Artigo | A Frustrante Eternidade de Obras e Nomes

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“A Torre de Babel” (Tour de Babel), de Lucas Van Valckenborch, de 1594, atualmente expostas no Museu do Louvre, Paris.

“Vamos construir uma cidade, com uma torre que alcance os céus. Assim nosso nome será famoso e não seremos espalhados pela face da terra”. Gn 11.4

O que farei para ser lembrado? O que deixarei para a posteridade? Como eternizar a minha passagem pelo mundo? Questões como essas, com certeza afligem a maioria dos seres humanos. A verdade é que é doloroso para todos lidar com a sua finitude e, ser lembrado pelas gerações futuras passa ser uma forma de “se eternizar”. Mas ao que me parece, como cristãos aprendemos a cada dia que “se eternizar” não deveria ter outro caminho que não pela esperança em Jesus. Mesmo assim, nos deparamos todos os dias com medidas “desesperadas” para marcar sua presença no mundo.

Templos faraônicos. Prédios suntuosos. A necessidade de se criar sua própria Igreja, com seu próprio nome. Todos os dias vemos nomes se destacarem na mídia, não necessariamente de forma positiva. Na época da integração digital, todos são anônimos, mas a qualquer momento, apenas uma frase polêmica, ou um tweet de menos de 140 caracteres, podem torná-lo famoso. Nem que por alguns minutos. Não à toa, a famosa frase de Andy Warhol, “no futuro, todos terão seus 15 minutos de fama”.

No entanto, não pense ser isso um problema de nossos tempos. Não. A própria Bíblia, ainda em Gênesis, cita a construção da Torre de Babel, como uma forma dos homens de sua época “alcançarem o céu”, e se tornarem grandes para a posteridade. As primeiras civilizações já tinham a necessidade de marcar seus feitos através de obras, estátuas, templos e mausoléus. Aliás, avaliemos as Maravilhas do Mundo Antigo: duas delas nada mais eram que túmulos (a pirâmide de Quéops e o Mausoléu de Halicarnasso), duas eram estátuas de deuses (A estátua de Zeus, o Colosso de Rhodes), uma era um templo (Templo de Ártemis ou Diana), uma era um Jardim (Jardins Suspensos da Babilônia) e a última um Farol (Farol de Alexandria), talvez a única que realmente tivesse alguma serventia.

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Mapa de localização das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Perceba como a lista se limitava praticamente a região dominada pela cultura grega.

O Templo de Ártemis ou Diana dos Efésios (uma das sete maravilhas) era bem conhecido do Apóstolo Paulo. Afinal por conta dele, houve certa rebelião contra o apóstolo e seus seguidores em Éfeso. Imagino que ele fazia parte da paisagem diária avistada por Paulo durante o período relativamente longo que habitou por lá. E pelo fato de a nova Doutrina apresentada por Paulo ser algo que “desprezava” tanto a Diana quanto o seu templo, esses se revoltaram:

“… E estais vendo e ouvindo que não só em Éfeso, mas em quase toda a Ásia, este Paulo tem persuadido e desencaminhado muita gente, afirmando não serem deuses os que são feitos por mãos humanas.

Não somente há o perigo de a nossa profissão cair em descrédito, como também o de o próprio templo da grande deusa, Diana, ser estimado em nada, e ser mesmo destruída a majestade daquela que toda a Ásia e o mundo adoram.At 19.26-27

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Modelo do Templo de Ártemis (ou Diana dos Efésios), presente no Museu de Miniaturas Miniaturk, em Istambul, na Turquia.

Imaginem só se o templo de Diana fosse “estimado em nada”. Éfeso seria só mais uma cidade entre tantas e por nada seria lembrada. Aliás essa “fixação” por serem lembrados parecia ser algo bem típico do povo de Éfeso, pois quase 400 anos antes de Paulo, um cidadão chamado Heróstrato foi o responsável por incendiar o tão querido templo de Ártemis (ou Diana), justamente com o objetivo de ser lembrado pela posteridade. Está aí. Heróstrato é o nome dele, ainda lembrado 2300 anos depois. Mas será que valeu a pena ser lembrado por esse ato?

Fernando Pessoa tenta responder a essa pergunta em uma de suas obras: “Heróstrato e a busca da Imortalidade”. No entanto, seu objetivo é mais avaliar a “imortalidade” de uma obra, chegando a conclusão de não ser possível saber quem ficará para a história, sendo o ideal, como afirma, “uma epopeia que resistisse como Milton e interessasse como Conan Doyle). Em outro texto “As Condições do Prestígio”, Pessoa escreve:

“Descreveu Carlyle a humanidade como sendo um vaso cheio de cobras, cada uma d’elas tentando erguer a cabeça acima das de todas as outras.

Não vale a pena a fama a qualquer preço. Não vale a pena tomar qualquer atitude para ser famoso, mas vou mais além, não vale a pena também tomar atitudes boas esperando, com essas, atingir alguma fama. Com certeza hoje temos registrado e falamos muito de toda uma galeria de heróis da fé, como Paulo, Estevão, Abraão, Moisés. Mas com certeza há muitos outros que jamais saberemos os nomes (não nessa existência), que por amor a Deus sofreram perseguições, foram torturados, mutilados e mortos. Muitos que na história da humanidade, nada mais são que seres anônimos, que nunca terão seus nomes nos livros de história, que nunca terão suas canções entoadas, ou nunca terão suas mortes choradas. Mas se lhes perguntassem, com certeza diriam: O que é a glória humana, comparada a esplendorosa glória de Deus? Poderia eu trocar uma pela outra? Acho que não.

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie.Epístola do Apóstolo São Paulo aos Efésios, capítulo 2, versículos 8 e 9.

Cinema / Poesia | “Para sempre Alice” e “A arte de Perder”

“Somos aquilo que lembramos, e também aquilo que resolvemos esquecer”.

Ivan Izquierdo.  Médico e neurocientista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), referência mundial em fisiologia da memória.

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Assisti recentemente ao filme Still Alice (“Para Sempre Alice”), de 2014. Dirigido por Richard Glatzer (falecido recentemente em decorrência de Esclerose Lateral Amiotrófica) e Wash Westmoreland, o filme conta com atores de peso como Julianne Moore no papel principal, Alec Baldwin, Kristen Stewart e Kate Bosworth. Mas o filme é de uma pessoa só: Julianne Moore domina a tela no papel de Alice, e não é à toa que recebeu diversas premiações por essa atuação, incluindo o Oscar e o Globo de Ouro.

Baseado no livro homônimo, de Lisa Genova, o filme conta a história de Alice, uma neurolinguista, professora universitária, que começa a apresentar déficits de memória, decorrentes da manifestação de um Alzheimer precoce. Por certo muitas pessoas têm contato com parentes, pais ou avós com Mal de Alzheimer, mas esse caso específico é um pouco diferente. Trata-se de uma forma rara da doença, que atinge pessoas mais jovens e cuja evolução é inexorável, ou seja, se você tem o gene, você irá manifestar a doença, e ainda pode transmiti-lo a seus descendentes.

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Livro “Still Alice” de Lisa Genova, que deu origem ao filme. A metáfora da borboleta é algo bem presente, fazendo contraponto ao sentimento de aprisionamento da personagem principal.

A parte médica descrita no livro e no filme, é impecável. Os dados sobre a doença, os métodos de avaliação utilizados, todos esses são bem fiéis à realidade. Aliás, esse para mim é o grande mérito do filme: ser bem fiel à realidade, isto é, ele não idealiza, não mascara, não romantiza, mas mostra cada personagem com suas qualidades e seus defeitos e a realidade da doença como ela é.

No entanto, a grande questão do filme, não é abordar a doença em si, mas sim as mudanças biopsicossociais sofridas com a pessoa e com a família da pessoa que sofre com uma doença neurodegenerativa (talvez a escolha do diretor tenha relação com sua própria doença). E como essas mudanças bio-psíquicas-e-sociais fazem o paciente se afastar cada vez mais da pessoa que ela é. Fazem ela se perder. O grande objetivo do filme é falar sobre o “perder”. Por isso mesmo, creio que a tradução do título para o português não seja a mais adequada. “Still Alice”, no caso, seria melhor traduzido por “Ainda Alice”, já que o seu grande desafio, relatado pela própria, é manter-se conectada à mesma pessoa que ela já foi e que está perdendo, ou seja, continuar sendo “Alice”.

“… Eu sou uma pessoa vivendo no estágio inicial da Doença de Alzheimer, e assim sendo estou aprendendo a arte de perder todos os dias. Perdendo meus modos, perdendo meus objetos, perdendo sono e, acima de tudo, perdendo memórias…

…Tornamo-nos ridículos, incapazes, cômicos. Mas isso não é quem nós somos. Isso é a nossa doença. E como qualquer doença, tem uma causa, uma progressão, e pode ter uma cura…

…Mas por enquanto, eu estou viva. Eu sei que estou viva. Tenho pessoas que amo profundamente, tenho coisas que quero fazer com a minha vida… Estou lutando. Lutando para fazer parte das coisas, para continuar conectada com quem um dia eu fui. Então “viva o momento”, eu digo para mim mesma. É tudo que posso fazer. Viver o momento. E não me culpar tanto por dominar a arte de perder.”

Esse texto faz parte do discurso proferido pela personagem do filme em uma reunião sobre a Doença de Alzheimer. No início do texto ela irá citar um poema de Elizabeth Bishop, que transcrevo aqui abaixo e que se torna a base de todo o seu discurso. Elizabeth Bishop deve ser conhecida do público brasileiro, pois foi uma poeta americana que morou por mais de 20 anos no Brasil, e recentemente foi vivida no cinema no filme de Bruno Barreto, “Flores Raras” (que conta a história dela e sua relação homoafetiva com a personagem da atriz Glória Pires). O poema é bastante famoso nos Estados Unidos, de uma linguagem relativamente simples, com rimas em forma de villanelle (do francês villanesque). Villanelle é uma forma relativamente comum nos poemas de língua inglesa, sendo constituído por 5 tercetos seguidos ao final por 1 quarteto.

 

A arte de perder

 

“A arte de perder não é nenhum mistério;

Tantas coisas contêm em si o acidente

De perdê-las, que perder não é nada sério.

 

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,

A chave perdida, a hora gasta bestamente.

A arte de perder não é nenhum mistério.

 

Depois perca mais rápido, com mais critério:

Lugares, nomes, a escala subseqüente

Da viagem não feita. Nada disso é sério.

 

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero

Lembrar a perda de três casas excelentes.

A arte de perder não é nenhum mistério.

 

Perdi duas cidades lindas. E um império

Que era meu, dois rios, e mais um continente.

Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

 

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo

que eu amo) não muda nada. Pois é evidente

que a arte de perder não chega a ser mistério

por muito que pareça (Escreve!) muito sério. ”

 

Poema de Elisabeth Bishop, Tradução de Paulo Henriques Britto. Citado no filme Still Alice (“Para sempre Alice”) de 2014.

 

O poema mostra um eu-lírico resignado e aparentemente convencido de que nada pode fazer quanto a perda. Por isso ele parece obsessivamente querer se convencer de que isso “não é nada sério”, mesmo com o aumento gradual da importância das coisas que perde. Ao final, com o termo em parênteses “Escreve!”, vemos uma metalinguagem do autor que se utiliza das palavras, da poesia, para tentar amenizar o seu sofrimento.

Tanto o poema, quanto o filme nos comovem muito por tratar de forma tão delicada do tema da perda. Mas, independente se de forma abrupta ou de forma arrastada, como Alice, todos nós perderemos tudo isso. De forma geral, não se nasce com nada, e não se leva. Então tudo que um dia adquirimos, tudo pelo que lutamos, em teoria um dia irá se perder. Não há sentido em se apegar às coisas.

Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei para lá” Jó 1.21

Fica mais doloroso em pensarmos que esta “lei universal” se aplica também a nosso intelecto, às nossas memórias, e a nós mesmos. Por isso, não vale a pena nos apegarmos também ao que somos. Nossos títulos, nosso conhecimento, nossas lembranças. Tudo se perde também. E isso, fora de um contexto cristão, a mim, parece extremamente desesperador.

O apóstolo Paulo, em sua epístola aos Filipenses, parece alertar exatamente quanto a isso. Dentro de um contexto cristão, apegar-se aos seus bens, ou a si mesmo é um grande erro. E ele diz que mesmo ele, que pertencia a uma classe social bastante elevada em sua sociedade, tinha passado por todos os ritos judaicos à risca, tinha estudado e sido ensinado por um dos maiores mestres gregos de seu tempo, Gamaliel, tinha por certo tinha um QI muito acima da média, e ainda tinha de nascença o título de cidadão romano, algo que poucos podiam e que muitos pagavam quantias enormes em dinheiro para conseguir; mesmo ele, veria tudo isso se perder. E por isso, ele já preferia reputar tudo isso em perda por Cristo, sendo este agora seu verdadeiro apego. Porquanto, esquece-se das coisas que estão atrás e olha para o alvo, a fim de conquistar algo perene, que nunca se perderá.

“… Nós que adoramos pelo Espírito de Deus, que nos gloriamos em Cristo Jesus e não temos confiança alguma na carne, embora eu mesmo tivesse razões para ter tal confiança. Se alguém pensa que tem razões para confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado no oitavo dia de vida, pertencente ao povo de Israel, à tribo de Benjamim, verdadeiro hebreu; quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na Lei, irrepreensível.

Mas o que para mim era lucro, passei a considerar como perda, por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar Cristo e ser encontrado nele, não tendo a minha própria justiça que procede da Lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé.

Quero conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte para, de alguma forma, alcançar a ressurreição dentre os mortos. Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus.

Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus.” Filipenses 3.3b-14

 

O texto é claro. E é confortador, especialmente para aqueles que de alguma forma já viram seus familiares se perderem gradualmente dentro de sua mente, esquecendo-se de tudo e de todos. Mas Deus não se esquece. E em Cristo Ele há de reavivar uma nova mente incorruptível e perene, livre de doenças ou da neurodegeneração. Uma nova mente, em Cristo.

“Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista de imortalidade. Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: “Tragada foi a morte na vitória” 1Co 15.53-54

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Artigo | Selma – A verdade está marchando

Truth forever on the scaffold, Wrong forever on the throne,—
Yet that scaffold sways the future, and, behind the dim unknown,
Standeth God within the shadow, keeping watch above his own

“A verdade sempre no cadafalso. O pecado sempre no trono
No entanto, esse estrado balança o futuro, E, atrás deste turvo desconhecido,
Permanece Deus dentro da sombra, Mantendo acima sua vigilância.”

Trecho de “The Present Crisis” (1844), do poeta americano James Russell Lowell, citado por Martin Luther King em seu discurso de 1965 em Montgomery.

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Sem querer polemizar ou entrar a fundo nesse tipo de discussão, adianto antes de tudo minha opinião: Política e religião em geral não devem se misturar. Deixando claro esse meu ponto de vista (e implícito minha opinião sobre a maior parte dos políticos que formam a chamada “bancada evangélica”), reafirmo, a parte em que escrevo “em geral”. Ou seja, há momentos específicos em que a comunidade cristã de um país deve se movimentar. Ou até marchar. Não, não estou me referindo à nossa conhecida “Marcha pra Jesus” (nada contra). Me refiro a marchas de luta por direitos humanos, sociais ou religiosos, como as que aconteceram em Selma, no estado do Alabama em 1965.

Esses eventos ficaram mais famosos recentemente após terem sido contados no filme Selma – Uma Luta pela Igualdade”, de 2014. O filme, dirigido por Ava DuVernay, e estreado por David Oyelowo no papel de “Martin Luther King”, peca um pouco no ritmo, e no excesso de preocupação em ser linear, cronológico e explicativo, que deixam uma boa parte do filme meio “sonolenta”, na minha opinião. Tirando esse fato (e também o fato de escolherem um ator inglês, mas que se esforçou bastante, para interpretar Luther King), o filme é uma boa homenagem a esses corajosos homens que em determinado momento decidiram se mover e lutar por igualdade de direitos, direito ao voto e civilidade.

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Selma – Filme de 2014 dirigido por Ava DuVernay

Não vou me apegar à descrição de todos fatos, e dos detalhes de cada uma das três marchas realizadas em prol desses direitos à população negra americana. Fato é que a primeira pode ser resumida em uma imagem:

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O episódio acima ocorreu em 18 de fevereiro de 1956, e foi chamado de “Domingo Sangrento”. Tropas avançaram com gás lacrimogênio e cassetetes em um grupo de cerca de 550 manifestantes. 17 foram hospitalizados, e diferente de marchas anteriores, nenhum manifestante morreu. No entanto, havia um fator importante diferente nesse caso: a presença de redes televisivas registrando a crueldade. Imagens como a de Amelia Boyton Robinson (abaixo) rodaram o país e o mundo.

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Amelia Boyton Robinson, ferida na primeira Marcha de Selma a Montgomery.

Claro, que isso gerou repercussão, e a partir de então, os manifestantes de Selma, passaram a receber apoio de boa parte do país (inclusive de muitos cidadãos brancos).

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Manifestantes em Nova Iorque apoiam os movimentos de Selma (1965)

Mediante tal situação, o pastor Martin Luther King e os líderes da SCLC (Conferência da Liderança Cristã Sulista), organizam uma segunda marcha, que por motivos de segurança e também pela proibição judicial que havia, foi suspensa pelo Dr. King em cima da ponte Edmund Pettus, após uma breve oração. Nessa mesma noite, um grupo de ministros religiosos brancos que vieram a Selma para participar da marcha, foi atacado por membros do Ku Klux Klan e, dois dias depois, James Reeb, o mais atingido desses, veio a falecer.

Uma semana após, os manifestantes conseguiram finalmente o direito judicial de marchar. E com isso em 21 de março, domingo, iniciaram então a terceira marcha, que concluiu-se após 3 dias na cidade de Montgomery. No dia 25 de março, em frente ao capitólio do estado do Alabama, Martin Luther King realizou mais um de seus discursos memoráveis de título “How long? Not long.” (“Quanto tempo? Não muito”), mas mais conhecido como “Our God is Marching On” (“Nosso Deus está marchando”). Descrevo a tradução de alguns trechos deste discurso abaixo:

“… Eu posso dizer, como a Irmã Pollard disse – uma senhora negra de 70 anos de idade que viveu nessa comunidade durante o boicote do ônibus –  e um dia, ela foi perguntada enquanto andava se ela não queria uma carona. E ela então respondeu, “Não”, a pessoa disse “Bom, você não está cansada?” E com sua profundidade não gramatical, ela disse: “Meus pés estão cansados, mas minha alma repousa”. E em um sentido real, esta tarde, podemos dizer que os nossos pés estão cansados, mas nossas almas repousam….

… Sim, estamos em movimento e nenhuma onda de racismo pode nos parar. Estamos em movimento agora. A queima de nossas igrejas não vai nos deter. O bombardeio de nossas casas não vai dissuadir-nos. Estamos em movimento agora. O espancamento e morte de nossos clérigos e os jovens não vai desviar-nos. Estamos em movimento agora. A liberação desenfreada de seus assassinos conhecidos não iria desencorajar-nos. Estamos em movimento agora. Como uma idéia cujo tempo chegou, nem mesmo a marcha de exércitos poderosos podem nos deter. Estamos nos movendo para a terra da liberdade.

… Eu sei que vocês estão perguntando hoje, “Quanto tempo isso levará?”. Alguém pergunta: “Quanto tempo a visão cega dos homens permanecerá prejudicada, escurecendo seu entendimento e conduzindo a sabedoria de olhos abertos do Seu trono sagrado? Alguém se pergunta “Quando a justiça maculada, jazendo prostrada nas rua de Selma e Birminhgham e todas as comunidades do Sul, será levantada dessa poeira da vergonha que reina suprema entre os filhos dos homens? Alguém se pergunta: “Quando a estrela radiante da esperança imergirá contra o peito noturno desta adorável noite, arrancada de almas cansadas com correntes de medo e algemas da morte? Quanto tempo será crucificada a justiça, e a verdade suportará?

Quanto tempo? Não muito tempo, porque “nenhuma mentira pode viver para sempre”

Quanto tempo? Não muito tempo, porque “você colhe aquilo que você planta”

Quanto tempo? Não muito. * …

Quanto tempo? Não muito tempo, porque o arco do universo moral é longo, mas ele se curva em direção à justiça.

Quanto tempo? Não muito, porque ** …

Sua verdade está marchando.”

* Nesse momento ele cita o  poema de James Russel Lowell ** Nesse momento ele cita o hino “Our God is Marching On”

Esse discurso, não tão famoso como o “I´ve a dream” (“Eu tenho um sonho”), mas tão importante quanto, é recheado de referências externas, incluindo o poema do poeta americano James Russel Lowell, citado no prefácio deste artigo, e alguns corinhos muito famosos, inclusive aqui no Brasil, como “Joshua Fit the Battle of Jericho.” (“Vem com Josué lutar em Jericó”), “Lift Every Voice and Sing” de James Weldon Johnson, um famoso ativista americano negro, do início do século XX, e a incomparável, “Our God is marching on” (Glória, glória, Aleluia, aqui no Brasil).

As marchas de Selma a Montgomery foram um momento crucial da história da luta racial nos Estados Unidos. Após esse evento, muitos cidadãos de todo o país passaram a apoiar a causa, e o posicionamento do presidente Johnson, a favor do direito do voto a estes cidadãos, foi um grande passo para a mudança. Em pouco tempo, o número de cidadãos negros com direito ao voto se multiplicaria. O negro passa a ter representatividade política e, hoje, a nação mais poderosa do mundo, é liderada por um presidente negro, em seu segundo mandato.

Claro que até hoje ainda existem muitos resquícios dessa divisão racial nos Estados Unidos e em outros países também, como o Brasil. Mas é incomparável com os absurdos que já existiram. Fato é que fica marcado na história um momento em que uma comunidade cristã de um grande país se mobilizou para mudar e vencer uma grande injustiça. E essa luta fica como uma vitória de pessoas que entendiam seu lugar na sociedade, e se expuseram por uma causa que valia a pena lutar. Martin Luther King, mesmo não sendo um homem perfeito, ao longo de sua luta, angariou poder político, se sentou com presidentes e foi capaz de influenciá-los. Hoje infelizmente, somos assombrados por cristãos que se sentam com políticos para corromper e serem corrompidos. Não há cristãos marchando pela miséria e pelos injustiçados. Que Deus tenha misericórdia, e que a sociedade nos perdoe quando marchamos pelos motivos errados.

“Lembrai-vos, porém, dos dias anteriores, em que, depois de iluminados, sustentastes grande luta e sofrimentos; ora expostos como em espetáculo, tanto de opróbrio quanto de tribulações, ora tornando-vos co-participantes com aqueles que desse modo foram tratados…

… Com efeito, tendes necessidade de perseverança, para que, havendo feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa. Porque, ainda dentro de pouco tempo, aquele que vem virá e não tardará;Hb 10.32-33, 36-37

Artigo | A metacognição em relacionamento com Deus

Hoje em dia é quase um mantra dizer: “o homem é um animal… Mas, um animal racional”. Mas afinal de contas, o que significa ser um animal racional?

Psicopatologicamente falando a consciência do homem se diferencia das dos animais pela chamada consciência superior, ou, consciência reflexiva (além de uma amplitude maior de consciência básica e de inconsciente). Nela se dão os processos de metacognição: auto-consciência, introspecção, reflexão.

Através da consciência superior é possível dar conta dos próprios processos mentais, e não só percebê-los, mas refletir sobre eles, evitá-los, desejá-los, transformá-los.  Também por meio dessa capacidade, é possível olhar no futuro, onde estará e como será em consequência dos atos, podendo decidir se quer continuar por esse caminho ou, por meio do uso da deliberação e da vontade, seguir caminhos diferentes. De certa forma, isso é o que o provê do assim chamado livre-arbítrio*.

A mim, parece claro que quando a Bíblia diz que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança (Gen 1.26), a consciência superior está exatamente implícita nesta frase. Afinal, não pode se tratar de semelhança física, já que Deus é espírito (Jo 4.24), muito menos da mente de Deus, como um todo, já que, antes ou depois da “Queda”, o homem jamais foi onisciente ou onipotente. A mim, trata-se justamente da capacidade de realizar processos que lhe permitem tomar decisões que realmente transforme seu destino. Deus tomou uma decisão ao criar ao mundo. E avaliou cada passo da criação (ao concluir que cada passo era bom). E decidiu assim tomar outros passos que culminaram naquela que seria a sua “obra-prima”: o homem. Mas para que o homem fosse essa “imagem e semelhança” era necessário dar-lhe exatamente essa consciência que lhe permitiu o livre-arbítrio e a capacidade de tomar decisões e avalia-las como o próprio Deus realizou. A “obra-prima” de Deus é uma criatura que só poderia adorá-lo de livre e espontânea vontade. Por isso, infelizmente, pudemos escolher pelo “pecado”. E cada homem que nasce deve fazer suas escolhas.

A grande questão aqui é exatamente fazer escolhas. E não só fazê-las, mas avaliá-las. E ao avaliá-las tomar novos passos. No entanto, muitos optam por ignorar a sua metacognição. Ou melhor, preferem utilizá-la somente para seus objetivos pequenos ou mundanos. Cansam-se facilmente em refletir sobre sua realidade, sua vida, sua morte, ou sobre o próprio Deus. Adiam as decisões que podem realmente mudar a sua vida. Que grande erro é ignorar exatamente aquilo que nos torna tão diferentes dos animais.

Quanto trabalho sem sentido. Quanto dinheiro acumulado, sem real valor. Quantos prazeres facilmente esquecidos, quanto entretenimento consumindo todo o finito tempo. Para quê? Para quem?

“Louco! Esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” Lc 12.20

Todo dia somos instigados a tomar diversas decisões. Deve-se decidir que horas irá acordar, o que irá comer, o que irá vestir, com que irá se relacionar. Você pode se contentar em tomar decisões como essas com muito mais habilidade que um outro animal. Ou pode optar por mergulhar em sua própria consciência da forma que só um ser humano pode fazer. E, possivelmente, se relacionar com Deus da forma que só um ser humano pode se relacionar.

“Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo.”Ap. 3.20

“Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem.” Jo 4.23

*Fonte: Compêndio de Psiquiatria Clínica do IPQ-USP. 1ª Edição – 2013.

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Literatura | “O Alienista” de Machado de Assis.

“A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.”

Trecho de “O Alienista”

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Essa semana trago a obra “O Alienista” de Machado de Assis para análise e discussão. Acredito que essa obra muito tem a ver com o enfoque deste site, visto que propõe-se a enxergar a loucura de certo ponto de vista, no caso, o da ciência no final do século XIX. A ideia do livro não é, como veremos adiante, discutir sobre a “loucura” em si, mas, na verdade, abordar a “loucura” existente em tentar desvendar a “loucura”.

Isso atinge diretamente a ideologia cristã, pois o que é a loucura afinal, no momento em que a própria “mensagem da cruz é loucura para os que estão no mundo” (1Co1.18), ou ainda que “a sabedoria deste mundo é loucura aos olhos de Deus” (1Co3.19)? Vamos em frente então:

Resumo da história

“O Alienista” de Machado de Assis, é mais um dos clássicos da literatura brasileira. Existe um debate entre os especialistas se seria “O Alienista” um conto ou um romance curto. No entanto, parece haver pequena vantagem para o grupo que o considera um romance devido à sua estrutura narrativa. Foi publicado em 1882, já no auge da carreira de Machado e em sua fase realista, iniciada no ano anterior com a publicação de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.

O livro, que hoje conta com diversas publicações e adaptações, incluindo audiolivros e graphic novels, traz a história de Simão Bacamarte, “filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas” após seu regresso ao Brasil e sua escolha de Itaguaí como cidade.

A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo. Dito isso, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas.”

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O Alienista e suas diversas publicações, incluindo livros, audiolivro e graphic novels

Tudo referente à vida pessoal deste personagem é bastante conciso. Fato é que, a paixão pela ciência e, porque não, os próprios acontecimentos da vida, como a impossibilidade de ter filhos, fizeram-lhe por “mergulhar inteiramente no estudo e na prática da medicina”, e especificamente de seu “recanto psíquico”.

“A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico”.

Dessa forma, Simão Bacamarte decide pela criação de uma casa para “agasalhar e tratar todos os loucos de Itaguaí”. Um hospício. E aqui vemos o início das ironias tipicamente machadianas:

“Começou logo a construir a casa. Era na Rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí naquele tempo; tinha cinqüenta janelas por lado, um pátio no centro, e numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A idéia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII.”

Fato é que a casa foi construída, e aos poucos os “loucos” foram sendo introduzidos à esta. Com o tempo a casa foi-se enchendo de pessoas cada vezes mais consideradas “normais” pela sociedade, de forma que em seu auge, a casa acolheria quatro quintos da população de Itaguaí. Isso gera uma revolta na sociedade, ao passo que o próprio analista com base na “análise científica” percebe que seus métodos não podem estar corretos, liberando os internados. Dessa forma ele entende que os “loucos” não poderiam ser todos aqueles em que havia algum desequilíbrio das faculdades mentais, mas sim, o contrário, aqueles em que esse equilíbrio fosse pleno.

“De fato o alienista oficiara à Câmara expondo: — 1′: que verificara das estatísticas da vila e da Casa Verde que quatro quintos da população estavam aposentados naquele estabelecimento; 2° que esta deslocação de população levara-o a examinar os fundamentos da sua teoria das moléstias cerebrais, teoria que excluía da razão todos os casos em que o equilíbrio das faculdades não fosse perfeito e absoluto; 3° que, desse exame e do fato estatístico, resultara para ele a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto, que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto.

Dessa forma, a “Casa Verde” passa a agregar estes em que o equilíbrio lhe parecera perfeito. O mais interessante foi a forma utilizada pelo médico para “curar” a estes: o objetivo era justamente atacar onde estivesse “a perfeição moral dessa pessoa”!

Em um ano e meio, Simão Bacamarte obteve total sucesso de sua experiência. Mas isso não foi suficiente para apaziguar sua “alma científica”. Não. Uma nova teoria surgiria:

“Mas deveras estariam eles doidos, e foram curados por mim, ou o que pareceu cura não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro? E cavando por aí abaixo, eis o resultado a que chegou: os cérebros bem organizados que ele acabava de curar, eram desequilibrados como os outros. Sim, dizia ele consigo, eu não posso ter a pretensão de haver-lhes incutido um sentimento ou uma faculdade nova; uma e outra coisa existiam no estado latente, mas existiam.”

No entanto, ao concluir que em Itaguaí não haveria sequer um “mentecapto”, Simão Bacamarte entra em um novo dilema moral que só se solucionaria ao entender que achava em si as características do perfeito equilíbrio mental e moral. Sendo assim, seria o “alienista” o único “alienado” de toda a cidade, o que o levou a internar-se a si mesmo na “Casa Verde”.

Análise

Posso estar errado, mas percebo que havia no final do século XIX um certo encanto pela ciência e a razão, provavelmente advindo das ideias iluministas, que fazia as pessoas acreditarem que ainda criar-se-ia uma medicação, ou uma solução que pusesse fim aos principais males da humanidade. Esta ideia está presente em “Memórias Póstumas”, com o “Emplastro Brás Cubas” e está presente em “O Alienista”, como percebe-se no texto que se segue:

“O principal, nesta minha obra da Casa Verde, é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa dos fenômenos e o remédio universal”.

Podemos ver essa ideia presente na ciência da época. Sigmund Freud ao criar a psicanálise tinha ideias semelhantes. Tanto que na época pensou-se ser a cocaína, uma grande medicação em combate à depressão e estados melancólicos. O próprio Freud submeteu-se a uma cirurgia nasal que suspostamente tratava “neurose nasal reflexa”, com Wilhelm Fliess, acreditando que isso o deixaria “imune” a tal acometimento.

O objetivo de Machado de Assis, em “O Alienista”, não é analisar a “loucura” em si, mas através desta fazer uma análise crítica ao papel e à crescente importância que a ciência teria adquirido nesta época. Não que o livro seja contrário à ciência, muito menos às suas técnicas. Mas o que ele ilustra é justamente a possível “loucura” que uma “ditadura” da ciência pode levar. Segundo Gomes, R.*, o que interessa a Machado é “a grande loucura cientificista e positivista, que implica na busca dos limites entre razão e desrazão” e ainda “Aquilo de que se fala, portanto, é deste saber que, pretendendo esgotar – de forma objetiva e rigorosa – o conhecimento a respeito da mente humana, apoia-se numa pretensão de conhecimento total do mundo e, portanto, se destina ao fracasso.

“Por isso me esforcei para compreender a sabedoria, bem como a loucura e a insensatez, mas aprendi que isso também é correr atrás do vento.” Eclesiastes 1.17

Além disso, como colocamos na introdução desta resenha, o grande objetivo para nós passa a ser a fatídica pergunta: “o que é loucura, afinal?”. Considerem o alienista: médico com formação e reconhecimento em Portugal e Espanha, um homem dedicado à ciência e extremamente rigoroso com seu método, tem que mudar seu conceito e entendimento da loucura por diversas vezes para satisfazer seu conhecimento. Claro que falamos de um texto fictício, quase uma paródia. Mas o limite entre a normalidade e a insanidade é uma questão complexa mesmo para a psiquiatria atual. Da mesma forma, a Bíblia trabalha esse conceito ao comparar a fé à sabedoria do mundo, que à época de Paulo alcançava alto patamar com a razão e a filosofia grega e o helenismo. Para estes (os estudiosos gregos), crer na morte e ressurreição do filho de Deus só poderia ser uma loucura.

Não tenho a pretensão neste texto de chegar a uma resposta à pergunta citada acima. Não, isso seria cair no erro do alienista. Deixo tal embate para a própria ciência a qual sou apaixonado: a psiquiatria. No entanto, posso formular algumas assertivas: É loucura crer ignorando a razão. Mas loucura ainda maior é crer que a razão tudo pode discernir. Pois afinal, “quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo”?

“Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente…Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo.” 1Co 2.14,16

“Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana, agradou a Deus salvar aqueles que crêem por meio da loucura da pregação.” 1Co 1.21

*Gomes, R., autor de “O Alienista, loucura, poder e ciência”, artigo publicado em Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 5 (1-2):145-160, 1993 (editado em nov. 1994) e disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ts/v5n1-2/0103-2070-ts-05-02-0145.pdf

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Música: “God is love”, de Marvin Gaye – Um músico entre os extremos

God Is Love |Deus É Amor

Oh don’t go and talk about my father | Oh, não fale mal de meu pai
God is my friend | Deus é meu amigo
Jesus is my friend | Jesus é meu amigo
He made this world for us to live in, and gave us everything | Ele fez esse mundo para nós vivermos, e nos deu tudo
And all he asks of us is we give each other love. | E tudo que ele pediu em troca, foi nós darmos amor para cada um
Oh ya | Oh sim
Don’t go and talk about my father | Oh, não fale mal de meu pai
Cause God is my friend | Porque Deus é meu amigo
Jesus is my friend | Jesus é meu amigo
He loves us whether or not we know it | Ele nos ama independentemente de nós sabermos ou não
Just loves us, oh ya | Ele simplesmente nos ama
And He’ll forgive all our sins | E ele vai perdoar todos nossos pecados
Forgive all our sins | Perdoar todos nossos pecados
And all He asks of us, is we give each other love. | E tudo que ele pediu em troca, foi nós darmos amor para cada um
Oh ya | Oh sim
Love your mother, she bore you | Ame sua mãe, ela lhe deu a luz
Love your father, he works for you | Ame seu pai, ele trabalha pra você
Love your sister, she’s good to you | Ame sua irmã, ela é boa pra você
Love your brother, your brother | Ame seu irmão, ele é seu irmão
Don’t go and talk about my father, He’s good to us, | Oh, não fale mal de meu pai, ele é bom para nós
God is my friend | Deus é meu amigo
Jesus is my friend | Jesus é meu amigo
For when we call in Him for mercy, Mercy Father | Quando você o chamar para pedir clemência
He’ll be merciful, my friend | Ele vai ser misericordioso, meu amigo
Oh, yes He will |Oh sim, ele vai
All he asks of us, I know, is we give each other love, | E tudo que ele pediu em troca, foi nós darmos amor para cada um
Oh ya | Oh sim

A uma primeira vista parece apenas uma música gospel, com mensagem simples e correta, e um título já visto por diversas vezes no cenário musical religioso. E realmente é, e talvez passasse desapercebida não fosse ela escrita e interpretada por Marvin Gaye (com a ajuda de Anna Gordy Gaye, James Nyx e Elgie Stover), em 1971, no auge de sua carreira e em um de seus álbuns mais consagrados: “What´s going on”, album este que angariou a sexta colocação na lista da revista Rolling Stone, dos 500 maiores álbuns de todos os tempos e é tido por alguns como o maior álbum de soul music da história. Repare bem na letra da música acima e depois associe-o aos fatos que se seguem.

whatsgoingon

What´s going on – Álbum de 1971. O mais icônico álbum de Marvin Gaye, foi considerado em 2003 pela Revista Rolling Stone o sexto melhor álbum de todos os tempos.

Marvin Gaye, para aqueles que não conhecem ou nunca ouviram falar (o que eu duvido), é um dos mais famosos cantores de soul e R&B americano, conhecido por músicas que provavelmente você já ouviu por aí como “Let´s get it on“, “Got to give it Up“, “Ain´t no mountain high enough” e “Sexual Healing“. Seu estilo e originalidade até hoje inspiram artistas no mundo inteiro.

O que poucos sabem, especialmente aqui no Brasil, é sobre a sua trágica biografia. E apesar de extremamente triste, muito tem a ver com o tema de nosso site. Marvin Gaye nasceu em Washington D.C., em 1939. Seu pai, Marvin Pentz Gay Sr., era pastor na Igreja evangélica “The House of God”, que tem em seu cerne um pouco de judaísmo ortodoxo e pentecostalismo (me parece próximo à Igreja Adventista do Sétimo Dia, aqui no Brasil). Desde cedo, Marvin Gaye começou a cantar e tocar na Igreja de seu pai, demonstrando grande talento.

A criação de Marvin na sua casa, até onde se sabe, sempre foi muito rígida, e ele costumava apanhar do pai diariamente. Seu envolvimento com a música começou com o doo-woop, e mais tarde viria a ingressar na famosa gravadora Motown, primeiramente como baterista, mas depois veio a demonstrar seu talento com discos-solo. Apesar de diversas desavenças com a gravadora ao longo dos anos, Marvin Gaye conseguiu com o tempo se impor como um artista original e de muito respeito, atingindo seu ápice artístico com o disco citado acima, “What´s going on“.

Na vida pessoal, durante sua carreira como músico, Marvin sempre oscilou entre as drogas e a depressão. E a relação com o pai se já era ruim, tornava-se cada vez pior. No ano de 1983, com a saúde mental muito abalada, Marvin se isola e retorna para a casa dos pais. Por diversas vezes ameaçou cometer suicídio. Em meio às diversas brigas e embates com seu pai, numa manhã, em 1 de abril de 1984, após uma discussão por causa de alguns documentos, seu pai toma um revólver, que havia sido lhe presenteado pelo próprio filho algum tempo antes, e dispara contra ele. Marvin Gaye morre, um dia antes de completar 45 anos.

Essa biografia, de um artista que é tido como um dos maiores da música popular americana, especialmente do soul e do R&B, nos traz diversas reflexões e joga por terra muitos conceitos presentes até hoje entre religiosos mais tradicionais:

– A educação rígida religiosa não foi suficiente para livrar Marvin Gaye dos “males” deste mundo, muito menos torná-lo mais religioso.

– Seu talento musical, o dom que possuia, não foi suficiente para trazer-lhe felicidade ou paz, ainda que fosse seu escape em muitos momentos difíceis.

– O fato de Marvin Gay Sr, ser um pastor, não impediu que lhe faltasse o amor necessário entre pai e filho. Ainda que alguns defendam, que à época do homicídio estivesse senil ou mesmo alterado por conta de um tumor cerebral, cometeu um dos mais horrendos crimes que um homem poderia cometer.

Ou seja, em tudo, precisamos ter sabedoria. Quantas famílias de cristãos, ou até mesmo pastores, vemos destruídas, por conta de uma relação extremamente rígida ou autoritária? Isso é extremamente comum. Devemos nos lembrar que Deus está acima de tudo, mas a família, está acima da Igreja. Nada deve impedir uma boa e saudável relação familiar. E o cristão não deve se eximir de buscar na ciência e na pedagogia a melhor forma de orientar os seus filhos. O que não falta é literatura nesta área, bem como profissionais aptos a ajudar.

Além disso, devemos considerar para as nossas vidas, uma boa orientação com relação aos nossos talentos. Não existe uma fórmula para isso, e eu também não serei tão puritano para dizer que ao músico só lhe serve caminho da música religiosa. Com certeza não. Mas muitos, infelizmente passarão a vida como Marvin Gaye, que revezava em suas músicas o temor a Deus, como compôs na ótima música descrita acima, e em outras, um erotismo exacerbado, como em “Sexual Healing”. Além disso, a vida de shows e estrada dos músicos está diretamente ligada à exposição às drogas e promiscuidade. Não que muitos não possam vencer essa terrível ligação, mas não há como negar que a exposição entre estes é maior.

Sabedoria. Sejamos pais e filhos sábios. Músicos e artistas sábios. Homens e cristãos cada dia mais sábios. Pois, de que vale ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder a sua alma? De que vale ser um grande ícone musical se, isto não lhe traz paz? Se a família Gay (somente Marvin filho adicionou o sufixo “e” ao sobrenome) levasse mais em consideração toda a letra da música descrita acima, talvez toda a história fosse diferente. Poderíamos ter Marvin Gaye. Talvez com outras músicas. Talvez com outras ideias. Talvez cantando até hoje.

Quando eu era filho em companhia de meu pai, tenro e único diante de minha mãe, então, ele me ensinava e me dizia: Retenha o teu coração as minhas palavras; guarda os meus mandamentos e vive; adquire a sabedoria, adquire o entendimento e não te esqueças das palavras da minha boca, nem delas te apartes. Não desampares a sabedoria, e ela te guardará; ama-a, e ela te protegerá. O princípio da sabedoria é: Adquire a sabedoria; sim, com tudo o que possuis, adquire o entendimento. Estima-a, e ela te exaltará; se a abraçares, ela te honrará; dará à tua cabeça um diadema de graça e uma coroa de glória te entregará.” Pv. 4.3-9

marvin gaye piano

Cinema | Resenha: “Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância”

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Contém “spoilers” do filme “Birdman ou a Inesperada Virtude da Ignorância” e do conto “Um homem célebre” de Machado de Assis.

Essa semana assisti a um dos filmes favoritos ao Oscar 2015: “Birdman ou a Inesperada Virtude da Ignorância”. Dirigido e produzido por Alejandro Iñárritu, é um filme muito original e cheio de metalinguagem, que conta a história de Riggan Thomson (Michael Keaton) um ator que no passado fez muito sucesso interpretando um superherói (Birdman) e que agora decide realizar uma peça na Broadway, em busca de um novo caminho e reconhecimento na carreira.

Primeira coisa a se destacar: o elenco. Michael Keaton, Edward Norton, Naomi Watts, Emma Stone, Zach Galifianakis. Ótimo elenco. Mas apesar do ótimo elenco, e das ótimas atuações, cada um em seu arquétipo do show business americano, o filme (olha a metalinguagem aí) é de um só: Michael Keaton, provavelmente no melhor papel de sua carreira.

É impressionante como o papel caiu como uma luva nas mãos deste ator que, na vida real, possui muitas semelhanças com o personagem: MIchael Keaton foi o primeiro “Batman” no cinema, no filme de Tim Burton, e depois de certo tempo, caiu no ostracismo. Tinha voltado recentemente no novo “Robocop”, o filme do Padilha, mas acredito que este filme é sua real volta ao cinema, e que o consagra como ator.

Com relação aos aspectos técnicos do filme: Iñarritu realmente se superou. A edição parece como um plano sequencia longo e contínuo, sem cortes, algo raro e muito difícil de se fazer. Em uma entrevista, Iñarritu afirmou que usar uma tomada para o filme faria o protagonista estar em “uma realidade incontornável” e levaria o público a esse sentimento. Fora isso, as transições, tomando uma mesma imagem e transformando-a, as alucinações do protagonista, que se confundem com a realidade, e a fotografia (por conta de Emanuel Lubezki, o mesmo de Gravidade, filme de outro diretor mexicano, Alfonso Cuarón), tudo isso contribui para esse sentimento a que o diretor se refere. E a trilha sonora, com a bateria descompassada, tocando o tempo todo? Simplesmente demais. O baterista Antonio Sanchez desenvolvia a música, percebendo o ritmo da cena.

Assistindo ao filme, um conto de Machado de Assis me veio imediatamente à mente: “Um homem célebre”, presente no livro “Várias Histórias”. O livro conta a história de Pestana, um célebre compositor de “polcas”, que queria muito compor uma obra maior, uma ópera, ou um concerto, algo que não fosse tão popular quanto as suas polcas, e que o tornaria realmente célebre e bem conceituado. O conflito de Riggan Thomson no filme é exatamente esse: ele deseja se livrar do estigma de um ator popular, famoso por ter interpretado um superherói, e quer se tornar um ator e diretor conceituado.

Ao longo do processo (e no filme, acompanhamos apenas os dias mais próximos à estreia da peça), Thomson vai encontrando diversas dificuldades, assim, como Pestana na criação de sua grande obra, ao ponto de começar a questionar sua capacidade como ator e diretor, ao mesmo tempo que começa a reabraçar a sua realidade como Birdman, assim como Pestana, acaba tendo que reabraçar sua realidade como compositor de polcas.

Um ponto-chave no filme é a conversa que Thomson tem com uma crítica famosa do New York Times, que acaba sendo um apontamento a todos os críticos e a todas as agremiações de cinema, que por trás da segurança da tela de seus computadores, destroem carreiras, peças ou filmes sem pestanejar. Considere que este filme é o favorito ao Oscar deste ano, e Michael Keaton, já tanto criticado, é um dos indicados a melhor ator (já ganhou o Globo de Ouro). Mais uma vez, olha a metalinguagem aí, e me diga se a vida não imita a arte.

Fato é que quando Thomson se liberta desse estigma, e assume sua realidade como ator, independente de rótulos, ele alcança uma interpretação digna de nota, e ao mesmo tempo, muito próxima à loucura e, como seu personagem na peça em que interpreta, chega a atirar (de verdade) contra si mesmo. O final, não poderia ser outro. No hospital, o agora Birdman, resolve se juntar aos pássaros que viu ao céu, e voar, literalmente, para a liberdade.

O filme é muito feliz em trabalhar o conflito de Riggan Thomson. E ao final, dá-se o tom de realidade e fantasia, sempre misturados ao longo do filme. Por isso, o final só pode ser entendido dentro da metáfora assumida no filme. Ao assumir a “ignorância” e não se importar com o conceitual, ou com o intelectual, ele se torna livre. E a liberdade o torna um virtuose, cheio de habilidades.

Até mesmo o título do filme, e sua duplicidade, dão o tom da trama e da metalinguagem envolvida: “Birdman ou A inesperada virtude da Ignorância”. “Birdman”, é título popular, de blockbuster. “A inesperada virtude da Ignorância” é título de filme conceituado e intelectual. Mas independente de popular ou conceitual, este é um só filme que traz por meio dos bastidores da atuação, um conflito que é muito humano: o que fazer para ser lembrado ou respeitado.

Essa duplicidade e este conflito me lembram a Parábola do Publicano e do Fariseu, descrita em Lucas capítulo 18, a partir do versículo 10: o fariseu buscava o conceito e o respeito dos outros ao seu redor, por isso orava alto, anunciando suas benfeitorias. O publicano, por sua vez, orava longe e batia no peito, pedindo perdão por seus pecados. Jesus demonstra que a verdadeira virtude estava na ignorância do publicano e não na intelectualidade e proselitismo do fariseu.

Ora, é normal buscarmos o respeito e a lembrança alheia. Esse é um desejo normal, mas não podemos nos deixar dominar por ele. Pode-se dizer que quando esse passa a ser nosso único objetivo, nos tornamos egoístas e solitários, como os personagens do filme “Birdman”. E quando o que os outros vêem e pensam sobre nós se torna nossa maior preocupação, nos tornamos como os fariseus dos tempos de Jesus, que viviam para mostrar aos homens a sua glória.

“Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar: um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho. O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado.” Lc 18.10-14

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Conto: “A Descoberta” de Anton Tchekhov

Ciscando num monte de esterco, o galo encontrou uma pérola…” Da fábula O galo e a pérola, de Krylov (1769-1849), prefácio do conto “A descoberta” de Tchékhov, descrito abaixo. 

Essa semana, decidi trazer para nossa análise com enfoque cristão, um conto de Anton Tchekhov (1860-1904). Este escritor russo, que também era médico e dramaturgo, é tido como um dos maiores contistas da história. O conto escolhido é “A descoberta”. Anton Tchékhov tem centenas de contos, e esse não é um dos mais famosos. Aqui no Brasil, podemos encontrá-lo pela editora L&PM POCKET na coletânea: “Um negócio fracassado e outros contos de humor”, com tradução do russo de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares. Além disso, a Editora Livro falante, tem o audiobook “Contos de Tchekhov”, que inclui o conto em questão, e apresenta tradução de Tatiana Belynki.

contos de tchekhov

À esquerda na imagem: Livro “Um negócio fracassado e outros contos de humor” de Anton Tchekhov, com tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares, Editora L&PM Pocket 2011. À direita: Audiobook “Contos de Tchékhov” da Editora Livro Falante, com tradução de Tatiana Belinky, disponível em www.livrofalante.com.br .

Quem puder, leia o conto, não demora mais de 10 minutos. Você encontra o ebook do livro acima em qualquer livraria virtual com valor em torno de R$7,00. Ou pode comprar o audiobook para ouvir o conto.

A história tem como protagonista o engenheiro Bakhromin, um homem importante e rico da sociedade, que ocupava o cargo de conselheiro de estado. Tchékhov inicia o conto descrevendo o engenheiro sentado em sua escrivaninha, melancólico, pensando num encontro que tivera algumas horas antes com uma mulher que ele teria sido apaixonado na sua juventude (o engenheiro conta agora com 52 anos). Segundo sua descrição, a mulher teria perdido toda a beleza da juventude, e agora era “uma velha seca, faladeira, de olhos azedos e dentes amarelados”. Em uma espontaneidade e realidade que lembram muito os romances machadianos ele fala:

“Nenhuma força maléfica é capaz de escarnecer de uma pessoa tanto quanto a natureza. Se, naquela época, a beldade soubesse que iria se transformar nessa coisa insignificante, ela teria morrido de pavor.

Nesse pensamento melancólico, Bakhromin começa a fazer alguns desenhos em um papel. De repente, ele percebe que os desenhos que vem fazendo são muito bons! E ele repete os desenhos, e eles continuam muito bons, e começa então a desenhar diversas coisas, ficando extasiado com o novo talento que descobrira em si. Essa é “a descoberta” do conto.

Bakhromin, segundo o próprio, nunca tinha percebido nenhum talento de verdade em si. E agora, aos 52 anos, ao fazer desenhos tão belos, percebe que tem grande talento para as artes. Isso o deixa em verdadeiro êxtase. Como não teria percebido esse dom antes?

“E se eu tivesse descoberto quando era jovem que tinha talento, enquanto era tempo, e tivesse me tornado um pintor ou um poeta? Hein? E na sua imaginação, descortinou-se uma vida diferente de milhões de outras vidas. Seria impossível compará-la com a vida de pessoas comuns.”

Nesse momento então, o rico engenheiro começa a se deleitar em seus pensamentos, em como seria sua vida se tivesse se tornado um artista. Enquanto correm esses pensamentos, o criado lhe traz a ceia, com uma bebida e logo em seguida o auxilia e prepara sua cama para se deitar. Ele pensa na fama, e na glória duradoura se fosse um artista renomado, bem diferente do que poderia alcançar como engenheiro e funcionário público:

“E a glória, e a fama? Por mais largos que sejam meus passos,…, meu nome não irá mais longe do que os limites de um formigueiro. Com eles já é completamente diferente.”

“É, uma vida fora do comum. Um dia as estradas de ferro serão esquecidas, mas Fídias e Homero serão sempre lembrados. Trediakóvski, ruinzinho como é, e mesmo dele lembram-se.”

De repente, Bakhromin começa a imaginar-se como artista, naquele exato momento. Os artistas, em geral, não têm criados, não têm carruagens, não têm camas tão confortáveis como aquela em que o criado estava lhe ajudando a se deitar. Não têm muito dinheiro, não têm talão de cheques. “O nome é homenageado, mas a pessoa é esquecida.” Ele então conclui:

“Ele que vá para o inferno! (o talento). Que vá para o inferno! Que bom que eu não o descobri quando ainda era jovem!

Esse conto de Tchékhov, por meio de uma situação absurda e cômica, nos traz o real desafio daqueles que optam por desenvolver ou trabalhar seus talentos. Quem está disposto a sacrificar certas regalias e a segurança de um trabalho sério e uma boa colocação na sociedade para alcançar alguma glória mais duradoura?

É claro que o pensamento de Tchékhov no texto está centrado em glórias humanas, por isso ele faz questão de citar um grande escultor e um grande poeta da Antiguidade (Fídeas e Homero, respectivamente), que tem seus nomes até hoje aclamados. Mas esse texto, imediatamente me faz refletir e extrapolar isso para o lado cristão. Quem pode abrir mão do seu conforto, do seu dinheiro e de seu status na sociedade em prol de um galardão, digamos, mais celestial?

Uma das mais famosas parábolas de Jesus é a Parábola dos Talentos, descrita em Mateus, no capítulo 25, a partir do versículo 14. Lembrem-se que “talento” aqui tem sentido monetário, era um grande valor na época. Mas ele pode ser facilmente transposto para o seu sentido em português: é uma ótima metáfora para sua palavra homônima. Como descrito na parábola, o servo que recebeu apenas um talento, teve medo de investi-lo ou desenvolvê-lo para que se tornasse algo melhor. Por conta do medo, ele “enterrou” o talento. No conto, Bakhromin, nas ocupações do dia-a-dia e na busca por uma boa colocação e status na sociedade, deixou seu talento ser enterrado e negou ao mundo, e a si mesmo, quem sabe, um grande artista. Que contribuição temos deixado de dar ao mundo e a nós mesmos? E à posteridade, e à Deus?

Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” Mt.6-19-21

Cinema | Resenha: “A Teoria de Tudo” – A vida de Stephen Hawking

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Contém “spoilers” do filme “A Teoria de Tudo” (The Theory of Everything – 2014)

“A teoria de tudo” trata da vida do famoso cientista Stephen Hawking, especialmente em seu aspecto pessoal, visto que é baseado no livro escrito por sua primeira esposa, e mãe de seus três filhos, Jane Wilde (interpretada no filme por Felicity Jones). É claro que o filme também mostra um pouco de sua vida acadêmica, em especial as teses que defendeu a respeito do espaço e tempo. Mas, ao meu ver, o filme fica devendo um pouco quando trata das verdadeiras contribuições científicas do Dr. Hawking, e não foi tão feliz em caracterizar seu pensamento, como foi por exemplo o filme “Uma mente brilhante”, que trata da vida do matemático John Nash.

No entanto, no aspecto pessoal, o filme é bem interessante, e apesar de ter o viés da literatura de Jane Wilde, não se vê problema em mostrar as dificuldades e até mesmo as fraquezas de um e de outro personagem. Vale ressaltar a impressionante atuação de Eddie Redmayne interpretando Stephen Hawking. Esse ator já ganhou o Bafta por esta atuação e concorre ao Oscar. Ele, além de ser fisicamente muito parecido com Stephen Hawking, consegue encenar todo a evolução de sua doença (Esclerose Lateral Amiotrófica) de forma marcante. Em alguns momentos parecer ser o próprio Hawkings interpretando.

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Eddie Redmayne e Stephen Hawking juntos na estreia do filme “A Teoria de Tudo”

“A teoria de tudo” foca em dois aspectos importantes na vida pessoal de Stephen Hawking: sua relação com o tempo, e sua relação (ou não relação) com Deus. Stephen Hawking, como cosmologista, sempre estudou as relação do espaço e tempo, os buracos negros e singularidades. Uma de suas principais teorias, tem o intuito de provar que o espaço e o tempo tiveram um início, assim como o universo se mantém em expansão. Essa relação com o tempo, é interessante, pois a Esclerose Lateral Amiotrófica é uma doença até hoje sem cura, cuja expectativa de vida é de 2 a 3 anos. Hawking convive com a doença há mais de 30 anos. Nesse tempo, teve filhos, viu-os crescer, continuou estudando, escreveu livros e viu-se tornar o cientista mais famoso de nossa época. Muita coisa para quem não tinha muito tempo de vida.

Já a sua relação com Deus, permanece obscura. Na verdade, Stephen Hawking se declara ateu, mas ele admite que algumas teorias, em especial a que trata do início do universo e da existência, suportam a existência de Deus. Mas ao mesmo tempo, ele refuta essa existência com outras teorias e ideias. Nos livros dele (em breve gostaria de fazer uma resenha sobre “O universo em uma casca de noz”, livro que li há algum tempo), percebemos essa dualidade, além do maravilhoso senso de humor que ele possui e que é bastante mostrado no filme.

O clímax do filme se dá justamente quando em uma entrevista ele é questionado sobre o seu ateísmo, e pergunta-se se há alguma filosofia ou ideia que lhe traz conforto. Nesse momento vemos Stephen se levantando e andando como em um milagre, mostrando que talvez, lá no fundo, Stephen Hawking ainda espera um grande milagre da existência que irá libertá-lo de sua condição. Na sequencia deste “delírio”, ele responde:

“É claro que somos apenas primatas evoluídos, vivendo em um planeta pequeno que orbita uma estrela comum, localizada no subúrbio de uma de bilhões de galáxias. Mas, …

… desde o começo da civilização, as pessoas tentam entender a ordem fundamental do mundo. Deve haver algo muito especial sobre os limites do universo. E o que pode ser mais especial do que não haver limites? Não deve haver limites para o esforço humano. Somos todos diferentes. Por pior que a vida possa parecer, sempre há algo que podemos fazer em que podemos obter sucesso. Enquanto houver vida, haverá esperança.

Stephen entende que há algo muito especial, além dos limites de nosso entendimento. Sua posição é acreditar naquilo que as teorias e os estudos lhe dão, e nenhuma teoria ou pensamento científico é capaz de provar (ou desprovar) a existência de Deus. Por isso, o ateísmo. Mas ele admite, que enquanto houver vida, há esperança, de sermos resgatados de uma realidade física tão insignificante, com corpos tão frágeis, doentes ou não, no planeta pequeno que orbita essa estrela comum, no subúrbio de uma galáxia (nessa mesma linha de pensamento, leia o post “O pálido ponto azul”, publicado neste blog alguns meses atrás).

Stephen Hawking é um exemplo magnífico de uma pessoa que, apesar de todas as dificuldades impostas, conseguiu obter extremo sucesso em sua vida. É o exemplo clássico para aquela passagem em João, capítulo 9, em que perguntam para Jesus quem havia pecado, para que o homem em questão fosse cego. E Jesus responde: “Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus.“. Ora, digam-me se não é ao menos supreendente, que a maior mente de nosso tempo, esteja “encarcerada” em um corpo debilitado, incapaz até mesmo de falar. E como esse ser incapaz de falar é a maior voz da ciência atual. Veja se isso não é uma espécie de milagre.

Enquanto houver vida, haverá esperança. Não há homem que em algum aspecto de sua vida, não esteja debilitado, atrelado a uma cadeira de rodas. E ao mesmo tempo, não há homem que não sonhe com o momento em que se libertará dessas limitações e desses sofrimentos, e poderá ser realmente pleno. Stephen Hawking sonha com essa plenitude. E todos nós também. Devo dizer, que a partir daqui, entra a questão da?

“E, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus.” Efésios 3.17-19

“Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia, porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.” Colossenses 1.15-20

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