Literatura em Mente – Rubem Alves e “O Povo”

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Pensem em uma persona contraditória. Agora pensem em Rubem Alves, provavelmente o teólogo brasileiro de maior expressão no meio secular, artístico e internacional. Digo isso, porque ao se falar no nome deste mineiro de Boa Esperança (irônico não?), falecido em Campinas em 19 de julho de 2014 aos 80 anos de idade, diversas pessoas do meio cristão se levantarão para defendê-lo, criticá-lo ou execrá-lo. De gênio a herege, muitos serão os adjetivos que se vêem associados a este senhor que, além de teólogo, foi psicanalista, educador, escritor e ex-pastor presbiteriano.

A verdade é que Rubem Alves foi muita coisa. E falou e escreveu muita coisa também. Algumas muito polêmicas, outras retiradas erroneamente de todo um contexto. É inegável que uma análise biográfica e da obra de Rubem Alves nos leva a enxergar um artista humano, sim, um artista, com todo o lirismo e sensibilidade que lhe é peculiar que, ao longo dos anos foi se separando cada vez mais da fé, ao menos, em seu sentido tradicional. É difícil bater o martelo mas, amargurado no final de sua vida com a doença que sofria, é provável que Rubem Alves tenha flertado com o ateísmo (minha opinião).

Ainda assim, não há como não respeitar uma pessoa tão inteligente e tão habilidosa em escrever. Veja só essa crônica, uma das últimas que escreveu à Folha de São Paulo, em novembro de 2012:

O Povo

“Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece”, observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo.

Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega: “Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos”. Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem.

Vou dizer aquilo sobre o que me calei: “O povo unido jamais será vencido”, é disso que eu tenho medo.

Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o “povo” tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo. Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se integrasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.

E a história do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão. Até que ela o abandonou.

Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos. E o que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: “Agora você será minha para sempre.” Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.

Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável.

O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras.

As mentiras são doces; a verdade é amarga.

Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo.

No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões.

E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos!

As coisas mudaram.

Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.

O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas.

As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.

Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro “O Homem Moral e a Sociedade Imoral” observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se “responsáveis” por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas.

Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.

Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras.

O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.

Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás.

Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer. O povo, unido, jamais será vencido!

Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos. Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol. Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de “boca-de-forno”, à semelhança do que aconteceu na China. De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção.” Isso é tarefa para os artistas e educadores.

O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança!

Rubem Alves – colunista da Folha de S. Paulo Em, 11 NOV 2012

Que crônica realmente genial. De modo abrangente, abarca um pouco de tudo o que Rubem Alves tanto ama: teologia, humanidade, civilização, filosofia, artes e educação. E digo mais, fala até mesmo de psicologia de grupo, julgando e investigando as atitudes do “povo”. Utilizando-se de exemplos bíblicos e históricos, Rubem Alves realiza uma crítica amarga ao ser humano, no momento em que este se insere num grupo, no caso, a sociedade como um todo.

Como explicar amontoados de pessoas que se agrupavam em praça pública, para assistirem a sessões de assassinatos e tortura? Para assistirem “bruxas” queimarem? Ou para gritarem “Barrabás”? E hoje ainda vemos grupos que se ajuntam para matar indivíduos que torcem para um time rival, ou para colocar fogo em um mendigo na rua, ou para estuprar uma adolescente em uma festa. Não que o homem seja inocente individualmente mas, sob o anonimato e a proteção do grupo, o homem às vezes se torna cruel:

“Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo”

Há uma imagem (errada) que temos do povo: a imagem do homem simples capinando sua roça para subsistência ou a da mulher que cozinha o pouco de comida que tem para seus filhos. As imagens, em si, não são incorretas. Nem os indivíduos que vivem de modo tão simplório. Mas entender a sociedade , ou o povo, como um agrupado de pessoas simplórias que são exploradas por companhias, aristocracias, burguesias, ou por políticos corruptos não está correto. O povo também é quem permite todas essas injustiças. De onde vem a cultura do “jeitinho” ou da “lei de Gérson”, ou da alienação, ou do “a culpa é toda deles”.

A Bíblia desde o Gênesis até o Apocalipse fala de “povos” e sociedades que erraram. E erraram demais. O povo pré-diluviano. O povo de Sodoma e Gomorra. O povo de Israel. O povo das 7 Igrejas do Apocalipse. Sempre que há um povo, há registro de erros graves. A isso, registra-se talvez algumas poucas exceções: lampejos de bons momentos do povo de Israel, e a Igreja Primitiva. E é interessante que, em sua crônica, Rubem Alves, qualifica alguns momentos em que “o povo fica bonito”, especialmente quando guiado por pessoas e sentimentos especiais.

O povo de Israel teve seu auge quando guiado pelo homem mais sábio de todos os tempos. A Igreja Primitiva era guiada por um sentimento singular de altruísmo e abandono das coisas deste mundo em prol de algo muito maior. Quando Rubem Alves diz “isso é tarefa para os artistas e educadores”, consigo compreender totalmente a importância que estes dois tem na sociedade de hoje. Se os artistas são sensíveis às questões que realmente são importantes, eles são capazes de alertar o povo para tais. Já em relação aos educadores, digo que este pode ser o grande diferencial das sociedades contemporâneas. Isso porque a educação tem poder transformador, em tornar pessoas do povo, em cidadãos. Rubem Alves, como um grande educador, entendia bem disso. Uma sociedade que valoriza o estudo é uma sociedade que evolui e aprende com os erros do passado. Uma sociedade que tende a não queimar pessoas e livros em praças públicas. E que tende a gerar, ler, entender, aceitar ou refutar grandes pensadores como o cidadão brasileiro Rubem Alves, sem precisar que isso se torne uma verdadeira guerra religiosa.

“O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras.” Tito 2.14

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Cinema, Teatro, Literatura em Mente – Macbeth: A Ambição que corrompe e mata.

Macbeth-PosterAssisti recentemente ao filme Macbeth: Ambição e Guerra (2015) do diretor Justin Kurzel, com Michael Fassbender e Marion Cotillard. Fui com grande expectativa, pois Macbeth (peça escrita por William Shakespeare), é uma história de que eu gosto muito e, que já tinha tido a oportunidade de assistir sendo executada em teatro popular e também já tinha tido contato com a ópera homônima (e baseada na peça), de Giuseppe Verdi. Não digo que saí decepcionado, mas também não me impressionei com as cenas em câmera lenta “a la” Zack Snider em 300 de Esparta e com a brutalidade desejada pelo diretor em sua versão. Mas, ao mesmo tempo, é uma das versões mais fiéis à obra original, respeitando o texto integralmente.

Certa vez ouvi de alguém, não lembro quem, nem em que ocasião, que “todas as histórias já haviam sido contadas por Shakespeare”. Isso claro, era uma alusão ao fato de que toda história hoje, por mais original que fosse, se baseia e possui aspectos humanos que já foram trabalhados algum dia, afinal, os dramas humanos, dentro de realidades bem diversas, são os mesmos desde o início das civilizações. E Shakespeare possui o mérito de ter trabalhado os mais diversos dramas humanos magistralmente em suas peças. Esse é o fator “eternizador” de suas obras que são o foco de tantas releituras e transcrições há mais de 4 séculos.

Hoje em dia podemos “consumir” Shakespeare das mais diversas formas. Somente Macbeth já foi adaptada por grandes nomes do cinema (como Orson Welles e Akira Kurosawa), mais de cinco vezes. Além disso temos a famosa ópera de Verdi, as milhares de versões teatrais, as versões para televisão, as versões em “hqs” e, é claro, o texto original. Entre uma versão e outra, muitas vezes veremos diferenças que parecem tornar a peça irreconhecível, mas basta prestar mais atenção que o tema da ambição e da culpa sempre estarão presentes quando falamos de Macbeth. E como a ambição pode levar à destruição total de um homem.

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Macbeth e as diversas formas de se “consumir” Shakespeare hoje em dia.

Resumidamente, Macbeth é um general da Escócia, que após grandes vitórias em batalha, ouve uma profecia que diz que ele se tornaria rei. Há muitas análises possíveis, inclusive mestrados sobre esse assunto, mas não é claro se esse já era um desejo interior do personagem-título, ou se essa ideia (olha a referência a Inception do Christopher Nolan), foi implantada em sua mente após ouvir a profecia. Fato é que essa se torna então sua obsessão, que o fará matar, ferir e enlouquecer.

“Essa solicitação tão sobrenatural pode ser boa, como pode ser má… Se não for boa, por que me deu as arras de bom êxito, relatando a verdade? Sou o thane de Cawdor. Sendo boa, por que causa ceder à sugestão, cuja figura pavorosa os cabelos me arrepia, fazendo que me bata nas costelas o coração tão firme, contra as normas da natureza? O medo que sentimos é menos de temer que as mais terríveis mas fictícias criações. Meu pensamento no qual o crime por enquanto é apenas um fantasma, a tal ponto o pobre reino de minha alma sacode, que esmagada se torna a vida pela fantasia, sem que haja nada além do que não é.” Macbeth – Ato I Cena III.

Perceba no texto acima como uma ideia é absorvida por um homem e em pouco tempo ela passa a dominá-lo, sacudindo o “pobre reino de sua alma”. A vida real se torna “esmagada” pela fantasia, e a pessoa só tem olhos para aquilo que ainda não tem ou não existe. Isso me remete diretamente ao texto de Provérbios 4.22 “Sobre tudo o que deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida”. Coração é uma objetificação das ideias que mais valorizamos e amamos, que nos ambicionam, que nos mobilizam. Por isso, o sábio conselho bíblico, pois dessas ideias, procedem os nossos atos e ações. Macbeth deixou seu coração se inundar de uma ideia gananciosa, de onde procederam todos os outros atos da história.

Diversos personagens bíblicos pecaram, e morreram, por se deixar levar pela ambição. A própria concepção do pecado original se dá justamente pela ambição (“e se tornarão como o próprio Deus”). E em Macbeth, vemos quase que uma releitura da passagem de Adão e Eva e o pecado original, nas figuras de Macbeth e Lady Macbeth. Quando o rei visita a casa do personagem-título, sua esposa o seduz ardilosamente a assassiná-lo para chegar ao trono. E este, não isento de culpa claro, come desse fruto vistoso.

Como Davi tramando a morte de Urias após o erro de deitar-se com Betseba, assim Machbeth tem que tramar a morte de tantos outros para encobrir o seu erro. E como o sangue de Abel que clamava justiça após o seu homicídio, o sangue de tantos irá atormentar a mente de Macbeth e de sua esposa.

“MACBETH — … Não podes encontrar nenhum remédio para um cérebro doente, da memória tirar uma tristeza enraizada, delir da mente as dores aí escritas e com algum antídoto de oblívio doce e agradável aliviar o peito que opresso geme ao peso da matéria maldosa que comprime o coração?

O MÉDICO — Para isso deve o doente achar os meios.

MACBETH — Então atira aos cães a medicina. Não quero saber dela.”

Macbeth Ato V Cena III

A ambição e a culpa atormentam Macbeth até o seu fim, “sugando” dele sua força e sanidade mental. Ainda assim, ele se apega à segurança de que não poderia ser ferido por alguém “nascido de mulher”. A solução, entregue por Shakespeare, por certo não tem hoje o mesmo apelo que em sua época, e hoje pode soar “piegas”: seu opositor teria sido “retirado do ventre antes do tempo”. No entanto, tem seu valor, em demonstrar a fragilidade das “verdades” a que nos apegamos. Muitos retiram suas forças de bases extremamente frágeis, que as têm como “rochas”. Ou pior, muitos tem essa “rocha” baseada em suas próprias forças e não conseguem ver quão frágeis e pequenos são. Isso é exaustivamente mostrado e condenado na Bíblia, que aponta o grande erro que é “construir sua casa na areia”. O trecho de Jeremias 17, constantemente utilizado de forma incorreta pelos cristãos atuais, fala disso:

“Assim diz o Senhor: Maldito é o homem que confia no homem, que faz da humanidade mortal a sua força, mas cujo coração se afasta do Senhor. Ele será como um arbusto no deserto; não verá quando vier algum bem. Habitará nos lugares áridos do deserto, numa terra salgada onde não vive ninguém. Mas bendito é o homem cuja confiança está no Senhor, cuja confiança nele está. Ele será como uma árvore plantada junto às águas e que estende as suas raízes para o ribeiro. Ela não temerá quando chegar o calor, porque as suas folhas estão sempre verdes; não ficará ansiosa no ano da seca nem deixará de dar fruto. O coração é mais enganoso que qualquer outra coisa e sua doença é incurável. Quem é capaz de compreendê-lo? “Eu sou o Senhor que sonda o coração e examina a mente, para recompensar a cada um de acordo com a sua conduta, de acordo com as suas obras”. Jeremias 17.5-10

Não façamos do nosso braço a nossa força, e nem do braço de outros homens. Não nos deixemos levar pelos nossos corações enganosos, mas guardemos os nossos corações para não sermos ludibriados pelas falsas ideias de sucesso, vitória, ou poder. Essas são as lições que nós cristãos, podemos tirar da bela história humana escrita por Shaskespeare que, se não escreveu todas as histórias, ao menos contou sobre alguns dos principais dilemas humanos. E a ambição é um desses dilemas que, desde Adão, tem levado muitos homens à corrupção e à morte.

“O homem que obtém riquezas por meios injustos é como a perdiz que choca ovos que não pôs. Quando a metade da sua vida tiver passado, elas o abandonarão, e, no final, ele se revelará um tolo.” Jeremias 17.11

Livro em Mente | Em busca de sentido, de Viktor Frankl

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Em busca de Sentido (“Man´s Search for Meaning”) – Livro do psiquiatra judeu Viktor Frankl, escrito logo após sua experiência como prisioneiro em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

Hoje em dia gosta-se muito de se publicar listas com “livros que você deveria ler antes de morrer”. Ora, se esse predicado é verdadeiro, na minha opinião o livro “Em busca de sentido”, de Viktor Frankl, que trago para discussão neste texto, é um dos que deveriam encabeçar tais listas. Não pelo valor literário em si, haja vista, não trata-se de uma ficção ou romance (embora muitos trechos nos custa acreditar serem verdade), mas pelo simples e honesto relato de seu autor, e sua visão como psiquiatra e, ao mesmo tempo, homem religioso, de todo o seu sofrimento.

Viktor Frankl (1905-1997) foi um psiquiatra austríaco judeu, autor de uma linha psicoterapêutica conhecida como logoterapia, que tem como base a busca do sentido existencial de cada ser humano. Não tenho a pretensão neste texto de esmiuçar a parte prática ou conceitual da logoterapia, e por isso, não me aterei à segunda parte do livro em questão, que fala dos conceitos desta escola, e que foi acrescentada em edições posteriores. O que mais me interessou e me comoveu neste livro, foi o próprio relato da experiência de um psiquiatra em um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, de forma franca, e com análises das situações sobre a ótica de um dos maiores nomes da psiquiatra no século XX, autor da conhecida Terceira Escola Vienense de Psicoterapia (as duas primeiras são a Psicanálise de Sigmund Freud e a Psicologia Individual de Alfred Adler).

UNSPECIFIED - CIRCA 1994: Portrait of austrian psychologist Viktor Frankl, Photograph, 1994 (Photo by Imagno/Getty Images) [Portr?t Viktor Frankl, Photographie, 1994]

Viktor Frankl em 1994 (Photo by Imagno/Getty Images)

No prefácio do livro, Frankl nos revela tê-lo escrito inicialmente sem grandes pretensões. O escreveu em 9 dias, no pós-guerra em 1945 e pretendia publicar o livro anonimamente. Dissuadido por amigos, Frankl tornou-se conhecido mundialmente, especialmente nos Estados Unidos, onde o livro se tornou best-seller. Ao ser questionado por repórteres como ele via seu sucesso, ele respondia:

“Vejo (meu livro) não tanto como uma conquista e realização da minha parte, mas como uma expressão da miséria dos nossos tempos: se centenas de milhares de pessoas procuram um livro cujo título promete abordar o problema do sentido da vida, deve ser uma questão que as está queimando por dentro.

No prefácio ele completa:

“Havia querido simplesmente transmitir ao leitor, através de exemplo concreto, que a vida tem um sentido potencial sob quaisquer circunstâncias, mesmo as mais miseráveis.”

No livro, Viktor Frankl tem o intuito de descrever (e, de certa forma, analisar) o que se passava pela mente do “prisioneiro comum e desconhecido” dos campos de concentração. Isso porque nem todos os prisioneiros eram “comuns”, existiam por exemplo os “capos”, que mandavam nos outros, e tinham certas regalias, além de agirem com os demais prisioneiros muitas vezes mais cruelmente que os próprios guardas do campo. Sendo assim, ele faz um relato de sua própria experiência, o prisioneiro Nº 119104, em um ensaio psicológico.

“Não é sem orgulho que digo não ter sido mais que um prisioneiro “comum”, nada fui senão o simples nº 119104….

…já foi publicado um número mais que suficiente de relatos contando os fatos nos campos de concentração. Aqui todavia, apresentaremos os fatos apenas na medida em que eles desencadearam uma experiência na própria pessoa; é para a experiência pessoal em si que se voltará o estudo psicológico que segue.”

Dessa forma, Frankl descreve muitos dos sentimentos que ocorriam ao longo do tempo no campo: o choque de recepção, o desapego de tudo, senão de sua existência nua e crua, a revolta, a apatia, a perda da sensibilidade, o irônico humor e, para alguns, algo que se poderia revelar salvador: “a fuga para dentro de si” e, principalmente a “capacidade de ser livre interiormente”. Durante o livro ele esmiúça cada um desses sentimentos. Mas, em especial, em contraste à prisão e falta de liberdade inerentes a um campo de concentração, ele irá falar da liberdade que ainda resiste dentro da mente de cada homem.

Onde fica a liberdade humana? Não haveria ali um mínimo de liberdade interior (geistg) no comportamento, na atitude frente às condições ambientais ali encontradas? Será que a pessoa nada mais é que um resultado da sua constituição física, da sua disposição caracterológica e da sua situação social?…

…A experiência da vida no campo de concentração mostrou-me que a pessoa pode muito bem agir “fora do esquema”… Quem dos que passaram pelo campo de concentração não saberia falar daquelas figuras humanas que caminhavam pela área de formatura dos prisioneiros, ou de barracão em barracão, dando aqui uma palavra de carinho, entregando ali a última lasca de pão? E mesmo que tenham sido poucos, não deixa de constituir prova de que no campo de concentração se pode privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas.

Percebamos: Viktor Frankl, psiquiatra, que perdeu tudo nos campos de concentração, entre posses, posição social e entes queridos. Sofreu uma das maiores barbáries da humanidade. Este mesmo, é capaz de dizer, que mesmo diante da perda de tudo, uma coisa sobra ao homem e não lhe pode ser tirada: sua liberdade interior (geistg). Sim, e é essa liberdade interior, que será a chave para a questão principal, o cerne do livro, como está no título: a busca de um sentido.

“Em princípio, portanto, toda pessoa, mesmo sob aquelas circunstâncias, pode decidir de alguma maneira no que ela acabará dando, em sentido espiritual: um típico prisioneiro de campo de concentração, ou então uma pessoa humana, que ali permanece sendo ser humano e conserva a sua dignidade….

…A liberdade interior (geistig) do ser humano, a qual não se lhe pode tirar, permite-lhe até o último suspiro configurar a sua vida de modo que tenha sentido.

Analisemos ainda esse outro trecho:

“A maioria se preocupava com a questão: ´será que vamos sobreviver ao campo de concentração? Pois caso contrário todo esse sofrimento não tem sentido´. Em contraste, a pergunta que me afligia era outra: ´Será que tem sentido todo esse sofrimento, essa morte ao nosso redor? Pois caso contrário, afinal de contas, não faz sentido sobreviver ao campo de concentração.´ Uma vida cujo sentido depende exclusivamente de se escapar com ela ou não e, portanto, das boas graças de semelhante acaso – uma vida dessas nem valeria a pena ser vivida.”

Vemos aqui então, que o que Viktor Frankl propõe, e que é a base de sua ciência, a logoterapia (logo, que vem do grego e que, apesar de uma palavra de significado muito abrangente, refere-se a “sentido”), é que faça-se uma “viravolta em toda a colocação da pergunta pelo sentido da vida”. Ele sugere que nós não perguntemos mais pelo sentido da vida, mas que, ao contrário, respondamos à vida a cada pergunta que ela nos faz, diariamente e a cada hora, de que forma agiremos para dar o sentido adequado à nossa vida.

“Em última análise, viver não significa outra coisa que arcar com a responsabilidade de responder adequadamente às perguntas da vida, pelo cumprimento das tarefas colocadas pela vida a cada indivíduo, pelo cumprimento da exigência do momento.

Essa exigência, e com ela o sentido da existência, altera-se de pessoa para pessoa e de um momento para o outro. Jamais, portanto, o sentido da vida humana pode ser definido em termos genéricos, nunca se poderá responder com validade geral a pergunta por este sentido…

… Mesmo diante do sofrimento, a pessoa precisa conquistar a consciência de que ela é única e exclusiva em todo o cosmo-centro deste destino sofrido. Ninguém pode assumir dela isso, e ninguém pode substituir a pessoa no sofrimento. Mas na maneira como ela própria suporta esse sofrimento está também a possibilidade de uma vitória única e singular.”

Viktor Frankl era religioso (judeu), e ele deixa isso transparecer em diversos momentos do livro. E dentro de toda a genialidade de sua análise, o livro, linha após linha parece gritar em meus ouvidos: “cristianismo, cristianismo”. Sim, porque, se houve um judeu que, em um momento de sofrimento intenso, soube utilizar da sua liberdade interior para dar sentido a toda a humanidade, este é Jesus Cristo. A liberdade individual que nos permite dar sentido às nossas vidas, só existe porque Ele assumiu sim, o nosso sofrimento e nos permitiu que pudéssemos ter o direito de escolher pelo “Logos”, que é traduzido também em nossas Bíblias pelo “Verbo”, que é o Sentido da Vida. Pois o sofrimento que nos era esperado era eternamente doloroso e impassível de vitória ou sentido. Mas agora, não há sofrimento que não possa ser passageiro, não há sofrimento que não possa terminar em uma grande vitória, mesmo que transcendente.

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.”

“Considero que os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada.” Romanos 8.18

O sofrimento pode parecer não ter limite. A maldade humana já provou até onde pode chegar. Mas desde o sofrimento de Jó, sabe-se que tudo pode ser tirado do homem: seus bens, suas posses, seus títulos honoríficos, sua saúde, sua família. Mas não se pode tirar a liberdade interior. Enquanto houver vida, o homem pode optar por Deus. Seja em algum lugar do oriente, ou em um campo de concentração, estejamos sempre prontos para responder a razão que nos dá sentido às nossas vidas.

“Mas, ainda que venhais a sofrer por causa da justiça, bem-aventurados sois. Não vos amedronteis, portanto, com as suas ameaças, nem fiqueis alarmados; “antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós” 1Pe 3.14-15

Filosofia e Poesia | De Caeiro a Camus – A metafísica de se dar sentido aos atos

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Guardando o Rebanho – Pintura a óleo de Antonio de Carvalho Silva Porto, de 1893, em exposição no Museu Nacional de Soares dos Reis, em Porto. Essa Obra do Realismo/Naturalista português representa bem a valorização da simplicidade do campo tão presente em Alberto Caeiro.

Alberto Caeiro era um dos heterônimos de Fernando Pessoa. Para quem não está familiarizado, essa era uma forma bastante comum de Pessoa se expressar, ou seja, ele criava personalidades, com nomes, biografias, datas de nascimento e até mesmo de morte, que se expressavam de formas determinadas e criavam suas próprias obras.

Alberto Caeiro, junto com Álvaro de Campos e Ricardo Reis são os mais famosos heterônimos. Caeiro era um poeta do campo e, apesar de pouca instrução, era tido pelos outros como “O Mestre”. Caeiro, em toda a sua obra, sempre irá defender a vida simples do campo, sem a necessidade de grandes luxos, mas principalmente sem a necessidade de grandes questionamentos, ou filosofias. Para ele, o que importa é o que vê e o que sente, e pensar sobre as coisas é simplesmente deixar de enxergá-las e aprisionar-se num quarto com cortinas. Nesse sentido, Alberto Caeiro é anti-metafísico. A poesia dele fala por si mesmo:

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei.  Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas?  Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica?  Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Alberto Caeiro.

Meu objetivo aqui, claro, não é rebater o pensamento de Alberto Caeiro, haja visto que nem mesmo se trata de uma pessoa de verdade. Mas é também claro, que um site que tem por objetivo “pensar” vai diretamente contra esse tipo de ideia expressa por Caeiro. O homem é questionador por natureza. As crianças, por exemplo, têm uma curiosidade natural. Mas pensar também gera consequências. Gera sofrimento, gera dúvidas, gera incertezas. E talvez seja por isso que vemos tantas pessoas que, mesmo sem saber, vivem exatamente dentro da filosofia de vida de Alberto Caeiro. Preferem não parar para pensar.

Já ouvi de um grande amigo meu: “quem me dera fosse apenas um pescador da Amazônia, e pudesse viver ignorantemente sem que meus questionamentos me afligissem”. Será mesmo? Seria, como diz o ditado, verdadeiramente “a ignorância uma benção”? Não acredito. Aliás também não acredito nessa figura que rodeia nosso imaginário, do cidadão simples, humilde e não questionador. Tenho certeza que uma hora ou outra esse “pescador” deve olhar para o céu e se perguntar “por que tudo isso?”. Alberto Caeiro não existe na realidade.

No entanto, após questionar-se, o homem pode sim optar pela opção de resignar-se. E aí sim, viver a vida, simplesmente porque é o que precisa ser feito. Acordar, comer, trabalhar e dormir, porque é o que precisa ser feito. Um (não) eterno ciclo que não leva a lugar algum. Um trabalho de Sísifo.

Sísifo era na mitologia grega, um homem que quis desafiar a morte, e por isso foi condenado ao pior trabalho de todos: o trabalho inútil. Todos os dias era obrigado a carregar com muito esforço uma grande pedra até o cume de um monte, simplesmente para vê-la rolar depois. É interessante que apesar dessa história ter pelo menos uns 2500 anos, no século XX, um outro Alberto, não o Caeiro, mas o Albert Camus, realizou um ensaio filosófico, tendo como base esse mito. Para Camus, a questão central da humanidade seria: diante da “absurdidade” da condição humana, não seria a única resposta para isso o suicídio? É claro que a discussão de Camus é muito mais profunda, mas a resposta a essa pergunta é basicamente “não”. E (ainda bem), não vemos tantas pessoas se suicidando por aí, alegando convicções filosóficas. Mas vemos milhões simplesmente aguardando a morte, reprimindo e/ou postergando seus pensamentos sobre Deus, a vida e a morte.

camus

Albert Camus e sua obra “O Mito de Sísifo”

“Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia

… Galileu, que detinha uma verdade científica importante, abjurou-a com a maior facilidade desse mundo quando ela lhe pôs a vida em perigo. Em um certo sentido, ele fez bem. Essa verdade não valia a fogueira. Se é a Terra ou o Sol que gira em torno um do outro é algo profundamente irrelevante. Resumindo as coisas, é um problema fútil. Em compensação, vejo que muitas pessoas morrem por achar que a vida não vale a pena ser vivida. Vejo outras que paradoxalmente se fazem matar pelas idéias ou as ilusões que lhes proporcionam uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é, ao mesmo tempo, uma excelente razão para morrer). Julgo, portanto, que o sentido da vida é a questão mais decisiva de todas.”

“Da mesma forma, e ao longo de todos os dias de uma vida sem brilho, o tempo nos carrega. Mas sempre chega um momento em que é preciso carregá-lo. Vivemos para o futuro: “amanhã”, “mais tarde”, “quando você tiver uma situação”, “com o tempo você vai compreender.” Essas inconsequências são admiráveis porque, afinal, se trata de morrer. Mas chega um dia e o homem verifica ou diz que tem trinta anos. Afirma assim sua juventude. Mas, nesse mesmo lance, se situa com relação ao tempo. Ocupa ali seu lugar. Reconhece que está num dado momento de uma curva que confessa ter de percorrer. Ele pertence ao tempo e, nesse horror que o agarra, reconhece nele seu pior inimigo.”

Albert Camus, em “O mito de Sísifo”

Para Camus, o verdadeiro sofrimento de Sísifo não estava no seu trabalho em si. Mas estava na sua condição humana que o levava a refletir sobre o trabalho. Camus descreve que a verdadeira pena estava não no momento em que ele subia o monte carregando a pedra, mas no momento em que ele descia o monte, tendo consciência de sua condição. De fato, não podemos afirmar que um rato que todos os dias corre em sua roda, que não lhe leva a lugar algum, esteja sofrendo pelo ato em si, haja visto que este não tem consciência do que o ato significa (no caso, nada). Mas um homem que passasse uma vida inteira girando uma roda do Conan (*referência ao filme Conan – O Bárbaro, de 1982), se não tivesse a esperança de mudar sua situação, por certo se angustiaria demais.

“Se esse mito é trágico (o mito de Sísifo), é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo o sustentasse a esperança de ser bem-sucedido? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consicente.”

Fato é que, um tema tão importante da filosofia não poderia passar “batido” ao “homem mais sábio de todos os tempos”. Inclusive, o próprio Camus chega a citar Eclesiastes em sua obra, mostrando que foi beber também de Salomão ao escrevê-la. E este imortaliza a expressão, que ao meu ver é sinônimo de Trabalho de Sísifo: “correr atrás do vento”.

“Contudo, quando avaliei tudo o que as minhas mãos haviam feito e o trabalho que eu tanto me esforçara para realizar, percebi que tudo foi inútil, foi correr atrás do vento; não há nenhum proveito no que se faz debaixo do sol.” Eclesiastes 2.11

Paulo, que em seu tempo teve que debater com filosófos da linha dos estóicos e epicureus, (que têm bases muito semelhantes as de Caeiro), valorizava muito a “fé racional”, ou seja a fé que tem uma base e um pensamento racionais, de um homem que se questiona, que opta e delibera. Paulo valorizava o pensar.

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”

Romanos 12.1-2

Ele sabia que as coisas de Deus se discerniam espiritualmente, mas ao mesmo tempo, não deixava de lado seu entendimento, raciocínio e intelectualidade. Pelo contrário, os abastecia com a graça e a convicção que lhe era dado por meio da fé, afim de justamente desvendar os conhecimentos mais ocultos. Paulo acima de tudo era um filósofo. Um filósofo do cristianismo.

“… Para que o coração deles seja confortado e vinculado juntamente em amor, e eles tenham toda a riqueza da forte convicção do entendimento, para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo, em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos.” Cl 2.2-3

Como o texto acima diz, todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão em Cristo. Pode ser que ainda estejam ocultos a nós, mas estão nEle. E Cristo é algo acessível a todos e a qualquer um. Seja um grande intelectual como Albert Camus, um homem do campo como Caeiro, ou apenas um simples e humilde pescador na Amazônia. Essa é a grande maravilha do cristianismo: ser a resposta a essa grande “absurdidade” da vida, que permeia a mente de sábios e indoutos. Ser o sentido que faz com que não sejamos apenas ratos correndo em uma roda ou “Sísifos” carregando pedras pela eternidade para, simplesmente, serem roladas de volta. Não precisamos viver como Sísifo.

Tiziano_-_Sísifo

Sísifo, de Tiziano Vecellio, de 1548. Essa pintura a óleo deste artista renascentista encontra-se exposta hoje no Museu do Prado, em Madri.

Cinema / Poesia | “Para sempre Alice” e “A arte de Perder”

“Somos aquilo que lembramos, e também aquilo que resolvemos esquecer”.

Ivan Izquierdo.  Médico e neurocientista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), referência mundial em fisiologia da memória.

Poster-PARA-SEMPRE-ALICE

Assisti recentemente ao filme Still Alice (“Para Sempre Alice”), de 2014. Dirigido por Richard Glatzer (falecido recentemente em decorrência de Esclerose Lateral Amiotrófica) e Wash Westmoreland, o filme conta com atores de peso como Julianne Moore no papel principal, Alec Baldwin, Kristen Stewart e Kate Bosworth. Mas o filme é de uma pessoa só: Julianne Moore domina a tela no papel de Alice, e não é à toa que recebeu diversas premiações por essa atuação, incluindo o Oscar e o Globo de Ouro.

Baseado no livro homônimo, de Lisa Genova, o filme conta a história de Alice, uma neurolinguista, professora universitária, que começa a apresentar déficits de memória, decorrentes da manifestação de um Alzheimer precoce. Por certo muitas pessoas têm contato com parentes, pais ou avós com Mal de Alzheimer, mas esse caso específico é um pouco diferente. Trata-se de uma forma rara da doença, que atinge pessoas mais jovens e cuja evolução é inexorável, ou seja, se você tem o gene, você irá manifestar a doença, e ainda pode transmiti-lo a seus descendentes.

alice borboleta

Livro “Still Alice” de Lisa Genova, que deu origem ao filme. A metáfora da borboleta é algo bem presente, fazendo contraponto ao sentimento de aprisionamento da personagem principal.

A parte médica descrita no livro e no filme, é impecável. Os dados sobre a doença, os métodos de avaliação utilizados, todos esses são bem fiéis à realidade. Aliás, esse para mim é o grande mérito do filme: ser bem fiel à realidade, isto é, ele não idealiza, não mascara, não romantiza, mas mostra cada personagem com suas qualidades e seus defeitos e a realidade da doença como ela é.

No entanto, a grande questão do filme, não é abordar a doença em si, mas sim as mudanças biopsicossociais sofridas com a pessoa e com a família da pessoa que sofre com uma doença neurodegenerativa (talvez a escolha do diretor tenha relação com sua própria doença). E como essas mudanças bio-psíquicas-e-sociais fazem o paciente se afastar cada vez mais da pessoa que ela é. Fazem ela se perder. O grande objetivo do filme é falar sobre o “perder”. Por isso mesmo, creio que a tradução do título para o português não seja a mais adequada. “Still Alice”, no caso, seria melhor traduzido por “Ainda Alice”, já que o seu grande desafio, relatado pela própria, é manter-se conectada à mesma pessoa que ela já foi e que está perdendo, ou seja, continuar sendo “Alice”.

“… Eu sou uma pessoa vivendo no estágio inicial da Doença de Alzheimer, e assim sendo estou aprendendo a arte de perder todos os dias. Perdendo meus modos, perdendo meus objetos, perdendo sono e, acima de tudo, perdendo memórias…

…Tornamo-nos ridículos, incapazes, cômicos. Mas isso não é quem nós somos. Isso é a nossa doença. E como qualquer doença, tem uma causa, uma progressão, e pode ter uma cura…

…Mas por enquanto, eu estou viva. Eu sei que estou viva. Tenho pessoas que amo profundamente, tenho coisas que quero fazer com a minha vida… Estou lutando. Lutando para fazer parte das coisas, para continuar conectada com quem um dia eu fui. Então “viva o momento”, eu digo para mim mesma. É tudo que posso fazer. Viver o momento. E não me culpar tanto por dominar a arte de perder.”

Esse texto faz parte do discurso proferido pela personagem do filme em uma reunião sobre a Doença de Alzheimer. No início do texto ela irá citar um poema de Elizabeth Bishop, que transcrevo aqui abaixo e que se torna a base de todo o seu discurso. Elizabeth Bishop deve ser conhecida do público brasileiro, pois foi uma poeta americana que morou por mais de 20 anos no Brasil, e recentemente foi vivida no cinema no filme de Bruno Barreto, “Flores Raras” (que conta a história dela e sua relação homoafetiva com a personagem da atriz Glória Pires). O poema é bastante famoso nos Estados Unidos, de uma linguagem relativamente simples, com rimas em forma de villanelle (do francês villanesque). Villanelle é uma forma relativamente comum nos poemas de língua inglesa, sendo constituído por 5 tercetos seguidos ao final por 1 quarteto.

 

A arte de perder

 

“A arte de perder não é nenhum mistério;

Tantas coisas contêm em si o acidente

De perdê-las, que perder não é nada sério.

 

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,

A chave perdida, a hora gasta bestamente.

A arte de perder não é nenhum mistério.

 

Depois perca mais rápido, com mais critério:

Lugares, nomes, a escala subseqüente

Da viagem não feita. Nada disso é sério.

 

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero

Lembrar a perda de três casas excelentes.

A arte de perder não é nenhum mistério.

 

Perdi duas cidades lindas. E um império

Que era meu, dois rios, e mais um continente.

Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

 

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo

que eu amo) não muda nada. Pois é evidente

que a arte de perder não chega a ser mistério

por muito que pareça (Escreve!) muito sério. ”

 

Poema de Elisabeth Bishop, Tradução de Paulo Henriques Britto. Citado no filme Still Alice (“Para sempre Alice”) de 2014.

 

O poema mostra um eu-lírico resignado e aparentemente convencido de que nada pode fazer quanto a perda. Por isso ele parece obsessivamente querer se convencer de que isso “não é nada sério”, mesmo com o aumento gradual da importância das coisas que perde. Ao final, com o termo em parênteses “Escreve!”, vemos uma metalinguagem do autor que se utiliza das palavras, da poesia, para tentar amenizar o seu sofrimento.

Tanto o poema, quanto o filme nos comovem muito por tratar de forma tão delicada do tema da perda. Mas, independente se de forma abrupta ou de forma arrastada, como Alice, todos nós perderemos tudo isso. De forma geral, não se nasce com nada, e não se leva. Então tudo que um dia adquirimos, tudo pelo que lutamos, em teoria um dia irá se perder. Não há sentido em se apegar às coisas.

Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei para lá” Jó 1.21

Fica mais doloroso em pensarmos que esta “lei universal” se aplica também a nosso intelecto, às nossas memórias, e a nós mesmos. Por isso, não vale a pena nos apegarmos também ao que somos. Nossos títulos, nosso conhecimento, nossas lembranças. Tudo se perde também. E isso, fora de um contexto cristão, a mim, parece extremamente desesperador.

O apóstolo Paulo, em sua epístola aos Filipenses, parece alertar exatamente quanto a isso. Dentro de um contexto cristão, apegar-se aos seus bens, ou a si mesmo é um grande erro. E ele diz que mesmo ele, que pertencia a uma classe social bastante elevada em sua sociedade, tinha passado por todos os ritos judaicos à risca, tinha estudado e sido ensinado por um dos maiores mestres gregos de seu tempo, Gamaliel, tinha por certo tinha um QI muito acima da média, e ainda tinha de nascença o título de cidadão romano, algo que poucos podiam e que muitos pagavam quantias enormes em dinheiro para conseguir; mesmo ele, veria tudo isso se perder. E por isso, ele já preferia reputar tudo isso em perda por Cristo, sendo este agora seu verdadeiro apego. Porquanto, esquece-se das coisas que estão atrás e olha para o alvo, a fim de conquistar algo perene, que nunca se perderá.

“… Nós que adoramos pelo Espírito de Deus, que nos gloriamos em Cristo Jesus e não temos confiança alguma na carne, embora eu mesmo tivesse razões para ter tal confiança. Se alguém pensa que tem razões para confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado no oitavo dia de vida, pertencente ao povo de Israel, à tribo de Benjamim, verdadeiro hebreu; quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na Lei, irrepreensível.

Mas o que para mim era lucro, passei a considerar como perda, por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar Cristo e ser encontrado nele, não tendo a minha própria justiça que procede da Lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé.

Quero conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte para, de alguma forma, alcançar a ressurreição dentre os mortos. Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus.

Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus.” Filipenses 3.3b-14

 

O texto é claro. E é confortador, especialmente para aqueles que de alguma forma já viram seus familiares se perderem gradualmente dentro de sua mente, esquecendo-se de tudo e de todos. Mas Deus não se esquece. E em Cristo Ele há de reavivar uma nova mente incorruptível e perene, livre de doenças ou da neurodegeneração. Uma nova mente, em Cristo.

“Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista de imortalidade. Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: “Tragada foi a morte na vitória” 1Co 15.53-54

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Literatura | “O Alienista” de Machado de Assis.

“A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.”

Trecho de “O Alienista”

o alienista

Essa semana trago a obra “O Alienista” de Machado de Assis para análise e discussão. Acredito que essa obra muito tem a ver com o enfoque deste site, visto que propõe-se a enxergar a loucura de certo ponto de vista, no caso, o da ciência no final do século XIX. A ideia do livro não é, como veremos adiante, discutir sobre a “loucura” em si, mas, na verdade, abordar a “loucura” existente em tentar desvendar a “loucura”.

Isso atinge diretamente a ideologia cristã, pois o que é a loucura afinal, no momento em que a própria “mensagem da cruz é loucura para os que estão no mundo” (1Co1.18), ou ainda que “a sabedoria deste mundo é loucura aos olhos de Deus” (1Co3.19)? Vamos em frente então:

Resumo da história

“O Alienista” de Machado de Assis, é mais um dos clássicos da literatura brasileira. Existe um debate entre os especialistas se seria “O Alienista” um conto ou um romance curto. No entanto, parece haver pequena vantagem para o grupo que o considera um romance devido à sua estrutura narrativa. Foi publicado em 1882, já no auge da carreira de Machado e em sua fase realista, iniciada no ano anterior com a publicação de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.

O livro, que hoje conta com diversas publicações e adaptações, incluindo audiolivros e graphic novels, traz a história de Simão Bacamarte, “filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas” após seu regresso ao Brasil e sua escolha de Itaguaí como cidade.

A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo. Dito isso, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas.”

publicacoes - o alienista

O Alienista e suas diversas publicações, incluindo livros, audiolivro e graphic novels

Tudo referente à vida pessoal deste personagem é bastante conciso. Fato é que, a paixão pela ciência e, porque não, os próprios acontecimentos da vida, como a impossibilidade de ter filhos, fizeram-lhe por “mergulhar inteiramente no estudo e na prática da medicina”, e especificamente de seu “recanto psíquico”.

“A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico”.

Dessa forma, Simão Bacamarte decide pela criação de uma casa para “agasalhar e tratar todos os loucos de Itaguaí”. Um hospício. E aqui vemos o início das ironias tipicamente machadianas:

“Começou logo a construir a casa. Era na Rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí naquele tempo; tinha cinqüenta janelas por lado, um pátio no centro, e numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A idéia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII.”

Fato é que a casa foi construída, e aos poucos os “loucos” foram sendo introduzidos à esta. Com o tempo a casa foi-se enchendo de pessoas cada vezes mais consideradas “normais” pela sociedade, de forma que em seu auge, a casa acolheria quatro quintos da população de Itaguaí. Isso gera uma revolta na sociedade, ao passo que o próprio analista com base na “análise científica” percebe que seus métodos não podem estar corretos, liberando os internados. Dessa forma ele entende que os “loucos” não poderiam ser todos aqueles em que havia algum desequilíbrio das faculdades mentais, mas sim, o contrário, aqueles em que esse equilíbrio fosse pleno.

“De fato o alienista oficiara à Câmara expondo: — 1′: que verificara das estatísticas da vila e da Casa Verde que quatro quintos da população estavam aposentados naquele estabelecimento; 2° que esta deslocação de população levara-o a examinar os fundamentos da sua teoria das moléstias cerebrais, teoria que excluía da razão todos os casos em que o equilíbrio das faculdades não fosse perfeito e absoluto; 3° que, desse exame e do fato estatístico, resultara para ele a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto, que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto.

Dessa forma, a “Casa Verde” passa a agregar estes em que o equilíbrio lhe parecera perfeito. O mais interessante foi a forma utilizada pelo médico para “curar” a estes: o objetivo era justamente atacar onde estivesse “a perfeição moral dessa pessoa”!

Em um ano e meio, Simão Bacamarte obteve total sucesso de sua experiência. Mas isso não foi suficiente para apaziguar sua “alma científica”. Não. Uma nova teoria surgiria:

“Mas deveras estariam eles doidos, e foram curados por mim, ou o que pareceu cura não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro? E cavando por aí abaixo, eis o resultado a que chegou: os cérebros bem organizados que ele acabava de curar, eram desequilibrados como os outros. Sim, dizia ele consigo, eu não posso ter a pretensão de haver-lhes incutido um sentimento ou uma faculdade nova; uma e outra coisa existiam no estado latente, mas existiam.”

No entanto, ao concluir que em Itaguaí não haveria sequer um “mentecapto”, Simão Bacamarte entra em um novo dilema moral que só se solucionaria ao entender que achava em si as características do perfeito equilíbrio mental e moral. Sendo assim, seria o “alienista” o único “alienado” de toda a cidade, o que o levou a internar-se a si mesmo na “Casa Verde”.

Análise

Posso estar errado, mas percebo que havia no final do século XIX um certo encanto pela ciência e a razão, provavelmente advindo das ideias iluministas, que fazia as pessoas acreditarem que ainda criar-se-ia uma medicação, ou uma solução que pusesse fim aos principais males da humanidade. Esta ideia está presente em “Memórias Póstumas”, com o “Emplastro Brás Cubas” e está presente em “O Alienista”, como percebe-se no texto que se segue:

“O principal, nesta minha obra da Casa Verde, é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa dos fenômenos e o remédio universal”.

Podemos ver essa ideia presente na ciência da época. Sigmund Freud ao criar a psicanálise tinha ideias semelhantes. Tanto que na época pensou-se ser a cocaína, uma grande medicação em combate à depressão e estados melancólicos. O próprio Freud submeteu-se a uma cirurgia nasal que suspostamente tratava “neurose nasal reflexa”, com Wilhelm Fliess, acreditando que isso o deixaria “imune” a tal acometimento.

O objetivo de Machado de Assis, em “O Alienista”, não é analisar a “loucura” em si, mas através desta fazer uma análise crítica ao papel e à crescente importância que a ciência teria adquirido nesta época. Não que o livro seja contrário à ciência, muito menos às suas técnicas. Mas o que ele ilustra é justamente a possível “loucura” que uma “ditadura” da ciência pode levar. Segundo Gomes, R.*, o que interessa a Machado é “a grande loucura cientificista e positivista, que implica na busca dos limites entre razão e desrazão” e ainda “Aquilo de que se fala, portanto, é deste saber que, pretendendo esgotar – de forma objetiva e rigorosa – o conhecimento a respeito da mente humana, apoia-se numa pretensão de conhecimento total do mundo e, portanto, se destina ao fracasso.

“Por isso me esforcei para compreender a sabedoria, bem como a loucura e a insensatez, mas aprendi que isso também é correr atrás do vento.” Eclesiastes 1.17

Além disso, como colocamos na introdução desta resenha, o grande objetivo para nós passa a ser a fatídica pergunta: “o que é loucura, afinal?”. Considerem o alienista: médico com formação e reconhecimento em Portugal e Espanha, um homem dedicado à ciência e extremamente rigoroso com seu método, tem que mudar seu conceito e entendimento da loucura por diversas vezes para satisfazer seu conhecimento. Claro que falamos de um texto fictício, quase uma paródia. Mas o limite entre a normalidade e a insanidade é uma questão complexa mesmo para a psiquiatria atual. Da mesma forma, a Bíblia trabalha esse conceito ao comparar a fé à sabedoria do mundo, que à época de Paulo alcançava alto patamar com a razão e a filosofia grega e o helenismo. Para estes (os estudiosos gregos), crer na morte e ressurreição do filho de Deus só poderia ser uma loucura.

Não tenho a pretensão neste texto de chegar a uma resposta à pergunta citada acima. Não, isso seria cair no erro do alienista. Deixo tal embate para a própria ciência a qual sou apaixonado: a psiquiatria. No entanto, posso formular algumas assertivas: É loucura crer ignorando a razão. Mas loucura ainda maior é crer que a razão tudo pode discernir. Pois afinal, “quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo”?

“Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente…Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo.” 1Co 2.14,16

“Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana, agradou a Deus salvar aqueles que crêem por meio da loucura da pregação.” 1Co 1.21

*Gomes, R., autor de “O Alienista, loucura, poder e ciência”, artigo publicado em Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 5 (1-2):145-160, 1993 (editado em nov. 1994) e disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ts/v5n1-2/0103-2070-ts-05-02-0145.pdf

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Conto: “A Descoberta” de Anton Tchekhov

Ciscando num monte de esterco, o galo encontrou uma pérola…” Da fábula O galo e a pérola, de Krylov (1769-1849), prefácio do conto “A descoberta” de Tchékhov, descrito abaixo. 

Essa semana, decidi trazer para nossa análise com enfoque cristão, um conto de Anton Tchekhov (1860-1904). Este escritor russo, que também era médico e dramaturgo, é tido como um dos maiores contistas da história. O conto escolhido é “A descoberta”. Anton Tchékhov tem centenas de contos, e esse não é um dos mais famosos. Aqui no Brasil, podemos encontrá-lo pela editora L&PM POCKET na coletânea: “Um negócio fracassado e outros contos de humor”, com tradução do russo de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares. Além disso, a Editora Livro falante, tem o audiobook “Contos de Tchekhov”, que inclui o conto em questão, e apresenta tradução de Tatiana Belynki.

contos de tchekhov

À esquerda na imagem: Livro “Um negócio fracassado e outros contos de humor” de Anton Tchekhov, com tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares, Editora L&PM Pocket 2011. À direita: Audiobook “Contos de Tchékhov” da Editora Livro Falante, com tradução de Tatiana Belinky, disponível em www.livrofalante.com.br .

Quem puder, leia o conto, não demora mais de 10 minutos. Você encontra o ebook do livro acima em qualquer livraria virtual com valor em torno de R$7,00. Ou pode comprar o audiobook para ouvir o conto.

A história tem como protagonista o engenheiro Bakhromin, um homem importante e rico da sociedade, que ocupava o cargo de conselheiro de estado. Tchékhov inicia o conto descrevendo o engenheiro sentado em sua escrivaninha, melancólico, pensando num encontro que tivera algumas horas antes com uma mulher que ele teria sido apaixonado na sua juventude (o engenheiro conta agora com 52 anos). Segundo sua descrição, a mulher teria perdido toda a beleza da juventude, e agora era “uma velha seca, faladeira, de olhos azedos e dentes amarelados”. Em uma espontaneidade e realidade que lembram muito os romances machadianos ele fala:

“Nenhuma força maléfica é capaz de escarnecer de uma pessoa tanto quanto a natureza. Se, naquela época, a beldade soubesse que iria se transformar nessa coisa insignificante, ela teria morrido de pavor.

Nesse pensamento melancólico, Bakhromin começa a fazer alguns desenhos em um papel. De repente, ele percebe que os desenhos que vem fazendo são muito bons! E ele repete os desenhos, e eles continuam muito bons, e começa então a desenhar diversas coisas, ficando extasiado com o novo talento que descobrira em si. Essa é “a descoberta” do conto.

Bakhromin, segundo o próprio, nunca tinha percebido nenhum talento de verdade em si. E agora, aos 52 anos, ao fazer desenhos tão belos, percebe que tem grande talento para as artes. Isso o deixa em verdadeiro êxtase. Como não teria percebido esse dom antes?

“E se eu tivesse descoberto quando era jovem que tinha talento, enquanto era tempo, e tivesse me tornado um pintor ou um poeta? Hein? E na sua imaginação, descortinou-se uma vida diferente de milhões de outras vidas. Seria impossível compará-la com a vida de pessoas comuns.”

Nesse momento então, o rico engenheiro começa a se deleitar em seus pensamentos, em como seria sua vida se tivesse se tornado um artista. Enquanto correm esses pensamentos, o criado lhe traz a ceia, com uma bebida e logo em seguida o auxilia e prepara sua cama para se deitar. Ele pensa na fama, e na glória duradoura se fosse um artista renomado, bem diferente do que poderia alcançar como engenheiro e funcionário público:

“E a glória, e a fama? Por mais largos que sejam meus passos,…, meu nome não irá mais longe do que os limites de um formigueiro. Com eles já é completamente diferente.”

“É, uma vida fora do comum. Um dia as estradas de ferro serão esquecidas, mas Fídias e Homero serão sempre lembrados. Trediakóvski, ruinzinho como é, e mesmo dele lembram-se.”

De repente, Bakhromin começa a imaginar-se como artista, naquele exato momento. Os artistas, em geral, não têm criados, não têm carruagens, não têm camas tão confortáveis como aquela em que o criado estava lhe ajudando a se deitar. Não têm muito dinheiro, não têm talão de cheques. “O nome é homenageado, mas a pessoa é esquecida.” Ele então conclui:

“Ele que vá para o inferno! (o talento). Que vá para o inferno! Que bom que eu não o descobri quando ainda era jovem!

Esse conto de Tchékhov, por meio de uma situação absurda e cômica, nos traz o real desafio daqueles que optam por desenvolver ou trabalhar seus talentos. Quem está disposto a sacrificar certas regalias e a segurança de um trabalho sério e uma boa colocação na sociedade para alcançar alguma glória mais duradoura?

É claro que o pensamento de Tchékhov no texto está centrado em glórias humanas, por isso ele faz questão de citar um grande escultor e um grande poeta da Antiguidade (Fídeas e Homero, respectivamente), que tem seus nomes até hoje aclamados. Mas esse texto, imediatamente me faz refletir e extrapolar isso para o lado cristão. Quem pode abrir mão do seu conforto, do seu dinheiro e de seu status na sociedade em prol de um galardão, digamos, mais celestial?

Uma das mais famosas parábolas de Jesus é a Parábola dos Talentos, descrita em Mateus, no capítulo 25, a partir do versículo 14. Lembrem-se que “talento” aqui tem sentido monetário, era um grande valor na época. Mas ele pode ser facilmente transposto para o seu sentido em português: é uma ótima metáfora para sua palavra homônima. Como descrito na parábola, o servo que recebeu apenas um talento, teve medo de investi-lo ou desenvolvê-lo para que se tornasse algo melhor. Por conta do medo, ele “enterrou” o talento. No conto, Bakhromin, nas ocupações do dia-a-dia e na busca por uma boa colocação e status na sociedade, deixou seu talento ser enterrado e negou ao mundo, e a si mesmo, quem sabe, um grande artista. Que contribuição temos deixado de dar ao mundo e a nós mesmos? E à posteridade, e à Deus?

Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” Mt.6-19-21

Poesia | Análise – “E agora, José?”

JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Joaquim?
e agora, você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais!
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade (In Poesias – 1942)

Esse é um dos poemas mais conhecidos de Carlos Drummond de Andrade. “José” aqui é usado como uma metonímia para o próprio autor ou para qualquer ser humano. No entanto, ao usar um nome tão comum aos brasileiros, temos a sensação de ser alguém aqui do nosso meio. Não é à toa que usa metáforas e regionalismos como “bicho-do-mato”, tornando essa poesia ainda mais nacional (realmente uma das riquezas da nossa literatura). Mas é claro que o que se trata aqui é algo bem mais universal.

José se encontra em um momento de sua vida que já não tem mais nada. Por certo já não está mais em sua juventude, por isso “a festa acabou”, já não pode beber, não pode fumar. Além disso, já não tem o apoio e a alegria de uma mulher, não tem familiares para se apoiar (“parede nua para se encostar”), não existe saídas (não há porta). Tudo que ele fez até então, agora não lhe serve mais (seus versos, seus protestos, seus amores e até sua zombaria, citados na primeira estrofe). Tudo que ele possui também não lhe adianta, suas riquezas (sua lavra de ouro), seu conhecimento (sua biblioteca), os momentos que realizou alguma coisa (instantes de febre), os momentos de fartura ou de dificuldade (gula e jejum). Encontra-se vulnerável, frágil, percebido por seu “terno de vidro”. Nem a incoerência ou o ódio lhe servem de alguma coisa.

Este homem, ao se ver nessa situação, se pergunta “e agora?”. Não há mais festa. Não pode voltar para Minas, que aqui traz a ideia de sua terra natal, talvez como uma metáfora para sua própria Infância. E assim, neste momento que se encontra, da mesma forma que não é capaz de voltar para a sua infância também não consegue avançar e abraçar a morte, pois é “duro”.

Essa reflexão de Carlos Drummond me traz à tona a mesma reflexão de Albert Camus em seu ensaio “O mito do Sísifo” (assunto que trarei em outro post em breve). José é o “homem-absurdo” descrito por Camus. O homem que vive e se depara de repente com a “absurdidade” (descrevo o termo como cunhado na obra de Camus) da vida. O ensaio de Camus é toda uma reflexão sobre isso, e traz junto a questão se esse homem deve ou não buscar o suicídio, visto que nada tem um sentido de ser. Mas na poesia, para José, suicídio não é uma opção, pois ele continua marchando (marcha pra onde?). Mesmo sozinho, sem apoio, e sem a existência de fé ou religião, representados aqui pela palavra “teogonia”.

Não tenho dúvida de que não existe ser humano consciente que não chegará até essa pergunta, que se tornou até mesmo um ditado popular no Brasil: “E agora, José?”. E nesse momento, quando a pergunta chegar, alguns poderão responder: a fé. Pois a fé traz a esperança. E a esperança dá um sentido para essa absurdidade. Talvez José não concorde. Provavelmente Camus e muitos outros gênios também não. Mas é claro, isso é ter fé. Isso é a loucura da salvação.

“Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo; Pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus.” Rm 5.1-2

Na Primeira Epístola aos Coríntios, no capítulo 13, uns 1900 anos antes de Drummond ou Camus, o apóstolo Paulo já faz uma descrição da absurdidade da vida, sem a fé ou sem possibilidade da vida eterna, veja só:

“Ora, se é corrente pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois, afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, então, Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé; e somos tidos por falsas testemunhas de Deus, porque temos asseverado contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, ao qual ele não ressuscitou, se é certo que os mortos não ressuscitam. Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram. Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.” 1Co 15.12-19

É meus amigos, se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens. Somos todos “José”.

estatua-drummond

Estátua de Carlos Drummond de Andrade na Praia de Copacabana no Rio de Janeiro.

Livro em Mente: “12 anos de escravidão”

livro 12 anos de escravidao

Quando foi lançado o filme “12 anos de escravidão”, me interessei pela história apresentada (com base em todo o alvoroço com relação às premiações e ao próprio Oscar), e decidi que deveria ler o livro antes de assistir ao filme. Isso porque, o livro é um marco na literatura americana, pois trata-se da auto-biografia de Solomon Northup, um negro livre americano, forçosamente tornado escravo durante um período de 12 anos. Isso me chamou muito a atenção, pois antes do lançamento do livro eu não conhecia essa obra e é sabido que poucos negros do tempo da escravidão poderiam escrever seus próprios relatos, seja por falta de oportunidade ou de instrução.

Durante o período de leitura do livro, fiz diversas marcações e gostaria de fazer algumas pontuações aqui neste texto. Já faz quase 1 ano que eu li o livro, portanto ele não está mais tão “fresco” em minha memória, por isso posso me confundir em alguns aspectos. Primeiro devo relatar que o livro é muito mais rico que o filme em explicar as situações vivenciadas por Solomon durante o período em que esteve como escravo, mas isso não tira o mérito do filme de resumir a história e mostrar a realidade de um negro escravo americano no século XIX. Mas uma coisa que eu senti no livro e não percebi no filme, foi justamente a inocência ou o entendimento do personagem com relação a sua situação. Pois o filme nos deixa ver com os nossos olhos o horror e a loucura da escravidão, enquanto que no livro, vemos pelos olhos de Solomon, que, por incrível que pareça, não condena os senhores de escravos, mas condena o sistema a que todos foram submetidos. É claro que ele condena a crueldade e os maus-tratos, e os senhores que são claramente maus, mas em certo aspecto ele deixa a entender que são todos vítimas de um sistema sem sentido que foi passado de geração a geração.

“Não é culpa do proprietário de escravos se ele é cruel; antes, é culpa do sistema no qual ele vive. Ele não consegue se opor à influência do hábito e das relações que o cercam. Ensinado desde a mais tenra idade por tudo o que vê e ouve que a vara foi feita para as costas do escravo, na idade madura não consegue mudar de opinião.”

Isso foi realmente uma das coisas que mais me fez refletir: como um homem que está sob a subordinação forçada de outro pode não condená-lo inteiramente? Isso mostra como nós temos a (in)feliz capacidade de se adaptar. Nós nos adaptamos ao sistema. Isso muitas vezes pode tornar as coisas suportáveis. Mas ao mesmo tempo, pode impedir que mudemos as coisas ao nosso redor. Acho que essa acabou sendo a grande questão para Solomon: não começar a acreditar que aquilo tudo era natural e que não havia meios de mudar sua condição, apesar de todas as tentativas frustradas que tivera até a sua libertação.

“Além disso, de ter uma inteligência igual à de pelo menos muitos homens de pele mais clara, eu era ignorante demais, talvez independente demais, para entender como alguém poderia se contentar em viver na condição abjeta de escravo.”

Ironicamente, Salomon Northup que era um homem livre no estado de Nova York foi sequestrado e acorrentado enquanto fazia uma viagem a Washington, a capital americana. No livro ele descreve essa ironia, a de que no próprio lugar em que era torturado podia avistar o Capitólio, o centro legislativo de sua nação:

“As vozes de representantes patrióticos enchendo a boca para falar de liberdade e igualdade e o clangor das correntes dos pobres escravos quase se mesclavam. Uma casa de escravos sob a sombra do Capitólio!”

“Então passamos, algemados e em silêncio, pelas ruas de Washington, atravessando a capital de uma nação cuja teoria de governo, dizem, repousa sobre a fundação do direito inalienável de qualquer homem à vida, à LIBERDADE e à busca da felicidade! Ave! Colúmbia, que terra feliz de fato!”

Sobre a crueldade dos homens que o açoitavam ele diz:

“Um homem com uma centelha de misericórdia na alma não espancaria nem mesmo um cachorro dessa forma cruel.”

Em determinado momento, Solomon passa a ser escravo de William Ford um pastor batista e é justamente com relação a ele que Solomon parece demonstrar até afeição. Em determinado momento ele faz uma análise psicológica dessa pessoa, brilhantemente escrita no texto abaixo. Análise esta que, acredito, pode ser estendida a muitos outros cristãos:

“… e nada mais faço senão justiça quando digo que, em minha opinião, nunca houve um cristão mais gentil, nobre, cândido do que William Ford. As influências e relações que sempre o cercaram o cegaram para o erro fundamental que está na base do sistema de escravidão. Ele nunca questionou o direito moral de um homem fazer de outro homem seu escravo. Olhando através das mesmas lentes que seu pai antes dele, via as coisas na mesma luz. Crescido em circunstâncias diferentes e sob outras influências, suas ideias sem dúvida teriam sido outras.”

Ainda que seja possivelmente uma verdade, é impressionante que um escravo tenha tal entedimento de seu senhor.

Em determinadas partes do livro, o terror vivido por Solomon é tão grande que podemos fazer um paralelismo com o livro de Jó. Veja a semelhança entre os textos:

“Por que eu não havia morrido em meus primeiros anos – antes que Deus me desse filhos para amar e pelos quais viver?”

“Por que não morri ao nascer, e não pereci quando saí do ventre? Por que houve joelhos para me receberem e seios para me amamentarem?” Trecho do livro de Jó 3.11-12

Há diversos personagens detalhados no livro com histórias impressionantes também. E é impressionante a tristeza que os cerca. Solomon teve sucesso em descrever como a escravidão é capaz de podar e destruir talentos, e como são moldados e destruídos por esse sistema vil. É o caso de Eliza e o caso de Patsey (personagem que deu o Oscar de atriz codjuvante a Lupita Nyong´o). Veja como ele a descreve:

“Havia algo de imponente em seus movimentos, que nem o trabalho pesado nem a exaustão nem a punição conseguiam destruir. Na verdade, ela era um animal esplêndido, e, se a escravidão não houvesse amortalhado seu intelecto em uma escuridão absoluta e permanente, seria líder de seu povo.”

Posteriormente ele diz:

“Ainda assim uma luz fraca jogava seus raios sobre seu intelecto, de forma que não era totalmente obscurecido. Patsey tinha alguma percepção de Deus e da eternidade, e uma percepção menor de um Salvador que morrera por causa até mesmo de pessoas como ela.”

A relação dos escravos com a religião e a forma como muitas vezes os senhores a utilizam como justificativa para seus atos é bem demonstrada no livro e no filme. Ainda assim, percebe-se claramente que Solomon tem boa parte da sua esperança de redenção apoiado na sua fé. Mostra-se isso na sua oração, nos seus cânticos, e também na sua crença de que justiça seria feita à tanta maldade:

“…sim, ele nos deixaria a todos mais quentes do que o reino de chamas no qual às vezes tendo a acreditar que ele próprio algum dia morará.”

“… um tribunal humano permitiu que ele escapasse; mas há outro tribunal, e mais alto, onde o falso testemunho não triunfa e onde estou disposto, pelo menos no que diz respeito a essas declarações, a ser enfim julgado.”

Ao final, ele dá uma impressionante conclusão:

“Não tenho comentários a fazer sobre o tema da Escravidão. Quem ler este livro poderá formar sua própria opinião sobre essa “peculiar instituição”...Isto não é uma ficção, nenhum exagero. Se falhei em algo, foi ao apresentar ao leitor de forma exagerada o lado positivo de tudo.”

Pois bem, vale a pena ler o livro “12 anos de escravidão”, mesmo aqueles que já viram o filme, ganhador do Oscar de 2013, pois é interessante perceber as diferenças e fazer essa análise de tudo, através dos olhos de um homem que vivenciou tal horror. É impressionante percebermos que o único animal racional deste planeta, seja capaz de tal feito com outro de sua própria espécie. E o mais importante, que possamos entender a partir disso os nossos dias atuais, e não nos deixemos cegar pelo sistema, como aconteceu a Willian Ford, mas que estejamos sempre atentos ao sofrimento e contrários à crueldade ao nosso redor.

12 anos

Ps: Para aqueles que se confundiram ou se escandalizaram com o texto bíblico utilizado no filme pelos senhores de escravos para justificar os açoites aos escravos (Lucas 12), primeiramente, o texto traz uma descrição da realidade da época, justamente para fazer uma comparação na parábola, segundo, não serve de base para justificar a escravidão ou o açoite. Se nos lembrarmos bem, a escravidão vigorava durante o início do período cristão, e era algo normal, mas o apóstolo Paulo, com a carta de Filemon, nos deixa bem claro qual deve ser a nova postura do cristão diante desta prática, ao recomendar que Filemon receba o ex-escravo foragido, agora como um irmão, assim como ele próprio o considerava:

“Talvez ele tenha sido separado de você por algum tempo, para que você o tivesse de volta para sempre, não mais como escravo, mas, acima de escravo, como irmão amado. Para mim ele é um irmão muito amado, e ainda mais para você, tanto como pessoa quanto como cristão“. Fm 1.15-16

Há muitas recomendações para servos e senhores na Bíblia. Mas em nenhuma delas se vê base para suportar um sistema de depreciação e degradação humana (Ef 6; Cl 3 e 4 entre outras).

Literatura em Mente: Conto “Viver!”, de Machado de Assis

“Os homens têm tal apego à própria miserável vida que aceitam as mais duras condições para conservá-la.” – Montaigne

Machado de Assis provavelmente é o maior nome da literatura nacional. Escritor de enorme reconhecimento, fundador da Academia Brasileira de Letras, escreveu clássicos da literatura nacional como Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Infelizmente, tenho a impressão que, ou por erro nosso, ou infelicidade da nossa querida língua portuguesa, Machado não tem o reconhecimento internacional que merece (e, não fosse pelas leituras obrigatórias de vestibular, talvez não tivesse o nacional também). No entanto, especialmente este ano de 2015 em que o Salão do Livro de Paris escolheu homenagear a literatura brasileira, Machado parece estar ganhando mais espaço internacional.

Apesar de ser um dos mais famosos romancistas brasileiros, alguns críticos defendem que é como contista que Machado atinge seu ápice artístico. E entre os diversos contos escritos por ele, separo especialmente o conto “Viver!” para uma breve discussão. Se você ainda não leu este conto, aconselho que o faça. Tomará no máximo uns 10 a 15 minutos, quando muito. Este conto faz parte da coletânea Várias Histórias, publicada em 1896 e pode ser facilmente encontrado na internet (a obra de Machado já se encontra em domínio público, então pode baixá-la sem peso na consciência).

machado e varias historias

Machado de Assis e seu livro “Várias Histórias”, de 1896, onde se encontra o conto “Viver!”, citado no texto

“Viver!” é o relato de um diálogo de Ahasverus, o último homem vivo, no fim dos tempos, com Prometeu, aquele que na mitologia grega teria dado o fogo da vida para os homens. Machado escolhe Ahasverus como o último homem tendo como base a lenda do “Judeu Errante”. Isso é uma história, realmente uma lenda, de origem medieval, na qual um homem judeu, vivendo em Jerusalém à época da crucificação de Cristo, teria sido cruel com este durante a sua via crucis. Como consequencia à sua instigância para que Jesus continuasse a caminhar, ele foi condenado a caminhar até o fim dos tempos, ou seja, não morreria até lá.

“Chego à cláusula dos tempos; este é o limiar da eternidade. A terra está deserta; nenhum outro homem respira o ar da vida. Sou o último; posso morrer. Morrer! Deliciosa idéia! Séculos de séculos vivi, cansado, mortificado, andando sempre, mas ei-los que acabam e vou morrer com eles.”

Como podemos ver, Ahasverus não tem uma visão otimista da vida, claro, e vê na morte o fim de um milenar sofrimento. Em geral, esta é a visão dos escritores realistas sobre a vida e a morte e Machado descreve isso muito bem em sua obra. Ao encontrar-se com Prometeu, Ahasverus continua a descrever a “alegria” de finalmente ter a possibilidade de pôr fim a tanto martírio.

O diálogo dos dois realmente é muito interessante, sendo realmente a riqueza do conto. E Prometeu passa a contra argumentá-lo até que lhe faz uma oferta de continuar a vida e ser o começo de uma nova criação. A ideia, que parecia inicialmente ridícula ao humano, passa, a consumi-lo de forma que, de repente, já está completamente vislumbrado com ela. E mesmo um homem que viveu milênios, passa a se apegar a sua centelha de vida como uma criança que busca o fôlego ao nascer. Ao final do conto, duas águias que circulavam à visão de Ahasverus travam um último diálogo, ao olhar para o homem, dando a entender que tudo aquilo não passava de um delírio de um homem morimbundo, que odiava tanto a vida, justamente porque a amava muito.

“Uma águia. — Ai, ai, ai deste último homem, está morrendo e ainda sonha com a vida. A outra. — Nem ele a odiou tanto, senão porque a amava muito.”

A citação de Montaigne no início do texto, se encaixa muito bem com a moral de “Viver!”. Não existe ser humano que não nasça com essa “sede” de viver!, assim mesmo, com exclamação. E não há homem que não sofra com a possibilidade do fim de sua existência.

Jesus Cristo sabia disso, e não foi à toa que ele chorou à porta da sepultura de Lázaro, entendendo a situação humana, e o ressuscitou, dando esperança a todos nós. Ao morrer não era o fim da existência de Lázaro e Jesus pode provar isso mostrando que é Senhor sobre os céus e sobre a terra, e tem poder para trazer, manter ou salvar toda alma e espírito humano.

Todo homem tem sede de viver, e esse sentimento só pode ser saciado em Cristo Jesus.

“… Eu vim para que tenham vida e a tenham com abundância.” Jo 10.10b
“Aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna.” Jo 4.14