha opinião, um erro. Não que este não seja um bom ator, pelo contrário, sua capacidade de transformação e foco nos personagens é exemplar. Não é a toa, que fez tanto sucesso como o Batman do Nolan e tem recebido tantas premiações por outras atuações. Mas escolher um ator sabidamente reconhecido pelo seu temperamento difícil e personalidade marcante para interpretar aquele que a Bíblia classifica como o mais manso entre os homens de seu tempo (Nm 12.3), não é muito coerente. Quanto à escolha dos demais atores, não vi problemas, apesar de alguns críticos terem sido ferrenhos com a escolha devido a natureza étnica de alguns deles (brancos, caucasianos interpretando egípcios e hebreus). Na verdade achei que o Joel Edgerton, por exemplo, ficou muito bem como faraó, e convenceu no papel.

A primeira parte do filme, para mim, é a melhor. Cheguei a achar que finalmente veríamos um filme de história bíblica bom no cinema. Pena que após a saída de Moisés do Egito e sua peregrinação, tudo se perde. Não que o filme fique tão ruim quanto o Noé do Darren Aranofsky (bons diretores também cometem seus fiascos), mas chega perto.

Eu sempre tenho medo das representações das histórias bíblicas no cinema. Primeiro porque o cinema sempre adapta as histórias, de forma a alterá-la, seja para deixar a linguagem mais fluida ou aumentar a ação, seja por falta de preciosismo mesmo. Isso já me incomoda, pois na Biblia, cada detalhe é importante. Segundo, certas representações bíblicas não podem ser bem exemplificadas visualmente. Neste sentido, eu entendo a escolha do Ridley Scott em deixar uma criança interpretar Deus, pois de que outra forma poderia representá-Lo? Mas infelizmente essa escolha se mostra terrível ao longo do filme. Deus fica com a personalidade de uma criança birrenta e sua relação com Moisés é péssima. Logo Moisés, o homem que mais se comunicava com Deus e na sua comunhão extrema, falava com Deus face a face. De tantos diálogos maravilhosos que poderiam ter sido simplesmente extraídos da bíblia entre Moisés e Deus, no filme, não há somente um que se salve ou que tenha um valor a mais.

Além disso, Moisés é tido como um agnóstico no filme. E mesmo após todas experiências com Deus e com o povo, ele parecia continuar duvidando. Moisés não evolui como personagem e muito menos chega aos pés do grande personagem bíblico que é.

Isso sem falar nos erros escriturários. Eu entendo que tente-se dar um entendimento mais racional às pragas do Egito. Mas dizer que as águas se tornaram sangue porque os crocodilos devoraram alguns pescadores é demais. Ia ser preciso muito mais mortos que no Dia D da Segunda Guerra Mundial, para tingir todo o Nilo de sangue. Era melhor que ele desse então a típica explicação da maré vermelha ou alguma semelhante. E é claro, desconsidere que a pólvora tenha sido inventada pelos chineses, pois Moisés e os “rebeldes judeus” já dominavam a técnica de causar explosões, 1300 anos antes de Cristo!

Bom, em resumo, Exôdo: Deuses e Reis trata-se de um filme fraco, que não representa a magnífica história bíblica que pretende contar. Não vou dizer que não vale como entretenimento e diversão, pois estaria exagerando. Assisti a este filme no chamado cinema 4D e é interessante você sentir o “ventinho” das flechas atiradas passando pelo seus ombros. O visual do Egito é magnífico, um pouco exagerado, mas magnífico. A representação dos escravos também é muito boa, em alguns momentos lembra fotografias da Serra Pelada aqui no Brasil. E as cenas de ação, bem, as cenas de ação, são o legado de Ridley Scott.

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General Maximus e “General” Moisés: ambos de Ridley Scott. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

“Era o varão Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra…
Não é assim com o meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa. Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a forma do SENHOR; como, pois, não temestes falar contra o meu servo, contra Moisés?” Números 12.3,7-8

Artigo: O Pálido Ponto Azul / Imagem em Mente (03)

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Sim meus amigos, a foto acima é do nosso querido e tão maltratado planeta Terra. Sim, aquele pequeno ponto, circundado acima é o nosso planeta. A foto em questão é uma famosa fotografia tirada pela sonda Voyager 1, em 1990, e foi nomeada por Carl Sagan, o responsável pela missão, de “O pálido ponto azul”. A sonda Voyager 1 é hoje o objeto humano mais longe da Terra (foi lançada em 1977). Este ano ela ultrapassou os limites do sistema solar e, apesar de ter vários dos seus instrumentos não funcionando mais, ainda envia sinais que levam 17 horas para chegar até a Terra.

A foto ficou tão famosa justamente por nos fazer enxergar (literalmente) a nossa insignificância diante de todo esse universo. Como disse o próprio Carl Sagan, todas as pessoas que conhecemos e todas as pessoas que já ouvimos falar, viveram suas vidas ali, naquele pequeno ponto azul.

Ao mesmo tempo, o pequeno ponto parece ‘protegido’ por um raio de sol, reflexo da luz do sol na fotografia, algo que de certa forma o destaca em meio a toda a vastidão. Essa metáfora me faz pensar ainda mais que a primeira.

“Tal ciência é para mim maravilhosíssima; tão alta que não a posso atingir. Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, Até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá. Se disser que as trevas me encobrirão; então a noite será luz à roda de mim. Nem ainda as trevas me encobrem de ti; mas a noite resplandece como o dia; as trevas e a luz são para ti a mesma coisa.” Salmo 139.6-12

Carl Sagan tem um belo discurso realizado em uma conferência em 1996, tendo como base essa foto. Na verdade ele já escreveu até um livro com este mesmo nome (“Pálido Ponto Azul”). O discurso é realmente muito tocante e nos faz refletir muito, especialmente para entendermos a banalidade de nossas guerras e beligerâncias, bem como a necessidade de proteger esse único ponto no universo que foi reservado para nós. O discurso pode ser visualizado no youtube, inclusive em versão dublada, com a narração de Guilherme Briggs.

Todo o discurso pode ser esmiuçado para uma reflexão bem mais abrangente, mas um trecho me chama mais a atenção para nossa ‘mente cristã’:

“As nossas posturas, a nossa suposta auto-importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida. O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar para nos salvar de nós próprios.”

Será mesmo? Não há como negar: “nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca.” Mas como vemos na própria foto, será que não há um raio de luz capaz de nos iluminar em meio a essa obscuridade? Realmente não há esperança para a humanidade para salvar-nos de nossa insignificância e de nós próprios, como diz o texto? É claro que aqui entra a questão da fé. Mas um livro sagrado, muito comentado, mas pouco conhecido de verdade neste grão de areia cósmico, nos fala que toda vez que olharmos para essa luz defletida como a que vemos, de modo a dividir-se em várias cores, especialmente formando um arco de cores, podemos nos lembrar que Aquele que é maior que tudo isso, que há e que não há no universo, sim, o Deus Todo-Poderoso, quer você acredite ou não, realizou uma aliança com a humanidade. Uma aliança de que não seríamos destruídos ou nos destruiríamos gratuitamente.

“E estará o arco nas nuves, e eu o verei, para me lembrar da aliança eterna entre Deus e toda a alma vivente de toda a carne, que está sobre a terra.” Gn9.16

Como eu disse, como sempre, é claro que é uma questão de fé. Mas não sei quanto a vocês, mas em mim tem algo que não se conforma com toda essa insignificância. Eu simplesmente não suporto a ideia de sermos apenas um pequeno ponto dentro de outro pequeno ponto pálido e azul. Sim, eu reconheço que fisicamente, em termos de espaço e de tempo, não somos nada além disso. Mas, perdoe-me Carl Sagan, de alguma forma tem que haver algo mais. Atrás desta cortina tem que haver palcos azuis*. Perdoe-me você que não crê. Mas eu só enxergo a minha significância na minha fé, na minha esperança. E a minha esperança está em Jesus.

“Jesus respondeu e lhe disse: Qualquer que beber desta água tornará a ter sede; mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der ser fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna.” Jo 4.13-14

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Outra foto famosa de nosso planeta. Essa tirada pela missão Apolo 8 enquanto estava em órbita na Lua em 1968.

* Referência à música “Minha Vida” de Chico Buarque.

 

Resenha: A vida secreta de Walter Mitty

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Atenção: contém “spoilers” sobre o filme “A vida secreta de Walter MItty”. Se você não assistiu, leia por sua conta e risco.

Que grata surpresa tive ao assitir ao filme “A vida secreta de Walter Mitty”. Quem poderia imaginar que Ben Stiller, famoso por seus filmes de comédia “pastelão”, poderia produzir e protagonizar um filme desse tipo. Sim, pois não espere deste filme nada que Ben Stiller produziu ao longo de sua carreira. Mas apesar de não esperada, esse tipo de reviravolta não é uma novidade na carreira de comediantes. Jim Carrey tentou fazer o mesmo com “Cine Majestic”,  Adam Sandler com “Click”. Mas acredito que entre estes, Ben Stiller obteve o maior sucesso em sua empreitada.

Walter Mitty (Ben Stiller) é o responsável pelo Departamento de Arquivo e Revelação de fotografias (entenda-se negativos) da antiga revista “Life” que passa por um momento de transição em que serão encerradas as edições impressas da revista, passando a se focar apenas nas edições online. Interessante é que a revista “Life” realmente existiu como no filme e de fato sofreu esta transição, em meados do ano 2000.

Devido à transição, muitas pessoas perderão o emprego ou serão substituídas em prol desta visão inovadora e futurista. Walter trabalha há anos na revista, muito responsavelmente em seu departamento, mas em seu interior, ele vivia uma “vida secreta” de aventuras e fantasias, muitas delas descritas na própria revista que ele editava. E nesse momento de sua vida, Walter conhece (e se apaixona por) Cheryl (Kristen Wiig), mas não consegue um meio decente de abordar a mulher (nem mesmo pelo E-Harmony). Ao mesmo tempo, recebe de Sean O´Connel, o maior fotógrafo e aventureiro da revista, muito bem representado pelo homônimo Sean Penn, uma coletânea de fotos, que incluía uma que estamparia a capa da última edição da revista “Life”, a “25”, que demonstraria nada mais nada menos que a “quintessência da vida”.

Não é preciso ser um roteirista para imaginar que justamente esta foto estaria faltando entre aquelas enviadas. E é justamente à procura desta foto, atrás do fotógrafo Sean, que Walter irá viver as mais incríveis aventuras de sua vida, tendo que sair de uma rotina que já durava anos.

O personagem Walter Mitty não foi criado originalmente pelo roteirista Steven Conrad (o mesmo de “A procura da felicidade”). Ele é o personagem de um conto de 1939 do escritor americano James Thurber e já tinha ido ao cinema em 1947, produzido por Samuel Goldwin. Mitty é um personagem tímido e retraído, mas com uma imaginação muito fantasiosa e o personagem fez tanto sucesso que foi incluído em alguns dicionários da língua inglesa como sinônimo de sonhador inofensivo.

No entanto, não é nos sonhos de Walter Mitty que estão as riquezas do filme, mas sim nas suas realizações. Quando Walter finalmente decide se mover de seu lugar, ele passa por situações inacreditáveis, tudo com o objetivo de encontrar Sean O´Connel e, consequentemente, o negativo de número “25”. No final, ele atinge seu objetivo de forma que nem imaginava, e acaba conseguindo entregar a foto que estamparia a última edição da revista “Life”, sem vê-la.

Ao se deparar com a revista nas bancas, no grande plot twist do filme, qual não é a sua surpresa ao ver a si mesmo estampado na capa, em um momento de trabalho comum, avaliando um negativo. Uma homenagem a todos aqueles que haviam trabalhado silenciosamente para transformar a revista no que era. Mas mais do que isso, a demonstração de que as vezes a “quintessência” está naquilo de mais simples da vida. E às vezes não precisamos sair da rotina para fazer algo realmente extraordinário.

Quintessência é aquilo de mais puro, mais sublime de algo. O termo remete à Aristóteles  que considerava que o universo era composto de quatro elementos principais – terra, água, ar e fogo-, mais um quinto elemento, uma substância etérea que permeava tudo e impedia os corpos celestes de caírem sobre a Terra. É claro que o termo não faz mais referência a isso, mas até hoje é um termo utilizado em física no estudo de campos gravitacionais.

Às vezes é difícil entendermos nossa situação na vida, nossa função como membros de uma igreja, de uma escola, de uma empresa ou de uma família. Às vezes não conseguimos ver nossa importância em algo que permite que as engrenagens continuem rodando. Todos se espelham e querem ser como o rei Davi, que travou guerras, venceu batalhas, matou o gigante. Mas muitos se esquecem que às vezes precisamos ser como Jônatas, que tinha direito, como filho de Saul, ao trono, mas soube entender que Davi era a melhor opção; Ele não destruiu sua amizade com Davi e, ao mesmo tempo, foi filho obediente a um pai autoritário e amargo (fato que acabou o levando à morte em campo de batalha). Da mesma forma, muitos se imaginam como Sean O´Connel, mas, se esquecem que ser Walter Mitty também se faz necessário.

A vida, por certo, é muito mais complexa do que representada nos filmes, mas é claro que ela tende a ser bem menos “fantasiosa”. Provavelmente você jamais irá lutar com um tubarão ou sobreviver a um vulcão em erupção. Talvez você nunca esteja num campo de batalha ou se torne um refugiado num país muçulmano. Mas a questão não é se você irá fazer, mas como irá fazer. Não podemos nos deixar levar pelo marasmo, pela rotina que não nos deixa nos mover, claro. Mas em cada trabalho que fazemos, em cada momento que vivemos, devemos ter por objetivo fazer o melhor. E nos preparar. Mesmo que você esteja acostumado apenas com a comédia, se prepare também para um possível papel dramático. Pois quem sabe se amanhã não teremos algo grandioso para fazer? Quem sabe se amanhã não teremos que matar um gigante?

“Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças” Eclesiastes 9.10a

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Artigo: Pilarização

Pilarização é, como o nome diz, a divisão  em pilares. Esse termo, não muito conhecido por aqui, é um tipo de organização social baseada na divisão e segregação, famoso por sua ocorrência na Holanda e Bélgica (verzuiling em holandês). Estas sociedades eram, e em algumas esferas ainda são, divididas verticalmente de acordo com diferentes religiões e ideologias.

Diferente de uma sociedade de castas, como ocorre na Índia, em que há uma divisão horizontal e hierárquica, ou mesmo do apartheid, na África do Sul, nos Países Baixos vemos uma divisão sem hierarquização, de modo que cada um dos pilares possui suas próprias instituições sociais e poderes: seus próprios jornais, seus próprios partidos políticos, bancos, escolas, hospitais e clubes esportivos. A divisão principal, no final do século XIX e século XX era entre protestantes (oriundos de tradição calvinista, forte nos países baixos), católicos e socialistas.

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Após o final da segunda guerra mundial iniciou-se um movimento para se acabar com este tipo de segregação na sociedade holandesa, mas como já foi dito, muitos resquícios desta sociedade ainda podem ser vistos. E uma foto tornou-se um símbolo desta segregação:

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Na foto em questão vemos os túmulos de um casal holandês (JWC van Gorkum e JCPH van Aefferden), no cemitério ao redor da cidade de Roermond. Ele era protestante. Ela era católica. Por isso foram proibidos de serem enterrados na mesma área do cemitério (ele faleceu em 1880 e ela em 1888). Esta foi a maneira que a família encontrou de homenagear o casal.

Bom, mas não estou aqui para um final clichê melodramático, mostrando como o amor é capaz de superar as mais difíceis barreiras e como ninguém pode separar e etc, até porque como disse Jesus “Não sabei vós que na ressurreição as pessoas não se casam nem se dão em casamento; mas são como os anjos no céu?” (Mt 30.22 / Mc 25.12). Estou aqui para mostrar como a pilarização está enraizada na cultura protestante por todo o mundo.

Seja abusando dos termos bíblicos como jugo desigual ou roda dos escarnecedores, sempre esteve enraizado na cultura evangélica a necessidade de se segregar. É verdade que o próprio termo igreja (eklésia) tem o sentido de se ser separado, tirado para fora. E é verdade que temos que nos afastar realmente da maldade, das impurezas e porque não evitar o “jugo desigual”. Mas quando cristãos (no caso, protestantes), relacionam-se somente com cristãos, trabalham com cristãos, contratam somente cristãos e fazem amizades somente com cristãos, isso passa a ser pilarização.

Nesse momento, talvez o mais atento dos leitores pode se perguntar, mas qual é o problema de se pilarizar o cristianismo? Ora, pilarizar é nos fecharmos em nosso “mundo que não é do mundo”. É ignorar o sofrimento e as necessidades dos outros e também tudo aquilo que eles podem nos ensinar. É ir contra o “Ide de Jesus”, mas não só contra o “Ide”, é ir contra o conhecimento, contra as relações humanas, contra o amor.

Portanto, não acho que a pilarização seja algo bom para nós cristãos. Não sou contra a criação de escolas ligadas a igrejas ou universidades, ou até mesmo partidos políticos. Só não acho que nós precisamos de toda aquela “bancada evangélica” defendendo os “interesses da Igreja” e ignorando todas as outras questões que são fundamentais à toda a sociedade.

Vós sois a Luz, não se pode esconder uma cidade edificada sob um monte Mt5.14. Nós não estamos aqui para nos esconder ou viver em uma redoma. Pelo contrário, deve partir do cristão o bom exemplo. E esse bom exemplo deve contemplar saúde, economia, cultura, meio ambiente. Deve contemplar honestidade e transparência. Um cristão que não contrata, não conversa, ou não ouve um não cristão, não é um bom exemplo. Um cristão que ignora as necessidades mais básicas das outras pessoas não é um bom exemplo. Não é luz.

Os ascetas defendem o caminho da santidade, como a reclusão e a fuga de toda a sociedade humana e tudo que ela oferece. Não deixa de ser um caminho válido. Mas também posso te dizer que não foi à toa que Jesus comeu e bebeu com publicanos e pecadores, e morreu ao lado de dois ladrões, em uma cruz, assim como em determinado momento se manteve recluso no deserto para santificação. Mas afinal, se Jesus não tivesse saído de sua “redoma”, que chance nós teríamos?

Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo. Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros. Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsisitindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.” Fp 2.3-8

“Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte. E, também, ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Ao contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus.Mt 5.14-16

Artigo: Negro espiritual

“Free at last, free at last (Finalmente livre, finalmente livre)
I thank God I’m free at last (Eu agradeço a Deus, finalmente sou livre)
Free at last, free at last
I thank God I’m free at last”

Antigo Negro Espiritual, compilado em 1940 por J. W. Work e citado por Martin Luther King em seu famoso discurso “I have a dream”.

Negro espiritual (negro spiritual) são aquelas famosas canções que tem origem na comunidade cristã afro americana. Considera-se que elas tiveram seu início ainda nos tempos de escravidão e por isso em geral, as melodias tem um tom contemplativo e até mesmo melancólico, apesar de, claro, apontarem para a esperança de dias melhores (seja na terra ou nos céus).

Em geral, a esperança que se percebe nestas canções se refere à liberdade, que os primeiros compositores realmente apreciavam, tendo em vista sua situação de escravos. Há até mesmo alguns negro espiritual que parecem ter sido utilizados para indicar ou orientar os negros o caminho da liberdade (física, no caso), como é o caso de Wade in the Water:

Ande na água (criança)
Ande na água
Ande na água
Deus vai balançar (atormentar) a água

Apesar do aspecto metafórico de “água” no caso, (o mesmo que se vê em “Águas Purificadoras” do Ministério Diante do Trono ou ‘Faz chover”, interpretado por Fernandinho), e do fato dele fazer menção ao Anjo que mexia a água do Tanque de Betesda, no Novo Testamento, acredita-se que este hino servia de instrução aos escravos ao ponderar que o caminho pela água era o melhor para se fugir, tendo em vista que não poderia ser rastreado por cachorros.

Recentemente ouvi também que os negro espiritual se utilizam de uma escala pentatônica, de modo que pode-se tocar utilizando-se apenas das teclas pretas do piano. Não sei se isso vale para todas as canções (até porque no início eram melodias cantadas por escravos que por certo não tinham educação musical clássica, ou mesmo acesso a um piano), mas de fato muitas delas encaixam-se nesse perfil.

Uma das cancões negro espiritual mais famosas hoje é “Amazing Grace”. Isso é bastante interessante pois a letra desta canção foi escrita justamente por um inglês chamado John Newton, que antes de se converter teria sido mercador de escravos, em navios negreiros.

“Sublime graça! Como é doce o som,
Que salvou um miserável como eu!”

Tradução dos versos iniciais de “Amazing Grace”

O sofrimento vivido por um negro escravo, nos séculos XVIII e XIX, realmente não pode ser traduzido em palavras e é uma daquelas barbaridades humanas difíceis de explicar.

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!…
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! .
Trecho de “Navio Negreiro” de Castro Alves

Ao longo do século XX, várias lutas ainda foram travadas em prol dos direitos dos negros e do fim da discriminação. Neste cenário, uma pessoa se destaca, como um homem que pregava um sonho como objetivo e a paz e o perdão como o caminho: Martin Luther King Jr. Esse pastor batista americano, homônimo de nosso reformador da igreja, foi o ícone desta luta e terminou seu discurso mais famoso dizendo:

“…E quando isto acontecer, quando nós permitimos o sino da liberdade soar, quando nós deixarmos ele soar em toda moradia e todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho negro espiritual:
“Livre afinal, livre afinal.
Agradeço ao Deus todo-poderoso, nós somos livres afinal.””

Trecho final do discurso de Martin Luther King em Washington D.C. em 28 de agosto de 1963 (foto abaixo)

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A música tem um papel muito importante na vida cristã, especialmente nas dificuldades. Paulo e Silas cantavam hinos enquanto estavam presos na Macedônia. Davi compôs diversos Salmos em momentos de aflição. Os negros escravos e discriminados que depositaram sua fé em Jesus Cristo, cantavam o sonho da liberdade, o mesmo sonho citado por Martin Luther King, e a fé lhes dava esperança de redenção. Pode-se perceber que nenhum deles viu seu sonho se concretizar em vida, mas sem dúvida o fizeram em vida após a morte, onde todos cantaremos a liberdade plena que vivenciaremos em Cristo Jesus!

“Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória em que nos há de ser revelada. Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus. Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou. Na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de DeusRomanos 8:18-21

Resenha: As Aventuras de Pi

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Atenção: Contém spoilers do filme “As Aventuas de Pi”

Ontem fui assistir “As Aventuras de Pi” (Life of Pi – 2012), filme de Ang Lee, no cinema e não poderia deixar de citá-lo em nosso blog de reflexão cristã. Isso porque a temática religiosa neste filme é forte e, porque não dizer, inteligente.

Em aspectos gerais, o filme, uma adaptação do livro de Yann Martel, é muito bom. Em termos visuais, é um deslumbre. O 3D, bem aplicado. Mas, como já foi dito, o que nos interessa é a temática religiosa que o filme aborda. No começo somos apresentados a um homem sendo entrevistado por um escritor em busca de uma história fantástica. Esse homem é Piscine Patel, ou, Pi Patel, um indiano, que tem como marco uma história de sobrevivência no mar.

Pi Patel começa a contar-lhe a história desde a infância na Índia, e como sua infância foi marcada pelo contato com 3 diferentes religiões: o hinduísmo, o islamismo e o cristianismo. Pode-se considerar que a figura de seu pai, fazendo sempre questão de “trazê-lo à tona” e mostrar-lhe a realidade da vida, incentivando-o a seguir a razão, coloca esta (a razão ou a ciência), como uma quarta religião. Mas é claro que posteriormente a discussão irá se resumir basicamente no velho (mas nunca ultrapassado) debate entre fé e razão.

Apesar de muito interessante as cenas de discussão sobre religião, especialmente aquelas em que Pi questiona o padre sobre diversas dúvidas que apresentava, o filme, inteligentemente, não desanda a mostrar qual delas seria a melhor, ou qual a mais verdadeira, até porque geraria aí uma guerra de religiões. No entanto, uma frase do filme é bastante interessante: “Encontrei a fé através do hinduísmo, mas o amor de Deus através de Jesus Cristo”.

A partir deste ponto, o debate irá se resumir em acreditar ou não acreditar e nós também resumiremos o debate a isso, para que faça sentido em nosso contexto. Se Pi tem uma crença “correta” ou não é um outro debate, bem diferente.

O pai de Pi era o proprietário de um zoológico na Índia e, por razões diversas, se vê obrigado a transferir-se com sua família e com seus animais para o Canadá. Em determinado momento, no meio do Pacífico, uma tragédia ocorre, o navio afunda e sobrevivem apenas Pi, o tigre Richard Parker, uma hiena, um macaco e uma zebra, que posteriormente se resumirão a apenas Pi e Richard Parker. Ambos sobrevivem em um mar que demonstra-se fantástico e ao mesmo tempo assombroso. Após questionar sua fé, Pi entende que alguns fatos que acontecem com eles durante este processo, são de alguma forma, intervenção divina para que ele conseguisse se salvar.

Ao final do filme (já avisei que havia spoilers!), vemos o escritor com dificuldade em acreditar em história tão fantástica, assim como não acreditaram os auditores do navio japonês que entrevistaram Pi quando chegou a costa do México e estava no Hospital. Então este conta uma história que parece muito mais plausível, basicamente trocando os animais por pessoas.

A questão do filme não é fazer refletir qual história reflete a realidade. Até porque, em meu entender, a segunda história é a que aconteceu na realidade, e a primeira foi a que (realmente) aconteceu nas entrelinhas, ou seja na própria pessoa de Pi. Apesar de somente ele ter sobrevivido, para passar por essa experiência, o garoto adolescente precisou dividir espaço no bote com seu tigre interior. Ou seja, ele era o garoto e ele era o tigre. Se em seu próprio ser não houvesse um tigre, não haveria espaço para sobrevivência também. E como o próprio narrador fala, alimentar este tigre faz ele persistir, e em determinado momento ele agradece a Deus por ter o tigre com ele.

Quando finalmente está em terra seca, na costa do México, o tigre simplesmente vai embora. Não se despede. Não há comoção. E é assim, o tigre dentro dele só se fazia valer em momentos como aquele no mar. Fora dele, ele simplesmente desaparecia.

Fato é que uma tragédia ocorreu no mar, e somente um menino sobreviveu. Para aqueles que olham a história friamente, trata-se de uma simples história de sobrevivência no mar. Um garoto que teve a sorte de sobreviver 227 dias em alto mar. É nisso que pode-se acreditar. Agora aqueles que preferem um olhar mais profundo, muito mais coisas, fantásticas e impressionantes aconteceram, para que Pi vencesse o mar. E ele próprio prefere essa versão mais fantástica. A versão que o faz acreditar em Deus.

Mas o que isso tem a ver conosco? Ora, será que isso não acontece conosco? Como entendemos tragédias e alegrias em nossas vidas? Nós todos e, especialmente nós cristãos, procuramos sempre dar significados às coisas que acontecem em nossas vidas. Quantas vezes passamos por dificuldades ou momentos difíceis? Após passarmos por estes momentos, nós, que vivemos isso, podemos adotar essas duas posturas diferentes: Venci, porque era pra vencer, ou venci, porque Deus me deu força, e por que não, um tigre para vencer? O fato que aconteceu é apenas um, mas a forma como o entendemos, depende de nós.

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A altivez da detenção da verdade

A Altivez da Detenção da Verdade

Hoje fui ao banco. Sim ainda há pessoas que vão ao banco e, acredite, ainda há pessoas nas filas dos bancos. Precisei ir porque deixei uma conta vencer. Em geral isso seria uma experiência comum e sem valor, exceto monetário (essa foi péssima…), mas algo diferente aconteceu. Um senhor que estava na fila, logo atrás de mim, começou a conversar comigo.

Não me lembro bem como a conversa começou, mas o assunto se iniciou em uma discussão sobre bancos, em como um de nossos ex-presidentes faliu o Banespa, entregando-os nas mãos de sua amante (palavras dele, por favor hein…) e também o Banco Nacional. Depois de alguma forma falou sobre o Chelsea e em como o dono deste time enriqueceu à base de vendas de bombas atômicas da antiga União Soviética (!).

Até então tudo bem, eu ouvia, interagindo e, de certo modo, até mesmo interessado no conhecimento (ou não), que o cidadão tinha a passar (até porque não tinha muito pra fazer ali). Mas de alguma forma o padrão de afirmativas começou a deteriorar de tal forma, que em algum momento ele chegou a enaltecer Hitler (prefiro entender que foi ironicamente, com o objetivo de justificar a crítica que faria ao estado de Israel) e afirmou, como o detentor de toda a sabedoria do mundo, que Israel mantinha campos de concentração na faixa de Gaza. Ao entrar no campo “religião”, afirmou categoricamente serem o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, ramificações da mesma mentira.

O pior, foi a justificativa para isso. “Aqueles grupos tribais eram um monte de analfabetos… O pessoal começou a escrevê-los 500 anos atrás. Olha só: até a mãe da rainha Elizabeth, a atual, era analfabeta…”.

Logicamente, a esta altura, já o estava contrariando em tudo o que dizia. Não me identifiquei como cristão, ou evangélico. Mas falei que ele dizer aquilo era absurdo, que ele desvalorizava o valor da cultura antiga, que existiam os escribas que eram responsáveis pela notação e escrita e que, na época de Esdras por exemplo, (não citei o nome Esdras), os hebreus tinham até mesmo notação musical, para o registro dos salmos, muitos deles lidos até hoje em nossas igrejas.

A conversa terminou com o senhor elaborando diversas afirmativas a respeito da Bispa Sônia que, pra não me alongar, não citarei aqui (não estou defendendo a bispa, mas claramente muitas das coisas eram provavelmente mentiras) e aí, finalmente, fui chamado ao caixa.

Você pode estar se perguntando porque estou escrevendo a respeito desta conversa, mas o que me chama atenção aqui é algo que vem contaminando boa parte das pessoas, seja na vida pessoal, nas igrejas, nas escolas e, principalmente, na internet, lugar onde pode-se dizer o que quiser quando quiser: a detenção da verdade.

Sim, diversas pessoas se consideram detentoras da verdade. Muitas vezes a pessoa não  sabe nada sobre um assunto, ou pior, sabe um pouco ou até bastante (mas não o suficiente), e toma algo por verdade, e faz questão de espalhar a sua verdade a todo o resto de uma “população ignorante” que, diferente dele, não percebe claramente a realidade a sua volta.

Hoje eu vejo isso o tempo todo. Vejo diversos ateus se considerando os “donos da verdade” e dizendo como cristãos de todo mundo podem acreditar nessa “bobagem” da Bíblia e, pior, como são cordeirinhos manipulados por crápulas sedentos de dízimos e ofertas.

Mas não vou ser imparcial. Essa atitude de ateus de todo o mundo também é uma represália a milhares de cristãos que fazem o mesmo há tanto tempo. Tudo o que importa sou eu, que oro e vou à igreja todos os domingos. Os outros são todos ignorantes que merecem queimar no fogo eterno para todo o sempre.

Querido leitor: é exatamente isso que eu quero deixar bem longe deste blog e de nossas discussões: a altivez da detenção da verdade. Nós somos cristãos, e claro, entendemos que o que acreditamos é a verdade e também acreditamos que esta verdade é a nossa libertação (Jesus Cristo, o caminho, a verdade e a vida). Mas não podemos nos considerar acima dos que não acreditam nisso e cairmos no erro da altivez e da ignorância da detenção da verdade.

Nós cremos, pela fé e pela razão. Por isso discutimos e estudamos Teologia. Para dar razão a nossa crença. Mas pode ser que muitas pessoas jamais acreditem naquilo que acreditamos. E muitas vezes não vai adiantar falar, provar, discutir ou, principalmente, brigar, porque a base de qualquer religião, e principalmente do cristianismo, é a fé. E fé, só depende de cada pessoa.

Portanto, o mais importante aqui é: não caiamos no erro de ridicularizar outras pessoas, sejam ateias ou seguidores de outras religiões, principalmente sem ouvir ou entender o que creêm. Não saiamos por aí distribuindo afirmações infundadas ou até mesmo agressivas sobre outros pensamentos. Eu, sempre estou disposto a falar sobre o que creio. Mas se estou disposto a falar, o mínimo que se espera, é que esteja disposto a ouvir. Cada pessoa crê no que quer, mesmo que isso pareça ridículo para você. Se Deus deu o livre arbítrio e o livre pensamento, quem somos nós para condenar alguém?

Nós cremos não só porque a nossa crença faz sentido em nossas cabeças, mas, principalmente, porque nossa fé de alguma forma mudou algo em nossos corações, em nossas mentes, em nosso ser. É por isso que pregamos o evangelho. Mas se isto serve para vivermos em uma guerra de quem é o ignorante ou quem é o verdadeiro detentor da verdade universal, há algo errado aí.

Não sejamos ignorantes. Não caiamos na altivez da detenção da verdade.

“Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo”. Filipenses2.3