Livro em Mente | Em busca de sentido, de Viktor Frankl

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Em busca de Sentido (“Man´s Search for Meaning”) – Livro do psiquiatra judeu Viktor Frankl, escrito logo após sua experiência como prisioneiro em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

Hoje em dia gosta-se muito de se publicar listas com “livros que você deveria ler antes de morrer”. Ora, se esse predicado é verdadeiro, na minha opinião o livro “Em busca de sentido”, de Viktor Frankl, que trago para discussão neste texto, é um dos que deveriam encabeçar tais listas. Não pelo valor literário em si, haja vista, não trata-se de uma ficção ou romance (embora muitos trechos nos custa acreditar serem verdade), mas pelo simples e honesto relato de seu autor, e sua visão como psiquiatra e, ao mesmo tempo, homem religioso, de todo o seu sofrimento.

Viktor Frankl (1905-1997) foi um psiquiatra austríaco judeu, autor de uma linha psicoterapêutica conhecida como logoterapia, que tem como base a busca do sentido existencial de cada ser humano. Não tenho a pretensão neste texto de esmiuçar a parte prática ou conceitual da logoterapia, e por isso, não me aterei à segunda parte do livro em questão, que fala dos conceitos desta escola, e que foi acrescentada em edições posteriores. O que mais me interessou e me comoveu neste livro, foi o próprio relato da experiência de um psiquiatra em um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, de forma franca, e com análises das situações sobre a ótica de um dos maiores nomes da psiquiatra no século XX, autor da conhecida Terceira Escola Vienense de Psicoterapia (as duas primeiras são a Psicanálise de Sigmund Freud e a Psicologia Individual de Alfred Adler).

UNSPECIFIED - CIRCA 1994: Portrait of austrian psychologist Viktor Frankl, Photograph, 1994 (Photo by Imagno/Getty Images) [Portr?t Viktor Frankl, Photographie, 1994]

Viktor Frankl em 1994 (Photo by Imagno/Getty Images)

No prefácio do livro, Frankl nos revela tê-lo escrito inicialmente sem grandes pretensões. O escreveu em 9 dias, no pós-guerra em 1945 e pretendia publicar o livro anonimamente. Dissuadido por amigos, Frankl tornou-se conhecido mundialmente, especialmente nos Estados Unidos, onde o livro se tornou best-seller. Ao ser questionado por repórteres como ele via seu sucesso, ele respondia:

“Vejo (meu livro) não tanto como uma conquista e realização da minha parte, mas como uma expressão da miséria dos nossos tempos: se centenas de milhares de pessoas procuram um livro cujo título promete abordar o problema do sentido da vida, deve ser uma questão que as está queimando por dentro.

No prefácio ele completa:

“Havia querido simplesmente transmitir ao leitor, através de exemplo concreto, que a vida tem um sentido potencial sob quaisquer circunstâncias, mesmo as mais miseráveis.”

No livro, Viktor Frankl tem o intuito de descrever (e, de certa forma, analisar) o que se passava pela mente do “prisioneiro comum e desconhecido” dos campos de concentração. Isso porque nem todos os prisioneiros eram “comuns”, existiam por exemplo os “capos”, que mandavam nos outros, e tinham certas regalias, além de agirem com os demais prisioneiros muitas vezes mais cruelmente que os próprios guardas do campo. Sendo assim, ele faz um relato de sua própria experiência, o prisioneiro Nº 119104, em um ensaio psicológico.

“Não é sem orgulho que digo não ter sido mais que um prisioneiro “comum”, nada fui senão o simples nº 119104….

…já foi publicado um número mais que suficiente de relatos contando os fatos nos campos de concentração. Aqui todavia, apresentaremos os fatos apenas na medida em que eles desencadearam uma experiência na própria pessoa; é para a experiência pessoal em si que se voltará o estudo psicológico que segue.”

Dessa forma, Frankl descreve muitos dos sentimentos que ocorriam ao longo do tempo no campo: o choque de recepção, o desapego de tudo, senão de sua existência nua e crua, a revolta, a apatia, a perda da sensibilidade, o irônico humor e, para alguns, algo que se poderia revelar salvador: “a fuga para dentro de si” e, principalmente a “capacidade de ser livre interiormente”. Durante o livro ele esmiúça cada um desses sentimentos. Mas, em especial, em contraste à prisão e falta de liberdade inerentes a um campo de concentração, ele irá falar da liberdade que ainda resiste dentro da mente de cada homem.

Onde fica a liberdade humana? Não haveria ali um mínimo de liberdade interior (geistg) no comportamento, na atitude frente às condições ambientais ali encontradas? Será que a pessoa nada mais é que um resultado da sua constituição física, da sua disposição caracterológica e da sua situação social?…

…A experiência da vida no campo de concentração mostrou-me que a pessoa pode muito bem agir “fora do esquema”… Quem dos que passaram pelo campo de concentração não saberia falar daquelas figuras humanas que caminhavam pela área de formatura dos prisioneiros, ou de barracão em barracão, dando aqui uma palavra de carinho, entregando ali a última lasca de pão? E mesmo que tenham sido poucos, não deixa de constituir prova de que no campo de concentração se pode privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas.

Percebamos: Viktor Frankl, psiquiatra, que perdeu tudo nos campos de concentração, entre posses, posição social e entes queridos. Sofreu uma das maiores barbáries da humanidade. Este mesmo, é capaz de dizer, que mesmo diante da perda de tudo, uma coisa sobra ao homem e não lhe pode ser tirada: sua liberdade interior (geistg). Sim, e é essa liberdade interior, que será a chave para a questão principal, o cerne do livro, como está no título: a busca de um sentido.

“Em princípio, portanto, toda pessoa, mesmo sob aquelas circunstâncias, pode decidir de alguma maneira no que ela acabará dando, em sentido espiritual: um típico prisioneiro de campo de concentração, ou então uma pessoa humana, que ali permanece sendo ser humano e conserva a sua dignidade….

…A liberdade interior (geistig) do ser humano, a qual não se lhe pode tirar, permite-lhe até o último suspiro configurar a sua vida de modo que tenha sentido.

Analisemos ainda esse outro trecho:

“A maioria se preocupava com a questão: ´será que vamos sobreviver ao campo de concentração? Pois caso contrário todo esse sofrimento não tem sentido´. Em contraste, a pergunta que me afligia era outra: ´Será que tem sentido todo esse sofrimento, essa morte ao nosso redor? Pois caso contrário, afinal de contas, não faz sentido sobreviver ao campo de concentração.´ Uma vida cujo sentido depende exclusivamente de se escapar com ela ou não e, portanto, das boas graças de semelhante acaso – uma vida dessas nem valeria a pena ser vivida.”

Vemos aqui então, que o que Viktor Frankl propõe, e que é a base de sua ciência, a logoterapia (logo, que vem do grego e que, apesar de uma palavra de significado muito abrangente, refere-se a “sentido”), é que faça-se uma “viravolta em toda a colocação da pergunta pelo sentido da vida”. Ele sugere que nós não perguntemos mais pelo sentido da vida, mas que, ao contrário, respondamos à vida a cada pergunta que ela nos faz, diariamente e a cada hora, de que forma agiremos para dar o sentido adequado à nossa vida.

“Em última análise, viver não significa outra coisa que arcar com a responsabilidade de responder adequadamente às perguntas da vida, pelo cumprimento das tarefas colocadas pela vida a cada indivíduo, pelo cumprimento da exigência do momento.

Essa exigência, e com ela o sentido da existência, altera-se de pessoa para pessoa e de um momento para o outro. Jamais, portanto, o sentido da vida humana pode ser definido em termos genéricos, nunca se poderá responder com validade geral a pergunta por este sentido…

… Mesmo diante do sofrimento, a pessoa precisa conquistar a consciência de que ela é única e exclusiva em todo o cosmo-centro deste destino sofrido. Ninguém pode assumir dela isso, e ninguém pode substituir a pessoa no sofrimento. Mas na maneira como ela própria suporta esse sofrimento está também a possibilidade de uma vitória única e singular.”

Viktor Frankl era religioso (judeu), e ele deixa isso transparecer em diversos momentos do livro. E dentro de toda a genialidade de sua análise, o livro, linha após linha parece gritar em meus ouvidos: “cristianismo, cristianismo”. Sim, porque, se houve um judeu que, em um momento de sofrimento intenso, soube utilizar da sua liberdade interior para dar sentido a toda a humanidade, este é Jesus Cristo. A liberdade individual que nos permite dar sentido às nossas vidas, só existe porque Ele assumiu sim, o nosso sofrimento e nos permitiu que pudéssemos ter o direito de escolher pelo “Logos”, que é traduzido também em nossas Bíblias pelo “Verbo”, que é o Sentido da Vida. Pois o sofrimento que nos era esperado era eternamente doloroso e impassível de vitória ou sentido. Mas agora, não há sofrimento que não possa ser passageiro, não há sofrimento que não possa terminar em uma grande vitória, mesmo que transcendente.

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.”

“Considero que os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada.” Romanos 8.18

O sofrimento pode parecer não ter limite. A maldade humana já provou até onde pode chegar. Mas desde o sofrimento de Jó, sabe-se que tudo pode ser tirado do homem: seus bens, suas posses, seus títulos honoríficos, sua saúde, sua família. Mas não se pode tirar a liberdade interior. Enquanto houver vida, o homem pode optar por Deus. Seja em algum lugar do oriente, ou em um campo de concentração, estejamos sempre prontos para responder a razão que nos dá sentido às nossas vidas.

“Mas, ainda que venhais a sofrer por causa da justiça, bem-aventurados sois. Não vos amedronteis, portanto, com as suas ameaças, nem fiqueis alarmados; “antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós” 1Pe 3.14-15

Artigo | A Frustrante Eternidade de Obras e Nomes

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“A Torre de Babel” (Tour de Babel), de Lucas Van Valckenborch, de 1594, atualmente expostas no Museu do Louvre, Paris.

“Vamos construir uma cidade, com uma torre que alcance os céus. Assim nosso nome será famoso e não seremos espalhados pela face da terra”. Gn 11.4

O que farei para ser lembrado? O que deixarei para a posteridade? Como eternizar a minha passagem pelo mundo? Questões como essas, com certeza afligem a maioria dos seres humanos. A verdade é que é doloroso para todos lidar com a sua finitude e, ser lembrado pelas gerações futuras passa ser uma forma de “se eternizar”. Mas ao que me parece, como cristãos aprendemos a cada dia que “se eternizar” não deveria ter outro caminho que não pela esperança em Jesus. Mesmo assim, nos deparamos todos os dias com medidas “desesperadas” para marcar sua presença no mundo.

Templos faraônicos. Prédios suntuosos. A necessidade de se criar sua própria Igreja, com seu próprio nome. Todos os dias vemos nomes se destacarem na mídia, não necessariamente de forma positiva. Na época da integração digital, todos são anônimos, mas a qualquer momento, apenas uma frase polêmica, ou um tweet de menos de 140 caracteres, podem torná-lo famoso. Nem que por alguns minutos. Não à toa, a famosa frase de Andy Warhol, “no futuro, todos terão seus 15 minutos de fama”.

No entanto, não pense ser isso um problema de nossos tempos. Não. A própria Bíblia, ainda em Gênesis, cita a construção da Torre de Babel, como uma forma dos homens de sua época “alcançarem o céu”, e se tornarem grandes para a posteridade. As primeiras civilizações já tinham a necessidade de marcar seus feitos através de obras, estátuas, templos e mausoléus. Aliás, avaliemos as Maravilhas do Mundo Antigo: duas delas nada mais eram que túmulos (a pirâmide de Quéops e o Mausoléu de Halicarnasso), duas eram estátuas de deuses (A estátua de Zeus, o Colosso de Rhodes), uma era um templo (Templo de Ártemis ou Diana), uma era um Jardim (Jardins Suspensos da Babilônia) e a última um Farol (Farol de Alexandria), talvez a única que realmente tivesse alguma serventia.

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Mapa de localização das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Perceba como a lista se limitava praticamente a região dominada pela cultura grega.

O Templo de Ártemis ou Diana dos Efésios (uma das sete maravilhas) era bem conhecido do Apóstolo Paulo. Afinal por conta dele, houve certa rebelião contra o apóstolo e seus seguidores em Éfeso. Imagino que ele fazia parte da paisagem diária avistada por Paulo durante o período relativamente longo que habitou por lá. E pelo fato de a nova Doutrina apresentada por Paulo ser algo que “desprezava” tanto a Diana quanto o seu templo, esses se revoltaram:

“… E estais vendo e ouvindo que não só em Éfeso, mas em quase toda a Ásia, este Paulo tem persuadido e desencaminhado muita gente, afirmando não serem deuses os que são feitos por mãos humanas.

Não somente há o perigo de a nossa profissão cair em descrédito, como também o de o próprio templo da grande deusa, Diana, ser estimado em nada, e ser mesmo destruída a majestade daquela que toda a Ásia e o mundo adoram.At 19.26-27

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Modelo do Templo de Ártemis (ou Diana dos Efésios), presente no Museu de Miniaturas Miniaturk, em Istambul, na Turquia.

Imaginem só se o templo de Diana fosse “estimado em nada”. Éfeso seria só mais uma cidade entre tantas e por nada seria lembrada. Aliás essa “fixação” por serem lembrados parecia ser algo bem típico do povo de Éfeso, pois quase 400 anos antes de Paulo, um cidadão chamado Heróstrato foi o responsável por incendiar o tão querido templo de Ártemis (ou Diana), justamente com o objetivo de ser lembrado pela posteridade. Está aí. Heróstrato é o nome dele, ainda lembrado 2300 anos depois. Mas será que valeu a pena ser lembrado por esse ato?

Fernando Pessoa tenta responder a essa pergunta em uma de suas obras: “Heróstrato e a busca da Imortalidade”. No entanto, seu objetivo é mais avaliar a “imortalidade” de uma obra, chegando a conclusão de não ser possível saber quem ficará para a história, sendo o ideal, como afirma, “uma epopeia que resistisse como Milton e interessasse como Conan Doyle). Em outro texto “As Condições do Prestígio”, Pessoa escreve:

“Descreveu Carlyle a humanidade como sendo um vaso cheio de cobras, cada uma d’elas tentando erguer a cabeça acima das de todas as outras.

Não vale a pena a fama a qualquer preço. Não vale a pena tomar qualquer atitude para ser famoso, mas vou mais além, não vale a pena também tomar atitudes boas esperando, com essas, atingir alguma fama. Com certeza hoje temos registrado e falamos muito de toda uma galeria de heróis da fé, como Paulo, Estevão, Abraão, Moisés. Mas com certeza há muitos outros que jamais saberemos os nomes (não nessa existência), que por amor a Deus sofreram perseguições, foram torturados, mutilados e mortos. Muitos que na história da humanidade, nada mais são que seres anônimos, que nunca terão seus nomes nos livros de história, que nunca terão suas canções entoadas, ou nunca terão suas mortes choradas. Mas se lhes perguntassem, com certeza diriam: O que é a glória humana, comparada a esplendorosa glória de Deus? Poderia eu trocar uma pela outra? Acho que não.

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie.Epístola do Apóstolo São Paulo aos Efésios, capítulo 2, versículos 8 e 9.