Artigo | A metacognição em relacionamento com Deus

Hoje em dia é quase um mantra dizer: “o homem é um animal… Mas, um animal racional”. Mas afinal de contas, o que significa ser um animal racional?

Psicopatologicamente falando a consciência do homem se diferencia das dos animais pela chamada consciência superior, ou, consciência reflexiva (além de uma amplitude maior de consciência básica e de inconsciente). Nela se dão os processos de metacognição: auto-consciência, introspecção, reflexão.

Através da consciência superior é possível dar conta dos próprios processos mentais, e não só percebê-los, mas refletir sobre eles, evitá-los, desejá-los, transformá-los.  Também por meio dessa capacidade, é possível olhar no futuro, onde estará e como será em consequência dos atos, podendo decidir se quer continuar por esse caminho ou, por meio do uso da deliberação e da vontade, seguir caminhos diferentes. De certa forma, isso é o que o provê do assim chamado livre-arbítrio*.

A mim, parece claro que quando a Bíblia diz que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança (Gen 1.26), a consciência superior está exatamente implícita nesta frase. Afinal, não pode se tratar de semelhança física, já que Deus é espírito (Jo 4.24), muito menos da mente de Deus, como um todo, já que, antes ou depois da “Queda”, o homem jamais foi onisciente ou onipotente. A mim, trata-se justamente da capacidade de realizar processos que lhe permitem tomar decisões que realmente transforme seu destino. Deus tomou uma decisão ao criar ao mundo. E avaliou cada passo da criação (ao concluir que cada passo era bom). E decidiu assim tomar outros passos que culminaram naquela que seria a sua “obra-prima”: o homem. Mas para que o homem fosse essa “imagem e semelhança” era necessário dar-lhe exatamente essa consciência que lhe permitiu o livre-arbítrio e a capacidade de tomar decisões e avalia-las como o próprio Deus realizou. A “obra-prima” de Deus é uma criatura que só poderia adorá-lo de livre e espontânea vontade. Por isso, infelizmente, pudemos escolher pelo “pecado”. E cada homem que nasce deve fazer suas escolhas.

A grande questão aqui é exatamente fazer escolhas. E não só fazê-las, mas avaliá-las. E ao avaliá-las tomar novos passos. No entanto, muitos optam por ignorar a sua metacognição. Ou melhor, preferem utilizá-la somente para seus objetivos pequenos ou mundanos. Cansam-se facilmente em refletir sobre sua realidade, sua vida, sua morte, ou sobre o próprio Deus. Adiam as decisões que podem realmente mudar a sua vida. Que grande erro é ignorar exatamente aquilo que nos torna tão diferentes dos animais.

Quanto trabalho sem sentido. Quanto dinheiro acumulado, sem real valor. Quantos prazeres facilmente esquecidos, quanto entretenimento consumindo todo o finito tempo. Para quê? Para quem?

“Louco! Esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” Lc 12.20

Todo dia somos instigados a tomar diversas decisões. Deve-se decidir que horas irá acordar, o que irá comer, o que irá vestir, com que irá se relacionar. Você pode se contentar em tomar decisões como essas com muito mais habilidade que um outro animal. Ou pode optar por mergulhar em sua própria consciência da forma que só um ser humano pode fazer. E, possivelmente, se relacionar com Deus da forma que só um ser humano pode se relacionar.

“Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo.”Ap. 3.20

“Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem.” Jo 4.23

*Fonte: Compêndio de Psiquiatria Clínica do IPQ-USP. 1ª Edição – 2013.

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Literatura | “O Alienista” de Machado de Assis.

“A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.”

Trecho de “O Alienista”

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Essa semana trago a obra “O Alienista” de Machado de Assis para análise e discussão. Acredito que essa obra muito tem a ver com o enfoque deste site, visto que propõe-se a enxergar a loucura de certo ponto de vista, no caso, o da ciência no final do século XIX. A ideia do livro não é, como veremos adiante, discutir sobre a “loucura” em si, mas, na verdade, abordar a “loucura” existente em tentar desvendar a “loucura”.

Isso atinge diretamente a ideologia cristã, pois o que é a loucura afinal, no momento em que a própria “mensagem da cruz é loucura para os que estão no mundo” (1Co1.18), ou ainda que “a sabedoria deste mundo é loucura aos olhos de Deus” (1Co3.19)? Vamos em frente então:

Resumo da história

“O Alienista” de Machado de Assis, é mais um dos clássicos da literatura brasileira. Existe um debate entre os especialistas se seria “O Alienista” um conto ou um romance curto. No entanto, parece haver pequena vantagem para o grupo que o considera um romance devido à sua estrutura narrativa. Foi publicado em 1882, já no auge da carreira de Machado e em sua fase realista, iniciada no ano anterior com a publicação de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.

O livro, que hoje conta com diversas publicações e adaptações, incluindo audiolivros e graphic novels, traz a história de Simão Bacamarte, “filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas” após seu regresso ao Brasil e sua escolha de Itaguaí como cidade.

A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo. Dito isso, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas.”

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O Alienista e suas diversas publicações, incluindo livros, audiolivro e graphic novels

Tudo referente à vida pessoal deste personagem é bastante conciso. Fato é que, a paixão pela ciência e, porque não, os próprios acontecimentos da vida, como a impossibilidade de ter filhos, fizeram-lhe por “mergulhar inteiramente no estudo e na prática da medicina”, e especificamente de seu “recanto psíquico”.

“A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico”.

Dessa forma, Simão Bacamarte decide pela criação de uma casa para “agasalhar e tratar todos os loucos de Itaguaí”. Um hospício. E aqui vemos o início das ironias tipicamente machadianas:

“Começou logo a construir a casa. Era na Rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí naquele tempo; tinha cinqüenta janelas por lado, um pátio no centro, e numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A idéia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII.”

Fato é que a casa foi construída, e aos poucos os “loucos” foram sendo introduzidos à esta. Com o tempo a casa foi-se enchendo de pessoas cada vezes mais consideradas “normais” pela sociedade, de forma que em seu auge, a casa acolheria quatro quintos da população de Itaguaí. Isso gera uma revolta na sociedade, ao passo que o próprio analista com base na “análise científica” percebe que seus métodos não podem estar corretos, liberando os internados. Dessa forma ele entende que os “loucos” não poderiam ser todos aqueles em que havia algum desequilíbrio das faculdades mentais, mas sim, o contrário, aqueles em que esse equilíbrio fosse pleno.

“De fato o alienista oficiara à Câmara expondo: — 1′: que verificara das estatísticas da vila e da Casa Verde que quatro quintos da população estavam aposentados naquele estabelecimento; 2° que esta deslocação de população levara-o a examinar os fundamentos da sua teoria das moléstias cerebrais, teoria que excluía da razão todos os casos em que o equilíbrio das faculdades não fosse perfeito e absoluto; 3° que, desse exame e do fato estatístico, resultara para ele a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto, que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto.

Dessa forma, a “Casa Verde” passa a agregar estes em que o equilíbrio lhe parecera perfeito. O mais interessante foi a forma utilizada pelo médico para “curar” a estes: o objetivo era justamente atacar onde estivesse “a perfeição moral dessa pessoa”!

Em um ano e meio, Simão Bacamarte obteve total sucesso de sua experiência. Mas isso não foi suficiente para apaziguar sua “alma científica”. Não. Uma nova teoria surgiria:

“Mas deveras estariam eles doidos, e foram curados por mim, ou o que pareceu cura não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro? E cavando por aí abaixo, eis o resultado a que chegou: os cérebros bem organizados que ele acabava de curar, eram desequilibrados como os outros. Sim, dizia ele consigo, eu não posso ter a pretensão de haver-lhes incutido um sentimento ou uma faculdade nova; uma e outra coisa existiam no estado latente, mas existiam.”

No entanto, ao concluir que em Itaguaí não haveria sequer um “mentecapto”, Simão Bacamarte entra em um novo dilema moral que só se solucionaria ao entender que achava em si as características do perfeito equilíbrio mental e moral. Sendo assim, seria o “alienista” o único “alienado” de toda a cidade, o que o levou a internar-se a si mesmo na “Casa Verde”.

Análise

Posso estar errado, mas percebo que havia no final do século XIX um certo encanto pela ciência e a razão, provavelmente advindo das ideias iluministas, que fazia as pessoas acreditarem que ainda criar-se-ia uma medicação, ou uma solução que pusesse fim aos principais males da humanidade. Esta ideia está presente em “Memórias Póstumas”, com o “Emplastro Brás Cubas” e está presente em “O Alienista”, como percebe-se no texto que se segue:

“O principal, nesta minha obra da Casa Verde, é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa dos fenômenos e o remédio universal”.

Podemos ver essa ideia presente na ciência da época. Sigmund Freud ao criar a psicanálise tinha ideias semelhantes. Tanto que na época pensou-se ser a cocaína, uma grande medicação em combate à depressão e estados melancólicos. O próprio Freud submeteu-se a uma cirurgia nasal que suspostamente tratava “neurose nasal reflexa”, com Wilhelm Fliess, acreditando que isso o deixaria “imune” a tal acometimento.

O objetivo de Machado de Assis, em “O Alienista”, não é analisar a “loucura” em si, mas através desta fazer uma análise crítica ao papel e à crescente importância que a ciência teria adquirido nesta época. Não que o livro seja contrário à ciência, muito menos às suas técnicas. Mas o que ele ilustra é justamente a possível “loucura” que uma “ditadura” da ciência pode levar. Segundo Gomes, R.*, o que interessa a Machado é “a grande loucura cientificista e positivista, que implica na busca dos limites entre razão e desrazão” e ainda “Aquilo de que se fala, portanto, é deste saber que, pretendendo esgotar – de forma objetiva e rigorosa – o conhecimento a respeito da mente humana, apoia-se numa pretensão de conhecimento total do mundo e, portanto, se destina ao fracasso.

“Por isso me esforcei para compreender a sabedoria, bem como a loucura e a insensatez, mas aprendi que isso também é correr atrás do vento.” Eclesiastes 1.17

Além disso, como colocamos na introdução desta resenha, o grande objetivo para nós passa a ser a fatídica pergunta: “o que é loucura, afinal?”. Considerem o alienista: médico com formação e reconhecimento em Portugal e Espanha, um homem dedicado à ciência e extremamente rigoroso com seu método, tem que mudar seu conceito e entendimento da loucura por diversas vezes para satisfazer seu conhecimento. Claro que falamos de um texto fictício, quase uma paródia. Mas o limite entre a normalidade e a insanidade é uma questão complexa mesmo para a psiquiatria atual. Da mesma forma, a Bíblia trabalha esse conceito ao comparar a fé à sabedoria do mundo, que à época de Paulo alcançava alto patamar com a razão e a filosofia grega e o helenismo. Para estes (os estudiosos gregos), crer na morte e ressurreição do filho de Deus só poderia ser uma loucura.

Não tenho a pretensão neste texto de chegar a uma resposta à pergunta citada acima. Não, isso seria cair no erro do alienista. Deixo tal embate para a própria ciência a qual sou apaixonado: a psiquiatria. No entanto, posso formular algumas assertivas: É loucura crer ignorando a razão. Mas loucura ainda maior é crer que a razão tudo pode discernir. Pois afinal, “quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo”?

“Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente…Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo.” 1Co 2.14,16

“Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana, agradou a Deus salvar aqueles que crêem por meio da loucura da pregação.” 1Co 1.21

*Gomes, R., autor de “O Alienista, loucura, poder e ciência”, artigo publicado em Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 5 (1-2):145-160, 1993 (editado em nov. 1994) e disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ts/v5n1-2/0103-2070-ts-05-02-0145.pdf

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Música: “God is love”, de Marvin Gaye – Um músico entre os extremos

God Is Love |Deus É Amor

Oh don’t go and talk about my father | Oh, não fale mal de meu pai
God is my friend | Deus é meu amigo
Jesus is my friend | Jesus é meu amigo
He made this world for us to live in, and gave us everything | Ele fez esse mundo para nós vivermos, e nos deu tudo
And all he asks of us is we give each other love. | E tudo que ele pediu em troca, foi nós darmos amor para cada um
Oh ya | Oh sim
Don’t go and talk about my father | Oh, não fale mal de meu pai
Cause God is my friend | Porque Deus é meu amigo
Jesus is my friend | Jesus é meu amigo
He loves us whether or not we know it | Ele nos ama independentemente de nós sabermos ou não
Just loves us, oh ya | Ele simplesmente nos ama
And He’ll forgive all our sins | E ele vai perdoar todos nossos pecados
Forgive all our sins | Perdoar todos nossos pecados
And all He asks of us, is we give each other love. | E tudo que ele pediu em troca, foi nós darmos amor para cada um
Oh ya | Oh sim
Love your mother, she bore you | Ame sua mãe, ela lhe deu a luz
Love your father, he works for you | Ame seu pai, ele trabalha pra você
Love your sister, she’s good to you | Ame sua irmã, ela é boa pra você
Love your brother, your brother | Ame seu irmão, ele é seu irmão
Don’t go and talk about my father, He’s good to us, | Oh, não fale mal de meu pai, ele é bom para nós
God is my friend | Deus é meu amigo
Jesus is my friend | Jesus é meu amigo
For when we call in Him for mercy, Mercy Father | Quando você o chamar para pedir clemência
He’ll be merciful, my friend | Ele vai ser misericordioso, meu amigo
Oh, yes He will |Oh sim, ele vai
All he asks of us, I know, is we give each other love, | E tudo que ele pediu em troca, foi nós darmos amor para cada um
Oh ya | Oh sim

A uma primeira vista parece apenas uma música gospel, com mensagem simples e correta, e um título já visto por diversas vezes no cenário musical religioso. E realmente é, e talvez passasse desapercebida não fosse ela escrita e interpretada por Marvin Gaye (com a ajuda de Anna Gordy Gaye, James Nyx e Elgie Stover), em 1971, no auge de sua carreira e em um de seus álbuns mais consagrados: “What´s going on”, album este que angariou a sexta colocação na lista da revista Rolling Stone, dos 500 maiores álbuns de todos os tempos e é tido por alguns como o maior álbum de soul music da história. Repare bem na letra da música acima e depois associe-o aos fatos que se seguem.

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What´s going on – Álbum de 1971. O mais icônico álbum de Marvin Gaye, foi considerado em 2003 pela Revista Rolling Stone o sexto melhor álbum de todos os tempos.

Marvin Gaye, para aqueles que não conhecem ou nunca ouviram falar (o que eu duvido), é um dos mais famosos cantores de soul e R&B americano, conhecido por músicas que provavelmente você já ouviu por aí como “Let´s get it on“, “Got to give it Up“, “Ain´t no mountain high enough” e “Sexual Healing“. Seu estilo e originalidade até hoje inspiram artistas no mundo inteiro.

O que poucos sabem, especialmente aqui no Brasil, é sobre a sua trágica biografia. E apesar de extremamente triste, muito tem a ver com o tema de nosso site. Marvin Gaye nasceu em Washington D.C., em 1939. Seu pai, Marvin Pentz Gay Sr., era pastor na Igreja evangélica “The House of God”, que tem em seu cerne um pouco de judaísmo ortodoxo e pentecostalismo (me parece próximo à Igreja Adventista do Sétimo Dia, aqui no Brasil). Desde cedo, Marvin Gaye começou a cantar e tocar na Igreja de seu pai, demonstrando grande talento.

A criação de Marvin na sua casa, até onde se sabe, sempre foi muito rígida, e ele costumava apanhar do pai diariamente. Seu envolvimento com a música começou com o doo-woop, e mais tarde viria a ingressar na famosa gravadora Motown, primeiramente como baterista, mas depois veio a demonstrar seu talento com discos-solo. Apesar de diversas desavenças com a gravadora ao longo dos anos, Marvin Gaye conseguiu com o tempo se impor como um artista original e de muito respeito, atingindo seu ápice artístico com o disco citado acima, “What´s going on“.

Na vida pessoal, durante sua carreira como músico, Marvin sempre oscilou entre as drogas e a depressão. E a relação com o pai se já era ruim, tornava-se cada vez pior. No ano de 1983, com a saúde mental muito abalada, Marvin se isola e retorna para a casa dos pais. Por diversas vezes ameaçou cometer suicídio. Em meio às diversas brigas e embates com seu pai, numa manhã, em 1 de abril de 1984, após uma discussão por causa de alguns documentos, seu pai toma um revólver, que havia sido lhe presenteado pelo próprio filho algum tempo antes, e dispara contra ele. Marvin Gaye morre, um dia antes de completar 45 anos.

Essa biografia, de um artista que é tido como um dos maiores da música popular americana, especialmente do soul e do R&B, nos traz diversas reflexões e joga por terra muitos conceitos presentes até hoje entre religiosos mais tradicionais:

– A educação rígida religiosa não foi suficiente para livrar Marvin Gaye dos “males” deste mundo, muito menos torná-lo mais religioso.

– Seu talento musical, o dom que possuia, não foi suficiente para trazer-lhe felicidade ou paz, ainda que fosse seu escape em muitos momentos difíceis.

– O fato de Marvin Gay Sr, ser um pastor, não impediu que lhe faltasse o amor necessário entre pai e filho. Ainda que alguns defendam, que à época do homicídio estivesse senil ou mesmo alterado por conta de um tumor cerebral, cometeu um dos mais horrendos crimes que um homem poderia cometer.

Ou seja, em tudo, precisamos ter sabedoria. Quantas famílias de cristãos, ou até mesmo pastores, vemos destruídas, por conta de uma relação extremamente rígida ou autoritária? Isso é extremamente comum. Devemos nos lembrar que Deus está acima de tudo, mas a família, está acima da Igreja. Nada deve impedir uma boa e saudável relação familiar. E o cristão não deve se eximir de buscar na ciência e na pedagogia a melhor forma de orientar os seus filhos. O que não falta é literatura nesta área, bem como profissionais aptos a ajudar.

Além disso, devemos considerar para as nossas vidas, uma boa orientação com relação aos nossos talentos. Não existe uma fórmula para isso, e eu também não serei tão puritano para dizer que ao músico só lhe serve caminho da música religiosa. Com certeza não. Mas muitos, infelizmente passarão a vida como Marvin Gaye, que revezava em suas músicas o temor a Deus, como compôs na ótima música descrita acima, e em outras, um erotismo exacerbado, como em “Sexual Healing”. Além disso, a vida de shows e estrada dos músicos está diretamente ligada à exposição às drogas e promiscuidade. Não que muitos não possam vencer essa terrível ligação, mas não há como negar que a exposição entre estes é maior.

Sabedoria. Sejamos pais e filhos sábios. Músicos e artistas sábios. Homens e cristãos cada dia mais sábios. Pois, de que vale ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder a sua alma? De que vale ser um grande ícone musical se, isto não lhe traz paz? Se a família Gay (somente Marvin filho adicionou o sufixo “e” ao sobrenome) levasse mais em consideração toda a letra da música descrita acima, talvez toda a história fosse diferente. Poderíamos ter Marvin Gaye. Talvez com outras músicas. Talvez com outras ideias. Talvez cantando até hoje.

Quando eu era filho em companhia de meu pai, tenro e único diante de minha mãe, então, ele me ensinava e me dizia: Retenha o teu coração as minhas palavras; guarda os meus mandamentos e vive; adquire a sabedoria, adquire o entendimento e não te esqueças das palavras da minha boca, nem delas te apartes. Não desampares a sabedoria, e ela te guardará; ama-a, e ela te protegerá. O princípio da sabedoria é: Adquire a sabedoria; sim, com tudo o que possuis, adquire o entendimento. Estima-a, e ela te exaltará; se a abraçares, ela te honrará; dará à tua cabeça um diadema de graça e uma coroa de glória te entregará.” Pv. 4.3-9

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Cinema | Resenha: “Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância”

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Contém “spoilers” do filme “Birdman ou a Inesperada Virtude da Ignorância” e do conto “Um homem célebre” de Machado de Assis.

Essa semana assisti a um dos filmes favoritos ao Oscar 2015: “Birdman ou a Inesperada Virtude da Ignorância”. Dirigido e produzido por Alejandro Iñárritu, é um filme muito original e cheio de metalinguagem, que conta a história de Riggan Thomson (Michael Keaton) um ator que no passado fez muito sucesso interpretando um superherói (Birdman) e que agora decide realizar uma peça na Broadway, em busca de um novo caminho e reconhecimento na carreira.

Primeira coisa a se destacar: o elenco. Michael Keaton, Edward Norton, Naomi Watts, Emma Stone, Zach Galifianakis. Ótimo elenco. Mas apesar do ótimo elenco, e das ótimas atuações, cada um em seu arquétipo do show business americano, o filme (olha a metalinguagem aí) é de um só: Michael Keaton, provavelmente no melhor papel de sua carreira.

É impressionante como o papel caiu como uma luva nas mãos deste ator que, na vida real, possui muitas semelhanças com o personagem: MIchael Keaton foi o primeiro “Batman” no cinema, no filme de Tim Burton, e depois de certo tempo, caiu no ostracismo. Tinha voltado recentemente no novo “Robocop”, o filme do Padilha, mas acredito que este filme é sua real volta ao cinema, e que o consagra como ator.

Com relação aos aspectos técnicos do filme: Iñarritu realmente se superou. A edição parece como um plano sequencia longo e contínuo, sem cortes, algo raro e muito difícil de se fazer. Em uma entrevista, Iñarritu afirmou que usar uma tomada para o filme faria o protagonista estar em “uma realidade incontornável” e levaria o público a esse sentimento. Fora isso, as transições, tomando uma mesma imagem e transformando-a, as alucinações do protagonista, que se confundem com a realidade, e a fotografia (por conta de Emanuel Lubezki, o mesmo de Gravidade, filme de outro diretor mexicano, Alfonso Cuarón), tudo isso contribui para esse sentimento a que o diretor se refere. E a trilha sonora, com a bateria descompassada, tocando o tempo todo? Simplesmente demais. O baterista Antonio Sanchez desenvolvia a música, percebendo o ritmo da cena.

Assistindo ao filme, um conto de Machado de Assis me veio imediatamente à mente: “Um homem célebre”, presente no livro “Várias Histórias”. O livro conta a história de Pestana, um célebre compositor de “polcas”, que queria muito compor uma obra maior, uma ópera, ou um concerto, algo que não fosse tão popular quanto as suas polcas, e que o tornaria realmente célebre e bem conceituado. O conflito de Riggan Thomson no filme é exatamente esse: ele deseja se livrar do estigma de um ator popular, famoso por ter interpretado um superherói, e quer se tornar um ator e diretor conceituado.

Ao longo do processo (e no filme, acompanhamos apenas os dias mais próximos à estreia da peça), Thomson vai encontrando diversas dificuldades, assim, como Pestana na criação de sua grande obra, ao ponto de começar a questionar sua capacidade como ator e diretor, ao mesmo tempo que começa a reabraçar a sua realidade como Birdman, assim como Pestana, acaba tendo que reabraçar sua realidade como compositor de polcas.

Um ponto-chave no filme é a conversa que Thomson tem com uma crítica famosa do New York Times, que acaba sendo um apontamento a todos os críticos e a todas as agremiações de cinema, que por trás da segurança da tela de seus computadores, destroem carreiras, peças ou filmes sem pestanejar. Considere que este filme é o favorito ao Oscar deste ano, e Michael Keaton, já tanto criticado, é um dos indicados a melhor ator (já ganhou o Globo de Ouro). Mais uma vez, olha a metalinguagem aí, e me diga se a vida não imita a arte.

Fato é que quando Thomson se liberta desse estigma, e assume sua realidade como ator, independente de rótulos, ele alcança uma interpretação digna de nota, e ao mesmo tempo, muito próxima à loucura e, como seu personagem na peça em que interpreta, chega a atirar (de verdade) contra si mesmo. O final, não poderia ser outro. No hospital, o agora Birdman, resolve se juntar aos pássaros que viu ao céu, e voar, literalmente, para a liberdade.

O filme é muito feliz em trabalhar o conflito de Riggan Thomson. E ao final, dá-se o tom de realidade e fantasia, sempre misturados ao longo do filme. Por isso, o final só pode ser entendido dentro da metáfora assumida no filme. Ao assumir a “ignorância” e não se importar com o conceitual, ou com o intelectual, ele se torna livre. E a liberdade o torna um virtuose, cheio de habilidades.

Até mesmo o título do filme, e sua duplicidade, dão o tom da trama e da metalinguagem envolvida: “Birdman ou A inesperada virtude da Ignorância”. “Birdman”, é título popular, de blockbuster. “A inesperada virtude da Ignorância” é título de filme conceituado e intelectual. Mas independente de popular ou conceitual, este é um só filme que traz por meio dos bastidores da atuação, um conflito que é muito humano: o que fazer para ser lembrado ou respeitado.

Essa duplicidade e este conflito me lembram a Parábola do Publicano e do Fariseu, descrita em Lucas capítulo 18, a partir do versículo 10: o fariseu buscava o conceito e o respeito dos outros ao seu redor, por isso orava alto, anunciando suas benfeitorias. O publicano, por sua vez, orava longe e batia no peito, pedindo perdão por seus pecados. Jesus demonstra que a verdadeira virtude estava na ignorância do publicano e não na intelectualidade e proselitismo do fariseu.

Ora, é normal buscarmos o respeito e a lembrança alheia. Esse é um desejo normal, mas não podemos nos deixar dominar por ele. Pode-se dizer que quando esse passa a ser nosso único objetivo, nos tornamos egoístas e solitários, como os personagens do filme “Birdman”. E quando o que os outros vêem e pensam sobre nós se torna nossa maior preocupação, nos tornamos como os fariseus dos tempos de Jesus, que viviam para mostrar aos homens a sua glória.

“Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar: um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho. O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado.” Lc 18.10-14

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Conto: “A Descoberta” de Anton Tchekhov

Ciscando num monte de esterco, o galo encontrou uma pérola…” Da fábula O galo e a pérola, de Krylov (1769-1849), prefácio do conto “A descoberta” de Tchékhov, descrito abaixo. 

Essa semana, decidi trazer para nossa análise com enfoque cristão, um conto de Anton Tchekhov (1860-1904). Este escritor russo, que também era médico e dramaturgo, é tido como um dos maiores contistas da história. O conto escolhido é “A descoberta”. Anton Tchékhov tem centenas de contos, e esse não é um dos mais famosos. Aqui no Brasil, podemos encontrá-lo pela editora L&PM POCKET na coletânea: “Um negócio fracassado e outros contos de humor”, com tradução do russo de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares. Além disso, a Editora Livro falante, tem o audiobook “Contos de Tchekhov”, que inclui o conto em questão, e apresenta tradução de Tatiana Belynki.

contos de tchekhov

À esquerda na imagem: Livro “Um negócio fracassado e outros contos de humor” de Anton Tchekhov, com tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares, Editora L&PM Pocket 2011. À direita: Audiobook “Contos de Tchékhov” da Editora Livro Falante, com tradução de Tatiana Belinky, disponível em www.livrofalante.com.br .

Quem puder, leia o conto, não demora mais de 10 minutos. Você encontra o ebook do livro acima em qualquer livraria virtual com valor em torno de R$7,00. Ou pode comprar o audiobook para ouvir o conto.

A história tem como protagonista o engenheiro Bakhromin, um homem importante e rico da sociedade, que ocupava o cargo de conselheiro de estado. Tchékhov inicia o conto descrevendo o engenheiro sentado em sua escrivaninha, melancólico, pensando num encontro que tivera algumas horas antes com uma mulher que ele teria sido apaixonado na sua juventude (o engenheiro conta agora com 52 anos). Segundo sua descrição, a mulher teria perdido toda a beleza da juventude, e agora era “uma velha seca, faladeira, de olhos azedos e dentes amarelados”. Em uma espontaneidade e realidade que lembram muito os romances machadianos ele fala:

“Nenhuma força maléfica é capaz de escarnecer de uma pessoa tanto quanto a natureza. Se, naquela época, a beldade soubesse que iria se transformar nessa coisa insignificante, ela teria morrido de pavor.

Nesse pensamento melancólico, Bakhromin começa a fazer alguns desenhos em um papel. De repente, ele percebe que os desenhos que vem fazendo são muito bons! E ele repete os desenhos, e eles continuam muito bons, e começa então a desenhar diversas coisas, ficando extasiado com o novo talento que descobrira em si. Essa é “a descoberta” do conto.

Bakhromin, segundo o próprio, nunca tinha percebido nenhum talento de verdade em si. E agora, aos 52 anos, ao fazer desenhos tão belos, percebe que tem grande talento para as artes. Isso o deixa em verdadeiro êxtase. Como não teria percebido esse dom antes?

“E se eu tivesse descoberto quando era jovem que tinha talento, enquanto era tempo, e tivesse me tornado um pintor ou um poeta? Hein? E na sua imaginação, descortinou-se uma vida diferente de milhões de outras vidas. Seria impossível compará-la com a vida de pessoas comuns.”

Nesse momento então, o rico engenheiro começa a se deleitar em seus pensamentos, em como seria sua vida se tivesse se tornado um artista. Enquanto correm esses pensamentos, o criado lhe traz a ceia, com uma bebida e logo em seguida o auxilia e prepara sua cama para se deitar. Ele pensa na fama, e na glória duradoura se fosse um artista renomado, bem diferente do que poderia alcançar como engenheiro e funcionário público:

“E a glória, e a fama? Por mais largos que sejam meus passos,…, meu nome não irá mais longe do que os limites de um formigueiro. Com eles já é completamente diferente.”

“É, uma vida fora do comum. Um dia as estradas de ferro serão esquecidas, mas Fídias e Homero serão sempre lembrados. Trediakóvski, ruinzinho como é, e mesmo dele lembram-se.”

De repente, Bakhromin começa a imaginar-se como artista, naquele exato momento. Os artistas, em geral, não têm criados, não têm carruagens, não têm camas tão confortáveis como aquela em que o criado estava lhe ajudando a se deitar. Não têm muito dinheiro, não têm talão de cheques. “O nome é homenageado, mas a pessoa é esquecida.” Ele então conclui:

“Ele que vá para o inferno! (o talento). Que vá para o inferno! Que bom que eu não o descobri quando ainda era jovem!

Esse conto de Tchékhov, por meio de uma situação absurda e cômica, nos traz o real desafio daqueles que optam por desenvolver ou trabalhar seus talentos. Quem está disposto a sacrificar certas regalias e a segurança de um trabalho sério e uma boa colocação na sociedade para alcançar alguma glória mais duradoura?

É claro que o pensamento de Tchékhov no texto está centrado em glórias humanas, por isso ele faz questão de citar um grande escultor e um grande poeta da Antiguidade (Fídeas e Homero, respectivamente), que tem seus nomes até hoje aclamados. Mas esse texto, imediatamente me faz refletir e extrapolar isso para o lado cristão. Quem pode abrir mão do seu conforto, do seu dinheiro e de seu status na sociedade em prol de um galardão, digamos, mais celestial?

Uma das mais famosas parábolas de Jesus é a Parábola dos Talentos, descrita em Mateus, no capítulo 25, a partir do versículo 14. Lembrem-se que “talento” aqui tem sentido monetário, era um grande valor na época. Mas ele pode ser facilmente transposto para o seu sentido em português: é uma ótima metáfora para sua palavra homônima. Como descrito na parábola, o servo que recebeu apenas um talento, teve medo de investi-lo ou desenvolvê-lo para que se tornasse algo melhor. Por conta do medo, ele “enterrou” o talento. No conto, Bakhromin, nas ocupações do dia-a-dia e na busca por uma boa colocação e status na sociedade, deixou seu talento ser enterrado e negou ao mundo, e a si mesmo, quem sabe, um grande artista. Que contribuição temos deixado de dar ao mundo e a nós mesmos? E à posteridade, e à Deus?

Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” Mt.6-19-21

Cinema | Resenha: “A Teoria de Tudo” – A vida de Stephen Hawking

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Contém “spoilers” do filme “A Teoria de Tudo” (The Theory of Everything – 2014)

“A teoria de tudo” trata da vida do famoso cientista Stephen Hawking, especialmente em seu aspecto pessoal, visto que é baseado no livro escrito por sua primeira esposa, e mãe de seus três filhos, Jane Wilde (interpretada no filme por Felicity Jones). É claro que o filme também mostra um pouco de sua vida acadêmica, em especial as teses que defendeu a respeito do espaço e tempo. Mas, ao meu ver, o filme fica devendo um pouco quando trata das verdadeiras contribuições científicas do Dr. Hawking, e não foi tão feliz em caracterizar seu pensamento, como foi por exemplo o filme “Uma mente brilhante”, que trata da vida do matemático John Nash.

No entanto, no aspecto pessoal, o filme é bem interessante, e apesar de ter o viés da literatura de Jane Wilde, não se vê problema em mostrar as dificuldades e até mesmo as fraquezas de um e de outro personagem. Vale ressaltar a impressionante atuação de Eddie Redmayne interpretando Stephen Hawking. Esse ator já ganhou o Bafta por esta atuação e concorre ao Oscar. Ele, além de ser fisicamente muito parecido com Stephen Hawking, consegue encenar todo a evolução de sua doença (Esclerose Lateral Amiotrófica) de forma marcante. Em alguns momentos parecer ser o próprio Hawkings interpretando.

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Eddie Redmayne e Stephen Hawking juntos na estreia do filme “A Teoria de Tudo”

“A teoria de tudo” foca em dois aspectos importantes na vida pessoal de Stephen Hawking: sua relação com o tempo, e sua relação (ou não relação) com Deus. Stephen Hawking, como cosmologista, sempre estudou as relação do espaço e tempo, os buracos negros e singularidades. Uma de suas principais teorias, tem o intuito de provar que o espaço e o tempo tiveram um início, assim como o universo se mantém em expansão. Essa relação com o tempo, é interessante, pois a Esclerose Lateral Amiotrófica é uma doença até hoje sem cura, cuja expectativa de vida é de 2 a 3 anos. Hawking convive com a doença há mais de 30 anos. Nesse tempo, teve filhos, viu-os crescer, continuou estudando, escreveu livros e viu-se tornar o cientista mais famoso de nossa época. Muita coisa para quem não tinha muito tempo de vida.

Já a sua relação com Deus, permanece obscura. Na verdade, Stephen Hawking se declara ateu, mas ele admite que algumas teorias, em especial a que trata do início do universo e da existência, suportam a existência de Deus. Mas ao mesmo tempo, ele refuta essa existência com outras teorias e ideias. Nos livros dele (em breve gostaria de fazer uma resenha sobre “O universo em uma casca de noz”, livro que li há algum tempo), percebemos essa dualidade, além do maravilhoso senso de humor que ele possui e que é bastante mostrado no filme.

O clímax do filme se dá justamente quando em uma entrevista ele é questionado sobre o seu ateísmo, e pergunta-se se há alguma filosofia ou ideia que lhe traz conforto. Nesse momento vemos Stephen se levantando e andando como em um milagre, mostrando que talvez, lá no fundo, Stephen Hawking ainda espera um grande milagre da existência que irá libertá-lo de sua condição. Na sequencia deste “delírio”, ele responde:

“É claro que somos apenas primatas evoluídos, vivendo em um planeta pequeno que orbita uma estrela comum, localizada no subúrbio de uma de bilhões de galáxias. Mas, …

… desde o começo da civilização, as pessoas tentam entender a ordem fundamental do mundo. Deve haver algo muito especial sobre os limites do universo. E o que pode ser mais especial do que não haver limites? Não deve haver limites para o esforço humano. Somos todos diferentes. Por pior que a vida possa parecer, sempre há algo que podemos fazer em que podemos obter sucesso. Enquanto houver vida, haverá esperança.

Stephen entende que há algo muito especial, além dos limites de nosso entendimento. Sua posição é acreditar naquilo que as teorias e os estudos lhe dão, e nenhuma teoria ou pensamento científico é capaz de provar (ou desprovar) a existência de Deus. Por isso, o ateísmo. Mas ele admite, que enquanto houver vida, há esperança, de sermos resgatados de uma realidade física tão insignificante, com corpos tão frágeis, doentes ou não, no planeta pequeno que orbita essa estrela comum, no subúrbio de uma galáxia (nessa mesma linha de pensamento, leia o post “O pálido ponto azul”, publicado neste blog alguns meses atrás).

Stephen Hawking é um exemplo magnífico de uma pessoa que, apesar de todas as dificuldades impostas, conseguiu obter extremo sucesso em sua vida. É o exemplo clássico para aquela passagem em João, capítulo 9, em que perguntam para Jesus quem havia pecado, para que o homem em questão fosse cego. E Jesus responde: “Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus.“. Ora, digam-me se não é ao menos supreendente, que a maior mente de nosso tempo, esteja “encarcerada” em um corpo debilitado, incapaz até mesmo de falar. E como esse ser incapaz de falar é a maior voz da ciência atual. Veja se isso não é uma espécie de milagre.

Enquanto houver vida, haverá esperança. Não há homem que em algum aspecto de sua vida, não esteja debilitado, atrelado a uma cadeira de rodas. E ao mesmo tempo, não há homem que não sonhe com o momento em que se libertará dessas limitações e desses sofrimentos, e poderá ser realmente pleno. Stephen Hawking sonha com essa plenitude. E todos nós também. Devo dizer, que a partir daqui, entra a questão da?

“E, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus.” Efésios 3.17-19

“Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia, porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.” Colossenses 1.15-20

stephen hawking

Poesia | Análise – “E agora, José?”

JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Joaquim?
e agora, você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais!
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade (In Poesias – 1942)

Esse é um dos poemas mais conhecidos de Carlos Drummond de Andrade. “José” aqui é usado como uma metonímia para o próprio autor ou para qualquer ser humano. No entanto, ao usar um nome tão comum aos brasileiros, temos a sensação de ser alguém aqui do nosso meio. Não é à toa que usa metáforas e regionalismos como “bicho-do-mato”, tornando essa poesia ainda mais nacional (realmente uma das riquezas da nossa literatura). Mas é claro que o que se trata aqui é algo bem mais universal.

José se encontra em um momento de sua vida que já não tem mais nada. Por certo já não está mais em sua juventude, por isso “a festa acabou”, já não pode beber, não pode fumar. Além disso, já não tem o apoio e a alegria de uma mulher, não tem familiares para se apoiar (“parede nua para se encostar”), não existe saídas (não há porta). Tudo que ele fez até então, agora não lhe serve mais (seus versos, seus protestos, seus amores e até sua zombaria, citados na primeira estrofe). Tudo que ele possui também não lhe adianta, suas riquezas (sua lavra de ouro), seu conhecimento (sua biblioteca), os momentos que realizou alguma coisa (instantes de febre), os momentos de fartura ou de dificuldade (gula e jejum). Encontra-se vulnerável, frágil, percebido por seu “terno de vidro”. Nem a incoerência ou o ódio lhe servem de alguma coisa.

Este homem, ao se ver nessa situação, se pergunta “e agora?”. Não há mais festa. Não pode voltar para Minas, que aqui traz a ideia de sua terra natal, talvez como uma metáfora para sua própria Infância. E assim, neste momento que se encontra, da mesma forma que não é capaz de voltar para a sua infância também não consegue avançar e abraçar a morte, pois é “duro”.

Essa reflexão de Carlos Drummond me traz à tona a mesma reflexão de Albert Camus em seu ensaio “O mito do Sísifo” (assunto que trarei em outro post em breve). José é o “homem-absurdo” descrito por Camus. O homem que vive e se depara de repente com a “absurdidade” (descrevo o termo como cunhado na obra de Camus) da vida. O ensaio de Camus é toda uma reflexão sobre isso, e traz junto a questão se esse homem deve ou não buscar o suicídio, visto que nada tem um sentido de ser. Mas na poesia, para José, suicídio não é uma opção, pois ele continua marchando (marcha pra onde?). Mesmo sozinho, sem apoio, e sem a existência de fé ou religião, representados aqui pela palavra “teogonia”.

Não tenho dúvida de que não existe ser humano consciente que não chegará até essa pergunta, que se tornou até mesmo um ditado popular no Brasil: “E agora, José?”. E nesse momento, quando a pergunta chegar, alguns poderão responder: a fé. Pois a fé traz a esperança. E a esperança dá um sentido para essa absurdidade. Talvez José não concorde. Provavelmente Camus e muitos outros gênios também não. Mas é claro, isso é ter fé. Isso é a loucura da salvação.

“Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo; Pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus.” Rm 5.1-2

Na Primeira Epístola aos Coríntios, no capítulo 13, uns 1900 anos antes de Drummond ou Camus, o apóstolo Paulo já faz uma descrição da absurdidade da vida, sem a fé ou sem possibilidade da vida eterna, veja só:

“Ora, se é corrente pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois, afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, então, Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé; e somos tidos por falsas testemunhas de Deus, porque temos asseverado contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, ao qual ele não ressuscitou, se é certo que os mortos não ressuscitam. Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram. Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.” 1Co 15.12-19

É meus amigos, se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens. Somos todos “José”.

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Estátua de Carlos Drummond de Andrade na Praia de Copacabana no Rio de Janeiro.

Cinema | Resenha: “Invencível” – A impressionante história de Louis Zamperini

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Contém “spoilers” do filme “Invencível” (Unbroken – 2014)

“O que permanece contigo mais longa e profundamente?
De curiosos alarmes,
De batalhas duras ou de cercos tremendos o que permanece mais profundamente?”
Walt Whitman, The Wound-Dresser (O médico de feridas). Prefácio do livro “Invencível” de Laura Hillembrand.

Impressionante. Esse é o adjetivo simples que vem à minha mente ao assitir ao filme dirigido por Angelina Jolie, com nome e adjetivo simples: “Invencível” (2014). Impressionante, não pela qualidade técnica, ou pelo fato de ser o segundo filme dirigido por essa grande estrela de Hollyhood. Impressionante porque nos faz embarcar e reviver a história real de Louis Zamperini (interpretado por Jack O’Connell), atleta olímpico que se tornou um prisioneiro de guerra no Japão.

zamperine e angelina

Angelina Jolie e Louis Zamperini aos 97 anos. Vizinhos em Hollyhood, desenvolveram importante amizade antes da realização do filme.

Antes que os mais afoitos venham se queixar, é claro que em Hollyhood há supervalorização, exageros e sensacionalismo. E é claro que é bem provável que possamos ver tudo isso nesse filme, na tentativa de impressionar o telespectador. Mas, ao sair do filme, pude pesquisar um pouco sobre a vida desse senhor, que faleceu no ano passado, aos 97 anos, ao mesmo tempo que pude folhear brevemente o livro escrito por Laura Hillebrand, que deu origem ao filme, e posso te dizer que, se há exagero, é menor do que imaginamos, e ao menos em relação aos fatos mais importantes do filme, atesta-se a sua veracidade.

Para melhor entendimento desta resenha, vou dividir a análise em partes.

Parte I – O Filme

O filme se inicia com cenas de de Zamp (como é chamado pelos colegas), já na guerra, como bombardeiro em um avião, e intercala um pouco de sua história, contando sua infância difícil, como imigrante italiano no período de crise na América. A ideia do filme é mostrar como uma criança pouco obediente e quase marginalizada foi resgatada pelo empenho em um esporte, o atletismo, com o apoio incondicional de seu irmão mais velho Peter. E como esse empenho e imensa determinação puderam levá-lo a diversos recordes, e à disputa da Olimpíada de 1936, em Berlim, com apenas 19 anos, tendo desempenho marcante.

“Um instante de dor vale uma vida de glória” Frase de Peter, irmão de Louis, antes deste embarcar para os Jogos Olímpicos de Berlim.

Claro que o filme não perde minutos preciosos mostrando como esse atleta promissor teve seus sonhos adiados com a ocorrência da Segunda Guerra Mundial, seu alistamento, e o cancelamento dos Jogos Olímpicos que ocorreriam em 1940, no Japão. Tudo isso está implícito. Mas ele demonstra que mesmo na guerra, Zamperini continuava treinando e ainda aspirava ser um grande atleta.

Em uma missão de resgate o avião de Zamperini cai no oceano Pacífico e é aqui que o verdadeiro sofrimento começa. Foram 45 dias de angústia à deriva no oceano, bem vivenciados no filme, até ser encontrado, junto com o amigo Phil, por um navio japonês e se tornar um prisioneiro de guerra. No campo de concentração, seu histórico como atleta olímpico é descoberto e, a partir de então, se torna alvo da crueldade do Cabo Watanabe, “A Ave”. Todo o sofrimento e toda a sua luta para se manter vivo são o grande mote do filme que quer mostrar como a força de vontade intensa e determinação é capaz de torná-lo “invencível”.

Em determinado momento do filme, em seu sofrimento no mar, Zamperini tenta encontrar a sua fé e, conversando com Deus diz que se sobrevivesse, entregaria toda a sua vida a Ele.

Parte II – Louis x “A Ave”

O mais interessante do filme, além da própria história vivida por Zamperini, é o paralelo que este faz entre Louis e Watanabe (“A Ave”). O filme quer mostrar como os golpes e a crueldade desferidos por Watanabe vinham da sua frustração, por não ter atingido os objetivos esperados em sua própria vida e, ao olhar para Zamperini, um atleta olímpico e um oficial capaz de olhá-lo nos olhos, toda essa frustração vinha mais à tona. A cena clímax do filme deixa isso bem claro, quando Watanabe se desespera em enxergar em Louis tanto mais perseverança e determinação do que ele jamais teria demonstrado.

Após o resgate dos prisioneiros, Zamperini visita o escritório de Watanabe, vendo uma foto deste ainda criança, com seu pai, com aparência séria (tentando transmitir toda a provável austeridade deste pai japonês). Isso fica como um paralelismo à relação do Louis, criança rebelde, com seu pai austero, e como, por intervenção de Peter e do esporte, ele teria escapado a uma trágica relação entre pai e filho. Tal sorte por certo não teria tido Watanabe.

Parte III – Fim do filme e a Redenção de Zamperini

O filme termina com o fim da guerra e o retorno de Zamperini à sua terra e sua família. No entanto, a história de Louis não termina aí. Em alguns aspectos ela está só começando. Uma legenda no final do filme conta um pouco da história deste senhor após a guerra, mostrando ao mesmo tempo, fotos reais:

“Em 1946 Louie Zamperini conheceu e se casou com sua amada, Cynthia Aplewhite. Eles tiveram uma filha, Cissy, e um filho, Luke…
Depois de anos de Estresse Pós-Traumático, Louie cumpriu sua promessa de servir à Deus, uma decisão que tomou por ter sobrevivido. Motivado por sua fé, Louie percebeu que a maneira de seguir em frente era o perdão e não a vingança. Ele voltou para o Japão onde encontrou e perdoou seus captores. Somente Bird (A Ave) se recusou a encontrá-lo. Louie finalmente realizou seu sonho, e correu em uma Olimpíada novamente. Aos 80 anos. No Japão.” Neste momento mostra-se vídeo de Zamperini correndo com a tocha olímpica em 1998, nos Jogos Olímpicos de Inverno no Japão

Parte IV – A vida de Zamperini

Como foi dito, o filme termina no pós-guerra, adicionando apenas algumas legendas no final com um resumo da história de Zamperini. O livro não pára por aí e muito menos a biografia deste senhor.

A verdade é que ao voltar da guerra, Louis revela que tinha muitos pesadelos, refere que via-se estrangulando seus captores em ação de vingança e começou a beber muito, tentando esquecer sua experiência como prisioneiro de guerra. Agora, veja só: sua esposa, Cynthia frequentou uma das cruzadas evangelísticas lideradas por, ninguém mais ninguém menos que Billy Graham, o famoso pregador evangélico, muito conhecido entre nós. Em 1949, após muita insistência de sua esposa, Louis aceitou relutantemente participar de uma dessas Cruzadas e, nessa pregação, se lembrou da promessa que tinha feito a Deus, ainda no bote salva-vidas. Nesse momento, Louis Zamperini decide entregar sua vida a Cristo.

Seguido a isso, Louis decidiu perdoar seus captores e seus pesadelos cessaram. Posteriormente, Billy Graham ajudou Zamperini a iniciar uma nova carreira como orador inspiracional, e um de seus temas recorrentes era justamente o perdão.

zamperini e billy graham

Louis Zamperini (a esquerda na foto) e Billy Graham em 1949.

No início do texto, deixei a citação do poeta americano Walt Whitman, que também se encontra no livro sobre a história de Zamperini. Realmente é difícil dizer as marcas e as sequelas que uma vivência como a guerra pode deixar na vida das pessoas. Mas, independente de quão profundas quaisquer sequelas possam estar, temos a certeza de que existe uma Palavra, uma Verdade, capaz de penetrar juntas e medulas, até a divisão da alma e do espírito e que é capaz de transformar qualquer vida, qualquer entendimento e salvar qualquer ser humano. Louis Zamperini é a prova disso.

“Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.” Hb 4.12

Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.” Rm 12.19-21

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Louis Zamperini discursa na Cruzada Evangelística de Billy Graham em 1963, no Los Angeles Coliseum.

zamperini e billy graham 2011

Louis Zamperini e Billy Graham se reencontram em 2011, aos 95 e 94 anos respectivamente.

Livro em Mente: “12 anos de escravidão”

livro 12 anos de escravidao

Quando foi lançado o filme “12 anos de escravidão”, me interessei pela história apresentada (com base em todo o alvoroço com relação às premiações e ao próprio Oscar), e decidi que deveria ler o livro antes de assistir ao filme. Isso porque, o livro é um marco na literatura americana, pois trata-se da auto-biografia de Solomon Northup, um negro livre americano, forçosamente tornado escravo durante um período de 12 anos. Isso me chamou muito a atenção, pois antes do lançamento do livro eu não conhecia essa obra e é sabido que poucos negros do tempo da escravidão poderiam escrever seus próprios relatos, seja por falta de oportunidade ou de instrução.

Durante o período de leitura do livro, fiz diversas marcações e gostaria de fazer algumas pontuações aqui neste texto. Já faz quase 1 ano que eu li o livro, portanto ele não está mais tão “fresco” em minha memória, por isso posso me confundir em alguns aspectos. Primeiro devo relatar que o livro é muito mais rico que o filme em explicar as situações vivenciadas por Solomon durante o período em que esteve como escravo, mas isso não tira o mérito do filme de resumir a história e mostrar a realidade de um negro escravo americano no século XIX. Mas uma coisa que eu senti no livro e não percebi no filme, foi justamente a inocência ou o entendimento do personagem com relação a sua situação. Pois o filme nos deixa ver com os nossos olhos o horror e a loucura da escravidão, enquanto que no livro, vemos pelos olhos de Solomon, que, por incrível que pareça, não condena os senhores de escravos, mas condena o sistema a que todos foram submetidos. É claro que ele condena a crueldade e os maus-tratos, e os senhores que são claramente maus, mas em certo aspecto ele deixa a entender que são todos vítimas de um sistema sem sentido que foi passado de geração a geração.

“Não é culpa do proprietário de escravos se ele é cruel; antes, é culpa do sistema no qual ele vive. Ele não consegue se opor à influência do hábito e das relações que o cercam. Ensinado desde a mais tenra idade por tudo o que vê e ouve que a vara foi feita para as costas do escravo, na idade madura não consegue mudar de opinião.”

Isso foi realmente uma das coisas que mais me fez refletir: como um homem que está sob a subordinação forçada de outro pode não condená-lo inteiramente? Isso mostra como nós temos a (in)feliz capacidade de se adaptar. Nós nos adaptamos ao sistema. Isso muitas vezes pode tornar as coisas suportáveis. Mas ao mesmo tempo, pode impedir que mudemos as coisas ao nosso redor. Acho que essa acabou sendo a grande questão para Solomon: não começar a acreditar que aquilo tudo era natural e que não havia meios de mudar sua condição, apesar de todas as tentativas frustradas que tivera até a sua libertação.

“Além disso, de ter uma inteligência igual à de pelo menos muitos homens de pele mais clara, eu era ignorante demais, talvez independente demais, para entender como alguém poderia se contentar em viver na condição abjeta de escravo.”

Ironicamente, Salomon Northup que era um homem livre no estado de Nova York foi sequestrado e acorrentado enquanto fazia uma viagem a Washington, a capital americana. No livro ele descreve essa ironia, a de que no próprio lugar em que era torturado podia avistar o Capitólio, o centro legislativo de sua nação:

“As vozes de representantes patrióticos enchendo a boca para falar de liberdade e igualdade e o clangor das correntes dos pobres escravos quase se mesclavam. Uma casa de escravos sob a sombra do Capitólio!”

“Então passamos, algemados e em silêncio, pelas ruas de Washington, atravessando a capital de uma nação cuja teoria de governo, dizem, repousa sobre a fundação do direito inalienável de qualquer homem à vida, à LIBERDADE e à busca da felicidade! Ave! Colúmbia, que terra feliz de fato!”

Sobre a crueldade dos homens que o açoitavam ele diz:

“Um homem com uma centelha de misericórdia na alma não espancaria nem mesmo um cachorro dessa forma cruel.”

Em determinado momento, Solomon passa a ser escravo de William Ford um pastor batista e é justamente com relação a ele que Solomon parece demonstrar até afeição. Em determinado momento ele faz uma análise psicológica dessa pessoa, brilhantemente escrita no texto abaixo. Análise esta que, acredito, pode ser estendida a muitos outros cristãos:

“… e nada mais faço senão justiça quando digo que, em minha opinião, nunca houve um cristão mais gentil, nobre, cândido do que William Ford. As influências e relações que sempre o cercaram o cegaram para o erro fundamental que está na base do sistema de escravidão. Ele nunca questionou o direito moral de um homem fazer de outro homem seu escravo. Olhando através das mesmas lentes que seu pai antes dele, via as coisas na mesma luz. Crescido em circunstâncias diferentes e sob outras influências, suas ideias sem dúvida teriam sido outras.”

Ainda que seja possivelmente uma verdade, é impressionante que um escravo tenha tal entedimento de seu senhor.

Em determinadas partes do livro, o terror vivido por Solomon é tão grande que podemos fazer um paralelismo com o livro de Jó. Veja a semelhança entre os textos:

“Por que eu não havia morrido em meus primeiros anos – antes que Deus me desse filhos para amar e pelos quais viver?”

“Por que não morri ao nascer, e não pereci quando saí do ventre? Por que houve joelhos para me receberem e seios para me amamentarem?” Trecho do livro de Jó 3.11-12

Há diversos personagens detalhados no livro com histórias impressionantes também. E é impressionante a tristeza que os cerca. Solomon teve sucesso em descrever como a escravidão é capaz de podar e destruir talentos, e como são moldados e destruídos por esse sistema vil. É o caso de Eliza e o caso de Patsey (personagem que deu o Oscar de atriz codjuvante a Lupita Nyong´o). Veja como ele a descreve:

“Havia algo de imponente em seus movimentos, que nem o trabalho pesado nem a exaustão nem a punição conseguiam destruir. Na verdade, ela era um animal esplêndido, e, se a escravidão não houvesse amortalhado seu intelecto em uma escuridão absoluta e permanente, seria líder de seu povo.”

Posteriormente ele diz:

“Ainda assim uma luz fraca jogava seus raios sobre seu intelecto, de forma que não era totalmente obscurecido. Patsey tinha alguma percepção de Deus e da eternidade, e uma percepção menor de um Salvador que morrera por causa até mesmo de pessoas como ela.”

A relação dos escravos com a religião e a forma como muitas vezes os senhores a utilizam como justificativa para seus atos é bem demonstrada no livro e no filme. Ainda assim, percebe-se claramente que Solomon tem boa parte da sua esperança de redenção apoiado na sua fé. Mostra-se isso na sua oração, nos seus cânticos, e também na sua crença de que justiça seria feita à tanta maldade:

“…sim, ele nos deixaria a todos mais quentes do que o reino de chamas no qual às vezes tendo a acreditar que ele próprio algum dia morará.”

“… um tribunal humano permitiu que ele escapasse; mas há outro tribunal, e mais alto, onde o falso testemunho não triunfa e onde estou disposto, pelo menos no que diz respeito a essas declarações, a ser enfim julgado.”

Ao final, ele dá uma impressionante conclusão:

“Não tenho comentários a fazer sobre o tema da Escravidão. Quem ler este livro poderá formar sua própria opinião sobre essa “peculiar instituição”...Isto não é uma ficção, nenhum exagero. Se falhei em algo, foi ao apresentar ao leitor de forma exagerada o lado positivo de tudo.”

Pois bem, vale a pena ler o livro “12 anos de escravidão”, mesmo aqueles que já viram o filme, ganhador do Oscar de 2013, pois é interessante perceber as diferenças e fazer essa análise de tudo, através dos olhos de um homem que vivenciou tal horror. É impressionante percebermos que o único animal racional deste planeta, seja capaz de tal feito com outro de sua própria espécie. E o mais importante, que possamos entender a partir disso os nossos dias atuais, e não nos deixemos cegar pelo sistema, como aconteceu a Willian Ford, mas que estejamos sempre atentos ao sofrimento e contrários à crueldade ao nosso redor.

12 anos

Ps: Para aqueles que se confundiram ou se escandalizaram com o texto bíblico utilizado no filme pelos senhores de escravos para justificar os açoites aos escravos (Lucas 12), primeiramente, o texto traz uma descrição da realidade da época, justamente para fazer uma comparação na parábola, segundo, não serve de base para justificar a escravidão ou o açoite. Se nos lembrarmos bem, a escravidão vigorava durante o início do período cristão, e era algo normal, mas o apóstolo Paulo, com a carta de Filemon, nos deixa bem claro qual deve ser a nova postura do cristão diante desta prática, ao recomendar que Filemon receba o ex-escravo foragido, agora como um irmão, assim como ele próprio o considerava:

“Talvez ele tenha sido separado de você por algum tempo, para que você o tivesse de volta para sempre, não mais como escravo, mas, acima de escravo, como irmão amado. Para mim ele é um irmão muito amado, e ainda mais para você, tanto como pessoa quanto como cristão“. Fm 1.15-16

Há muitas recomendações para servos e senhores na Bíblia. Mas em nenhuma delas se vê base para suportar um sistema de depreciação e degradação humana (Ef 6; Cl 3 e 4 entre outras).

Literatura em Mente: Conto “Viver!”, de Machado de Assis

“Os homens têm tal apego à própria miserável vida que aceitam as mais duras condições para conservá-la.” – Montaigne

Machado de Assis provavelmente é o maior nome da literatura nacional. Escritor de enorme reconhecimento, fundador da Academia Brasileira de Letras, escreveu clássicos da literatura nacional como Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Infelizmente, tenho a impressão que, ou por erro nosso, ou infelicidade da nossa querida língua portuguesa, Machado não tem o reconhecimento internacional que merece (e, não fosse pelas leituras obrigatórias de vestibular, talvez não tivesse o nacional também). No entanto, especialmente este ano de 2015 em que o Salão do Livro de Paris escolheu homenagear a literatura brasileira, Machado parece estar ganhando mais espaço internacional.

Apesar de ser um dos mais famosos romancistas brasileiros, alguns críticos defendem que é como contista que Machado atinge seu ápice artístico. E entre os diversos contos escritos por ele, separo especialmente o conto “Viver!” para uma breve discussão. Se você ainda não leu este conto, aconselho que o faça. Tomará no máximo uns 10 a 15 minutos, quando muito. Este conto faz parte da coletânea Várias Histórias, publicada em 1896 e pode ser facilmente encontrado na internet (a obra de Machado já se encontra em domínio público, então pode baixá-la sem peso na consciência).

machado e varias historias

Machado de Assis e seu livro “Várias Histórias”, de 1896, onde se encontra o conto “Viver!”, citado no texto

“Viver!” é o relato de um diálogo de Ahasverus, o último homem vivo, no fim dos tempos, com Prometeu, aquele que na mitologia grega teria dado o fogo da vida para os homens. Machado escolhe Ahasverus como o último homem tendo como base a lenda do “Judeu Errante”. Isso é uma história, realmente uma lenda, de origem medieval, na qual um homem judeu, vivendo em Jerusalém à época da crucificação de Cristo, teria sido cruel com este durante a sua via crucis. Como consequencia à sua instigância para que Jesus continuasse a caminhar, ele foi condenado a caminhar até o fim dos tempos, ou seja, não morreria até lá.

“Chego à cláusula dos tempos; este é o limiar da eternidade. A terra está deserta; nenhum outro homem respira o ar da vida. Sou o último; posso morrer. Morrer! Deliciosa idéia! Séculos de séculos vivi, cansado, mortificado, andando sempre, mas ei-los que acabam e vou morrer com eles.”

Como podemos ver, Ahasverus não tem uma visão otimista da vida, claro, e vê na morte o fim de um milenar sofrimento. Em geral, esta é a visão dos escritores realistas sobre a vida e a morte e Machado descreve isso muito bem em sua obra. Ao encontrar-se com Prometeu, Ahasverus continua a descrever a “alegria” de finalmente ter a possibilidade de pôr fim a tanto martírio.

O diálogo dos dois realmente é muito interessante, sendo realmente a riqueza do conto. E Prometeu passa a contra argumentá-lo até que lhe faz uma oferta de continuar a vida e ser o começo de uma nova criação. A ideia, que parecia inicialmente ridícula ao humano, passa, a consumi-lo de forma que, de repente, já está completamente vislumbrado com ela. E mesmo um homem que viveu milênios, passa a se apegar a sua centelha de vida como uma criança que busca o fôlego ao nascer. Ao final do conto, duas águias que circulavam à visão de Ahasverus travam um último diálogo, ao olhar para o homem, dando a entender que tudo aquilo não passava de um delírio de um homem morimbundo, que odiava tanto a vida, justamente porque a amava muito.

“Uma águia. — Ai, ai, ai deste último homem, está morrendo e ainda sonha com a vida. A outra. — Nem ele a odiou tanto, senão porque a amava muito.”

A citação de Montaigne no início do texto, se encaixa muito bem com a moral de “Viver!”. Não existe ser humano que não nasça com essa “sede” de viver!, assim mesmo, com exclamação. E não há homem que não sofra com a possibilidade do fim de sua existência.

Jesus Cristo sabia disso, e não foi à toa que ele chorou à porta da sepultura de Lázaro, entendendo a situação humana, e o ressuscitou, dando esperança a todos nós. Ao morrer não era o fim da existência de Lázaro e Jesus pode provar isso mostrando que é Senhor sobre os céus e sobre a terra, e tem poder para trazer, manter ou salvar toda alma e espírito humano.

Todo homem tem sede de viver, e esse sentimento só pode ser saciado em Cristo Jesus.

“… Eu vim para que tenham vida e a tenham com abundância.” Jo 10.10b
“Aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna.” Jo 4.14