Artigo | A Frustrante Eternidade de Obras e Nomes

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“A Torre de Babel” (Tour de Babel), de Lucas Van Valckenborch, de 1594, atualmente expostas no Museu do Louvre, Paris.

“Vamos construir uma cidade, com uma torre que alcance os céus. Assim nosso nome será famoso e não seremos espalhados pela face da terra”. Gn 11.4

O que farei para ser lembrado? O que deixarei para a posteridade? Como eternizar a minha passagem pelo mundo? Questões como essas, com certeza afligem a maioria dos seres humanos. A verdade é que é doloroso para todos lidar com a sua finitude e, ser lembrado pelas gerações futuras passa ser uma forma de “se eternizar”. Mas ao que me parece, como cristãos aprendemos a cada dia que “se eternizar” não deveria ter outro caminho que não pela esperança em Jesus. Mesmo assim, nos deparamos todos os dias com medidas “desesperadas” para marcar sua presença no mundo.

Templos faraônicos. Prédios suntuosos. A necessidade de se criar sua própria Igreja, com seu próprio nome. Todos os dias vemos nomes se destacarem na mídia, não necessariamente de forma positiva. Na época da integração digital, todos são anônimos, mas a qualquer momento, apenas uma frase polêmica, ou um tweet de menos de 140 caracteres, podem torná-lo famoso. Nem que por alguns minutos. Não à toa, a famosa frase de Andy Warhol, “no futuro, todos terão seus 15 minutos de fama”.

No entanto, não pense ser isso um problema de nossos tempos. Não. A própria Bíblia, ainda em Gênesis, cita a construção da Torre de Babel, como uma forma dos homens de sua época “alcançarem o céu”, e se tornarem grandes para a posteridade. As primeiras civilizações já tinham a necessidade de marcar seus feitos através de obras, estátuas, templos e mausoléus. Aliás, avaliemos as Maravilhas do Mundo Antigo: duas delas nada mais eram que túmulos (a pirâmide de Quéops e o Mausoléu de Halicarnasso), duas eram estátuas de deuses (A estátua de Zeus, o Colosso de Rhodes), uma era um templo (Templo de Ártemis ou Diana), uma era um Jardim (Jardins Suspensos da Babilônia) e a última um Farol (Farol de Alexandria), talvez a única que realmente tivesse alguma serventia.

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Mapa de localização das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Perceba como a lista se limitava praticamente a região dominada pela cultura grega.

O Templo de Ártemis ou Diana dos Efésios (uma das sete maravilhas) era bem conhecido do Apóstolo Paulo. Afinal por conta dele, houve certa rebelião contra o apóstolo e seus seguidores em Éfeso. Imagino que ele fazia parte da paisagem diária avistada por Paulo durante o período relativamente longo que habitou por lá. E pelo fato de a nova Doutrina apresentada por Paulo ser algo que “desprezava” tanto a Diana quanto o seu templo, esses se revoltaram:

“… E estais vendo e ouvindo que não só em Éfeso, mas em quase toda a Ásia, este Paulo tem persuadido e desencaminhado muita gente, afirmando não serem deuses os que são feitos por mãos humanas.

Não somente há o perigo de a nossa profissão cair em descrédito, como também o de o próprio templo da grande deusa, Diana, ser estimado em nada, e ser mesmo destruída a majestade daquela que toda a Ásia e o mundo adoram.At 19.26-27

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Modelo do Templo de Ártemis (ou Diana dos Efésios), presente no Museu de Miniaturas Miniaturk, em Istambul, na Turquia.

Imaginem só se o templo de Diana fosse “estimado em nada”. Éfeso seria só mais uma cidade entre tantas e por nada seria lembrada. Aliás essa “fixação” por serem lembrados parecia ser algo bem típico do povo de Éfeso, pois quase 400 anos antes de Paulo, um cidadão chamado Heróstrato foi o responsável por incendiar o tão querido templo de Ártemis (ou Diana), justamente com o objetivo de ser lembrado pela posteridade. Está aí. Heróstrato é o nome dele, ainda lembrado 2300 anos depois. Mas será que valeu a pena ser lembrado por esse ato?

Fernando Pessoa tenta responder a essa pergunta em uma de suas obras: “Heróstrato e a busca da Imortalidade”. No entanto, seu objetivo é mais avaliar a “imortalidade” de uma obra, chegando a conclusão de não ser possível saber quem ficará para a história, sendo o ideal, como afirma, “uma epopeia que resistisse como Milton e interessasse como Conan Doyle). Em outro texto “As Condições do Prestígio”, Pessoa escreve:

“Descreveu Carlyle a humanidade como sendo um vaso cheio de cobras, cada uma d’elas tentando erguer a cabeça acima das de todas as outras.

Não vale a pena a fama a qualquer preço. Não vale a pena tomar qualquer atitude para ser famoso, mas vou mais além, não vale a pena também tomar atitudes boas esperando, com essas, atingir alguma fama. Com certeza hoje temos registrado e falamos muito de toda uma galeria de heróis da fé, como Paulo, Estevão, Abraão, Moisés. Mas com certeza há muitos outros que jamais saberemos os nomes (não nessa existência), que por amor a Deus sofreram perseguições, foram torturados, mutilados e mortos. Muitos que na história da humanidade, nada mais são que seres anônimos, que nunca terão seus nomes nos livros de história, que nunca terão suas canções entoadas, ou nunca terão suas mortes choradas. Mas se lhes perguntassem, com certeza diriam: O que é a glória humana, comparada a esplendorosa glória de Deus? Poderia eu trocar uma pela outra? Acho que não.

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie.Epístola do Apóstolo São Paulo aos Efésios, capítulo 2, versículos 8 e 9.

Cinema / Poesia | “Para sempre Alice” e “A arte de Perder”

“Somos aquilo que lembramos, e também aquilo que resolvemos esquecer”.

Ivan Izquierdo.  Médico e neurocientista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), referência mundial em fisiologia da memória.

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Assisti recentemente ao filme Still Alice (“Para Sempre Alice”), de 2014. Dirigido por Richard Glatzer (falecido recentemente em decorrência de Esclerose Lateral Amiotrófica) e Wash Westmoreland, o filme conta com atores de peso como Julianne Moore no papel principal, Alec Baldwin, Kristen Stewart e Kate Bosworth. Mas o filme é de uma pessoa só: Julianne Moore domina a tela no papel de Alice, e não é à toa que recebeu diversas premiações por essa atuação, incluindo o Oscar e o Globo de Ouro.

Baseado no livro homônimo, de Lisa Genova, o filme conta a história de Alice, uma neurolinguista, professora universitária, que começa a apresentar déficits de memória, decorrentes da manifestação de um Alzheimer precoce. Por certo muitas pessoas têm contato com parentes, pais ou avós com Mal de Alzheimer, mas esse caso específico é um pouco diferente. Trata-se de uma forma rara da doença, que atinge pessoas mais jovens e cuja evolução é inexorável, ou seja, se você tem o gene, você irá manifestar a doença, e ainda pode transmiti-lo a seus descendentes.

alice borboleta

Livro “Still Alice” de Lisa Genova, que deu origem ao filme. A metáfora da borboleta é algo bem presente, fazendo contraponto ao sentimento de aprisionamento da personagem principal.

A parte médica descrita no livro e no filme, é impecável. Os dados sobre a doença, os métodos de avaliação utilizados, todos esses são bem fiéis à realidade. Aliás, esse para mim é o grande mérito do filme: ser bem fiel à realidade, isto é, ele não idealiza, não mascara, não romantiza, mas mostra cada personagem com suas qualidades e seus defeitos e a realidade da doença como ela é.

No entanto, a grande questão do filme, não é abordar a doença em si, mas sim as mudanças biopsicossociais sofridas com a pessoa e com a família da pessoa que sofre com uma doença neurodegenerativa (talvez a escolha do diretor tenha relação com sua própria doença). E como essas mudanças bio-psíquicas-e-sociais fazem o paciente se afastar cada vez mais da pessoa que ela é. Fazem ela se perder. O grande objetivo do filme é falar sobre o “perder”. Por isso mesmo, creio que a tradução do título para o português não seja a mais adequada. “Still Alice”, no caso, seria melhor traduzido por “Ainda Alice”, já que o seu grande desafio, relatado pela própria, é manter-se conectada à mesma pessoa que ela já foi e que está perdendo, ou seja, continuar sendo “Alice”.

“… Eu sou uma pessoa vivendo no estágio inicial da Doença de Alzheimer, e assim sendo estou aprendendo a arte de perder todos os dias. Perdendo meus modos, perdendo meus objetos, perdendo sono e, acima de tudo, perdendo memórias…

…Tornamo-nos ridículos, incapazes, cômicos. Mas isso não é quem nós somos. Isso é a nossa doença. E como qualquer doença, tem uma causa, uma progressão, e pode ter uma cura…

…Mas por enquanto, eu estou viva. Eu sei que estou viva. Tenho pessoas que amo profundamente, tenho coisas que quero fazer com a minha vida… Estou lutando. Lutando para fazer parte das coisas, para continuar conectada com quem um dia eu fui. Então “viva o momento”, eu digo para mim mesma. É tudo que posso fazer. Viver o momento. E não me culpar tanto por dominar a arte de perder.”

Esse texto faz parte do discurso proferido pela personagem do filme em uma reunião sobre a Doença de Alzheimer. No início do texto ela irá citar um poema de Elizabeth Bishop, que transcrevo aqui abaixo e que se torna a base de todo o seu discurso. Elizabeth Bishop deve ser conhecida do público brasileiro, pois foi uma poeta americana que morou por mais de 20 anos no Brasil, e recentemente foi vivida no cinema no filme de Bruno Barreto, “Flores Raras” (que conta a história dela e sua relação homoafetiva com a personagem da atriz Glória Pires). O poema é bastante famoso nos Estados Unidos, de uma linguagem relativamente simples, com rimas em forma de villanelle (do francês villanesque). Villanelle é uma forma relativamente comum nos poemas de língua inglesa, sendo constituído por 5 tercetos seguidos ao final por 1 quarteto.

 

A arte de perder

 

“A arte de perder não é nenhum mistério;

Tantas coisas contêm em si o acidente

De perdê-las, que perder não é nada sério.

 

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,

A chave perdida, a hora gasta bestamente.

A arte de perder não é nenhum mistério.

 

Depois perca mais rápido, com mais critério:

Lugares, nomes, a escala subseqüente

Da viagem não feita. Nada disso é sério.

 

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero

Lembrar a perda de três casas excelentes.

A arte de perder não é nenhum mistério.

 

Perdi duas cidades lindas. E um império

Que era meu, dois rios, e mais um continente.

Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

 

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo

que eu amo) não muda nada. Pois é evidente

que a arte de perder não chega a ser mistério

por muito que pareça (Escreve!) muito sério. ”

 

Poema de Elisabeth Bishop, Tradução de Paulo Henriques Britto. Citado no filme Still Alice (“Para sempre Alice”) de 2014.

 

O poema mostra um eu-lírico resignado e aparentemente convencido de que nada pode fazer quanto a perda. Por isso ele parece obsessivamente querer se convencer de que isso “não é nada sério”, mesmo com o aumento gradual da importância das coisas que perde. Ao final, com o termo em parênteses “Escreve!”, vemos uma metalinguagem do autor que se utiliza das palavras, da poesia, para tentar amenizar o seu sofrimento.

Tanto o poema, quanto o filme nos comovem muito por tratar de forma tão delicada do tema da perda. Mas, independente se de forma abrupta ou de forma arrastada, como Alice, todos nós perderemos tudo isso. De forma geral, não se nasce com nada, e não se leva. Então tudo que um dia adquirimos, tudo pelo que lutamos, em teoria um dia irá se perder. Não há sentido em se apegar às coisas.

Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei para lá” Jó 1.21

Fica mais doloroso em pensarmos que esta “lei universal” se aplica também a nosso intelecto, às nossas memórias, e a nós mesmos. Por isso, não vale a pena nos apegarmos também ao que somos. Nossos títulos, nosso conhecimento, nossas lembranças. Tudo se perde também. E isso, fora de um contexto cristão, a mim, parece extremamente desesperador.

O apóstolo Paulo, em sua epístola aos Filipenses, parece alertar exatamente quanto a isso. Dentro de um contexto cristão, apegar-se aos seus bens, ou a si mesmo é um grande erro. E ele diz que mesmo ele, que pertencia a uma classe social bastante elevada em sua sociedade, tinha passado por todos os ritos judaicos à risca, tinha estudado e sido ensinado por um dos maiores mestres gregos de seu tempo, Gamaliel, tinha por certo tinha um QI muito acima da média, e ainda tinha de nascença o título de cidadão romano, algo que poucos podiam e que muitos pagavam quantias enormes em dinheiro para conseguir; mesmo ele, veria tudo isso se perder. E por isso, ele já preferia reputar tudo isso em perda por Cristo, sendo este agora seu verdadeiro apego. Porquanto, esquece-se das coisas que estão atrás e olha para o alvo, a fim de conquistar algo perene, que nunca se perderá.

“… Nós que adoramos pelo Espírito de Deus, que nos gloriamos em Cristo Jesus e não temos confiança alguma na carne, embora eu mesmo tivesse razões para ter tal confiança. Se alguém pensa que tem razões para confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado no oitavo dia de vida, pertencente ao povo de Israel, à tribo de Benjamim, verdadeiro hebreu; quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na Lei, irrepreensível.

Mas o que para mim era lucro, passei a considerar como perda, por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar Cristo e ser encontrado nele, não tendo a minha própria justiça que procede da Lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé.

Quero conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte para, de alguma forma, alcançar a ressurreição dentre os mortos. Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus.

Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus.” Filipenses 3.3b-14

 

O texto é claro. E é confortador, especialmente para aqueles que de alguma forma já viram seus familiares se perderem gradualmente dentro de sua mente, esquecendo-se de tudo e de todos. Mas Deus não se esquece. E em Cristo Ele há de reavivar uma nova mente incorruptível e perene, livre de doenças ou da neurodegeneração. Uma nova mente, em Cristo.

“Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista de imortalidade. Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: “Tragada foi a morte na vitória” 1Co 15.53-54

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Poesia | Análise – “E agora, José?”

JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Joaquim?
e agora, você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais!
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade (In Poesias – 1942)

Esse é um dos poemas mais conhecidos de Carlos Drummond de Andrade. “José” aqui é usado como uma metonímia para o próprio autor ou para qualquer ser humano. No entanto, ao usar um nome tão comum aos brasileiros, temos a sensação de ser alguém aqui do nosso meio. Não é à toa que usa metáforas e regionalismos como “bicho-do-mato”, tornando essa poesia ainda mais nacional (realmente uma das riquezas da nossa literatura). Mas é claro que o que se trata aqui é algo bem mais universal.

José se encontra em um momento de sua vida que já não tem mais nada. Por certo já não está mais em sua juventude, por isso “a festa acabou”, já não pode beber, não pode fumar. Além disso, já não tem o apoio e a alegria de uma mulher, não tem familiares para se apoiar (“parede nua para se encostar”), não existe saídas (não há porta). Tudo que ele fez até então, agora não lhe serve mais (seus versos, seus protestos, seus amores e até sua zombaria, citados na primeira estrofe). Tudo que ele possui também não lhe adianta, suas riquezas (sua lavra de ouro), seu conhecimento (sua biblioteca), os momentos que realizou alguma coisa (instantes de febre), os momentos de fartura ou de dificuldade (gula e jejum). Encontra-se vulnerável, frágil, percebido por seu “terno de vidro”. Nem a incoerência ou o ódio lhe servem de alguma coisa.

Este homem, ao se ver nessa situação, se pergunta “e agora?”. Não há mais festa. Não pode voltar para Minas, que aqui traz a ideia de sua terra natal, talvez como uma metáfora para sua própria Infância. E assim, neste momento que se encontra, da mesma forma que não é capaz de voltar para a sua infância também não consegue avançar e abraçar a morte, pois é “duro”.

Essa reflexão de Carlos Drummond me traz à tona a mesma reflexão de Albert Camus em seu ensaio “O mito do Sísifo” (assunto que trarei em outro post em breve). José é o “homem-absurdo” descrito por Camus. O homem que vive e se depara de repente com a “absurdidade” (descrevo o termo como cunhado na obra de Camus) da vida. O ensaio de Camus é toda uma reflexão sobre isso, e traz junto a questão se esse homem deve ou não buscar o suicídio, visto que nada tem um sentido de ser. Mas na poesia, para José, suicídio não é uma opção, pois ele continua marchando (marcha pra onde?). Mesmo sozinho, sem apoio, e sem a existência de fé ou religião, representados aqui pela palavra “teogonia”.

Não tenho dúvida de que não existe ser humano consciente que não chegará até essa pergunta, que se tornou até mesmo um ditado popular no Brasil: “E agora, José?”. E nesse momento, quando a pergunta chegar, alguns poderão responder: a fé. Pois a fé traz a esperança. E a esperança dá um sentido para essa absurdidade. Talvez José não concorde. Provavelmente Camus e muitos outros gênios também não. Mas é claro, isso é ter fé. Isso é a loucura da salvação.

“Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo; Pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus.” Rm 5.1-2

Na Primeira Epístola aos Coríntios, no capítulo 13, uns 1900 anos antes de Drummond ou Camus, o apóstolo Paulo já faz uma descrição da absurdidade da vida, sem a fé ou sem possibilidade da vida eterna, veja só:

“Ora, se é corrente pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois, afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, então, Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé; e somos tidos por falsas testemunhas de Deus, porque temos asseverado contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, ao qual ele não ressuscitou, se é certo que os mortos não ressuscitam. Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram. Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.” 1Co 15.12-19

É meus amigos, se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens. Somos todos “José”.

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Estátua de Carlos Drummond de Andrade na Praia de Copacabana no Rio de Janeiro.