Cinema / Resenha – La grande bellezza

lagrandebellezza

No último final de semana assisti ao filme vencedor do oscar de melhor filme estrangeiro deste ano: “A grande beleza” (La grande bellezza, 2013), filme italiano dirigido por Paolo Sorrentino, com o protagonismo de Toni Servillo. O filme conta a história de Jep Gambardella (Toni Servillo), um escritor de 65 anos, famoso por um livro de grande sucesso escrito há muitos anos atrás e que garantiu a ele uma vida de muitos luxos e privilégios na alta sociedade de Roma. O momento de sua vida e a morte de um grande amor do passado o leva então à uma profunda reflexão sobre tudo.

Ora, não é preciso falar da qualidade do filme, tanto técnica como de roteiro e atuações (Toni Servillo é simplesmente fantástico no papel principal), afinal o oscar ganho lhe garante ao menos alguma qualidade. Mas é um filme complexo de tantas camadas e tantas reflexões que ao menos algumas deles me chamaram muito a atenção e preciso descrevê-las aqui.

Guardada as devidas proporções, por favor, comparo um pouco a vida e as reflexões de Jep às de Salomão, no livro de Eclesiastes. Jep, assim como Salomão, é um homem que tem tudo, não precisa trabalhar, vive em meio às festas da alta sociedade “intelectual” de Roma, mora em frente ao Coliseu, com um jardim magnífico, e mesmo aos 65 anos, ainda tem as mulheres que quer. Tudo isso não impede Jep de demonstrar uma tristeza oculta, um vazio, que o leva a repensar sua vida e a questionar seus amigos “pseudo-intelectuais” e também o clero, bastante presente no filme, que não consegue lhe dar uma resposta satisfatória para suas inquietações.

Essa questão do “pseudo-intelectualismo” é de tão bem explorada, um capítulo à parte na história. Em uma das festas (e são muitas no filme) alguém faz um elogio à musica de jazz que está sendo tocada. A outra personagem, com certo desdém (e aquela altivez que conhecemos tão bem) refere “hoje em dia só gosto de jazz etíope”. Em prol do seu reconhecimento intelectual a pessoa tem que discordar e apontar um estilo tão restrito que somente ela poderia conhecer. Em outro momento do filme, Stefania, uma das amigas de Jep, também escritora de diversos livros, está a criticar a juventude atual e sua falta de iniciativa, bem como a criticar a passividade de seus amigos, quando Jep, cansado desse discurso, simplesmente começa a falar sobre a realidade das conquistas dela, como ela supervaloriza tudo isso, como sem bons relacionamentos e um pouco de sorte ela jamais teria feito nada daquilo. É impressionante ver a realidade humilhar tão fortemente essa personagem, e ela ter que conviver com essa nova visão sobre si mesma, pois a máscara do intelectualismo era tudo que ela tinha.

O clero, e consequentemente, a religião, estão presentes o tempo todo no filme. No entanto duas figuras se destacam: a do cardeal, que tem grandes chances de chegar a papa; e a da Irmã Maria, uma missionária tida como santa que viveu décadas na África como missionária. O cardeal passa todo o tempo revelando segredos de chef de cozinha, falando de receitas, comidas e outras trivialidades. Em determinado momento, Jep tenta se aproximar para questioná-lo a respeito de dúvidas religiosas e espirituais que tinha, mas rapidamente o cardeal desloca sua atenção para uma outra coisa banal. Em determinado momento, num jantar, Jep declara sua frustração para o “papável”, em como ele não obteve respostas para suas inquietudes, mas ao mesmo tempo, refere ter sido bom que eles não tivessem conversado, pois seria muito mais frustrante para ele, Jep, perceber que na verdade o cardeal não tinha essas respostas. Isso é interessante, porque, de alguma forma, ele prefere ter a “esperança” de que alguém tão importante da igreja não esteja tão perdido quanto ele, do que ter a certeza de que todos estão igualmente perdidos. O que Jep talvez não saiba, é que essas respostas, muitas vezes, somente nós mesmo podemos nos dar, e não adianta procurar o pastor, o teólogo ou o professor da escola dominical.

Já a Irmã Maria, a santa, é uma senhora já no final de sua vida, quase incapaz de falar, cuja figura tem sido praticamente explorada por outros membros do clero. No entanto, as poucas palavras que ela troca com Jep, são de mais profundidade do que com qualquer outro, bem como suas ações. E é justamente a ela que Jep responde a pergunta que todos fazem a ele: “por que não escreveu um segundo livro?”. E ele diz: porque estava a procura da “grande beleza”.

O conceito de beleza está intrinsicamente ligado, no filme, ao conceito de arte, outro assunto muito bem tratado. Não é a toa que o filme se passa em Roma, uma cidade com tantas obras de arte e ao mesmo tempo, tão bela. Tão bela que no início do filme vemos um turista morrer como que “intoxicado” por essa beleza. Não é a toa que o personagem principal jamais conseguiu escrever um segundo livro, pois estava todo esse tempo à procura de “La grande bellezza”, algo que ele nunca encontrou, mesmo vivendo em Roma, à frente do Coliseu, uma vida de muitas festas. Nunca encontrou, a não ser, a seu ver, numa breve lembrança de um amor passado.

Ao final do filme, vemos uma grande metáfora, mostrando a Irmã Maria subindo a escadaria e desfalecendo ao final, bem como mostra-se Jep, jovem, pronto a subir uma escada, atrás de seu amor (e fora de Roma). É claro, que a escada é uma metáfora da vida. E ele conclui no mais uma vez impressionante discurso final:

“Termina sempre assim. Com a morte. Mas primeiro havia a vida. Escondida sobre o blá, blá, blá. Está tudo sedimentado sob o falatório e os rumores. O silêncio e o sentimento. A emoção e o medo. Os insignificantes, inconstantes lampejos de beleza. Depois a miséria desgraçada e o homem miserável. Tudo sepultado sob a capa do embaraço de estar no mundo. Blá, blá, blá, blá… O outro lado é o outro lado. Eu não vivo do outro lado. Portanto… que este romance comece. No fundo… é apenas uma ilusão. Sim, é apenas uma ilusão”

 

É um conclusão impressionante e ao mesmo tempo muito resignada. O seu novo romance, cuja sua impressão traria a marca da “grande beleza” deve se iniciar. Mas no fundo, a grande beleza é uma ilusão (ou um truque como o do mágico que faz desaparecer a girafa). Quanto ao além, ao após a vida, ele nada pode falar.

Quando comparo essas reflexões às mesmas realizadas por Salomão no livro de Eclesiastes, posso dizer que quanto ao mundo, ambos demonstram essa mesma visão pessimista e até aparentemente mal humorada (como colocaria Pr. Ed Rene Kivitz), da vida. Mas quanto à conclusão final, graças a Deus, o Pregador (Salomão), tem uma conclusão diferente.

 “Lembra-te também do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: Não tenho neles contentamento … E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu. Vaidade de vaidades, diz o pregador, tudo é vaidade. … De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem. Porque Deus há de trazer a juízo toda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau.” Eclesiastes 12.1,7-8,13-14

Aí é que está: ou você fica com o truque de grande beleza desta vida, ou acredita que há algo de verdadeira beleza acima de tudo isso e que há de encobrir todo truque com que nos temos divertido e enganado por tanto tempo.

 Toni-Servillo-en-La-grande-bellezza

Resenha: A vida secreta de Walter Mitty

The-Secret-Life-of-Walter-Mitty

Atenção: contém “spoilers” sobre o filme “A vida secreta de Walter MItty”. Se você não assistiu, leia por sua conta e risco.

Que grata surpresa tive ao assitir ao filme “A vida secreta de Walter Mitty”. Quem poderia imaginar que Ben Stiller, famoso por seus filmes de comédia “pastelão”, poderia produzir e protagonizar um filme desse tipo. Sim, pois não espere deste filme nada que Ben Stiller produziu ao longo de sua carreira. Mas apesar de não esperada, esse tipo de reviravolta não é uma novidade na carreira de comediantes. Jim Carrey tentou fazer o mesmo com “Cine Majestic”,  Adam Sandler com “Click”. Mas acredito que entre estes, Ben Stiller obteve o maior sucesso em sua empreitada.

Walter Mitty (Ben Stiller) é o responsável pelo Departamento de Arquivo e Revelação de fotografias (entenda-se negativos) da antiga revista “Life” que passa por um momento de transição em que serão encerradas as edições impressas da revista, passando a se focar apenas nas edições online. Interessante é que a revista “Life” realmente existiu como no filme e de fato sofreu esta transição, em meados do ano 2000.

Devido à transição, muitas pessoas perderão o emprego ou serão substituídas em prol desta visão inovadora e futurista. Walter trabalha há anos na revista, muito responsavelmente em seu departamento, mas em seu interior, ele vivia uma “vida secreta” de aventuras e fantasias, muitas delas descritas na própria revista que ele editava. E nesse momento de sua vida, Walter conhece (e se apaixona por) Cheryl (Kristen Wiig), mas não consegue um meio decente de abordar a mulher (nem mesmo pelo E-Harmony). Ao mesmo tempo, recebe de Sean O´Connel, o maior fotógrafo e aventureiro da revista, muito bem representado pelo homônimo Sean Penn, uma coletânea de fotos, que incluía uma que estamparia a capa da última edição da revista “Life”, a “25”, que demonstraria nada mais nada menos que a “quintessência da vida”.

Não é preciso ser um roteirista para imaginar que justamente esta foto estaria faltando entre aquelas enviadas. E é justamente à procura desta foto, atrás do fotógrafo Sean, que Walter irá viver as mais incríveis aventuras de sua vida, tendo que sair de uma rotina que já durava anos.

O personagem Walter Mitty não foi criado originalmente pelo roteirista Steven Conrad (o mesmo de “A procura da felicidade”). Ele é o personagem de um conto de 1939 do escritor americano James Thurber e já tinha ido ao cinema em 1947, produzido por Samuel Goldwin. Mitty é um personagem tímido e retraído, mas com uma imaginação muito fantasiosa e o personagem fez tanto sucesso que foi incluído em alguns dicionários da língua inglesa como sinônimo de sonhador inofensivo.

No entanto, não é nos sonhos de Walter Mitty que estão as riquezas do filme, mas sim nas suas realizações. Quando Walter finalmente decide se mover de seu lugar, ele passa por situações inacreditáveis, tudo com o objetivo de encontrar Sean O´Connel e, consequentemente, o negativo de número “25”. No final, ele atinge seu objetivo de forma que nem imaginava, e acaba conseguindo entregar a foto que estamparia a última edição da revista “Life”, sem vê-la.

Ao se deparar com a revista nas bancas, no grande plot twist do filme, qual não é a sua surpresa ao ver a si mesmo estampado na capa, em um momento de trabalho comum, avaliando um negativo. Uma homenagem a todos aqueles que haviam trabalhado silenciosamente para transformar a revista no que era. Mas mais do que isso, a demonstração de que as vezes a “quintessência” está naquilo de mais simples da vida. E às vezes não precisamos sair da rotina para fazer algo realmente extraordinário.

Quintessência é aquilo de mais puro, mais sublime de algo. O termo remete à Aristóteles  que considerava que o universo era composto de quatro elementos principais – terra, água, ar e fogo-, mais um quinto elemento, uma substância etérea que permeava tudo e impedia os corpos celestes de caírem sobre a Terra. É claro que o termo não faz mais referência a isso, mas até hoje é um termo utilizado em física no estudo de campos gravitacionais.

Às vezes é difícil entendermos nossa situação na vida, nossa função como membros de uma igreja, de uma escola, de uma empresa ou de uma família. Às vezes não conseguimos ver nossa importância em algo que permite que as engrenagens continuem rodando. Todos se espelham e querem ser como o rei Davi, que travou guerras, venceu batalhas, matou o gigante. Mas muitos se esquecem que às vezes precisamos ser como Jônatas, que tinha direito, como filho de Saul, ao trono, mas soube entender que Davi era a melhor opção; Ele não destruiu sua amizade com Davi e, ao mesmo tempo, foi filho obediente a um pai autoritário e amargo (fato que acabou o levando à morte em campo de batalha). Da mesma forma, muitos se imaginam como Sean O´Connel, mas, se esquecem que ser Walter Mitty também se faz necessário.

A vida, por certo, é muito mais complexa do que representada nos filmes, mas é claro que ela tende a ser bem menos “fantasiosa”. Provavelmente você jamais irá lutar com um tubarão ou sobreviver a um vulcão em erupção. Talvez você nunca esteja num campo de batalha ou se torne um refugiado num país muçulmano. Mas a questão não é se você irá fazer, mas como irá fazer. Não podemos nos deixar levar pelo marasmo, pela rotina que não nos deixa nos mover, claro. Mas em cada trabalho que fazemos, em cada momento que vivemos, devemos ter por objetivo fazer o melhor. E nos preparar. Mesmo que você esteja acostumado apenas com a comédia, se prepare também para um possível papel dramático. Pois quem sabe se amanhã não teremos algo grandioso para fazer? Quem sabe se amanhã não teremos que matar um gigante?

“Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças” Eclesiastes 9.10a

a-vida-secreta-de-walter-mitty

Resenha: As Aventuras de Pi

as aventuras de pi 2

Atenção: Contém spoilers do filme “As Aventuas de Pi”

Ontem fui assistir “As Aventuras de Pi” (Life of Pi – 2012), filme de Ang Lee, no cinema e não poderia deixar de citá-lo em nosso blog de reflexão cristã. Isso porque a temática religiosa neste filme é forte e, porque não dizer, inteligente.

Em aspectos gerais, o filme, uma adaptação do livro de Yann Martel, é muito bom. Em termos visuais, é um deslumbre. O 3D, bem aplicado. Mas, como já foi dito, o que nos interessa é a temática religiosa que o filme aborda. No começo somos apresentados a um homem sendo entrevistado por um escritor em busca de uma história fantástica. Esse homem é Piscine Patel, ou, Pi Patel, um indiano, que tem como marco uma história de sobrevivência no mar.

Pi Patel começa a contar-lhe a história desde a infância na Índia, e como sua infância foi marcada pelo contato com 3 diferentes religiões: o hinduísmo, o islamismo e o cristianismo. Pode-se considerar que a figura de seu pai, fazendo sempre questão de “trazê-lo à tona” e mostrar-lhe a realidade da vida, incentivando-o a seguir a razão, coloca esta (a razão ou a ciência), como uma quarta religião. Mas é claro que posteriormente a discussão irá se resumir basicamente no velho (mas nunca ultrapassado) debate entre fé e razão.

Apesar de muito interessante as cenas de discussão sobre religião, especialmente aquelas em que Pi questiona o padre sobre diversas dúvidas que apresentava, o filme, inteligentemente, não desanda a mostrar qual delas seria a melhor, ou qual a mais verdadeira, até porque geraria aí uma guerra de religiões. No entanto, uma frase do filme é bastante interessante: “Encontrei a fé através do hinduísmo, mas o amor de Deus através de Jesus Cristo”.

A partir deste ponto, o debate irá se resumir em acreditar ou não acreditar e nós também resumiremos o debate a isso, para que faça sentido em nosso contexto. Se Pi tem uma crença “correta” ou não é um outro debate, bem diferente.

O pai de Pi era o proprietário de um zoológico na Índia e, por razões diversas, se vê obrigado a transferir-se com sua família e com seus animais para o Canadá. Em determinado momento, no meio do Pacífico, uma tragédia ocorre, o navio afunda e sobrevivem apenas Pi, o tigre Richard Parker, uma hiena, um macaco e uma zebra, que posteriormente se resumirão a apenas Pi e Richard Parker. Ambos sobrevivem em um mar que demonstra-se fantástico e ao mesmo tempo assombroso. Após questionar sua fé, Pi entende que alguns fatos que acontecem com eles durante este processo, são de alguma forma, intervenção divina para que ele conseguisse se salvar.

Ao final do filme (já avisei que havia spoilers!), vemos o escritor com dificuldade em acreditar em história tão fantástica, assim como não acreditaram os auditores do navio japonês que entrevistaram Pi quando chegou a costa do México e estava no Hospital. Então este conta uma história que parece muito mais plausível, basicamente trocando os animais por pessoas.

A questão do filme não é fazer refletir qual história reflete a realidade. Até porque, em meu entender, a segunda história é a que aconteceu na realidade, e a primeira foi a que (realmente) aconteceu nas entrelinhas, ou seja na própria pessoa de Pi. Apesar de somente ele ter sobrevivido, para passar por essa experiência, o garoto adolescente precisou dividir espaço no bote com seu tigre interior. Ou seja, ele era o garoto e ele era o tigre. Se em seu próprio ser não houvesse um tigre, não haveria espaço para sobrevivência também. E como o próprio narrador fala, alimentar este tigre faz ele persistir, e em determinado momento ele agradece a Deus por ter o tigre com ele.

Quando finalmente está em terra seca, na costa do México, o tigre simplesmente vai embora. Não se despede. Não há comoção. E é assim, o tigre dentro dele só se fazia valer em momentos como aquele no mar. Fora dele, ele simplesmente desaparecia.

Fato é que uma tragédia ocorreu no mar, e somente um menino sobreviveu. Para aqueles que olham a história friamente, trata-se de uma simples história de sobrevivência no mar. Um garoto que teve a sorte de sobreviver 227 dias em alto mar. É nisso que pode-se acreditar. Agora aqueles que preferem um olhar mais profundo, muito mais coisas, fantásticas e impressionantes aconteceram, para que Pi vencesse o mar. E ele próprio prefere essa versão mais fantástica. A versão que o faz acreditar em Deus.

Mas o que isso tem a ver conosco? Ora, será que isso não acontece conosco? Como entendemos tragédias e alegrias em nossas vidas? Nós todos e, especialmente nós cristãos, procuramos sempre dar significados às coisas que acontecem em nossas vidas. Quantas vezes passamos por dificuldades ou momentos difíceis? Após passarmos por estes momentos, nós, que vivemos isso, podemos adotar essas duas posturas diferentes: Venci, porque era pra vencer, ou venci, porque Deus me deu força, e por que não, um tigre para vencer? O fato que aconteceu é apenas um, mas a forma como o entendemos, depende de nós.

as aventuras de pi