Séries em Mente – Black Mirror, S01Ep02 – Fifiteen Million Merits

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Contém spoilers do Episódio 2 da Primeira Temporada de “Black Mirror”.

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Há algum tempo não poderia imaginar que chegaria o momento em que discutiria sobre um episódio de série aqui no site. Isso porque até há algum tempo, série era entretenimento popular, voltado para a TV. No entanto, nos últimos anos estamos assistindo a um crescimento e proliferação de diversas séries muito bem produzidas, com episódios que se comparam às produções cinematográficas. Além disso, serviços de streaming como o Netflix, desvincularam a existência da série à programação de TV, tornando-as histórias com possibilidades infinitas a serem contadas em episódios.

Assistindo recentemente à série Black Mirror, que é produzida pela Netflix, me deparei com um episódio simplesmente sensacional e que me trouxe diversas reflexões. Estou falando do episódio 2 da Primeira Temporada, chamado “Fifteen Million Merits”. Estou até agora impressionado pela qualidade da produção, incluindo as atuações, o cenário, a música. É realmente um filme, com uma duração um pouco menor.

Black Mirror é uma série de antologia, pois cada episódio conta uma história diferente e independente dos outros. No entanto, existe entre eles uma premissa de questionamento moral e da relação da humanidade com as novas tecnologias. O “espelho negro” do título faz referência à todas às telas que se tornaram tão comuns ao nosso redor: nas mesas, nas paredes, na palma das mãos: tablets, smartphones, monitores, televisores. Charlie Brooker, criador da série afirma que seu objetivo é trabalhar neste espaço, entre “a apreciação e o desconforto” relacionado às novas tecnologias: “se a tecnologia é como uma droga, quais são exatamente seus efeitos colaterais?”.

Até o momento só assisti aos 2 primeiros episódios. O primeiro apesar de um ótimo e original questionamento moral, não me chamou tanto a atenção quanto o segundo. “Fifteen Milion Merits” se passa em futuro distópico, no estilo “1984” de George Orwell. Nele, acompanhamos Bing, interpretado por Daniel Kaluuya, um cidadão que pertence à uma classe trabalhadora, cuja função é pedalar diariamente em bicicletas capazes de gerar energia para tudo ao redor. Esse conceito já é fantástico, pois existe energia mais limpa que a gerada pelo próprio humano? Além de limpa, garantiria corpos saudáveis e atléticos. O que, automaticamente, gera uma diferença de classes de pessoas que não seriam capazes de pedalar, em geral obesos, que irão cuidar da limpeza ou irão ser alvos de programas de humor físico, no estilo “vídeo-cassetadas”. Esses “bikers”, como Bing, vivem cercados de telas que lhes garantem entretenimento a todo o tempo, mas também, repletas de propagandas, individualmente selecionadas. Bing, desde o início, mostra como esse mundo de “pedalar sem sair do lugar”, o levou a uma apatia intensa e infelicidade. Bing é acordado por um sistema automatizado e tem que fazer as mesmas coisas, para poder viver o mesmo entretenimento, diariamente, num mundo onde nada é realmente real senão a maçã artificial que tende a emperrar na máquina que lhe oferece o almoço.

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Todo esse marasmo será sacudido no momento em que surge uma nova ciclista, por quem Bing irá se apaixonar. Isso irá tirá-lo momentaneamente do seu mundo infeliz, ao perceber que algo real poderia acontecer. No entanto, a sociedade volta a frustrar Bing ao cooptarem a moça com uma proposta indecente que irá afastá-los. Dessa forma, ele “explode” e passa a ter um único objetivo: ganhar dinheiro para ir à frente de todos no concurso à la “American Idol” e expor todo o absurdo da sociedade em que vive.

E de fato isso acontece. Em uma atuação magistral do ator, ficamos pasmos quando por cerca de 2 minutos ele expõe toda a fraqueza da sociedade em que vive. Mas o que vem depois, nos deixa ainda mais pasmos: uma sociedade tão anestesiada, que até mesmo a crítica tem que ser “empacotada” e colocada na grade de programação. E isso é tão atual! Criticar se tornou um dos maiores entretenimentos da população, basta ver a maioria das redes sociais.

Em nossa sociedade estamos vivendo justamente assim: enjaulados pela tecnologia, escravos de trabalhos sem perspectiva, em que pedalamos, pedalamos, sem sair do lugar, cujo único objetivo é juntar dinheiro para o nosso consumo de mais telas e entretenimento. E os sentimentos gerados por esse ciclo vicioso são igualmente empacotados, não utilizados para quebrar a estrutura tão rígida em que estamos aprisionados.

Alguns estão tão moldados a esse sistema, que nem percebem mais. Somente aceitam tudo que lhes é empurrado, e com tantas opções, fica cada vez mais fácil ser atraído por um entretenimento espúrio (nem que seja criticar o entretenimento). Estão tão moldados e conformados que, se conseguissem enxergar a si mesmos seriam paródias de si. Mas com tantos olhos para tantas telas, não há olhos para enxergar a si mesmo. E mantém-se neste ciclo, gargalhando em um mar de infelicidade. Até o dia em que afunda-se de vez.

“Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos.” Is. 59.10

“ E não se conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” Rm 12.2

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