Artes Plásticas | Joan Miró – A Força (e a Ressignificação) da Matéria

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Na última semana estive em Florianópolis e pude visitar a exposição “Joan Miró – A Força da Matéria”. Foi uma das melhores coisas que eu pude fazer durante minha estadia nesta bonita cidade (em que choveu durante toda a semana). Aconselho aos que não tiveram a oportunidade de ver essa exposição lá ou em São Paulo, que aproveitem os últimos dias em que esta estará no MASC (Museu de Arte de Santa Catarina). E, preferencialmente, tentem uma visita guiada, pois é espetacular.

“Joan Miró – A Força da Matéria”, como o nome diz, é uma exposição montada com obras deste artista abstrato e surrealista do século XX, que tende a valorizar a relação de Miró, não só com a ideia expressa na obra, mas com a matéria de que se utiliza para criá-la. Dessa forma veremos obras de todos os tipos, desde pinturas realizadas em papel e tinta guache, a esculturas, obras em madeira e pano.

Joan Miró, como outros artistas de seu tempo, se utiliza muito da ressignificação. Ou seja, ao pegar um pedaço de madeira que foi desprezado, cheio de marcas e defeitos próprios e utilizá-lo para realizar a sua obra, ele literalmente transforma “lixo em luxo”. E vai também de caminho contrário, ao realizar uma escultura em bronze, material nobre, utilizado por gregos e romanos para suas esculturas de deuses e de atos vitoriosos, e jogar-lhe tinta em cima, o que, para esses artistas clássicos, seria uma espécie de “crime contra a arte”. Ao dar uma ressignificação a um pano velho e com marcas, ou a um objeto qualquer de metalurgia, Miró torna algo desprezível em uma obra valiosa, enriquecida não só com o sentido que este lhe a imprime ao pintá-la ou montá-la, mas com toda a história existente por trás de um objeto como este.

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Miró e a Matéria – À esquerda acima, obra em papelão, à direita, obra em madeira reutilizada (repare nas marcas e defeitos inerentes a esta), e abaixo escultura em bronze, reutilizando-se de materiais industriais.

Miró ainda demonstra uma relação mais forte com a matéria de suas obras. Para que elas possam ser palco da expressão psicanalítica de suas pulsões* e da livre associação de ideias*, Miró pinta, risca, bate e até mesmo pisa em suas obras, agredindo-as ao mesmo tempo em que lhes dá significância. Dessa forma a matéria existe com uma espécie de divã, no qual o artista irá despejar as suas relações transferenciais. A obra é o resultado da “impregnação” do artista àquilo que a sustenta.

Muito mais se poderia falar sobre a obra deste artista catalão: a importância do “primitivo”, a proximidade com as pinturas rupestres e também com a cultura oriental, da qual ele “importa” o uso e a ideia dos “ideogramas”, marca da obra de Miró. Mas nesse momento prefiro me concentrar na ideia da ressignificação e da riqueza desta metáfora que fala de nós mesmos. Afinal a ressignificação do homem é quase sinônimo de cristianismo.

“…Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são;” 1Co 1.27-28

Um homem não é uma tela em branco. Um homem tem história, tem marcas, tem cicatrizes e traumas. E muitas vezes esses traumas são suficientes para torná-lo desprezível e à margem da sociedade. Mas é justamente nessa matéria, que Deus escolheu pintar as mais belas obras de toda a humanidade. Nessa matéria que Deus escolheu imprimir sua personalidade e criar uma forma de se mostrar ao mundo. Sim, se um artista se mostra através de sua obra, Deus se mostra através de toda a criação, em especial, através do homem.

“Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.” Sl 19.1

“Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento.” 2 Co 2.14

É interessante perceber que em Miró, e na verdade, na arte em geral, a matéria tem força somente quando o autor lhe imprime um significado. Claro que em Miró isso ganha uma característica em especial, mas em suma, tudo não passa de telas, tintas, metais. Pode-se dizer que em temos de matéria, um homem não passa de uma estrutura viva baseada em carbono. Mas veja a força da matéria quando esta se associa de forma organizada. Quanto muito mais não será quando esta espelha a grandeza da graça de Deus.

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Essa fotografia termina a exposição e mostra um Miró já consagrado, em que ele sabia que cada uma de suas obras poderia valer milhões, trabalhando na areia da praia, uma matéria passageira, que a qualquer momento pode ser apagada pelas ondas, mas ao mesmo tempo única em suas propriedades.

* Pulsão: termo psicanalítico que define a energia psíquica que leva às ações, desejos. / Livre-associação: termo psicanalítico utilizado para definir a técnica em que se permite ao paciente falar deixando as ideias surgirem e encadearem-se livremente.

Artigo: O Pálido Ponto Azul / Imagem em Mente (03)

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Sim meus amigos, a foto acima é do nosso querido e tão maltratado planeta Terra. Sim, aquele pequeno ponto, circundado acima é o nosso planeta. A foto em questão é uma famosa fotografia tirada pela sonda Voyager 1, em 1990, e foi nomeada por Carl Sagan, o responsável pela missão, de “O pálido ponto azul”. A sonda Voyager 1 é hoje o objeto humano mais longe da Terra (foi lançada em 1977). Este ano ela ultrapassou os limites do sistema solar e, apesar de ter vários dos seus instrumentos não funcionando mais, ainda envia sinais que levam 17 horas para chegar até a Terra.

A foto ficou tão famosa justamente por nos fazer enxergar (literalmente) a nossa insignificância diante de todo esse universo. Como disse o próprio Carl Sagan, todas as pessoas que conhecemos e todas as pessoas que já ouvimos falar, viveram suas vidas ali, naquele pequeno ponto azul.

Ao mesmo tempo, o pequeno ponto parece ‘protegido’ por um raio de sol, reflexo da luz do sol na fotografia, algo que de certa forma o destaca em meio a toda a vastidão. Essa metáfora me faz pensar ainda mais que a primeira.

“Tal ciência é para mim maravilhosíssima; tão alta que não a posso atingir. Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, Até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá. Se disser que as trevas me encobrirão; então a noite será luz à roda de mim. Nem ainda as trevas me encobrem de ti; mas a noite resplandece como o dia; as trevas e a luz são para ti a mesma coisa.” Salmo 139.6-12

Carl Sagan tem um belo discurso realizado em uma conferência em 1996, tendo como base essa foto. Na verdade ele já escreveu até um livro com este mesmo nome (“Pálido Ponto Azul”). O discurso é realmente muito tocante e nos faz refletir muito, especialmente para entendermos a banalidade de nossas guerras e beligerâncias, bem como a necessidade de proteger esse único ponto no universo que foi reservado para nós. O discurso pode ser visualizado no youtube, inclusive em versão dublada, com a narração de Guilherme Briggs.

Todo o discurso pode ser esmiuçado para uma reflexão bem mais abrangente, mas um trecho me chama mais a atenção para nossa ‘mente cristã’:

“As nossas posturas, a nossa suposta auto-importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida. O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar para nos salvar de nós próprios.”

Será mesmo? Não há como negar: “nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca.” Mas como vemos na própria foto, será que não há um raio de luz capaz de nos iluminar em meio a essa obscuridade? Realmente não há esperança para a humanidade para salvar-nos de nossa insignificância e de nós próprios, como diz o texto? É claro que aqui entra a questão da fé. Mas um livro sagrado, muito comentado, mas pouco conhecido de verdade neste grão de areia cósmico, nos fala que toda vez que olharmos para essa luz defletida como a que vemos, de modo a dividir-se em várias cores, especialmente formando um arco de cores, podemos nos lembrar que Aquele que é maior que tudo isso, que há e que não há no universo, sim, o Deus Todo-Poderoso, quer você acredite ou não, realizou uma aliança com a humanidade. Uma aliança de que não seríamos destruídos ou nos destruiríamos gratuitamente.

“E estará o arco nas nuves, e eu o verei, para me lembrar da aliança eterna entre Deus e toda a alma vivente de toda a carne, que está sobre a terra.” Gn9.16

Como eu disse, como sempre, é claro que é uma questão de fé. Mas não sei quanto a vocês, mas em mim tem algo que não se conforma com toda essa insignificância. Eu simplesmente não suporto a ideia de sermos apenas um pequeno ponto dentro de outro pequeno ponto pálido e azul. Sim, eu reconheço que fisicamente, em termos de espaço e de tempo, não somos nada além disso. Mas, perdoe-me Carl Sagan, de alguma forma tem que haver algo mais. Atrás desta cortina tem que haver palcos azuis*. Perdoe-me você que não crê. Mas eu só enxergo a minha significância na minha fé, na minha esperança. E a minha esperança está em Jesus.

“Jesus respondeu e lhe disse: Qualquer que beber desta água tornará a ter sede; mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der ser fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna.” Jo 4.13-14

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Outra foto famosa de nosso planeta. Essa tirada pela missão Apolo 8 enquanto estava em órbita na Lua em 1968.

* Referência à música “Minha Vida” de Chico Buarque.

 

Imagem em Mente (02) – Coragem de dizer não

Para a imagem para reflexão, nesta semana, selecionei a foto abaixo, de 1936 (ou 1938, segundo algumas fontes) que ficou bastante famosa recentemente no facebook, e que mostra um homem comum se negando a fazer a saudação nazista durante o lançamento de um navio de guerra ao mar. Este homem seria August Landmesser e teria sido casado com uma judia, Irma Eckler.

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Segundo consta, Landmesser teria sido membro do partido nazista de 1931 a 1935, tendo sido preso depois disso por “desonrar a raça” ariana ao se casar com uma judia. Posteriormente ele teria sido enviado a guerra, em 1941, onde desapareceu logo após. Ao mesmo tempo, sua mulher teria sido levada a  um campo de concentração, onde veio a falecer, enquanto suas duas filhas foram separadas, uma ficou com a avó materna e a outra foi levada a um orfanato, onde posteriormente foi adotada. Essa mesma filha escreveu um livro sobre a história de sua família em 1996 ( “A family torn apart”).

A imagem é forte e marcante e, prontamente, me remete à história de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego (ou Ananias, Misael e Azarias), na corte do rei Nabucodonosor, descrita no livro de Daniel, no capítulo 3. Nabucodonosor constrói uma imagem de ouro de 27 metros de altura (para comparação a estátua do Cristo Redentor tem 30 metros de altura, mais 8 metros de pedestal), e convoca todos os principais e autoridades para se prostrar diante da estátua. Bom, o desfecho da história vocês já sabem: os três israelitas se negaram a se prostrar diante da estátua e foram condenados à fornalha ardente, tendo sido milagrosamente salvos, sem se queimarem. Além disso, Nabucodonosor avista na fornalha não somente os três jovens sãos e vivos, mas um quarto, que segundo ele seria como o “filho dos deuses”, numa clara prefiguração de Jesus Cristo.

Num mundo cada vez mais massificado, a opinião e a postura que diverge da maioria hoje é visto como loucura, ignorância, ou falta de inteligência mesmo (sim, há quem acredite hoje que ter fé é resultado de um lento processo de manipulação associado a um baixo coeficiente de inteligência mesmo). Mas a virtude de hoje pode ser a falta de escrúpulos de amanhã. Ou vocês acham que todos os outros alemães da foto tinham consciência de estarem praticando um ato preconceituoso, dentro de um sistema de maldade e carnificina? Não, com certeza o louco era o Landmesser. E hoje a loucura do holocausto mancha a história da humanidade.

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“…Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são;” 1 Co 1.27-28

Imagem em mente (01) – Responsabilidade social

Represa seca

Para iniciar esta seção “Imagem em mente”, onde alguma imagem será lançada para nossa reflexão, eu posto a imagem da represa de Jaguari no dia de 31 de janeiro de 2014, que faz parte do sistema Cantareira, principal distribuidor de água para a cidade de São Paulo que, como pode se ver está com o nível de água muito abaixo do normal.

José foi um grande governador do Egito porque soube poupar na hora certa para enfrentar o período de fome. Agora é a hora de todos nós cidadãos economizarmos água. E nós cristãos temos que ter essa consciência. Façamos nossa parte.