Filme e Livro em Mente | Na Natureza Selvagem – A felicidade em um ser social

O ser humano é um ser social. Desde a nossa mais tenra idade, somos voltados para o desenvolvimento de importantes habilidades sociais, que irão moldar toda a nossa vida. Em casos específicos, em geral patológicos, essas habilidades podem encontrar-se deficitárias, variando conforme o tipo e o momento do surgimento em um grande leque de alterações: autismo, esquizotipias, transtornos da personalidade, fobias sociais.

No entanto, apesar da nossa inerente capacidade de sermos sociais, até hoje ainda não sabemos ao certo qual o tipo de sociedade ideal e, por isso, ainda nos degladiamos em discussões sem fim acerca do capitalismo, socialismo, democracia, etc. E, mais que isso, ainda sofremos em meio a uma sociedade que cobra demais e marginaliza a muitos. É no meio desse conflito que temos a história real de Christhopher McCandles, conhecida pelo livro de Jon Krakauer e pelo filme homônimo “Na Natureza Selvagem” (Into the Wild – 2007).

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“Na Natureza Selvagem” (“Into the Wild”). Filme e livro

Christhopher era o filho de Walt e Whilhelmina McCandles, donos de uma empresa de consultoria. Walt já havia trabalhado para a NASA e tinha uma inteligência, aparentemente proporcional à sua rigidez. Um casal bem-sucedido dentro do “american way of life”. Já adolescente, Christhopher e sua irmã descobriram que o pai tinha outro filho de um relacionamento anterior e isso parece ter mexido bastante com eles.

A crescente raiva da sociedade, do materialismo e de toda falsidade moral inerente a esses, não impediram que Christhopher se graduasse na Universidade de Atlanta em História e Antropologia. No entanto, após a graduação, ele decidiu fazer uma viagem sozinho pelos vários estados americanos, após ter doado todo seu dinheiro que tinha no banco a instituições de caridade, decidido a depender somente da natureza e dos que encontrava no caminho. Nesse momento ele muda seu nome para Alexander “Supertramp” (algo como super-andarilho), e deixa a todos que conhece sem saberem de seu paradeiro.

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Christhopher McCandles, durante sua peregrinação como “Alexander Supertramp”

Toda a história, as aventuras, as amizades, muito interessantes, vocês podem ver nas obras sobre a vida do Chisthopher, em especial no famoso filme de 2007, dirigido por Sean Penn, com Emile Hirsch no papel principal, e a presença de diversos atores conhecidos: Vince Vaugn, Kristen Stewart, William Hurt, Marcia Gay Harden. Não irei me deter aqui nessas histórias, mas vale a pena assistir ao excelente filme (que tem seus problemas de ritmo talvez, mas mesmo assim excelente), que conta ainda com uma trilha sonora toda especial, composta e cantada por Eddie Vedder (ex-vocalista do Pearl Jam).

Fato é que o objetivo de Christhopher após dois anos de peregrinação, foi chegar ao Alasca, onde objetivava viver dependendo totalmente da natureza, como escrevia em suas notas em seu diário e em seus livros que o acompanhava:

“Sem jamais ter de voltar a ser envenenado pela civilização, foge e caminha sozinho pela terra para se perder na floresta.”

Christhopher, ou Alexander Supertramp, viveu nessa região totalmente sozinho e isolado, se abrigando em um ônibus abandonado durante cerca de 4 meses. O ônibus é um capítulo à parte. Até hoje é trilha para aventureiros que desejam refazer a rota feita pelo Supertramp. O que um ônibus fazia abandonado em meio ao nada na região é um mistério, mas serviu de abrigo para Christhopher que o apelidou de “magic bus”, mostrando o caráter aparentemente místico com que encarava toda a sua experiência.

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Christhopher McCandles e o “Magic Bus”. Uma porção da sociedade, no meio do nada.

Os relatos escritos por Chris em seu diário e em suas notas que fazia em meio aos livros de Thoreau, Tolstoy, Jack London, demonstram como ele viveu da euforia ao extremo desespero, vendo-se em determinado momento “aprisionado” pela natureza que o cercava. Vivendo de pequenas caças que realizava e de sementes, Christhopher se viu cada vez mais magro, fraco e, possivelmente, envenenado pelas sementes que ingeria. Em 6 de setembro de 1992 foi encontrado morto por um grupo de caçadores, dentro do ônibus, com o corpo já em decomposição dentro de um saco de dormir. Na porta do ônibus:

“S.O.S. Preciso de ajuda. Estou aleijado, quase morto e fraco demais para sair daqui. Estou totalmente só, não estou brincando. Pelo amor de Deus, por favor, tentem me salvar. Estou lá fora apanhando frutas nas proximidades e devo voltar esta noite. Obrigado, Chris McCandles.”

Como essa frase tristemente se contrapõe à alegria inicial da aventura é de chocar os corações. E como ao final dela, diferente de em outros momentos, ele assina seu nome real e não Alexander “Supertramp”. Como consolo, dentro do ônibus, uma frase deixada por ele acalanta um pouco mais:

“Tive uma vida feliz, e agradeço ao Senhor. Adeus e que Deus vos abençoe a todos.”

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Entre as polêmicas que envolvem a história de McCandles, entre os muitos que o consideram um herói e entre aqueles que o consideram um suicida, muitas lições podem ser tiradas. Na natureza ou na sociedade, muitas vezes o homem irá se ver deslocado em sua existência. Desde as primeiras civilizações o homem forma grupos como um meio de adaptação a um ambiente possivelmente hostil. E desde as primeiras civilizações os grupos exigem do homem uma adaptação que nem sempre é simples. Se McCandles tinha algum transtorno psiquiátrico? Talvez. Me parece uma personalidade bastante esquizotípica. Mas que as angústias e a revolta apresentadas por ele são uma coisa real e viva nas sociedades de hoje, isso não há dúvidas.

Esse falso moralismo tão presente, não é exclusividade das sociedades ocidentais, nem muito menos de nosso tempo. O farisaísmo, em sua essência mais criticada, é exatamente isso. E como Jesus criticava o farisaísmo. Como Jesus era crítico da sociedade de sua época. Talvez hoje, diriam que ele era “de esquerda”.  Jesus inclusive, antes de iniciar seu ministério, se exilou por 40 dias no deserto, mantendo-se longe de toda contaminação espiritual que a sociedade poderia lhe trazer naquele momento.

No entanto, o que homens como Chris McCandles, Thimoty Treadwell (outro famoso morador de áreas selvagens habitadas por ursos), e outros tantos eremitas não percebem (ou percebem tarde demais), é que sem o convívio social, não somos completos. Sem pessoas para partilharmos nossas tristezas, nossas angústias, nossas alegrias não podemos ser felizes, como Chris escreveu em meio a um exemplar de Dr. Jivago, pouco tempo antes de morrer:

“A felicidade só é real quando compartilhada”

Viver socialmente é algo intrínseco a nós. Está em nosso DNA. No Gênesis, Adão não era completo e feliz, antes que Deus lhe desse uma “adjutora que estivesse como diante dele”. Isso, mesmo com Adão vivendo em total harmonia com a fauna e flora de um jardim natural que em nada lhe era hostil. Somente após a existência de um outro ser humano com quem pudesse compartilhar sua vida, suas alegrias, ele poderia ser realmente feliz. Outros grandes homens da Bíblia, passaram seus piores momentos quando estavam abandonados e se sentiam sozinhos, em especial em ambientes selvagens como o deserto: Elias, Jonas, Moisés, Agar. Parafraseando Tom Jobim: “… é impossível ser feliz sozinho.”

“O olhar de amigo alegra ao coração; as boas-novas fortalecem até os ossos.” Pv 15.30

Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também. E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição.” Cl 3.13-14

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Séries em Mente – Black Mirror, S01Ep02 – Fifiteen Million Merits

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Contém spoilers do Episódio 2 da Primeira Temporada de “Black Mirror”.

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Há algum tempo não poderia imaginar que chegaria o momento em que discutiria sobre um episódio de série aqui no site. Isso porque até há algum tempo, série era entretenimento popular, voltado para a TV. No entanto, nos últimos anos estamos assistindo a um crescimento e proliferação de diversas séries muito bem produzidas, com episódios que se comparam às produções cinematográficas. Além disso, serviços de streaming como o Netflix, desvincularam a existência da série à programação de TV, tornando-as histórias com possibilidades infinitas a serem contadas em episódios.

Assistindo recentemente à série Black Mirror, que é produzida pela Netflix, me deparei com um episódio simplesmente sensacional e que me trouxe diversas reflexões. Estou falando do episódio 2 da Primeira Temporada, chamado “Fifteen Million Merits”. Estou até agora impressionado pela qualidade da produção, incluindo as atuações, o cenário, a música. É realmente um filme, com uma duração um pouco menor.

Black Mirror é uma série de antologia, pois cada episódio conta uma história diferente e independente dos outros. No entanto, existe entre eles uma premissa de questionamento moral e da relação da humanidade com as novas tecnologias. O “espelho negro” do título faz referência à todas às telas que se tornaram tão comuns ao nosso redor: nas mesas, nas paredes, na palma das mãos: tablets, smartphones, monitores, televisores. Charlie Brooker, criador da série afirma que seu objetivo é trabalhar neste espaço, entre “a apreciação e o desconforto” relacionado às novas tecnologias: “se a tecnologia é como uma droga, quais são exatamente seus efeitos colaterais?”.

Até o momento só assisti aos 2 primeiros episódios. O primeiro apesar de um ótimo e original questionamento moral, não me chamou tanto a atenção quanto o segundo. “Fifteen Milion Merits” se passa em futuro distópico, no estilo “1984” de George Orwell. Nele, acompanhamos Bing, interpretado por Daniel Kaluuya, um cidadão que pertence à uma classe trabalhadora, cuja função é pedalar diariamente em bicicletas capazes de gerar energia para tudo ao redor. Esse conceito já é fantástico, pois existe energia mais limpa que a gerada pelo próprio humano? Além de limpa, garantiria corpos saudáveis e atléticos. O que, automaticamente, gera uma diferença de classes de pessoas que não seriam capazes de pedalar, em geral obesos, que irão cuidar da limpeza ou irão ser alvos de programas de humor físico, no estilo “vídeo-cassetadas”. Esses “bikers”, como Bing, vivem cercados de telas que lhes garantem entretenimento a todo o tempo, mas também, repletas de propagandas, individualmente selecionadas. Bing, desde o início, mostra como esse mundo de “pedalar sem sair do lugar”, o levou a uma apatia intensa e infelicidade. Bing é acordado por um sistema automatizado e tem que fazer as mesmas coisas, para poder viver o mesmo entretenimento, diariamente, num mundo onde nada é realmente real senão a maçã artificial que tende a emperrar na máquina que lhe oferece o almoço.

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Todo esse marasmo será sacudido no momento em que surge uma nova ciclista, por quem Bing irá se apaixonar. Isso irá tirá-lo momentaneamente do seu mundo infeliz, ao perceber que algo real poderia acontecer. No entanto, a sociedade volta a frustrar Bing ao cooptarem a moça com uma proposta indecente que irá afastá-los. Dessa forma, ele “explode” e passa a ter um único objetivo: ganhar dinheiro para ir à frente de todos no concurso à la “American Idol” e expor todo o absurdo da sociedade em que vive.

E de fato isso acontece. Em uma atuação magistral do ator, ficamos pasmos quando por cerca de 2 minutos ele expõe toda a fraqueza da sociedade em que vive. Mas o que vem depois, nos deixa ainda mais pasmos: uma sociedade tão anestesiada, que até mesmo a crítica tem que ser “empacotada” e colocada na grade de programação. E isso é tão atual! Criticar se tornou um dos maiores entretenimentos da população, basta ver a maioria das redes sociais.

Em nossa sociedade estamos vivendo justamente assim: enjaulados pela tecnologia, escravos de trabalhos sem perspectiva, em que pedalamos, pedalamos, sem sair do lugar, cujo único objetivo é juntar dinheiro para o nosso consumo de mais telas e entretenimento. E os sentimentos gerados por esse ciclo vicioso são igualmente empacotados, não utilizados para quebrar a estrutura tão rígida em que estamos aprisionados.

Alguns estão tão moldados a esse sistema, que nem percebem mais. Somente aceitam tudo que lhes é empurrado, e com tantas opções, fica cada vez mais fácil ser atraído por um entretenimento espúrio (nem que seja criticar o entretenimento). Estão tão moldados e conformados que, se conseguissem enxergar a si mesmos seriam paródias de si. Mas com tantos olhos para tantas telas, não há olhos para enxergar a si mesmo. E mantém-se neste ciclo, gargalhando em um mar de infelicidade. Até o dia em que afunda-se de vez.

“Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos.” Is. 59.10

“ E não se conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” Rm 12.2

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Revista PSICOTEO / CPPC

No último mês, tive o prazer de publicar dois artigos na Revista PsicoTeo, publicação semestral do CPPC (Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos). É muito bom poder contribuir para a manutenção de uma comunidade cristã forte em meio à ciência e a academia, e o CPPC tem essa função. Se alguém tiver o interesse em adquirir a revista, envie email para secretaria@cppc.org.br

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Revista Psicoteologia

Edição nº 57 – primeiro semestre de 2016

Temática livre

Entrevista – Guilherme Falcão e Ageu Lisboa

Artigos: 

Agathofobia e a cidade dos demônios – Anderson Clayton Pires

Imagens – Amauri Munguba Cardoso

Desafios de uma interseção – Alice Levy Supino

A metacognição em relacionamento com Deus – Leonardo Afonso dos Santos

A recessão da esperança – Anderson Clayton Pires

O suicídio filosófico e a realidade do apego à vida – Leonardo Afonso dos Santos

CPPC – Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos – www.cppc.org.br

Música em Mente – “Dust in the Wind”

 

Dust In The Wind | Poeira no vento

 

I close my eyes | Eu fecho meus olhos

Only for a moment | Apenas por um momento

And the moment’s gone | E o momento se foi

All my dreams | Todos os meus sonhos

Pass before my eyes, in curiosity | Curiosamente passam diante dos meus olhos

 

Dust in the wind | Poeira ao vento

All we are is dust in the wind | Tudo o que somos é poeira no vento

 

Same old song | A mesma velha música

Just a drop of water in an endless sea | Apenas uma gota d’água em um mar infinito

All we do | Tudo o que fazemos

Crumbles to the ground though we refuse to see | Cai em pedaços embora nós nos recusemos a enxergar

 

Dust in the wind | Poeira ao vento

All we are is dust in the wind | Tudo o que somos é poeira no vento

 

Now, don’t hang on | Agora, não fique esperando

Nothing lasts forever but the earth and sky | Nada dura para sempre, apenas a terra e o céu

It slips away | O tempo foge

And all your money won’t another minute buy | E todo o seu dinheiro não comprará outro minuto

 

Dust in the wind | Poeira ao vento

All we are is dust in the wind | Tudo o que somos é poeira no vento

Dust in the wind | Poeira ao vento

Dust in the wind | Poeira ao vento

Everything is dust in the wind | Tudo isso é poeira no vento

 

Existem algumas bandas e músicas que podem não ser muito conhecidas da maioria das pessoas, mas provavelmente estão no “inconsciente musical coletivo”, quero dizer, é aquela música que você ouve e sabe que já ouviu antes, é capaz até de cantarolá-la. “Dust in the Wind” é provavelmente um desses casos e se você executar a versão abaixo, disponível no youtube, você irá perceber isso.

Digo isso porque recentemente esta música me chamou a atenção enquanto ouvia uma playlist em meu celular. Primeiro pela beleza da melodia e pelo belo solo de violino, mas especialmente pela letra também. Você pode acompanhar a tradução da música acima.

Percebendo o conteúdo da letra, não pude deixar de notar que de alguma forma ele teria se baseado em conceitos e metáforas extraídos da Bíblia. Fui investigar e, de fato, descobri que o autor da música, Kerry Livgren, tomou como base o “mais mal-humorado livro da Bíblia”, (parafraseando o famoso livro do pastor Ed René Kivitz), Eclesiastes, especialmente em seu tão presente texto “correr atrás do vento” (Ec. 1.14; 1.17; 2.11; 2.17; 2.26; 4.4; 4.6; 4.16; 6.9) associado também ao texto de Gênesis “és pó e ao pó voltarás” (Gn 3.19). A letra da música é simples e auto-explicativa, mas cabe uma boa reflexão em cada verso.

Kerry Livgren foi um dos fundadores da famosa Banda Kansas em 1974. Em 1977 compôs a música acima, que tornou-se um dos maiores sucessos da banda. Interessantemente, alguns anos após ter feito esta música, Livgren se converteu, tornando-se cristão protestante. Na verdade, ao ler a biografia dele, consigo perceber um interesse muito grande em cobrir o seu “vazio”. Eu diria que, uma pessoa que escreve um texto desse, com clara percepção de como nossa vida, nossos sonhos, nossas obras são tão passageiros, como “poeira no vento”, está perto de descobrir algo mais.

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Kerry Livgren – Um dos fundadores da Banda Kansas e autor de “Dust in the Wind”.

Livgren primeiramente teria se aproximado da “Doutrina Urântia”, baseada no “Livro de Urântia”. O “Livro de Urântia” trata-se de alguns textos escritos da década de 1930 em Chicago baseado em supostas revelações e que abordam ciência, religião e filosofia. Aborda o cristianismo de maneira própria que não caberia discutir aqui, mas cabe saber que até hoje ainda há seguidores. De qualquer forma, esse interesse por religião e, especialmente por Jesus Cristo, teria levado Livgren a uma série de debates na parte de trás do ônibus de seus tours, com Jeff Pollard da banda Lousiana´s Le Roux que fazia a abertura dos shows da Kansas. Jeff Pollard, vinha de uma família cristã e inclusive, pouco tempo depois, se dedicaria exclusivamente a seu ministério cristão, sendo hoje um conhecido pastor na Providence Baptist Church em Ball, Los Angeles. Após essas discussões, Kerry Livgren, teria abandonado a doutrina Urântia, para se apegar ao cristianismo evangélico. A experiência de conversão teria ocorrido em um quarto privado de hotel.

Após a conversão, Kerry Livgren passou a dedicar boa parte de sua carreira à música gospel, criando seu primeiro álbum solo “Seeds of Change” em 1980. Manteve-se na Banda Kansas até 1983, inclusive compondo músicas com cunho bastante religioso. Em 1983 se desliga da banda, vindo a formar o grupo AD, de rock cristão, que não fez tanto sucesso. Depois segue diversos projetos, especialmente em carreira solo, vindo inclusive a reintegrar a banda Kansas por alguns períodos na década de 90 e anos 2000.

Curiosamente, no início da década de 80 a banda Kansas chegou a ter três de seus integrantes cristãos: Kerry Livgren, Dave Hope e John Elefante. John Elefante, juntamente com seu irmão Dino é bastante conhecido no meio gospel por ter produzido músicas para a banda Petra e Shout. Apesar de tanto “amor cristão” na banda, as coisas não andaram bem por muito tempo, tendo os diversos conflitos de interesse levado ao desmantelamento da Kansas.

Hoje, Kerry Livgren tem diversas músicas de cunho religioso. Aparentemente se dedica a um de seus maiores projetos, uma cantata orquestrada chamada “A Ressurreição de Lázaro”. Além disso, é professor de escola dominical em sua igreja em Topeka, no estado de Kansas nos Estados Unidos (Topeka Bible Church). Apesar de tão famoso por suas músicas, Livgren afirma que isso é apenas uma parte de sua vida. Em sua biografia Seeds of Change: The Spiritual Quest of Kerry Livgren (“Sementes da Mudança: A Busca Espiritual de Kerry Livgren”), ele afirma:

“Eu sou um homem de família, tenho um papel na minha igreja, eu estou correndo com uma gravadora, um estúdio, uma empresa de produção, uma fazenda, e eu tenho mais hobbies e interesses do que há horas no dia.”

Um homem tão produtivo tem a certeza de que somente em Deus podemos encontrar algo mais do que “poeira no vento”. Salomão, o homem mais sábio e, provavelmente, um dos mais produtivos de sua época, chegou a essa conclusão há mais de 2500 anos. Claro que isso não nos impede de nos deleitar e “louvar a alegria” como está em Eclesiastes 8.15, como a feliz melodia do solo de violino da música Dust in the Wind, que me dá a clara impressão de estar sendo levado tranquilamente pelo vento.

“Tenho visto tudo o que é feito debaixo do sol; tudo é inútil, é correr atrás do vento… Fiquei pensando: Eu me tornei famoso e ultrapassei em sabedoria todos os que governaram Jerusalém antes de mim; de fato adquiri muita sabedoria e conhecimento. Por isso me esforcei para compreender a sabedoria, bem como a loucura e a insensatez, mas aprendi que isso também é correr atrás do vento.” Eclesiastes 1.14,16-17

Artes Plásticas | Joan Miró – A Força (e a Ressignificação) da Matéria

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Na última semana estive em Florianópolis e pude visitar a exposição “Joan Miró – A Força da Matéria”. Foi uma das melhores coisas que eu pude fazer durante minha estadia nesta bonita cidade (em que choveu durante toda a semana). Aconselho aos que não tiveram a oportunidade de ver essa exposição lá ou em São Paulo, que aproveitem os últimos dias em que esta estará no MASC (Museu de Arte de Santa Catarina). E, preferencialmente, tentem uma visita guiada, pois é espetacular.

“Joan Miró – A Força da Matéria”, como o nome diz, é uma exposição montada com obras deste artista abstrato e surrealista do século XX, que tende a valorizar a relação de Miró, não só com a ideia expressa na obra, mas com a matéria de que se utiliza para criá-la. Dessa forma veremos obras de todos os tipos, desde pinturas realizadas em papel e tinta guache, a esculturas, obras em madeira e pano.

Joan Miró, como outros artistas de seu tempo, se utiliza muito da ressignificação. Ou seja, ao pegar um pedaço de madeira que foi desprezado, cheio de marcas e defeitos próprios e utilizá-lo para realizar a sua obra, ele literalmente transforma “lixo em luxo”. E vai também de caminho contrário, ao realizar uma escultura em bronze, material nobre, utilizado por gregos e romanos para suas esculturas de deuses e de atos vitoriosos, e jogar-lhe tinta em cima, o que, para esses artistas clássicos, seria uma espécie de “crime contra a arte”. Ao dar uma ressignificação a um pano velho e com marcas, ou a um objeto qualquer de metalurgia, Miró torna algo desprezível em uma obra valiosa, enriquecida não só com o sentido que este lhe a imprime ao pintá-la ou montá-la, mas com toda a história existente por trás de um objeto como este.

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Miró e a Matéria – À esquerda acima, obra em papelão, à direita, obra em madeira reutilizada (repare nas marcas e defeitos inerentes a esta), e abaixo escultura em bronze, reutilizando-se de materiais industriais.

Miró ainda demonstra uma relação mais forte com a matéria de suas obras. Para que elas possam ser palco da expressão psicanalítica de suas pulsões* e da livre associação de ideias*, Miró pinta, risca, bate e até mesmo pisa em suas obras, agredindo-as ao mesmo tempo em que lhes dá significância. Dessa forma a matéria existe com uma espécie de divã, no qual o artista irá despejar as suas relações transferenciais. A obra é o resultado da “impregnação” do artista àquilo que a sustenta.

Muito mais se poderia falar sobre a obra deste artista catalão: a importância do “primitivo”, a proximidade com as pinturas rupestres e também com a cultura oriental, da qual ele “importa” o uso e a ideia dos “ideogramas”, marca da obra de Miró. Mas nesse momento prefiro me concentrar na ideia da ressignificação e da riqueza desta metáfora que fala de nós mesmos. Afinal a ressignificação do homem é quase sinônimo de cristianismo.

“…Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são;” 1Co 1.27-28

Um homem não é uma tela em branco. Um homem tem história, tem marcas, tem cicatrizes e traumas. E muitas vezes esses traumas são suficientes para torná-lo desprezível e à margem da sociedade. Mas é justamente nessa matéria, que Deus escolheu pintar as mais belas obras de toda a humanidade. Nessa matéria que Deus escolheu imprimir sua personalidade e criar uma forma de se mostrar ao mundo. Sim, se um artista se mostra através de sua obra, Deus se mostra através de toda a criação, em especial, através do homem.

“Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.” Sl 19.1

“Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento.” 2 Co 2.14

É interessante perceber que em Miró, e na verdade, na arte em geral, a matéria tem força somente quando o autor lhe imprime um significado. Claro que em Miró isso ganha uma característica em especial, mas em suma, tudo não passa de telas, tintas, metais. Pode-se dizer que em temos de matéria, um homem não passa de uma estrutura viva baseada em carbono. Mas veja a força da matéria quando esta se associa de forma organizada. Quanto muito mais não será quando esta espelha a grandeza da graça de Deus.

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Essa fotografia termina a exposição e mostra um Miró já consagrado, em que ele sabia que cada uma de suas obras poderia valer milhões, trabalhando na areia da praia, uma matéria passageira, que a qualquer momento pode ser apagada pelas ondas, mas ao mesmo tempo única em suas propriedades.

* Pulsão: termo psicanalítico que define a energia psíquica que leva às ações, desejos. / Livre-associação: termo psicanalítico utilizado para definir a técnica em que se permite ao paciente falar deixando as ideias surgirem e encadearem-se livremente.

Filosofia e Poesia | De Caeiro a Camus – A metafísica de se dar sentido aos atos

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Guardando o Rebanho – Pintura a óleo de Antonio de Carvalho Silva Porto, de 1893, em exposição no Museu Nacional de Soares dos Reis, em Porto. Essa Obra do Realismo/Naturalista português representa bem a valorização da simplicidade do campo tão presente em Alberto Caeiro.

Alberto Caeiro era um dos heterônimos de Fernando Pessoa. Para quem não está familiarizado, essa era uma forma bastante comum de Pessoa se expressar, ou seja, ele criava personalidades, com nomes, biografias, datas de nascimento e até mesmo de morte, que se expressavam de formas determinadas e criavam suas próprias obras.

Alberto Caeiro, junto com Álvaro de Campos e Ricardo Reis são os mais famosos heterônimos. Caeiro era um poeta do campo e, apesar de pouca instrução, era tido pelos outros como “O Mestre”. Caeiro, em toda a sua obra, sempre irá defender a vida simples do campo, sem a necessidade de grandes luxos, mas principalmente sem a necessidade de grandes questionamentos, ou filosofias. Para ele, o que importa é o que vê e o que sente, e pensar sobre as coisas é simplesmente deixar de enxergá-las e aprisionar-se num quarto com cortinas. Nesse sentido, Alberto Caeiro é anti-metafísico. A poesia dele fala por si mesmo:

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei.  Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas?  Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica?  Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Alberto Caeiro.

Meu objetivo aqui, claro, não é rebater o pensamento de Alberto Caeiro, haja visto que nem mesmo se trata de uma pessoa de verdade. Mas é também claro, que um site que tem por objetivo “pensar” vai diretamente contra esse tipo de ideia expressa por Caeiro. O homem é questionador por natureza. As crianças, por exemplo, têm uma curiosidade natural. Mas pensar também gera consequências. Gera sofrimento, gera dúvidas, gera incertezas. E talvez seja por isso que vemos tantas pessoas que, mesmo sem saber, vivem exatamente dentro da filosofia de vida de Alberto Caeiro. Preferem não parar para pensar.

Já ouvi de um grande amigo meu: “quem me dera fosse apenas um pescador da Amazônia, e pudesse viver ignorantemente sem que meus questionamentos me afligissem”. Será mesmo? Seria, como diz o ditado, verdadeiramente “a ignorância uma benção”? Não acredito. Aliás também não acredito nessa figura que rodeia nosso imaginário, do cidadão simples, humilde e não questionador. Tenho certeza que uma hora ou outra esse “pescador” deve olhar para o céu e se perguntar “por que tudo isso?”. Alberto Caeiro não existe na realidade.

No entanto, após questionar-se, o homem pode sim optar pela opção de resignar-se. E aí sim, viver a vida, simplesmente porque é o que precisa ser feito. Acordar, comer, trabalhar e dormir, porque é o que precisa ser feito. Um (não) eterno ciclo que não leva a lugar algum. Um trabalho de Sísifo.

Sísifo era na mitologia grega, um homem que quis desafiar a morte, e por isso foi condenado ao pior trabalho de todos: o trabalho inútil. Todos os dias era obrigado a carregar com muito esforço uma grande pedra até o cume de um monte, simplesmente para vê-la rolar depois. É interessante que apesar dessa história ter pelo menos uns 2500 anos, no século XX, um outro Alberto, não o Caeiro, mas o Albert Camus, realizou um ensaio filosófico, tendo como base esse mito. Para Camus, a questão central da humanidade seria: diante da “absurdidade” da condição humana, não seria a única resposta para isso o suicídio? É claro que a discussão de Camus é muito mais profunda, mas a resposta a essa pergunta é basicamente “não”. E (ainda bem), não vemos tantas pessoas se suicidando por aí, alegando convicções filosóficas. Mas vemos milhões simplesmente aguardando a morte, reprimindo e/ou postergando seus pensamentos sobre Deus, a vida e a morte.

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Albert Camus e sua obra “O Mito de Sísifo”

“Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia

… Galileu, que detinha uma verdade científica importante, abjurou-a com a maior facilidade desse mundo quando ela lhe pôs a vida em perigo. Em um certo sentido, ele fez bem. Essa verdade não valia a fogueira. Se é a Terra ou o Sol que gira em torno um do outro é algo profundamente irrelevante. Resumindo as coisas, é um problema fútil. Em compensação, vejo que muitas pessoas morrem por achar que a vida não vale a pena ser vivida. Vejo outras que paradoxalmente se fazem matar pelas idéias ou as ilusões que lhes proporcionam uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é, ao mesmo tempo, uma excelente razão para morrer). Julgo, portanto, que o sentido da vida é a questão mais decisiva de todas.”

“Da mesma forma, e ao longo de todos os dias de uma vida sem brilho, o tempo nos carrega. Mas sempre chega um momento em que é preciso carregá-lo. Vivemos para o futuro: “amanhã”, “mais tarde”, “quando você tiver uma situação”, “com o tempo você vai compreender.” Essas inconsequências são admiráveis porque, afinal, se trata de morrer. Mas chega um dia e o homem verifica ou diz que tem trinta anos. Afirma assim sua juventude. Mas, nesse mesmo lance, se situa com relação ao tempo. Ocupa ali seu lugar. Reconhece que está num dado momento de uma curva que confessa ter de percorrer. Ele pertence ao tempo e, nesse horror que o agarra, reconhece nele seu pior inimigo.”

Albert Camus, em “O mito de Sísifo”

Para Camus, o verdadeiro sofrimento de Sísifo não estava no seu trabalho em si. Mas estava na sua condição humana que o levava a refletir sobre o trabalho. Camus descreve que a verdadeira pena estava não no momento em que ele subia o monte carregando a pedra, mas no momento em que ele descia o monte, tendo consciência de sua condição. De fato, não podemos afirmar que um rato que todos os dias corre em sua roda, que não lhe leva a lugar algum, esteja sofrendo pelo ato em si, haja visto que este não tem consciência do que o ato significa (no caso, nada). Mas um homem que passasse uma vida inteira girando uma roda do Conan (*referência ao filme Conan – O Bárbaro, de 1982), se não tivesse a esperança de mudar sua situação, por certo se angustiaria demais.

“Se esse mito é trágico (o mito de Sísifo), é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo o sustentasse a esperança de ser bem-sucedido? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consicente.”

Fato é que, um tema tão importante da filosofia não poderia passar “batido” ao “homem mais sábio de todos os tempos”. Inclusive, o próprio Camus chega a citar Eclesiastes em sua obra, mostrando que foi beber também de Salomão ao escrevê-la. E este imortaliza a expressão, que ao meu ver é sinônimo de Trabalho de Sísifo: “correr atrás do vento”.

“Contudo, quando avaliei tudo o que as minhas mãos haviam feito e o trabalho que eu tanto me esforçara para realizar, percebi que tudo foi inútil, foi correr atrás do vento; não há nenhum proveito no que se faz debaixo do sol.” Eclesiastes 2.11

Paulo, que em seu tempo teve que debater com filosófos da linha dos estóicos e epicureus, (que têm bases muito semelhantes as de Caeiro), valorizava muito a “fé racional”, ou seja a fé que tem uma base e um pensamento racionais, de um homem que se questiona, que opta e delibera. Paulo valorizava o pensar.

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”

Romanos 12.1-2

Ele sabia que as coisas de Deus se discerniam espiritualmente, mas ao mesmo tempo, não deixava de lado seu entendimento, raciocínio e intelectualidade. Pelo contrário, os abastecia com a graça e a convicção que lhe era dado por meio da fé, afim de justamente desvendar os conhecimentos mais ocultos. Paulo acima de tudo era um filósofo. Um filósofo do cristianismo.

“… Para que o coração deles seja confortado e vinculado juntamente em amor, e eles tenham toda a riqueza da forte convicção do entendimento, para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo, em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos.” Cl 2.2-3

Como o texto acima diz, todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão em Cristo. Pode ser que ainda estejam ocultos a nós, mas estão nEle. E Cristo é algo acessível a todos e a qualquer um. Seja um grande intelectual como Albert Camus, um homem do campo como Caeiro, ou apenas um simples e humilde pescador na Amazônia. Essa é a grande maravilha do cristianismo: ser a resposta a essa grande “absurdidade” da vida, que permeia a mente de sábios e indoutos. Ser o sentido que faz com que não sejamos apenas ratos correndo em uma roda ou “Sísifos” carregando pedras pela eternidade para, simplesmente, serem roladas de volta. Não precisamos viver como Sísifo.

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Sísifo, de Tiziano Vecellio, de 1548. Essa pintura a óleo deste artista renascentista encontra-se exposta hoje no Museu do Prado, em Madri.

Artigo | A Frustrante Eternidade de Obras e Nomes

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“A Torre de Babel” (Tour de Babel), de Lucas Van Valckenborch, de 1594, atualmente expostas no Museu do Louvre, Paris.

“Vamos construir uma cidade, com uma torre que alcance os céus. Assim nosso nome será famoso e não seremos espalhados pela face da terra”. Gn 11.4

O que farei para ser lembrado? O que deixarei para a posteridade? Como eternizar a minha passagem pelo mundo? Questões como essas, com certeza afligem a maioria dos seres humanos. A verdade é que é doloroso para todos lidar com a sua finitude e, ser lembrado pelas gerações futuras passa ser uma forma de “se eternizar”. Mas ao que me parece, como cristãos aprendemos a cada dia que “se eternizar” não deveria ter outro caminho que não pela esperança em Jesus. Mesmo assim, nos deparamos todos os dias com medidas “desesperadas” para marcar sua presença no mundo.

Templos faraônicos. Prédios suntuosos. A necessidade de se criar sua própria Igreja, com seu próprio nome. Todos os dias vemos nomes se destacarem na mídia, não necessariamente de forma positiva. Na época da integração digital, todos são anônimos, mas a qualquer momento, apenas uma frase polêmica, ou um tweet de menos de 140 caracteres, podem torná-lo famoso. Nem que por alguns minutos. Não à toa, a famosa frase de Andy Warhol, “no futuro, todos terão seus 15 minutos de fama”.

No entanto, não pense ser isso um problema de nossos tempos. Não. A própria Bíblia, ainda em Gênesis, cita a construção da Torre de Babel, como uma forma dos homens de sua época “alcançarem o céu”, e se tornarem grandes para a posteridade. As primeiras civilizações já tinham a necessidade de marcar seus feitos através de obras, estátuas, templos e mausoléus. Aliás, avaliemos as Maravilhas do Mundo Antigo: duas delas nada mais eram que túmulos (a pirâmide de Quéops e o Mausoléu de Halicarnasso), duas eram estátuas de deuses (A estátua de Zeus, o Colosso de Rhodes), uma era um templo (Templo de Ártemis ou Diana), uma era um Jardim (Jardins Suspensos da Babilônia) e a última um Farol (Farol de Alexandria), talvez a única que realmente tivesse alguma serventia.

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Mapa de localização das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Perceba como a lista se limitava praticamente a região dominada pela cultura grega.

O Templo de Ártemis ou Diana dos Efésios (uma das sete maravilhas) era bem conhecido do Apóstolo Paulo. Afinal por conta dele, houve certa rebelião contra o apóstolo e seus seguidores em Éfeso. Imagino que ele fazia parte da paisagem diária avistada por Paulo durante o período relativamente longo que habitou por lá. E pelo fato de a nova Doutrina apresentada por Paulo ser algo que “desprezava” tanto a Diana quanto o seu templo, esses se revoltaram:

“… E estais vendo e ouvindo que não só em Éfeso, mas em quase toda a Ásia, este Paulo tem persuadido e desencaminhado muita gente, afirmando não serem deuses os que são feitos por mãos humanas.

Não somente há o perigo de a nossa profissão cair em descrédito, como também o de o próprio templo da grande deusa, Diana, ser estimado em nada, e ser mesmo destruída a majestade daquela que toda a Ásia e o mundo adoram.At 19.26-27

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Modelo do Templo de Ártemis (ou Diana dos Efésios), presente no Museu de Miniaturas Miniaturk, em Istambul, na Turquia.

Imaginem só se o templo de Diana fosse “estimado em nada”. Éfeso seria só mais uma cidade entre tantas e por nada seria lembrada. Aliás essa “fixação” por serem lembrados parecia ser algo bem típico do povo de Éfeso, pois quase 400 anos antes de Paulo, um cidadão chamado Heróstrato foi o responsável por incendiar o tão querido templo de Ártemis (ou Diana), justamente com o objetivo de ser lembrado pela posteridade. Está aí. Heróstrato é o nome dele, ainda lembrado 2300 anos depois. Mas será que valeu a pena ser lembrado por esse ato?

Fernando Pessoa tenta responder a essa pergunta em uma de suas obras: “Heróstrato e a busca da Imortalidade”. No entanto, seu objetivo é mais avaliar a “imortalidade” de uma obra, chegando a conclusão de não ser possível saber quem ficará para a história, sendo o ideal, como afirma, “uma epopeia que resistisse como Milton e interessasse como Conan Doyle). Em outro texto “As Condições do Prestígio”, Pessoa escreve:

“Descreveu Carlyle a humanidade como sendo um vaso cheio de cobras, cada uma d’elas tentando erguer a cabeça acima das de todas as outras.

Não vale a pena a fama a qualquer preço. Não vale a pena tomar qualquer atitude para ser famoso, mas vou mais além, não vale a pena também tomar atitudes boas esperando, com essas, atingir alguma fama. Com certeza hoje temos registrado e falamos muito de toda uma galeria de heróis da fé, como Paulo, Estevão, Abraão, Moisés. Mas com certeza há muitos outros que jamais saberemos os nomes (não nessa existência), que por amor a Deus sofreram perseguições, foram torturados, mutilados e mortos. Muitos que na história da humanidade, nada mais são que seres anônimos, que nunca terão seus nomes nos livros de história, que nunca terão suas canções entoadas, ou nunca terão suas mortes choradas. Mas se lhes perguntassem, com certeza diriam: O que é a glória humana, comparada a esplendorosa glória de Deus? Poderia eu trocar uma pela outra? Acho que não.

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie.Epístola do Apóstolo São Paulo aos Efésios, capítulo 2, versículos 8 e 9.

Cinema / Poesia | “Para sempre Alice” e “A arte de Perder”

“Somos aquilo que lembramos, e também aquilo que resolvemos esquecer”.

Ivan Izquierdo.  Médico e neurocientista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), referência mundial em fisiologia da memória.

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Assisti recentemente ao filme Still Alice (“Para Sempre Alice”), de 2014. Dirigido por Richard Glatzer (falecido recentemente em decorrência de Esclerose Lateral Amiotrófica) e Wash Westmoreland, o filme conta com atores de peso como Julianne Moore no papel principal, Alec Baldwin, Kristen Stewart e Kate Bosworth. Mas o filme é de uma pessoa só: Julianne Moore domina a tela no papel de Alice, e não é à toa que recebeu diversas premiações por essa atuação, incluindo o Oscar e o Globo de Ouro.

Baseado no livro homônimo, de Lisa Genova, o filme conta a história de Alice, uma neurolinguista, professora universitária, que começa a apresentar déficits de memória, decorrentes da manifestação de um Alzheimer precoce. Por certo muitas pessoas têm contato com parentes, pais ou avós com Mal de Alzheimer, mas esse caso específico é um pouco diferente. Trata-se de uma forma rara da doença, que atinge pessoas mais jovens e cuja evolução é inexorável, ou seja, se você tem o gene, você irá manifestar a doença, e ainda pode transmiti-lo a seus descendentes.

alice borboleta

Livro “Still Alice” de Lisa Genova, que deu origem ao filme. A metáfora da borboleta é algo bem presente, fazendo contraponto ao sentimento de aprisionamento da personagem principal.

A parte médica descrita no livro e no filme, é impecável. Os dados sobre a doença, os métodos de avaliação utilizados, todos esses são bem fiéis à realidade. Aliás, esse para mim é o grande mérito do filme: ser bem fiel à realidade, isto é, ele não idealiza, não mascara, não romantiza, mas mostra cada personagem com suas qualidades e seus defeitos e a realidade da doença como ela é.

No entanto, a grande questão do filme, não é abordar a doença em si, mas sim as mudanças biopsicossociais sofridas com a pessoa e com a família da pessoa que sofre com uma doença neurodegenerativa (talvez a escolha do diretor tenha relação com sua própria doença). E como essas mudanças bio-psíquicas-e-sociais fazem o paciente se afastar cada vez mais da pessoa que ela é. Fazem ela se perder. O grande objetivo do filme é falar sobre o “perder”. Por isso mesmo, creio que a tradução do título para o português não seja a mais adequada. “Still Alice”, no caso, seria melhor traduzido por “Ainda Alice”, já que o seu grande desafio, relatado pela própria, é manter-se conectada à mesma pessoa que ela já foi e que está perdendo, ou seja, continuar sendo “Alice”.

“… Eu sou uma pessoa vivendo no estágio inicial da Doença de Alzheimer, e assim sendo estou aprendendo a arte de perder todos os dias. Perdendo meus modos, perdendo meus objetos, perdendo sono e, acima de tudo, perdendo memórias…

…Tornamo-nos ridículos, incapazes, cômicos. Mas isso não é quem nós somos. Isso é a nossa doença. E como qualquer doença, tem uma causa, uma progressão, e pode ter uma cura…

…Mas por enquanto, eu estou viva. Eu sei que estou viva. Tenho pessoas que amo profundamente, tenho coisas que quero fazer com a minha vida… Estou lutando. Lutando para fazer parte das coisas, para continuar conectada com quem um dia eu fui. Então “viva o momento”, eu digo para mim mesma. É tudo que posso fazer. Viver o momento. E não me culpar tanto por dominar a arte de perder.”

Esse texto faz parte do discurso proferido pela personagem do filme em uma reunião sobre a Doença de Alzheimer. No início do texto ela irá citar um poema de Elizabeth Bishop, que transcrevo aqui abaixo e que se torna a base de todo o seu discurso. Elizabeth Bishop deve ser conhecida do público brasileiro, pois foi uma poeta americana que morou por mais de 20 anos no Brasil, e recentemente foi vivida no cinema no filme de Bruno Barreto, “Flores Raras” (que conta a história dela e sua relação homoafetiva com a personagem da atriz Glória Pires). O poema é bastante famoso nos Estados Unidos, de uma linguagem relativamente simples, com rimas em forma de villanelle (do francês villanesque). Villanelle é uma forma relativamente comum nos poemas de língua inglesa, sendo constituído por 5 tercetos seguidos ao final por 1 quarteto.

 

A arte de perder

 

“A arte de perder não é nenhum mistério;

Tantas coisas contêm em si o acidente

De perdê-las, que perder não é nada sério.

 

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,

A chave perdida, a hora gasta bestamente.

A arte de perder não é nenhum mistério.

 

Depois perca mais rápido, com mais critério:

Lugares, nomes, a escala subseqüente

Da viagem não feita. Nada disso é sério.

 

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero

Lembrar a perda de três casas excelentes.

A arte de perder não é nenhum mistério.

 

Perdi duas cidades lindas. E um império

Que era meu, dois rios, e mais um continente.

Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

 

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo

que eu amo) não muda nada. Pois é evidente

que a arte de perder não chega a ser mistério

por muito que pareça (Escreve!) muito sério. ”

 

Poema de Elisabeth Bishop, Tradução de Paulo Henriques Britto. Citado no filme Still Alice (“Para sempre Alice”) de 2014.

 

O poema mostra um eu-lírico resignado e aparentemente convencido de que nada pode fazer quanto a perda. Por isso ele parece obsessivamente querer se convencer de que isso “não é nada sério”, mesmo com o aumento gradual da importância das coisas que perde. Ao final, com o termo em parênteses “Escreve!”, vemos uma metalinguagem do autor que se utiliza das palavras, da poesia, para tentar amenizar o seu sofrimento.

Tanto o poema, quanto o filme nos comovem muito por tratar de forma tão delicada do tema da perda. Mas, independente se de forma abrupta ou de forma arrastada, como Alice, todos nós perderemos tudo isso. De forma geral, não se nasce com nada, e não se leva. Então tudo que um dia adquirimos, tudo pelo que lutamos, em teoria um dia irá se perder. Não há sentido em se apegar às coisas.

Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei para lá” Jó 1.21

Fica mais doloroso em pensarmos que esta “lei universal” se aplica também a nosso intelecto, às nossas memórias, e a nós mesmos. Por isso, não vale a pena nos apegarmos também ao que somos. Nossos títulos, nosso conhecimento, nossas lembranças. Tudo se perde também. E isso, fora de um contexto cristão, a mim, parece extremamente desesperador.

O apóstolo Paulo, em sua epístola aos Filipenses, parece alertar exatamente quanto a isso. Dentro de um contexto cristão, apegar-se aos seus bens, ou a si mesmo é um grande erro. E ele diz que mesmo ele, que pertencia a uma classe social bastante elevada em sua sociedade, tinha passado por todos os ritos judaicos à risca, tinha estudado e sido ensinado por um dos maiores mestres gregos de seu tempo, Gamaliel, tinha por certo tinha um QI muito acima da média, e ainda tinha de nascença o título de cidadão romano, algo que poucos podiam e que muitos pagavam quantias enormes em dinheiro para conseguir; mesmo ele, veria tudo isso se perder. E por isso, ele já preferia reputar tudo isso em perda por Cristo, sendo este agora seu verdadeiro apego. Porquanto, esquece-se das coisas que estão atrás e olha para o alvo, a fim de conquistar algo perene, que nunca se perderá.

“… Nós que adoramos pelo Espírito de Deus, que nos gloriamos em Cristo Jesus e não temos confiança alguma na carne, embora eu mesmo tivesse razões para ter tal confiança. Se alguém pensa que tem razões para confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado no oitavo dia de vida, pertencente ao povo de Israel, à tribo de Benjamim, verdadeiro hebreu; quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na Lei, irrepreensível.

Mas o que para mim era lucro, passei a considerar como perda, por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar Cristo e ser encontrado nele, não tendo a minha própria justiça que procede da Lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé.

Quero conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte para, de alguma forma, alcançar a ressurreição dentre os mortos. Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus.

Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus.” Filipenses 3.3b-14

 

O texto é claro. E é confortador, especialmente para aqueles que de alguma forma já viram seus familiares se perderem gradualmente dentro de sua mente, esquecendo-se de tudo e de todos. Mas Deus não se esquece. E em Cristo Ele há de reavivar uma nova mente incorruptível e perene, livre de doenças ou da neurodegeneração. Uma nova mente, em Cristo.

“Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista de imortalidade. Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: “Tragada foi a morte na vitória” 1Co 15.53-54

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Artigo | Selma – A verdade está marchando

Truth forever on the scaffold, Wrong forever on the throne,—
Yet that scaffold sways the future, and, behind the dim unknown,
Standeth God within the shadow, keeping watch above his own

“A verdade sempre no cadafalso. O pecado sempre no trono
No entanto, esse estrado balança o futuro, E, atrás deste turvo desconhecido,
Permanece Deus dentro da sombra, Mantendo acima sua vigilância.”

Trecho de “The Present Crisis” (1844), do poeta americano James Russell Lowell, citado por Martin Luther King em seu discurso de 1965 em Montgomery.

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Sem querer polemizar ou entrar a fundo nesse tipo de discussão, adianto antes de tudo minha opinião: Política e religião em geral não devem se misturar. Deixando claro esse meu ponto de vista (e implícito minha opinião sobre a maior parte dos políticos que formam a chamada “bancada evangélica”), reafirmo, a parte em que escrevo “em geral”. Ou seja, há momentos específicos em que a comunidade cristã de um país deve se movimentar. Ou até marchar. Não, não estou me referindo à nossa conhecida “Marcha pra Jesus” (nada contra). Me refiro a marchas de luta por direitos humanos, sociais ou religiosos, como as que aconteceram em Selma, no estado do Alabama em 1965.

Esses eventos ficaram mais famosos recentemente após terem sido contados no filme Selma – Uma Luta pela Igualdade”, de 2014. O filme, dirigido por Ava DuVernay, e estreado por David Oyelowo no papel de “Martin Luther King”, peca um pouco no ritmo, e no excesso de preocupação em ser linear, cronológico e explicativo, que deixam uma boa parte do filme meio “sonolenta”, na minha opinião. Tirando esse fato (e também o fato de escolherem um ator inglês, mas que se esforçou bastante, para interpretar Luther King), o filme é uma boa homenagem a esses corajosos homens que em determinado momento decidiram se mover e lutar por igualdade de direitos, direito ao voto e civilidade.

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Selma – Filme de 2014 dirigido por Ava DuVernay

Não vou me apegar à descrição de todos fatos, e dos detalhes de cada uma das três marchas realizadas em prol desses direitos à população negra americana. Fato é que a primeira pode ser resumida em uma imagem:

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O episódio acima ocorreu em 18 de fevereiro de 1956, e foi chamado de “Domingo Sangrento”. Tropas avançaram com gás lacrimogênio e cassetetes em um grupo de cerca de 550 manifestantes. 17 foram hospitalizados, e diferente de marchas anteriores, nenhum manifestante morreu. No entanto, havia um fator importante diferente nesse caso: a presença de redes televisivas registrando a crueldade. Imagens como a de Amelia Boyton Robinson (abaixo) rodaram o país e o mundo.

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Amelia Boyton Robinson, ferida na primeira Marcha de Selma a Montgomery.

Claro, que isso gerou repercussão, e a partir de então, os manifestantes de Selma, passaram a receber apoio de boa parte do país (inclusive de muitos cidadãos brancos).

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Manifestantes em Nova Iorque apoiam os movimentos de Selma (1965)

Mediante tal situação, o pastor Martin Luther King e os líderes da SCLC (Conferência da Liderança Cristã Sulista), organizam uma segunda marcha, que por motivos de segurança e também pela proibição judicial que havia, foi suspensa pelo Dr. King em cima da ponte Edmund Pettus, após uma breve oração. Nessa mesma noite, um grupo de ministros religiosos brancos que vieram a Selma para participar da marcha, foi atacado por membros do Ku Klux Klan e, dois dias depois, James Reeb, o mais atingido desses, veio a falecer.

Uma semana após, os manifestantes conseguiram finalmente o direito judicial de marchar. E com isso em 21 de março, domingo, iniciaram então a terceira marcha, que concluiu-se após 3 dias na cidade de Montgomery. No dia 25 de março, em frente ao capitólio do estado do Alabama, Martin Luther King realizou mais um de seus discursos memoráveis de título “How long? Not long.” (“Quanto tempo? Não muito”), mas mais conhecido como “Our God is Marching On” (“Nosso Deus está marchando”). Descrevo a tradução de alguns trechos deste discurso abaixo:

“… Eu posso dizer, como a Irmã Pollard disse – uma senhora negra de 70 anos de idade que viveu nessa comunidade durante o boicote do ônibus –  e um dia, ela foi perguntada enquanto andava se ela não queria uma carona. E ela então respondeu, “Não”, a pessoa disse “Bom, você não está cansada?” E com sua profundidade não gramatical, ela disse: “Meus pés estão cansados, mas minha alma repousa”. E em um sentido real, esta tarde, podemos dizer que os nossos pés estão cansados, mas nossas almas repousam….

… Sim, estamos em movimento e nenhuma onda de racismo pode nos parar. Estamos em movimento agora. A queima de nossas igrejas não vai nos deter. O bombardeio de nossas casas não vai dissuadir-nos. Estamos em movimento agora. O espancamento e morte de nossos clérigos e os jovens não vai desviar-nos. Estamos em movimento agora. A liberação desenfreada de seus assassinos conhecidos não iria desencorajar-nos. Estamos em movimento agora. Como uma idéia cujo tempo chegou, nem mesmo a marcha de exércitos poderosos podem nos deter. Estamos nos movendo para a terra da liberdade.

… Eu sei que vocês estão perguntando hoje, “Quanto tempo isso levará?”. Alguém pergunta: “Quanto tempo a visão cega dos homens permanecerá prejudicada, escurecendo seu entendimento e conduzindo a sabedoria de olhos abertos do Seu trono sagrado? Alguém se pergunta “Quando a justiça maculada, jazendo prostrada nas rua de Selma e Birminhgham e todas as comunidades do Sul, será levantada dessa poeira da vergonha que reina suprema entre os filhos dos homens? Alguém se pergunta: “Quando a estrela radiante da esperança imergirá contra o peito noturno desta adorável noite, arrancada de almas cansadas com correntes de medo e algemas da morte? Quanto tempo será crucificada a justiça, e a verdade suportará?

Quanto tempo? Não muito tempo, porque “nenhuma mentira pode viver para sempre”

Quanto tempo? Não muito tempo, porque “você colhe aquilo que você planta”

Quanto tempo? Não muito. * …

Quanto tempo? Não muito tempo, porque o arco do universo moral é longo, mas ele se curva em direção à justiça.

Quanto tempo? Não muito, porque ** …

Sua verdade está marchando.”

* Nesse momento ele cita o  poema de James Russel Lowell ** Nesse momento ele cita o hino “Our God is Marching On”

Esse discurso, não tão famoso como o “I´ve a dream” (“Eu tenho um sonho”), mas tão importante quanto, é recheado de referências externas, incluindo o poema do poeta americano James Russel Lowell, citado no prefácio deste artigo, e alguns corinhos muito famosos, inclusive aqui no Brasil, como “Joshua Fit the Battle of Jericho.” (“Vem com Josué lutar em Jericó”), “Lift Every Voice and Sing” de James Weldon Johnson, um famoso ativista americano negro, do início do século XX, e a incomparável, “Our God is marching on” (Glória, glória, Aleluia, aqui no Brasil).

As marchas de Selma a Montgomery foram um momento crucial da história da luta racial nos Estados Unidos. Após esse evento, muitos cidadãos de todo o país passaram a apoiar a causa, e o posicionamento do presidente Johnson, a favor do direito do voto a estes cidadãos, foi um grande passo para a mudança. Em pouco tempo, o número de cidadãos negros com direito ao voto se multiplicaria. O negro passa a ter representatividade política e, hoje, a nação mais poderosa do mundo, é liderada por um presidente negro, em seu segundo mandato.

Claro que até hoje ainda existem muitos resquícios dessa divisão racial nos Estados Unidos e em outros países também, como o Brasil. Mas é incomparável com os absurdos que já existiram. Fato é que fica marcado na história um momento em que uma comunidade cristã de um grande país se mobilizou para mudar e vencer uma grande injustiça. E essa luta fica como uma vitória de pessoas que entendiam seu lugar na sociedade, e se expuseram por uma causa que valia a pena lutar. Martin Luther King, mesmo não sendo um homem perfeito, ao longo de sua luta, angariou poder político, se sentou com presidentes e foi capaz de influenciá-los. Hoje infelizmente, somos assombrados por cristãos que se sentam com políticos para corromper e serem corrompidos. Não há cristãos marchando pela miséria e pelos injustiçados. Que Deus tenha misericórdia, e que a sociedade nos perdoe quando marchamos pelos motivos errados.

“Lembrai-vos, porém, dos dias anteriores, em que, depois de iluminados, sustentastes grande luta e sofrimentos; ora expostos como em espetáculo, tanto de opróbrio quanto de tribulações, ora tornando-vos co-participantes com aqueles que desse modo foram tratados…

… Com efeito, tendes necessidade de perseverança, para que, havendo feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa. Porque, ainda dentro de pouco tempo, aquele que vem virá e não tardará;Hb 10.32-33, 36-37