Filme e Livro em Mente | Na Natureza Selvagem – A felicidade em um ser social

O ser humano é um ser social. Desde a nossa mais tenra idade, somos voltados para o desenvolvimento de importantes habilidades sociais, que irão moldar toda a nossa vida. Em casos específicos, em geral patológicos, essas habilidades podem encontrar-se deficitárias, variando conforme o tipo e o momento do surgimento em um grande leque de alterações: autismo, esquizotipias, transtornos da personalidade, fobias sociais.

No entanto, apesar da nossa inerente capacidade de sermos sociais, até hoje ainda não sabemos ao certo qual o tipo de sociedade ideal e, por isso, ainda nos degladiamos em discussões sem fim acerca do capitalismo, socialismo, democracia, etc. E, mais que isso, ainda sofremos em meio a uma sociedade que cobra demais e marginaliza a muitos. É no meio desse conflito que temos a história real de Christhopher McCandles, conhecida pelo livro de Jon Krakauer e pelo filme homônimo “Na Natureza Selvagem” (Into the Wild – 2007).

poster filme e livro na natureza selvagem

“Na Natureza Selvagem” (“Into the Wild”). Filme e livro

Christhopher era o filho de Walt e Whilhelmina McCandles, donos de uma empresa de consultoria. Walt já havia trabalhado para a NASA e tinha uma inteligência, aparentemente proporcional à sua rigidez. Um casal bem-sucedido dentro do “american way of life”. Já adolescente, Christhopher e sua irmã descobriram que o pai tinha outro filho de um relacionamento anterior e isso parece ter mexido bastante com eles.

A crescente raiva da sociedade, do materialismo e de toda falsidade moral inerente a esses, não impediram que Christhopher se graduasse na Universidade de Atlanta em História e Antropologia. No entanto, após a graduação, ele decidiu fazer uma viagem sozinho pelos vários estados americanos, após ter doado todo seu dinheiro que tinha no banco a instituições de caridade, decidido a depender somente da natureza e dos que encontrava no caminho. Nesse momento ele muda seu nome para Alexander “Supertramp” (algo como super-andarilho), e deixa a todos que conhece sem saberem de seu paradeiro.

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Christhopher McCandles, durante sua peregrinação como “Alexander Supertramp”

Toda a história, as aventuras, as amizades, muito interessantes, vocês podem ver nas obras sobre a vida do Chisthopher, em especial no famoso filme de 2007, dirigido por Sean Penn, com Emile Hirsch no papel principal, e a presença de diversos atores conhecidos: Vince Vaugn, Kristen Stewart, William Hurt, Marcia Gay Harden. Não irei me deter aqui nessas histórias, mas vale a pena assistir ao excelente filme (que tem seus problemas de ritmo talvez, mas mesmo assim excelente), que conta ainda com uma trilha sonora toda especial, composta e cantada por Eddie Vedder (ex-vocalista do Pearl Jam).

Fato é que o objetivo de Christhopher após dois anos de peregrinação, foi chegar ao Alasca, onde objetivava viver dependendo totalmente da natureza, como escrevia em suas notas em seu diário e em seus livros que o acompanhava:

“Sem jamais ter de voltar a ser envenenado pela civilização, foge e caminha sozinho pela terra para se perder na floresta.”

Christhopher, ou Alexander Supertramp, viveu nessa região totalmente sozinho e isolado, se abrigando em um ônibus abandonado durante cerca de 4 meses. O ônibus é um capítulo à parte. Até hoje é trilha para aventureiros que desejam refazer a rota feita pelo Supertramp. O que um ônibus fazia abandonado em meio ao nada na região é um mistério, mas serviu de abrigo para Christhopher que o apelidou de “magic bus”, mostrando o caráter aparentemente místico com que encarava toda a sua experiência.

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Christhopher McCandles e o “Magic Bus”. Uma porção da sociedade, no meio do nada.

Os relatos escritos por Chris em seu diário e em suas notas que fazia em meio aos livros de Thoreau, Tolstoy, Jack London, demonstram como ele viveu da euforia ao extremo desespero, vendo-se em determinado momento “aprisionado” pela natureza que o cercava. Vivendo de pequenas caças que realizava e de sementes, Christhopher se viu cada vez mais magro, fraco e, possivelmente, envenenado pelas sementes que ingeria. Em 6 de setembro de 1992 foi encontrado morto por um grupo de caçadores, dentro do ônibus, com o corpo já em decomposição dentro de um saco de dormir. Na porta do ônibus:

“S.O.S. Preciso de ajuda. Estou aleijado, quase morto e fraco demais para sair daqui. Estou totalmente só, não estou brincando. Pelo amor de Deus, por favor, tentem me salvar. Estou lá fora apanhando frutas nas proximidades e devo voltar esta noite. Obrigado, Chris McCandles.”

Como essa frase tristemente se contrapõe à alegria inicial da aventura é de chocar os corações. E como ao final dela, diferente de em outros momentos, ele assina seu nome real e não Alexander “Supertramp”. Como consolo, dentro do ônibus, uma frase deixada por ele acalanta um pouco mais:

“Tive uma vida feliz, e agradeço ao Senhor. Adeus e que Deus vos abençoe a todos.”

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Entre as polêmicas que envolvem a história de McCandles, entre os muitos que o consideram um herói e entre aqueles que o consideram um suicida, muitas lições podem ser tiradas. Na natureza ou na sociedade, muitas vezes o homem irá se ver deslocado em sua existência. Desde as primeiras civilizações o homem forma grupos como um meio de adaptação a um ambiente possivelmente hostil. E desde as primeiras civilizações os grupos exigem do homem uma adaptação que nem sempre é simples. Se McCandles tinha algum transtorno psiquiátrico? Talvez. Me parece uma personalidade bastante esquizotípica. Mas que as angústias e a revolta apresentadas por ele são uma coisa real e viva nas sociedades de hoje, isso não há dúvidas.

Esse falso moralismo tão presente, não é exclusividade das sociedades ocidentais, nem muito menos de nosso tempo. O farisaísmo, em sua essência mais criticada, é exatamente isso. E como Jesus criticava o farisaísmo. Como Jesus era crítico da sociedade de sua época. Talvez hoje, diriam que ele era “de esquerda”.  Jesus inclusive, antes de iniciar seu ministério, se exilou por 40 dias no deserto, mantendo-se longe de toda contaminação espiritual que a sociedade poderia lhe trazer naquele momento.

No entanto, o que homens como Chris McCandles, Thimoty Treadwell (outro famoso morador de áreas selvagens habitadas por ursos), e outros tantos eremitas não percebem (ou percebem tarde demais), é que sem o convívio social, não somos completos. Sem pessoas para partilharmos nossas tristezas, nossas angústias, nossas alegrias não podemos ser felizes, como Chris escreveu em meio a um exemplar de Dr. Jivago, pouco tempo antes de morrer:

“A felicidade só é real quando compartilhada”

Viver socialmente é algo intrínseco a nós. Está em nosso DNA. No Gênesis, Adão não era completo e feliz, antes que Deus lhe desse uma “adjutora que estivesse como diante dele”. Isso, mesmo com Adão vivendo em total harmonia com a fauna e flora de um jardim natural que em nada lhe era hostil. Somente após a existência de um outro ser humano com quem pudesse compartilhar sua vida, suas alegrias, ele poderia ser realmente feliz. Outros grandes homens da Bíblia, passaram seus piores momentos quando estavam abandonados e se sentiam sozinhos, em especial em ambientes selvagens como o deserto: Elias, Jonas, Moisés, Agar. Parafraseando Tom Jobim: “… é impossível ser feliz sozinho.”

“O olhar de amigo alegra ao coração; as boas-novas fortalecem até os ossos.” Pv 15.30

Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também. E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição.” Cl 3.13-14

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Documentário em Mente – O Sal da Terra

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O que significa ser o “Sal da Terra”? Essa expressão, muito conhecida no mundo cristão, é uma metáfora sublime e, ao mesmo tempo, complexa, citada por Jesus, e registrada no Evangelho de Mateus 5.13. Essa expressão também dá nome ao ótimo documentário de Win Wenders e Juliano Salgado, sobre a obra do grande fotógrafo brasileiro Sebastião SalgadoO Sal da Terra (2014) é uma produção franco-ítalo-brasileira e foi bastante aclamado e premiado, tendo sido nomeado ao Oscar em 2015.

Apesar da experiência do alemão Win Wenders à frente de ótimos filmes e documentários, a impressão que tenho aqui é que ele, espertamente, deixou o filme “rolar”. Ele opta por fazer “o simples”: contar um pouco da vida e obra de Sebastião Salgado, de forma lógica, direta e cronológica. No entanto, como ele mesmo reconhece, filmar um fotógrafo como Salgado não é simples pois, quase automaticamente, este toma as rédeas de enquadramento, cenário, iluminação e tende a não se mostrar frente às lentes de uma câmera. Por conta disso, o filme passa a impressão de ser uma grande obra do próprio Sebastião, só que em movimento. Tanto que, ao final, tive a impressão de não saber quase nada ainda sobre a pessoa de Sebastião Salgado, mas de ter aprendido muito sobre a natureza humana.

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Da esquerda para a direita: Win Wenders, diretor do documentário; Juliano Salgado, filho de Sebastião e co-diretor; Sebastião Salgado, fotógrafo “do homem e da terra”

Sebastião Salgado, por incrível que pareça, se formou em Economia. Quando jovem foi um ativista político durante a Ditadura Militar, época na qual optou por se exilar na Europa. Em Paris morou com a sua esposa Lélia onde teve dois filhos. O primeiro, Juliano, é co-diretor do documentário em questão.

Apesar de aparentemente bem-sucedido como economista, em Paris, Sebastião Salgado descobriu a fotografia, que acabou se tornando sua grande paixão. Apoiado pela esposa Lélia decidiu então se aventurar em grandes projetos com a câmera nas mãos. Viaja pela América Latina, Europa, África. Ao buscar se encontrar como profissional, Sebastião Salgado acabou encontrando a lastimável realidade humana.

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Sebastião Salgado em um dos seus primeiros projetos: “Outras Américas”, em que viajou por cerca de 7 anos pelas mais remotas regiões da América Latina.

O filme conta passo a passo a transformação de um economista em um aventureiro que passou a se especializar no registro das mais duras experiências humanas. O foco da maior parte do trabalho de Salgado no “Homem” e sua interação no meio, é o que dá o nome ao filme “o sal da Terra”. O homem é o sal da Terra. É o que dá ação a uma paisagem, sentimento a um horizonte ou sentido a um fenômeno qualquer da natureza. Mas em pouco tempo Sebastião descobriu o quanto esse sal é muitas vezes simplesmente (e violentamente) jogado por terra.

Ao fotografar refugiados, homens em guerra e miséria, Sebastião aparentemente perdeu a fé na humanidade. A “gota d´água” foi em Ruanda, onde após testemunhar genocídio tal, onde o corpo humano nada mais é do que um amontoado na rua, e onde uma população inteira simplesmente “desaparece”, Sebastião decide parar com o ofício. Tirar fotos e testemunhar tamanha crueldade humana, passa a não fazer mais sentido. Como ele diz: “quando voltei, minha alma estava doente”.

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Sebastião Salgado fotografando um campo de refugiados em Ruanda, no seu projeto “Êxodos”. A realidade encontrada no massacre em Ruanda foi demais para o fotógrafo.

O filme conta um pouco de como a ideia de se restaurar uma grande área de Mata Atlântica da antiga fazenda da Família Salgado, traz nova perspectiva ao fotógrafo que decide retornar ao ofício em um projeto que ele chama de “uma grande homenagem ao planeta Terra”: Gênesis. Quem já teve a oportunidade folhear esse livro, sabe de que obra maravilhosa estamos falando.

Apesar de não abandonar o sentimento humano, a partir desse momento o documentário embarca em uma proposta ambientalista que, apesar de fundamental, não parecia ser a ideia original. O sal então é deixado de lado, em prol da Terra.

É triste perceber o quanto o homem prejudicou a Terra. O quanto destruiu ecossistemas, habitats, faunas. Mas é ainda mais triste perceber o quanto o homem prejudicou a si mesmo. Como já fomos capazes de tantas maldades com outros da nossa própria espécie?

Não sei se ao final a mensagem do filme é positiva ou negativa. Entendo que a iniciativa do Instituto Terra mostra capacidade do homem em restaurar e corrigir. Não sei se isso vale para as perseguições, genocídios, holocausto.

Digo que, biologicamente, o corpo humano é em boa parte formado por água e sal. A mesma água e o mesmo sal que estão na Terra e já estavam lá no Gênesis. A mesma água e o mesmo sal que foram derramados das veias dos milhões de pessoas que um dia já sofreram atrocidades e que formam o sangue que hoje choca e clama a injustiça, como o de Abel clamou. A mesma água e o mesmo sal da terra… (Mas às vezes tão insípido…)

“Vós sois o sal da terra; mas se o sal se tornar insípido, com que se há de restaurar-lhe o sabor? para nada mais presta, senão para ser lançado fora, e ser pisado pelos homens.” Mateus 5.13

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Sebastião Salgado folheando “Gênesis”. Sua “carta de amor ao planeta”.

Cinema, Teatro, Literatura em Mente – Macbeth: A Ambição que corrompe e mata.

Macbeth-PosterAssisti recentemente ao filme Macbeth: Ambição e Guerra (2015) do diretor Justin Kurzel, com Michael Fassbender e Marion Cotillard. Fui com grande expectativa, pois Macbeth (peça escrita por William Shakespeare), é uma história de que eu gosto muito e, que já tinha tido a oportunidade de assistir sendo executada em teatro popular e também já tinha tido contato com a ópera homônima (e baseada na peça), de Giuseppe Verdi. Não digo que saí decepcionado, mas também não me impressionei com as cenas em câmera lenta “a la” Zack Snider em 300 de Esparta e com a brutalidade desejada pelo diretor em sua versão. Mas, ao mesmo tempo, é uma das versões mais fiéis à obra original, respeitando o texto integralmente.

Certa vez ouvi de alguém, não lembro quem, nem em que ocasião, que “todas as histórias já haviam sido contadas por Shakespeare”. Isso claro, era uma alusão ao fato de que toda história hoje, por mais original que fosse, se baseia e possui aspectos humanos que já foram trabalhados algum dia, afinal, os dramas humanos, dentro de realidades bem diversas, são os mesmos desde o início das civilizações. E Shakespeare possui o mérito de ter trabalhado os mais diversos dramas humanos magistralmente em suas peças. Esse é o fator “eternizador” de suas obras que são o foco de tantas releituras e transcrições há mais de 4 séculos.

Hoje em dia podemos “consumir” Shakespeare das mais diversas formas. Somente Macbeth já foi adaptada por grandes nomes do cinema (como Orson Welles e Akira Kurosawa), mais de cinco vezes. Além disso temos a famosa ópera de Verdi, as milhares de versões teatrais, as versões para televisão, as versões em “hqs” e, é claro, o texto original. Entre uma versão e outra, muitas vezes veremos diferenças que parecem tornar a peça irreconhecível, mas basta prestar mais atenção que o tema da ambição e da culpa sempre estarão presentes quando falamos de Macbeth. E como a ambição pode levar à destruição total de um homem.

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Macbeth e as diversas formas de se “consumir” Shakespeare hoje em dia.

Resumidamente, Macbeth é um general da Escócia, que após grandes vitórias em batalha, ouve uma profecia que diz que ele se tornaria rei. Há muitas análises possíveis, inclusive mestrados sobre esse assunto, mas não é claro se esse já era um desejo interior do personagem-título, ou se essa ideia (olha a referência a Inception do Christopher Nolan), foi implantada em sua mente após ouvir a profecia. Fato é que essa se torna então sua obsessão, que o fará matar, ferir e enlouquecer.

“Essa solicitação tão sobrenatural pode ser boa, como pode ser má… Se não for boa, por que me deu as arras de bom êxito, relatando a verdade? Sou o thane de Cawdor. Sendo boa, por que causa ceder à sugestão, cuja figura pavorosa os cabelos me arrepia, fazendo que me bata nas costelas o coração tão firme, contra as normas da natureza? O medo que sentimos é menos de temer que as mais terríveis mas fictícias criações. Meu pensamento no qual o crime por enquanto é apenas um fantasma, a tal ponto o pobre reino de minha alma sacode, que esmagada se torna a vida pela fantasia, sem que haja nada além do que não é.” Macbeth – Ato I Cena III.

Perceba no texto acima como uma ideia é absorvida por um homem e em pouco tempo ela passa a dominá-lo, sacudindo o “pobre reino de sua alma”. A vida real se torna “esmagada” pela fantasia, e a pessoa só tem olhos para aquilo que ainda não tem ou não existe. Isso me remete diretamente ao texto de Provérbios 4.22 “Sobre tudo o que deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida”. Coração é uma objetificação das ideias que mais valorizamos e amamos, que nos ambicionam, que nos mobilizam. Por isso, o sábio conselho bíblico, pois dessas ideias, procedem os nossos atos e ações. Macbeth deixou seu coração se inundar de uma ideia gananciosa, de onde procederam todos os outros atos da história.

Diversos personagens bíblicos pecaram, e morreram, por se deixar levar pela ambição. A própria concepção do pecado original se dá justamente pela ambição (“e se tornarão como o próprio Deus”). E em Macbeth, vemos quase que uma releitura da passagem de Adão e Eva e o pecado original, nas figuras de Macbeth e Lady Macbeth. Quando o rei visita a casa do personagem-título, sua esposa o seduz ardilosamente a assassiná-lo para chegar ao trono. E este, não isento de culpa claro, come desse fruto vistoso.

Como Davi tramando a morte de Urias após o erro de deitar-se com Betseba, assim Machbeth tem que tramar a morte de tantos outros para encobrir o seu erro. E como o sangue de Abel que clamava justiça após o seu homicídio, o sangue de tantos irá atormentar a mente de Macbeth e de sua esposa.

“MACBETH — … Não podes encontrar nenhum remédio para um cérebro doente, da memória tirar uma tristeza enraizada, delir da mente as dores aí escritas e com algum antídoto de oblívio doce e agradável aliviar o peito que opresso geme ao peso da matéria maldosa que comprime o coração?

O MÉDICO — Para isso deve o doente achar os meios.

MACBETH — Então atira aos cães a medicina. Não quero saber dela.”

Macbeth Ato V Cena III

A ambição e a culpa atormentam Macbeth até o seu fim, “sugando” dele sua força e sanidade mental. Ainda assim, ele se apega à segurança de que não poderia ser ferido por alguém “nascido de mulher”. A solução, entregue por Shakespeare, por certo não tem hoje o mesmo apelo que em sua época, e hoje pode soar “piegas”: seu opositor teria sido “retirado do ventre antes do tempo”. No entanto, tem seu valor, em demonstrar a fragilidade das “verdades” a que nos apegamos. Muitos retiram suas forças de bases extremamente frágeis, que as têm como “rochas”. Ou pior, muitos tem essa “rocha” baseada em suas próprias forças e não conseguem ver quão frágeis e pequenos são. Isso é exaustivamente mostrado e condenado na Bíblia, que aponta o grande erro que é “construir sua casa na areia”. O trecho de Jeremias 17, constantemente utilizado de forma incorreta pelos cristãos atuais, fala disso:

“Assim diz o Senhor: Maldito é o homem que confia no homem, que faz da humanidade mortal a sua força, mas cujo coração se afasta do Senhor. Ele será como um arbusto no deserto; não verá quando vier algum bem. Habitará nos lugares áridos do deserto, numa terra salgada onde não vive ninguém. Mas bendito é o homem cuja confiança está no Senhor, cuja confiança nele está. Ele será como uma árvore plantada junto às águas e que estende as suas raízes para o ribeiro. Ela não temerá quando chegar o calor, porque as suas folhas estão sempre verdes; não ficará ansiosa no ano da seca nem deixará de dar fruto. O coração é mais enganoso que qualquer outra coisa e sua doença é incurável. Quem é capaz de compreendê-lo? “Eu sou o Senhor que sonda o coração e examina a mente, para recompensar a cada um de acordo com a sua conduta, de acordo com as suas obras”. Jeremias 17.5-10

Não façamos do nosso braço a nossa força, e nem do braço de outros homens. Não nos deixemos levar pelos nossos corações enganosos, mas guardemos os nossos corações para não sermos ludibriados pelas falsas ideias de sucesso, vitória, ou poder. Essas são as lições que nós cristãos, podemos tirar da bela história humana escrita por Shaskespeare que, se não escreveu todas as histórias, ao menos contou sobre alguns dos principais dilemas humanos. E a ambição é um desses dilemas que, desde Adão, tem levado muitos homens à corrupção e à morte.

“O homem que obtém riquezas por meios injustos é como a perdiz que choca ovos que não pôs. Quando a metade da sua vida tiver passado, elas o abandonarão, e, no final, ele se revelará um tolo.” Jeremias 17.11

Cinema / Poesia | “Para sempre Alice” e “A arte de Perder”

“Somos aquilo que lembramos, e também aquilo que resolvemos esquecer”.

Ivan Izquierdo.  Médico e neurocientista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), referência mundial em fisiologia da memória.

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Assisti recentemente ao filme Still Alice (“Para Sempre Alice”), de 2014. Dirigido por Richard Glatzer (falecido recentemente em decorrência de Esclerose Lateral Amiotrófica) e Wash Westmoreland, o filme conta com atores de peso como Julianne Moore no papel principal, Alec Baldwin, Kristen Stewart e Kate Bosworth. Mas o filme é de uma pessoa só: Julianne Moore domina a tela no papel de Alice, e não é à toa que recebeu diversas premiações por essa atuação, incluindo o Oscar e o Globo de Ouro.

Baseado no livro homônimo, de Lisa Genova, o filme conta a história de Alice, uma neurolinguista, professora universitária, que começa a apresentar déficits de memória, decorrentes da manifestação de um Alzheimer precoce. Por certo muitas pessoas têm contato com parentes, pais ou avós com Mal de Alzheimer, mas esse caso específico é um pouco diferente. Trata-se de uma forma rara da doença, que atinge pessoas mais jovens e cuja evolução é inexorável, ou seja, se você tem o gene, você irá manifestar a doença, e ainda pode transmiti-lo a seus descendentes.

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Livro “Still Alice” de Lisa Genova, que deu origem ao filme. A metáfora da borboleta é algo bem presente, fazendo contraponto ao sentimento de aprisionamento da personagem principal.

A parte médica descrita no livro e no filme, é impecável. Os dados sobre a doença, os métodos de avaliação utilizados, todos esses são bem fiéis à realidade. Aliás, esse para mim é o grande mérito do filme: ser bem fiel à realidade, isto é, ele não idealiza, não mascara, não romantiza, mas mostra cada personagem com suas qualidades e seus defeitos e a realidade da doença como ela é.

No entanto, a grande questão do filme, não é abordar a doença em si, mas sim as mudanças biopsicossociais sofridas com a pessoa e com a família da pessoa que sofre com uma doença neurodegenerativa (talvez a escolha do diretor tenha relação com sua própria doença). E como essas mudanças bio-psíquicas-e-sociais fazem o paciente se afastar cada vez mais da pessoa que ela é. Fazem ela se perder. O grande objetivo do filme é falar sobre o “perder”. Por isso mesmo, creio que a tradução do título para o português não seja a mais adequada. “Still Alice”, no caso, seria melhor traduzido por “Ainda Alice”, já que o seu grande desafio, relatado pela própria, é manter-se conectada à mesma pessoa que ela já foi e que está perdendo, ou seja, continuar sendo “Alice”.

“… Eu sou uma pessoa vivendo no estágio inicial da Doença de Alzheimer, e assim sendo estou aprendendo a arte de perder todos os dias. Perdendo meus modos, perdendo meus objetos, perdendo sono e, acima de tudo, perdendo memórias…

…Tornamo-nos ridículos, incapazes, cômicos. Mas isso não é quem nós somos. Isso é a nossa doença. E como qualquer doença, tem uma causa, uma progressão, e pode ter uma cura…

…Mas por enquanto, eu estou viva. Eu sei que estou viva. Tenho pessoas que amo profundamente, tenho coisas que quero fazer com a minha vida… Estou lutando. Lutando para fazer parte das coisas, para continuar conectada com quem um dia eu fui. Então “viva o momento”, eu digo para mim mesma. É tudo que posso fazer. Viver o momento. E não me culpar tanto por dominar a arte de perder.”

Esse texto faz parte do discurso proferido pela personagem do filme em uma reunião sobre a Doença de Alzheimer. No início do texto ela irá citar um poema de Elizabeth Bishop, que transcrevo aqui abaixo e que se torna a base de todo o seu discurso. Elizabeth Bishop deve ser conhecida do público brasileiro, pois foi uma poeta americana que morou por mais de 20 anos no Brasil, e recentemente foi vivida no cinema no filme de Bruno Barreto, “Flores Raras” (que conta a história dela e sua relação homoafetiva com a personagem da atriz Glória Pires). O poema é bastante famoso nos Estados Unidos, de uma linguagem relativamente simples, com rimas em forma de villanelle (do francês villanesque). Villanelle é uma forma relativamente comum nos poemas de língua inglesa, sendo constituído por 5 tercetos seguidos ao final por 1 quarteto.

 

A arte de perder

 

“A arte de perder não é nenhum mistério;

Tantas coisas contêm em si o acidente

De perdê-las, que perder não é nada sério.

 

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,

A chave perdida, a hora gasta bestamente.

A arte de perder não é nenhum mistério.

 

Depois perca mais rápido, com mais critério:

Lugares, nomes, a escala subseqüente

Da viagem não feita. Nada disso é sério.

 

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero

Lembrar a perda de três casas excelentes.

A arte de perder não é nenhum mistério.

 

Perdi duas cidades lindas. E um império

Que era meu, dois rios, e mais um continente.

Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

 

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo

que eu amo) não muda nada. Pois é evidente

que a arte de perder não chega a ser mistério

por muito que pareça (Escreve!) muito sério. ”

 

Poema de Elisabeth Bishop, Tradução de Paulo Henriques Britto. Citado no filme Still Alice (“Para sempre Alice”) de 2014.

 

O poema mostra um eu-lírico resignado e aparentemente convencido de que nada pode fazer quanto a perda. Por isso ele parece obsessivamente querer se convencer de que isso “não é nada sério”, mesmo com o aumento gradual da importância das coisas que perde. Ao final, com o termo em parênteses “Escreve!”, vemos uma metalinguagem do autor que se utiliza das palavras, da poesia, para tentar amenizar o seu sofrimento.

Tanto o poema, quanto o filme nos comovem muito por tratar de forma tão delicada do tema da perda. Mas, independente se de forma abrupta ou de forma arrastada, como Alice, todos nós perderemos tudo isso. De forma geral, não se nasce com nada, e não se leva. Então tudo que um dia adquirimos, tudo pelo que lutamos, em teoria um dia irá se perder. Não há sentido em se apegar às coisas.

Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei para lá” Jó 1.21

Fica mais doloroso em pensarmos que esta “lei universal” se aplica também a nosso intelecto, às nossas memórias, e a nós mesmos. Por isso, não vale a pena nos apegarmos também ao que somos. Nossos títulos, nosso conhecimento, nossas lembranças. Tudo se perde também. E isso, fora de um contexto cristão, a mim, parece extremamente desesperador.

O apóstolo Paulo, em sua epístola aos Filipenses, parece alertar exatamente quanto a isso. Dentro de um contexto cristão, apegar-se aos seus bens, ou a si mesmo é um grande erro. E ele diz que mesmo ele, que pertencia a uma classe social bastante elevada em sua sociedade, tinha passado por todos os ritos judaicos à risca, tinha estudado e sido ensinado por um dos maiores mestres gregos de seu tempo, Gamaliel, tinha por certo tinha um QI muito acima da média, e ainda tinha de nascença o título de cidadão romano, algo que poucos podiam e que muitos pagavam quantias enormes em dinheiro para conseguir; mesmo ele, veria tudo isso se perder. E por isso, ele já preferia reputar tudo isso em perda por Cristo, sendo este agora seu verdadeiro apego. Porquanto, esquece-se das coisas que estão atrás e olha para o alvo, a fim de conquistar algo perene, que nunca se perderá.

“… Nós que adoramos pelo Espírito de Deus, que nos gloriamos em Cristo Jesus e não temos confiança alguma na carne, embora eu mesmo tivesse razões para ter tal confiança. Se alguém pensa que tem razões para confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado no oitavo dia de vida, pertencente ao povo de Israel, à tribo de Benjamim, verdadeiro hebreu; quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na Lei, irrepreensível.

Mas o que para mim era lucro, passei a considerar como perda, por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar Cristo e ser encontrado nele, não tendo a minha própria justiça que procede da Lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé.

Quero conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte para, de alguma forma, alcançar a ressurreição dentre os mortos. Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus.

Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus.” Filipenses 3.3b-14

 

O texto é claro. E é confortador, especialmente para aqueles que de alguma forma já viram seus familiares se perderem gradualmente dentro de sua mente, esquecendo-se de tudo e de todos. Mas Deus não se esquece. E em Cristo Ele há de reavivar uma nova mente incorruptível e perene, livre de doenças ou da neurodegeneração. Uma nova mente, em Cristo.

“Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista de imortalidade. Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: “Tragada foi a morte na vitória” 1Co 15.53-54

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Artigo | Selma – A verdade está marchando

Truth forever on the scaffold, Wrong forever on the throne,—
Yet that scaffold sways the future, and, behind the dim unknown,
Standeth God within the shadow, keeping watch above his own

“A verdade sempre no cadafalso. O pecado sempre no trono
No entanto, esse estrado balança o futuro, E, atrás deste turvo desconhecido,
Permanece Deus dentro da sombra, Mantendo acima sua vigilância.”

Trecho de “The Present Crisis” (1844), do poeta americano James Russell Lowell, citado por Martin Luther King em seu discurso de 1965 em Montgomery.

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Sem querer polemizar ou entrar a fundo nesse tipo de discussão, adianto antes de tudo minha opinião: Política e religião em geral não devem se misturar. Deixando claro esse meu ponto de vista (e implícito minha opinião sobre a maior parte dos políticos que formam a chamada “bancada evangélica”), reafirmo, a parte em que escrevo “em geral”. Ou seja, há momentos específicos em que a comunidade cristã de um país deve se movimentar. Ou até marchar. Não, não estou me referindo à nossa conhecida “Marcha pra Jesus” (nada contra). Me refiro a marchas de luta por direitos humanos, sociais ou religiosos, como as que aconteceram em Selma, no estado do Alabama em 1965.

Esses eventos ficaram mais famosos recentemente após terem sido contados no filme Selma – Uma Luta pela Igualdade”, de 2014. O filme, dirigido por Ava DuVernay, e estreado por David Oyelowo no papel de “Martin Luther King”, peca um pouco no ritmo, e no excesso de preocupação em ser linear, cronológico e explicativo, que deixam uma boa parte do filme meio “sonolenta”, na minha opinião. Tirando esse fato (e também o fato de escolherem um ator inglês, mas que se esforçou bastante, para interpretar Luther King), o filme é uma boa homenagem a esses corajosos homens que em determinado momento decidiram se mover e lutar por igualdade de direitos, direito ao voto e civilidade.

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Selma – Filme de 2014 dirigido por Ava DuVernay

Não vou me apegar à descrição de todos fatos, e dos detalhes de cada uma das três marchas realizadas em prol desses direitos à população negra americana. Fato é que a primeira pode ser resumida em uma imagem:

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O episódio acima ocorreu em 18 de fevereiro de 1956, e foi chamado de “Domingo Sangrento”. Tropas avançaram com gás lacrimogênio e cassetetes em um grupo de cerca de 550 manifestantes. 17 foram hospitalizados, e diferente de marchas anteriores, nenhum manifestante morreu. No entanto, havia um fator importante diferente nesse caso: a presença de redes televisivas registrando a crueldade. Imagens como a de Amelia Boyton Robinson (abaixo) rodaram o país e o mundo.

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Amelia Boyton Robinson, ferida na primeira Marcha de Selma a Montgomery.

Claro, que isso gerou repercussão, e a partir de então, os manifestantes de Selma, passaram a receber apoio de boa parte do país (inclusive de muitos cidadãos brancos).

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Manifestantes em Nova Iorque apoiam os movimentos de Selma (1965)

Mediante tal situação, o pastor Martin Luther King e os líderes da SCLC (Conferência da Liderança Cristã Sulista), organizam uma segunda marcha, que por motivos de segurança e também pela proibição judicial que havia, foi suspensa pelo Dr. King em cima da ponte Edmund Pettus, após uma breve oração. Nessa mesma noite, um grupo de ministros religiosos brancos que vieram a Selma para participar da marcha, foi atacado por membros do Ku Klux Klan e, dois dias depois, James Reeb, o mais atingido desses, veio a falecer.

Uma semana após, os manifestantes conseguiram finalmente o direito judicial de marchar. E com isso em 21 de março, domingo, iniciaram então a terceira marcha, que concluiu-se após 3 dias na cidade de Montgomery. No dia 25 de março, em frente ao capitólio do estado do Alabama, Martin Luther King realizou mais um de seus discursos memoráveis de título “How long? Not long.” (“Quanto tempo? Não muito”), mas mais conhecido como “Our God is Marching On” (“Nosso Deus está marchando”). Descrevo a tradução de alguns trechos deste discurso abaixo:

“… Eu posso dizer, como a Irmã Pollard disse – uma senhora negra de 70 anos de idade que viveu nessa comunidade durante o boicote do ônibus –  e um dia, ela foi perguntada enquanto andava se ela não queria uma carona. E ela então respondeu, “Não”, a pessoa disse “Bom, você não está cansada?” E com sua profundidade não gramatical, ela disse: “Meus pés estão cansados, mas minha alma repousa”. E em um sentido real, esta tarde, podemos dizer que os nossos pés estão cansados, mas nossas almas repousam….

… Sim, estamos em movimento e nenhuma onda de racismo pode nos parar. Estamos em movimento agora. A queima de nossas igrejas não vai nos deter. O bombardeio de nossas casas não vai dissuadir-nos. Estamos em movimento agora. O espancamento e morte de nossos clérigos e os jovens não vai desviar-nos. Estamos em movimento agora. A liberação desenfreada de seus assassinos conhecidos não iria desencorajar-nos. Estamos em movimento agora. Como uma idéia cujo tempo chegou, nem mesmo a marcha de exércitos poderosos podem nos deter. Estamos nos movendo para a terra da liberdade.

… Eu sei que vocês estão perguntando hoje, “Quanto tempo isso levará?”. Alguém pergunta: “Quanto tempo a visão cega dos homens permanecerá prejudicada, escurecendo seu entendimento e conduzindo a sabedoria de olhos abertos do Seu trono sagrado? Alguém se pergunta “Quando a justiça maculada, jazendo prostrada nas rua de Selma e Birminhgham e todas as comunidades do Sul, será levantada dessa poeira da vergonha que reina suprema entre os filhos dos homens? Alguém se pergunta: “Quando a estrela radiante da esperança imergirá contra o peito noturno desta adorável noite, arrancada de almas cansadas com correntes de medo e algemas da morte? Quanto tempo será crucificada a justiça, e a verdade suportará?

Quanto tempo? Não muito tempo, porque “nenhuma mentira pode viver para sempre”

Quanto tempo? Não muito tempo, porque “você colhe aquilo que você planta”

Quanto tempo? Não muito. * …

Quanto tempo? Não muito tempo, porque o arco do universo moral é longo, mas ele se curva em direção à justiça.

Quanto tempo? Não muito, porque ** …

Sua verdade está marchando.”

* Nesse momento ele cita o  poema de James Russel Lowell ** Nesse momento ele cita o hino “Our God is Marching On”

Esse discurso, não tão famoso como o “I´ve a dream” (“Eu tenho um sonho”), mas tão importante quanto, é recheado de referências externas, incluindo o poema do poeta americano James Russel Lowell, citado no prefácio deste artigo, e alguns corinhos muito famosos, inclusive aqui no Brasil, como “Joshua Fit the Battle of Jericho.” (“Vem com Josué lutar em Jericó”), “Lift Every Voice and Sing” de James Weldon Johnson, um famoso ativista americano negro, do início do século XX, e a incomparável, “Our God is marching on” (Glória, glória, Aleluia, aqui no Brasil).

As marchas de Selma a Montgomery foram um momento crucial da história da luta racial nos Estados Unidos. Após esse evento, muitos cidadãos de todo o país passaram a apoiar a causa, e o posicionamento do presidente Johnson, a favor do direito do voto a estes cidadãos, foi um grande passo para a mudança. Em pouco tempo, o número de cidadãos negros com direito ao voto se multiplicaria. O negro passa a ter representatividade política e, hoje, a nação mais poderosa do mundo, é liderada por um presidente negro, em seu segundo mandato.

Claro que até hoje ainda existem muitos resquícios dessa divisão racial nos Estados Unidos e em outros países também, como o Brasil. Mas é incomparável com os absurdos que já existiram. Fato é que fica marcado na história um momento em que uma comunidade cristã de um grande país se mobilizou para mudar e vencer uma grande injustiça. E essa luta fica como uma vitória de pessoas que entendiam seu lugar na sociedade, e se expuseram por uma causa que valia a pena lutar. Martin Luther King, mesmo não sendo um homem perfeito, ao longo de sua luta, angariou poder político, se sentou com presidentes e foi capaz de influenciá-los. Hoje infelizmente, somos assombrados por cristãos que se sentam com políticos para corromper e serem corrompidos. Não há cristãos marchando pela miséria e pelos injustiçados. Que Deus tenha misericórdia, e que a sociedade nos perdoe quando marchamos pelos motivos errados.

“Lembrai-vos, porém, dos dias anteriores, em que, depois de iluminados, sustentastes grande luta e sofrimentos; ora expostos como em espetáculo, tanto de opróbrio quanto de tribulações, ora tornando-vos co-participantes com aqueles que desse modo foram tratados…

… Com efeito, tendes necessidade de perseverança, para que, havendo feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa. Porque, ainda dentro de pouco tempo, aquele que vem virá e não tardará;Hb 10.32-33, 36-37

Cinema | Resenha: “A Teoria de Tudo” – A vida de Stephen Hawking

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Contém “spoilers” do filme “A Teoria de Tudo” (The Theory of Everything – 2014)

“A teoria de tudo” trata da vida do famoso cientista Stephen Hawking, especialmente em seu aspecto pessoal, visto que é baseado no livro escrito por sua primeira esposa, e mãe de seus três filhos, Jane Wilde (interpretada no filme por Felicity Jones). É claro que o filme também mostra um pouco de sua vida acadêmica, em especial as teses que defendeu a respeito do espaço e tempo. Mas, ao meu ver, o filme fica devendo um pouco quando trata das verdadeiras contribuições científicas do Dr. Hawking, e não foi tão feliz em caracterizar seu pensamento, como foi por exemplo o filme “Uma mente brilhante”, que trata da vida do matemático John Nash.

No entanto, no aspecto pessoal, o filme é bem interessante, e apesar de ter o viés da literatura de Jane Wilde, não se vê problema em mostrar as dificuldades e até mesmo as fraquezas de um e de outro personagem. Vale ressaltar a impressionante atuação de Eddie Redmayne interpretando Stephen Hawking. Esse ator já ganhou o Bafta por esta atuação e concorre ao Oscar. Ele, além de ser fisicamente muito parecido com Stephen Hawking, consegue encenar todo a evolução de sua doença (Esclerose Lateral Amiotrófica) de forma marcante. Em alguns momentos parecer ser o próprio Hawkings interpretando.

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Eddie Redmayne e Stephen Hawking juntos na estreia do filme “A Teoria de Tudo”

“A teoria de tudo” foca em dois aspectos importantes na vida pessoal de Stephen Hawking: sua relação com o tempo, e sua relação (ou não relação) com Deus. Stephen Hawking, como cosmologista, sempre estudou as relação do espaço e tempo, os buracos negros e singularidades. Uma de suas principais teorias, tem o intuito de provar que o espaço e o tempo tiveram um início, assim como o universo se mantém em expansão. Essa relação com o tempo, é interessante, pois a Esclerose Lateral Amiotrófica é uma doença até hoje sem cura, cuja expectativa de vida é de 2 a 3 anos. Hawking convive com a doença há mais de 30 anos. Nesse tempo, teve filhos, viu-os crescer, continuou estudando, escreveu livros e viu-se tornar o cientista mais famoso de nossa época. Muita coisa para quem não tinha muito tempo de vida.

Já a sua relação com Deus, permanece obscura. Na verdade, Stephen Hawking se declara ateu, mas ele admite que algumas teorias, em especial a que trata do início do universo e da existência, suportam a existência de Deus. Mas ao mesmo tempo, ele refuta essa existência com outras teorias e ideias. Nos livros dele (em breve gostaria de fazer uma resenha sobre “O universo em uma casca de noz”, livro que li há algum tempo), percebemos essa dualidade, além do maravilhoso senso de humor que ele possui e que é bastante mostrado no filme.

O clímax do filme se dá justamente quando em uma entrevista ele é questionado sobre o seu ateísmo, e pergunta-se se há alguma filosofia ou ideia que lhe traz conforto. Nesse momento vemos Stephen se levantando e andando como em um milagre, mostrando que talvez, lá no fundo, Stephen Hawking ainda espera um grande milagre da existência que irá libertá-lo de sua condição. Na sequencia deste “delírio”, ele responde:

“É claro que somos apenas primatas evoluídos, vivendo em um planeta pequeno que orbita uma estrela comum, localizada no subúrbio de uma de bilhões de galáxias. Mas, …

… desde o começo da civilização, as pessoas tentam entender a ordem fundamental do mundo. Deve haver algo muito especial sobre os limites do universo. E o que pode ser mais especial do que não haver limites? Não deve haver limites para o esforço humano. Somos todos diferentes. Por pior que a vida possa parecer, sempre há algo que podemos fazer em que podemos obter sucesso. Enquanto houver vida, haverá esperança.

Stephen entende que há algo muito especial, além dos limites de nosso entendimento. Sua posição é acreditar naquilo que as teorias e os estudos lhe dão, e nenhuma teoria ou pensamento científico é capaz de provar (ou desprovar) a existência de Deus. Por isso, o ateísmo. Mas ele admite, que enquanto houver vida, há esperança, de sermos resgatados de uma realidade física tão insignificante, com corpos tão frágeis, doentes ou não, no planeta pequeno que orbita essa estrela comum, no subúrbio de uma galáxia (nessa mesma linha de pensamento, leia o post “O pálido ponto azul”, publicado neste blog alguns meses atrás).

Stephen Hawking é um exemplo magnífico de uma pessoa que, apesar de todas as dificuldades impostas, conseguiu obter extremo sucesso em sua vida. É o exemplo clássico para aquela passagem em João, capítulo 9, em que perguntam para Jesus quem havia pecado, para que o homem em questão fosse cego. E Jesus responde: “Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus.“. Ora, digam-me se não é ao menos supreendente, que a maior mente de nosso tempo, esteja “encarcerada” em um corpo debilitado, incapaz até mesmo de falar. E como esse ser incapaz de falar é a maior voz da ciência atual. Veja se isso não é uma espécie de milagre.

Enquanto houver vida, haverá esperança. Não há homem que em algum aspecto de sua vida, não esteja debilitado, atrelado a uma cadeira de rodas. E ao mesmo tempo, não há homem que não sonhe com o momento em que se libertará dessas limitações e desses sofrimentos, e poderá ser realmente pleno. Stephen Hawking sonha com essa plenitude. E todos nós também. Devo dizer, que a partir daqui, entra a questão da?

“E, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus.” Efésios 3.17-19

“Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia, porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.” Colossenses 1.15-20

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Cinema | Resenha: “Invencível” – A impressionante história de Louis Zamperini

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Contém “spoilers” do filme “Invencível” (Unbroken – 2014)

“O que permanece contigo mais longa e profundamente?
De curiosos alarmes,
De batalhas duras ou de cercos tremendos o que permanece mais profundamente?”
Walt Whitman, The Wound-Dresser (O médico de feridas). Prefácio do livro “Invencível” de Laura Hillembrand.

Impressionante. Esse é o adjetivo simples que vem à minha mente ao assitir ao filme dirigido por Angelina Jolie, com nome e adjetivo simples: “Invencível” (2014). Impressionante, não pela qualidade técnica, ou pelo fato de ser o segundo filme dirigido por essa grande estrela de Hollyhood. Impressionante porque nos faz embarcar e reviver a história real de Louis Zamperini (interpretado por Jack O’Connell), atleta olímpico que se tornou um prisioneiro de guerra no Japão.

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Angelina Jolie e Louis Zamperini aos 97 anos. Vizinhos em Hollyhood, desenvolveram importante amizade antes da realização do filme.

Antes que os mais afoitos venham se queixar, é claro que em Hollyhood há supervalorização, exageros e sensacionalismo. E é claro que é bem provável que possamos ver tudo isso nesse filme, na tentativa de impressionar o telespectador. Mas, ao sair do filme, pude pesquisar um pouco sobre a vida desse senhor, que faleceu no ano passado, aos 97 anos, ao mesmo tempo que pude folhear brevemente o livro escrito por Laura Hillebrand, que deu origem ao filme, e posso te dizer que, se há exagero, é menor do que imaginamos, e ao menos em relação aos fatos mais importantes do filme, atesta-se a sua veracidade.

Para melhor entendimento desta resenha, vou dividir a análise em partes.

Parte I – O Filme

O filme se inicia com cenas de de Zamp (como é chamado pelos colegas), já na guerra, como bombardeiro em um avião, e intercala um pouco de sua história, contando sua infância difícil, como imigrante italiano no período de crise na América. A ideia do filme é mostrar como uma criança pouco obediente e quase marginalizada foi resgatada pelo empenho em um esporte, o atletismo, com o apoio incondicional de seu irmão mais velho Peter. E como esse empenho e imensa determinação puderam levá-lo a diversos recordes, e à disputa da Olimpíada de 1936, em Berlim, com apenas 19 anos, tendo desempenho marcante.

“Um instante de dor vale uma vida de glória” Frase de Peter, irmão de Louis, antes deste embarcar para os Jogos Olímpicos de Berlim.

Claro que o filme não perde minutos preciosos mostrando como esse atleta promissor teve seus sonhos adiados com a ocorrência da Segunda Guerra Mundial, seu alistamento, e o cancelamento dos Jogos Olímpicos que ocorreriam em 1940, no Japão. Tudo isso está implícito. Mas ele demonstra que mesmo na guerra, Zamperini continuava treinando e ainda aspirava ser um grande atleta.

Em uma missão de resgate o avião de Zamperini cai no oceano Pacífico e é aqui que o verdadeiro sofrimento começa. Foram 45 dias de angústia à deriva no oceano, bem vivenciados no filme, até ser encontrado, junto com o amigo Phil, por um navio japonês e se tornar um prisioneiro de guerra. No campo de concentração, seu histórico como atleta olímpico é descoberto e, a partir de então, se torna alvo da crueldade do Cabo Watanabe, “A Ave”. Todo o sofrimento e toda a sua luta para se manter vivo são o grande mote do filme que quer mostrar como a força de vontade intensa e determinação é capaz de torná-lo “invencível”.

Em determinado momento do filme, em seu sofrimento no mar, Zamperini tenta encontrar a sua fé e, conversando com Deus diz que se sobrevivesse, entregaria toda a sua vida a Ele.

Parte II – Louis x “A Ave”

O mais interessante do filme, além da própria história vivida por Zamperini, é o paralelo que este faz entre Louis e Watanabe (“A Ave”). O filme quer mostrar como os golpes e a crueldade desferidos por Watanabe vinham da sua frustração, por não ter atingido os objetivos esperados em sua própria vida e, ao olhar para Zamperini, um atleta olímpico e um oficial capaz de olhá-lo nos olhos, toda essa frustração vinha mais à tona. A cena clímax do filme deixa isso bem claro, quando Watanabe se desespera em enxergar em Louis tanto mais perseverança e determinação do que ele jamais teria demonstrado.

Após o resgate dos prisioneiros, Zamperini visita o escritório de Watanabe, vendo uma foto deste ainda criança, com seu pai, com aparência séria (tentando transmitir toda a provável austeridade deste pai japonês). Isso fica como um paralelismo à relação do Louis, criança rebelde, com seu pai austero, e como, por intervenção de Peter e do esporte, ele teria escapado a uma trágica relação entre pai e filho. Tal sorte por certo não teria tido Watanabe.

Parte III – Fim do filme e a Redenção de Zamperini

O filme termina com o fim da guerra e o retorno de Zamperini à sua terra e sua família. No entanto, a história de Louis não termina aí. Em alguns aspectos ela está só começando. Uma legenda no final do filme conta um pouco da história deste senhor após a guerra, mostrando ao mesmo tempo, fotos reais:

“Em 1946 Louie Zamperini conheceu e se casou com sua amada, Cynthia Aplewhite. Eles tiveram uma filha, Cissy, e um filho, Luke…
Depois de anos de Estresse Pós-Traumático, Louie cumpriu sua promessa de servir à Deus, uma decisão que tomou por ter sobrevivido. Motivado por sua fé, Louie percebeu que a maneira de seguir em frente era o perdão e não a vingança. Ele voltou para o Japão onde encontrou e perdoou seus captores. Somente Bird (A Ave) se recusou a encontrá-lo. Louie finalmente realizou seu sonho, e correu em uma Olimpíada novamente. Aos 80 anos. No Japão.” Neste momento mostra-se vídeo de Zamperini correndo com a tocha olímpica em 1998, nos Jogos Olímpicos de Inverno no Japão

Parte IV – A vida de Zamperini

Como foi dito, o filme termina no pós-guerra, adicionando apenas algumas legendas no final com um resumo da história de Zamperini. O livro não pára por aí e muito menos a biografia deste senhor.

A verdade é que ao voltar da guerra, Louis revela que tinha muitos pesadelos, refere que via-se estrangulando seus captores em ação de vingança e começou a beber muito, tentando esquecer sua experiência como prisioneiro de guerra. Agora, veja só: sua esposa, Cynthia frequentou uma das cruzadas evangelísticas lideradas por, ninguém mais ninguém menos que Billy Graham, o famoso pregador evangélico, muito conhecido entre nós. Em 1949, após muita insistência de sua esposa, Louis aceitou relutantemente participar de uma dessas Cruzadas e, nessa pregação, se lembrou da promessa que tinha feito a Deus, ainda no bote salva-vidas. Nesse momento, Louis Zamperini decide entregar sua vida a Cristo.

Seguido a isso, Louis decidiu perdoar seus captores e seus pesadelos cessaram. Posteriormente, Billy Graham ajudou Zamperini a iniciar uma nova carreira como orador inspiracional, e um de seus temas recorrentes era justamente o perdão.

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Louis Zamperini (a esquerda na foto) e Billy Graham em 1949.

No início do texto, deixei a citação do poeta americano Walt Whitman, que também se encontra no livro sobre a história de Zamperini. Realmente é difícil dizer as marcas e as sequelas que uma vivência como a guerra pode deixar na vida das pessoas. Mas, independente de quão profundas quaisquer sequelas possam estar, temos a certeza de que existe uma Palavra, uma Verdade, capaz de penetrar juntas e medulas, até a divisão da alma e do espírito e que é capaz de transformar qualquer vida, qualquer entendimento e salvar qualquer ser humano. Louis Zamperini é a prova disso.

“Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.” Hb 4.12

Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.” Rm 12.19-21

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Louis Zamperini discursa na Cruzada Evangelística de Billy Graham em 1963, no Los Angeles Coliseum.

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Louis Zamperini e Billy Graham se reencontram em 2011, aos 95 e 94 anos respectivamente.

Livro em Mente: “12 anos de escravidão”

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Quando foi lançado o filme “12 anos de escravidão”, me interessei pela história apresentada (com base em todo o alvoroço com relação às premiações e ao próprio Oscar), e decidi que deveria ler o livro antes de assistir ao filme. Isso porque, o livro é um marco na literatura americana, pois trata-se da auto-biografia de Solomon Northup, um negro livre americano, forçosamente tornado escravo durante um período de 12 anos. Isso me chamou muito a atenção, pois antes do lançamento do livro eu não conhecia essa obra e é sabido que poucos negros do tempo da escravidão poderiam escrever seus próprios relatos, seja por falta de oportunidade ou de instrução.

Durante o período de leitura do livro, fiz diversas marcações e gostaria de fazer algumas pontuações aqui neste texto. Já faz quase 1 ano que eu li o livro, portanto ele não está mais tão “fresco” em minha memória, por isso posso me confundir em alguns aspectos. Primeiro devo relatar que o livro é muito mais rico que o filme em explicar as situações vivenciadas por Solomon durante o período em que esteve como escravo, mas isso não tira o mérito do filme de resumir a história e mostrar a realidade de um negro escravo americano no século XIX. Mas uma coisa que eu senti no livro e não percebi no filme, foi justamente a inocência ou o entendimento do personagem com relação a sua situação. Pois o filme nos deixa ver com os nossos olhos o horror e a loucura da escravidão, enquanto que no livro, vemos pelos olhos de Solomon, que, por incrível que pareça, não condena os senhores de escravos, mas condena o sistema a que todos foram submetidos. É claro que ele condena a crueldade e os maus-tratos, e os senhores que são claramente maus, mas em certo aspecto ele deixa a entender que são todos vítimas de um sistema sem sentido que foi passado de geração a geração.

“Não é culpa do proprietário de escravos se ele é cruel; antes, é culpa do sistema no qual ele vive. Ele não consegue se opor à influência do hábito e das relações que o cercam. Ensinado desde a mais tenra idade por tudo o que vê e ouve que a vara foi feita para as costas do escravo, na idade madura não consegue mudar de opinião.”

Isso foi realmente uma das coisas que mais me fez refletir: como um homem que está sob a subordinação forçada de outro pode não condená-lo inteiramente? Isso mostra como nós temos a (in)feliz capacidade de se adaptar. Nós nos adaptamos ao sistema. Isso muitas vezes pode tornar as coisas suportáveis. Mas ao mesmo tempo, pode impedir que mudemos as coisas ao nosso redor. Acho que essa acabou sendo a grande questão para Solomon: não começar a acreditar que aquilo tudo era natural e que não havia meios de mudar sua condição, apesar de todas as tentativas frustradas que tivera até a sua libertação.

“Além disso, de ter uma inteligência igual à de pelo menos muitos homens de pele mais clara, eu era ignorante demais, talvez independente demais, para entender como alguém poderia se contentar em viver na condição abjeta de escravo.”

Ironicamente, Salomon Northup que era um homem livre no estado de Nova York foi sequestrado e acorrentado enquanto fazia uma viagem a Washington, a capital americana. No livro ele descreve essa ironia, a de que no próprio lugar em que era torturado podia avistar o Capitólio, o centro legislativo de sua nação:

“As vozes de representantes patrióticos enchendo a boca para falar de liberdade e igualdade e o clangor das correntes dos pobres escravos quase se mesclavam. Uma casa de escravos sob a sombra do Capitólio!”

“Então passamos, algemados e em silêncio, pelas ruas de Washington, atravessando a capital de uma nação cuja teoria de governo, dizem, repousa sobre a fundação do direito inalienável de qualquer homem à vida, à LIBERDADE e à busca da felicidade! Ave! Colúmbia, que terra feliz de fato!”

Sobre a crueldade dos homens que o açoitavam ele diz:

“Um homem com uma centelha de misericórdia na alma não espancaria nem mesmo um cachorro dessa forma cruel.”

Em determinado momento, Solomon passa a ser escravo de William Ford um pastor batista e é justamente com relação a ele que Solomon parece demonstrar até afeição. Em determinado momento ele faz uma análise psicológica dessa pessoa, brilhantemente escrita no texto abaixo. Análise esta que, acredito, pode ser estendida a muitos outros cristãos:

“… e nada mais faço senão justiça quando digo que, em minha opinião, nunca houve um cristão mais gentil, nobre, cândido do que William Ford. As influências e relações que sempre o cercaram o cegaram para o erro fundamental que está na base do sistema de escravidão. Ele nunca questionou o direito moral de um homem fazer de outro homem seu escravo. Olhando através das mesmas lentes que seu pai antes dele, via as coisas na mesma luz. Crescido em circunstâncias diferentes e sob outras influências, suas ideias sem dúvida teriam sido outras.”

Ainda que seja possivelmente uma verdade, é impressionante que um escravo tenha tal entedimento de seu senhor.

Em determinadas partes do livro, o terror vivido por Solomon é tão grande que podemos fazer um paralelismo com o livro de Jó. Veja a semelhança entre os textos:

“Por que eu não havia morrido em meus primeiros anos – antes que Deus me desse filhos para amar e pelos quais viver?”

“Por que não morri ao nascer, e não pereci quando saí do ventre? Por que houve joelhos para me receberem e seios para me amamentarem?” Trecho do livro de Jó 3.11-12

Há diversos personagens detalhados no livro com histórias impressionantes também. E é impressionante a tristeza que os cerca. Solomon teve sucesso em descrever como a escravidão é capaz de podar e destruir talentos, e como são moldados e destruídos por esse sistema vil. É o caso de Eliza e o caso de Patsey (personagem que deu o Oscar de atriz codjuvante a Lupita Nyong´o). Veja como ele a descreve:

“Havia algo de imponente em seus movimentos, que nem o trabalho pesado nem a exaustão nem a punição conseguiam destruir. Na verdade, ela era um animal esplêndido, e, se a escravidão não houvesse amortalhado seu intelecto em uma escuridão absoluta e permanente, seria líder de seu povo.”

Posteriormente ele diz:

“Ainda assim uma luz fraca jogava seus raios sobre seu intelecto, de forma que não era totalmente obscurecido. Patsey tinha alguma percepção de Deus e da eternidade, e uma percepção menor de um Salvador que morrera por causa até mesmo de pessoas como ela.”

A relação dos escravos com a religião e a forma como muitas vezes os senhores a utilizam como justificativa para seus atos é bem demonstrada no livro e no filme. Ainda assim, percebe-se claramente que Solomon tem boa parte da sua esperança de redenção apoiado na sua fé. Mostra-se isso na sua oração, nos seus cânticos, e também na sua crença de que justiça seria feita à tanta maldade:

“…sim, ele nos deixaria a todos mais quentes do que o reino de chamas no qual às vezes tendo a acreditar que ele próprio algum dia morará.”

“… um tribunal humano permitiu que ele escapasse; mas há outro tribunal, e mais alto, onde o falso testemunho não triunfa e onde estou disposto, pelo menos no que diz respeito a essas declarações, a ser enfim julgado.”

Ao final, ele dá uma impressionante conclusão:

“Não tenho comentários a fazer sobre o tema da Escravidão. Quem ler este livro poderá formar sua própria opinião sobre essa “peculiar instituição”...Isto não é uma ficção, nenhum exagero. Se falhei em algo, foi ao apresentar ao leitor de forma exagerada o lado positivo de tudo.”

Pois bem, vale a pena ler o livro “12 anos de escravidão”, mesmo aqueles que já viram o filme, ganhador do Oscar de 2013, pois é interessante perceber as diferenças e fazer essa análise de tudo, através dos olhos de um homem que vivenciou tal horror. É impressionante percebermos que o único animal racional deste planeta, seja capaz de tal feito com outro de sua própria espécie. E o mais importante, que possamos entender a partir disso os nossos dias atuais, e não nos deixemos cegar pelo sistema, como aconteceu a Willian Ford, mas que estejamos sempre atentos ao sofrimento e contrários à crueldade ao nosso redor.

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Ps: Para aqueles que se confundiram ou se escandalizaram com o texto bíblico utilizado no filme pelos senhores de escravos para justificar os açoites aos escravos (Lucas 12), primeiramente, o texto traz uma descrição da realidade da época, justamente para fazer uma comparação na parábola, segundo, não serve de base para justificar a escravidão ou o açoite. Se nos lembrarmos bem, a escravidão vigorava durante o início do período cristão, e era algo normal, mas o apóstolo Paulo, com a carta de Filemon, nos deixa bem claro qual deve ser a nova postura do cristão diante desta prática, ao recomendar que Filemon receba o ex-escravo foragido, agora como um irmão, assim como ele próprio o considerava:

“Talvez ele tenha sido separado de você por algum tempo, para que você o tivesse de volta para sempre, não mais como escravo, mas, acima de escravo, como irmão amado. Para mim ele é um irmão muito amado, e ainda mais para você, tanto como pessoa quanto como cristão“. Fm 1.15-16

Há muitas recomendações para servos e senhores na Bíblia. Mas em nenhuma delas se vê base para suportar um sistema de depreciação e degradação humana (Ef 6; Cl 3 e 4 entre outras).

Resenha – Êxodo: Deuses e Reis

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Atenção: contém “spoilers” do filme “Êxodo: Deuses e Reis”.

Esta semana assisti ao mais novo filme religioso da atualidade: Exôdo: Deuses e Reis. Pelo nome, todos já adivinharam tratar-se da história de Moisés e da forma como este liderou o povo hebreu na sua saída/libertação do Egito. Mas apesar do nome, já adianto a vocês leitores, que este se trata muito mais de um filme baseado em um roteiro típico hollyhoodiano, do que em um filme que leve a sério o livro homônimo da Bíblia.

A direção fica a cargo de Ridley Scott e, te garanto, isso já diz muito do que esperar do filme. Ridley Scott é o diretor de alguns filmes de muito sucesso (e alguns fracassos também), incluindo alguns dos meus filmes favoritos como Blade Runner (1982) e Gladiador (2000) além de outros como Cruzada (Kingdom of Heaven – 2005), Alien, o Oitavo Passageiro (1979) e Prometheus (2012). Em geral, seus filmes são ricos em cenas de guerra, lutas, e personagens heróicos, além de cenários suntuosos. Tudo isso se vê em Exôdo. Um Egito tão épico quanto a Roma do Gladiador, e um Moisés tão general quanto Maximus Decimus Meridius. Sim, um general, esqueça o profeta neste filme.

Christian Bale interpreta Moisés neste filme. Na minha opinião, um erro. Não que este não seja um bom ator, pelo contrário, sua capacidade de transformação e foco nos personagens é exemplar. Não é a toa, que fez tanto sucesso como o Batman do Nolan e tem recebido tantas premiações por outras atuações. Mas escolher um ator sabidamente reconhecido pelo seu temperamento difícil e personalidade marcante para interpretar aquele que a Bíblia classifica como o mais manso entre os homens de seu tempo (Nm 12.3), não é muito coerente. Quanto à escolha dos demais atores, não vi problemas, apesar de alguns críticos terem sido ferrenhos com a escolha devido a natureza étnica de alguns deles (brancos, caucasianos interpretando egípcios e hebreus). Na verdade achei que o Joel Edgerton, por exemplo, ficou muito bem como faraó, e convenceu no papel.

A primeira parte do filme, para mim, é a melhor. Cheguei a achar que finalmente veríamos um filme de história bíblica bom no cinema. Pena que após a saída de Moisés do Egito e sua peregrinação, tudo se perde. Não que o filme fique tão ruim quanto o Noé do Darren Aranofsky (bons diretores também cometem seus fiascos), mas chega perto.

Eu sempre tenho medo das representações das histórias bíblicas no cinema. Primeiro porque o cinema sempre adapta as histórias, de forma a alterá-la, seja para deixar a linguagem mais fluida ou aumentar a ação, seja por falta de preciosismo mesmo. Isso já me incomoda, pois na Biblia, cada detalhe é importante. Segundo, certas representações bíblicas não podem ser bem exemplificadas visualmente. Neste sentido, eu entendo a escolha do Ridley Scott em deixar uma criança interpretar Deus, pois de que outra forma poderia representá-Lo? Mas infelizmente essa escolha se mostra terrível ao longo do filme. Deus fica com a personalidade de uma criança birrenta e sua relação com Moisés é péssima. Logo Moisés, o homem que mais se comunicava com Deus e na sua comunhão extrema, falava com Deus face a face. De tantos diálogos maravilhosos que poderiam ter sido simplesmente extraídos da bíblia entre Moisés e Deus, no filme, não há somente um que se salve ou que tenha um valor a mais.

Além disso, Moisés é tido como um agnóstico no filme. E mesmo após todas experiências com Deus e com o povo, ele parecia continuar duvidando. Moisés não evolui como personagem e muito menos chega aos pés do grande personagem bíblico que é.

Isso sem falar nos erros escriturários. Eu entendo que tente-se dar um entendimento mais racional às pragas do Egito. Mas dizer que as águas se tornaram sangue porque os crocodilos devoraram alguns pescadores é demais. Ia ser preciso muito mais mortos que no Dia D da Segunda Guerra Mundial, para tingir todo o Nilo de sangue. Era melhor que ele desse então a típica explicação da maré vermelha ou alguma semelhante. E é claro, desconsidere que a pólvora tenha sido inventada pelos chineses, pois Moisés e os “rebeldes judeus” já dominavam a técnica de causar explosões, 1300 anos antes de Cristo!

Bom, em resumo, Exôdo: Deuses e Reis trata-se de um filme fraco, que não representa a magnífica história bíblica que pretende contar. Não vou dizer que não vale como entretenimento e diversão, pois estaria exagerando. Assisti a este filme no chamado cinema 4D e é interessante você sentir o “ventinho” das flechas atiradas passando pelo seus ombros. O visual do Egito é magnífico, um pouco exagerado, mas magnífico. A representação dos escravos também é muito boa, em alguns momentos lembra fotografias da Serra Pelada aqui no Brasil. E as cenas de ação, bem, as cenas de ação, são o legado de Ridley Scott.

exodus x gladiador

General Maximus e “General” Moisés: ambos de Ridley Scott. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

“Era o varão Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra…
Não é assim com o meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa. Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a forma do SENHOR; como, pois, não temestes falar contra o meu servo, contra Moisés?” Números 12.3,7-8

Teatro: “12 Homens e uma sentença” – O valor do testemunho e a realidade sob os nossos olhos

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Este fim de semana tive a oportunidade de ir ao teatro e assisti à boa peça “12 homens e uma sentença” de Reginald Rose, há mais de três anos em cartaz em diversos teatros, sob direção de Eduardo Tolentino, em curtíssima temporada no Teatro Nair Bello.

O texto de Reginald Rose já foi levado duas vezes ao cinema, a mais conhecida delas foi em 1957 (12 Angry Man), com direção de Sidney Lumet e atuações de, nada mais nada menos, Henry Fonda, Martin Balsam, Lee J. Cobb; filme este conhecido como um dos melhores filmes de tribunal já feitos, teve três indicações ao Oscar, entre outros prêmios.

Cartaz do filme de 1957

Cartaz do filme de 1957

A história tem um plott bem simples, mas poderoso: 12 homens são convocados como júri para decidir sobre a culpa ou a inocência de um garoto pobre de 16 anos, acusado de matar o próprio pai. Leve-se em consideração que, em caso de culpa, a condenação é a morte por cadeira elétrica. E a decisão, tanto por culpado ou por inocente, deve ser unânime.

Esse cenário, que a uma primeira vista parece ser uma realidade tipicamente americana, com suas específicas leis e condutas, serve para uma discussão muito mais profunda sobre as nossas visões e perspectivas diante de algo que nos é apresentado; como deixamos as primeiras impressões, a opinião dos outros, e os nossos próprios preconceitos e crenças interferirem em nossos julgamentos. E como muitas vezes não percebemos que os nossos julgamentos podem afetar duramente os outros, de forma direta ou indireta.

Não digo que a peça seja perfeita. Em termos de atuação, ficamos o tempo todo frente a um cenário com 12 homens e é claro que alguns deixam escapar às vezes um texto mais decorado, ou recitado. Mas estão em alguns momentos, em algumas frases e na transformação geral que ocorre, as riquezas da peça. Vale ressaltar a ótima atuação de Zécarlos Machado, interpretando o jurado número 3.

Os jurados, que inicialmente parecem convictos (com exceção de um – o jurado número 8) da culpa, têm por base o testemunho de duas pessoas que dizem ter ouvido e/ou visto o garoto cometer o crime.

É interessante o valor que se dá ao testemunho das pessoas. Em análise estatística, o mais baixo grau de referência é justamente os relatos ou testemunhos, mesmo em se tratando de especialistas. Na medicina, para algo ser tomado por verdade, deve ser provado por meio de metaanálises, ensaios clínicos ou estudos de corte e relacionados. Mas no dia a dia, as pessoas dão valor aos testemunhos (porque não tratar uma pneumonia com chá de gengibre, se a vizinha relatou que funcionou?). E os testemunhos e relatos também assumem importância, quando falamos de justiça e direito, pois do contrário, poucos seriam condenados.

A Bíblia demonstra que na época da Lei, havia-se essa preocupação, quanto ao valor dos testemunhos. Tanto que uma pessoa não poderia ser condenada à morte com base no testemunho de apenas uma pessoa. Deveria haver pelo menos duas (Dt 17.6; 19.15). E nada era considerado mais criminoso que dar um falso testemunho, tanto que este é um item dos 10 mandamentos (Dt. 5.20). O testemunho de um homem era uma das coisas mais importantes que ele possuía. Claro que isso não bastou para que os fariseus e acusadores de Cristo contratassem pessoas que testemunhassem falsamente contra ele. Daí já vemos a falha da Lei.

É interessante que nos tribunais, antes de seu relato a testemunha deve jurar com a mão sob a Bíblia. Pra ser sincero, não sei se isso é feito aqui no Brasil, mas é algo bem típico dos tribunais americanos (pelo menos nos filmes). E isso é citado na peça. Mas a ideia da peça não é (só) duvidar da idoneidade dessas pessoas, considerando se são hipócritas o suficiente para mentir após ter jurado sob algo tão sagrado. A ideia é tentar entender como este testemunho pode ser alterado pela realidade da pessoa que fala e pode ser entendido pela realidade da pessoa que ouve.

É atribuída a Nelson Rodrigues a famosa frase “Toda unanimidade é burra”. Não sei se concordo plenamente com essa citação, mas com certeza concordo com a sequência dela: “Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.” E é exatamente isso que vemos nos nossos dias. Como exemplo podemos ponderar: se fizéssemos uma pesquisa, com certeza a grande maioria da população, quase a unanimidade, consideraria os “mensaleiros” como grandes corruptos e criminosos, mas uma boa parte dessa população não saberia dizer o porquê, nem mesmo detalhar a chave da acusação. Não que não os sejam realmente, criminosos e corruptos, mas consegue-se perceber que isso é tomar para si uma verdade coletiva, sem pensar sobre o assunto?

Num mundo onde descarta-se o outro e a opinião do outro de forma tão recorrente, onde as pessoas são levadas a julgar e condenar o outro na base do estereótipo, e do que é simplesmente apresentado pela mídia (não estou defendendo, mas vide as tão famosas reportagens denúncias que expõem e condenam, sem dar direito a resposta, ou mesmo sem retratações nos casos em que a justiça decide pela inocência do réu); em que uma pessoa é linchada por um erro que cometeu (entre tantos outros que cometeram o mesmo erro) num estádio de futebol; em que um jovem pobre é um típico drogado ou criminoso, como na peça; em que um pastor é sempre um ganancioso capitalista ou que um padre é sempre um pedófilo; num mundo assim, é interessante termos alguns momentos para pensar e refletir, especialmente naqueles nossos julgamentos que possam interferir em nossas vidas ou nas do próximo.

Vale a pena assitir a peça com esse pensamento. E vale a pena sempre termos cuidado com a realidade que nos é apresentada. Vivemos uma época de muita informação e pouco aprofundamento. Todo mundo lê as manchetes, mas poucos lêem as entrelinhas. Salomão pediu sabedoria a Deus, justamente para que pudesse julgar bem. Não é porque não temos a sabedoria ou a importância de Salomão que devemos julgar livremente, de qualquer medida. Até porque por essa mesma medida, podemos também ser julgados.

“Eu quero a verdade que só me é dada através do seu oposto, de sua inverdade. E não aguento o cotidiano. Deve ser por isso que escrevo.” Clarice Lispector

Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça.” Jo 7.24

“Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós.” Mt 7.2