Resenha: A vida secreta de Walter Mitty

The-Secret-Life-of-Walter-Mitty

Atenção: contém “spoilers” sobre o filme “A vida secreta de Walter MItty”. Se você não assistiu, leia por sua conta e risco.

Que grata surpresa tive ao assitir ao filme “A vida secreta de Walter Mitty”. Quem poderia imaginar que Ben Stiller, famoso por seus filmes de comédia “pastelão”, poderia produzir e protagonizar um filme desse tipo. Sim, pois não espere deste filme nada que Ben Stiller produziu ao longo de sua carreira. Mas apesar de não esperada, esse tipo de reviravolta não é uma novidade na carreira de comediantes. Jim Carrey tentou fazer o mesmo com “Cine Majestic”,  Adam Sandler com “Click”. Mas acredito que entre estes, Ben Stiller obteve o maior sucesso em sua empreitada.

Walter Mitty (Ben Stiller) é o responsável pelo Departamento de Arquivo e Revelação de fotografias (entenda-se negativos) da antiga revista “Life” que passa por um momento de transição em que serão encerradas as edições impressas da revista, passando a se focar apenas nas edições online. Interessante é que a revista “Life” realmente existiu como no filme e de fato sofreu esta transição, em meados do ano 2000.

Devido à transição, muitas pessoas perderão o emprego ou serão substituídas em prol desta visão inovadora e futurista. Walter trabalha há anos na revista, muito responsavelmente em seu departamento, mas em seu interior, ele vivia uma “vida secreta” de aventuras e fantasias, muitas delas descritas na própria revista que ele editava. E nesse momento de sua vida, Walter conhece (e se apaixona por) Cheryl (Kristen Wiig), mas não consegue um meio decente de abordar a mulher (nem mesmo pelo E-Harmony). Ao mesmo tempo, recebe de Sean O´Connel, o maior fotógrafo e aventureiro da revista, muito bem representado pelo homônimo Sean Penn, uma coletânea de fotos, que incluía uma que estamparia a capa da última edição da revista “Life”, a “25”, que demonstraria nada mais nada menos que a “quintessência da vida”.

Não é preciso ser um roteirista para imaginar que justamente esta foto estaria faltando entre aquelas enviadas. E é justamente à procura desta foto, atrás do fotógrafo Sean, que Walter irá viver as mais incríveis aventuras de sua vida, tendo que sair de uma rotina que já durava anos.

O personagem Walter Mitty não foi criado originalmente pelo roteirista Steven Conrad (o mesmo de “A procura da felicidade”). Ele é o personagem de um conto de 1939 do escritor americano James Thurber e já tinha ido ao cinema em 1947, produzido por Samuel Goldwin. Mitty é um personagem tímido e retraído, mas com uma imaginação muito fantasiosa e o personagem fez tanto sucesso que foi incluído em alguns dicionários da língua inglesa como sinônimo de sonhador inofensivo.

No entanto, não é nos sonhos de Walter Mitty que estão as riquezas do filme, mas sim nas suas realizações. Quando Walter finalmente decide se mover de seu lugar, ele passa por situações inacreditáveis, tudo com o objetivo de encontrar Sean O´Connel e, consequentemente, o negativo de número “25”. No final, ele atinge seu objetivo de forma que nem imaginava, e acaba conseguindo entregar a foto que estamparia a última edição da revista “Life”, sem vê-la.

Ao se deparar com a revista nas bancas, no grande plot twist do filme, qual não é a sua surpresa ao ver a si mesmo estampado na capa, em um momento de trabalho comum, avaliando um negativo. Uma homenagem a todos aqueles que haviam trabalhado silenciosamente para transformar a revista no que era. Mas mais do que isso, a demonstração de que as vezes a “quintessência” está naquilo de mais simples da vida. E às vezes não precisamos sair da rotina para fazer algo realmente extraordinário.

Quintessência é aquilo de mais puro, mais sublime de algo. O termo remete à Aristóteles  que considerava que o universo era composto de quatro elementos principais – terra, água, ar e fogo-, mais um quinto elemento, uma substância etérea que permeava tudo e impedia os corpos celestes de caírem sobre a Terra. É claro que o termo não faz mais referência a isso, mas até hoje é um termo utilizado em física no estudo de campos gravitacionais.

Às vezes é difícil entendermos nossa situação na vida, nossa função como membros de uma igreja, de uma escola, de uma empresa ou de uma família. Às vezes não conseguimos ver nossa importância em algo que permite que as engrenagens continuem rodando. Todos se espelham e querem ser como o rei Davi, que travou guerras, venceu batalhas, matou o gigante. Mas muitos se esquecem que às vezes precisamos ser como Jônatas, que tinha direito, como filho de Saul, ao trono, mas soube entender que Davi era a melhor opção; Ele não destruiu sua amizade com Davi e, ao mesmo tempo, foi filho obediente a um pai autoritário e amargo (fato que acabou o levando à morte em campo de batalha). Da mesma forma, muitos se imaginam como Sean O´Connel, mas, se esquecem que ser Walter Mitty também se faz necessário.

A vida, por certo, é muito mais complexa do que representada nos filmes, mas é claro que ela tende a ser bem menos “fantasiosa”. Provavelmente você jamais irá lutar com um tubarão ou sobreviver a um vulcão em erupção. Talvez você nunca esteja num campo de batalha ou se torne um refugiado num país muçulmano. Mas a questão não é se você irá fazer, mas como irá fazer. Não podemos nos deixar levar pelo marasmo, pela rotina que não nos deixa nos mover, claro. Mas em cada trabalho que fazemos, em cada momento que vivemos, devemos ter por objetivo fazer o melhor. E nos preparar. Mesmo que você esteja acostumado apenas com a comédia, se prepare também para um possível papel dramático. Pois quem sabe se amanhã não teremos algo grandioso para fazer? Quem sabe se amanhã não teremos que matar um gigante?

“Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças” Eclesiastes 9.10a

a-vida-secreta-de-walter-mitty