Livro em Mente: “12 anos de escravidão”

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Quando foi lançado o filme “12 anos de escravidão”, me interessei pela história apresentada (com base em todo o alvoroço com relação às premiações e ao próprio Oscar), e decidi que deveria ler o livro antes de assistir ao filme. Isso porque, o livro é um marco na literatura americana, pois trata-se da auto-biografia de Solomon Northup, um negro livre americano, forçosamente tornado escravo durante um período de 12 anos. Isso me chamou muito a atenção, pois antes do lançamento do livro eu não conhecia essa obra e é sabido que poucos negros do tempo da escravidão poderiam escrever seus próprios relatos, seja por falta de oportunidade ou de instrução.

Durante o período de leitura do livro, fiz diversas marcações e gostaria de fazer algumas pontuações aqui neste texto. Já faz quase 1 ano que eu li o livro, portanto ele não está mais tão “fresco” em minha memória, por isso posso me confundir em alguns aspectos. Primeiro devo relatar que o livro é muito mais rico que o filme em explicar as situações vivenciadas por Solomon durante o período em que esteve como escravo, mas isso não tira o mérito do filme de resumir a história e mostrar a realidade de um negro escravo americano no século XIX. Mas uma coisa que eu senti no livro e não percebi no filme, foi justamente a inocência ou o entendimento do personagem com relação a sua situação. Pois o filme nos deixa ver com os nossos olhos o horror e a loucura da escravidão, enquanto que no livro, vemos pelos olhos de Solomon, que, por incrível que pareça, não condena os senhores de escravos, mas condena o sistema a que todos foram submetidos. É claro que ele condena a crueldade e os maus-tratos, e os senhores que são claramente maus, mas em certo aspecto ele deixa a entender que são todos vítimas de um sistema sem sentido que foi passado de geração a geração.

“Não é culpa do proprietário de escravos se ele é cruel; antes, é culpa do sistema no qual ele vive. Ele não consegue se opor à influência do hábito e das relações que o cercam. Ensinado desde a mais tenra idade por tudo o que vê e ouve que a vara foi feita para as costas do escravo, na idade madura não consegue mudar de opinião.”

Isso foi realmente uma das coisas que mais me fez refletir: como um homem que está sob a subordinação forçada de outro pode não condená-lo inteiramente? Isso mostra como nós temos a (in)feliz capacidade de se adaptar. Nós nos adaptamos ao sistema. Isso muitas vezes pode tornar as coisas suportáveis. Mas ao mesmo tempo, pode impedir que mudemos as coisas ao nosso redor. Acho que essa acabou sendo a grande questão para Solomon: não começar a acreditar que aquilo tudo era natural e que não havia meios de mudar sua condição, apesar de todas as tentativas frustradas que tivera até a sua libertação.

“Além disso, de ter uma inteligência igual à de pelo menos muitos homens de pele mais clara, eu era ignorante demais, talvez independente demais, para entender como alguém poderia se contentar em viver na condição abjeta de escravo.”

Ironicamente, Salomon Northup que era um homem livre no estado de Nova York foi sequestrado e acorrentado enquanto fazia uma viagem a Washington, a capital americana. No livro ele descreve essa ironia, a de que no próprio lugar em que era torturado podia avistar o Capitólio, o centro legislativo de sua nação:

“As vozes de representantes patrióticos enchendo a boca para falar de liberdade e igualdade e o clangor das correntes dos pobres escravos quase se mesclavam. Uma casa de escravos sob a sombra do Capitólio!”

“Então passamos, algemados e em silêncio, pelas ruas de Washington, atravessando a capital de uma nação cuja teoria de governo, dizem, repousa sobre a fundação do direito inalienável de qualquer homem à vida, à LIBERDADE e à busca da felicidade! Ave! Colúmbia, que terra feliz de fato!”

Sobre a crueldade dos homens que o açoitavam ele diz:

“Um homem com uma centelha de misericórdia na alma não espancaria nem mesmo um cachorro dessa forma cruel.”

Em determinado momento, Solomon passa a ser escravo de William Ford um pastor batista e é justamente com relação a ele que Solomon parece demonstrar até afeição. Em determinado momento ele faz uma análise psicológica dessa pessoa, brilhantemente escrita no texto abaixo. Análise esta que, acredito, pode ser estendida a muitos outros cristãos:

“… e nada mais faço senão justiça quando digo que, em minha opinião, nunca houve um cristão mais gentil, nobre, cândido do que William Ford. As influências e relações que sempre o cercaram o cegaram para o erro fundamental que está na base do sistema de escravidão. Ele nunca questionou o direito moral de um homem fazer de outro homem seu escravo. Olhando através das mesmas lentes que seu pai antes dele, via as coisas na mesma luz. Crescido em circunstâncias diferentes e sob outras influências, suas ideias sem dúvida teriam sido outras.”

Ainda que seja possivelmente uma verdade, é impressionante que um escravo tenha tal entedimento de seu senhor.

Em determinadas partes do livro, o terror vivido por Solomon é tão grande que podemos fazer um paralelismo com o livro de Jó. Veja a semelhança entre os textos:

“Por que eu não havia morrido em meus primeiros anos – antes que Deus me desse filhos para amar e pelos quais viver?”

“Por que não morri ao nascer, e não pereci quando saí do ventre? Por que houve joelhos para me receberem e seios para me amamentarem?” Trecho do livro de Jó 3.11-12

Há diversos personagens detalhados no livro com histórias impressionantes também. E é impressionante a tristeza que os cerca. Solomon teve sucesso em descrever como a escravidão é capaz de podar e destruir talentos, e como são moldados e destruídos por esse sistema vil. É o caso de Eliza e o caso de Patsey (personagem que deu o Oscar de atriz codjuvante a Lupita Nyong´o). Veja como ele a descreve:

“Havia algo de imponente em seus movimentos, que nem o trabalho pesado nem a exaustão nem a punição conseguiam destruir. Na verdade, ela era um animal esplêndido, e, se a escravidão não houvesse amortalhado seu intelecto em uma escuridão absoluta e permanente, seria líder de seu povo.”

Posteriormente ele diz:

“Ainda assim uma luz fraca jogava seus raios sobre seu intelecto, de forma que não era totalmente obscurecido. Patsey tinha alguma percepção de Deus e da eternidade, e uma percepção menor de um Salvador que morrera por causa até mesmo de pessoas como ela.”

A relação dos escravos com a religião e a forma como muitas vezes os senhores a utilizam como justificativa para seus atos é bem demonstrada no livro e no filme. Ainda assim, percebe-se claramente que Solomon tem boa parte da sua esperança de redenção apoiado na sua fé. Mostra-se isso na sua oração, nos seus cânticos, e também na sua crença de que justiça seria feita à tanta maldade:

“…sim, ele nos deixaria a todos mais quentes do que o reino de chamas no qual às vezes tendo a acreditar que ele próprio algum dia morará.”

“… um tribunal humano permitiu que ele escapasse; mas há outro tribunal, e mais alto, onde o falso testemunho não triunfa e onde estou disposto, pelo menos no que diz respeito a essas declarações, a ser enfim julgado.”

Ao final, ele dá uma impressionante conclusão:

“Não tenho comentários a fazer sobre o tema da Escravidão. Quem ler este livro poderá formar sua própria opinião sobre essa “peculiar instituição”...Isto não é uma ficção, nenhum exagero. Se falhei em algo, foi ao apresentar ao leitor de forma exagerada o lado positivo de tudo.”

Pois bem, vale a pena ler o livro “12 anos de escravidão”, mesmo aqueles que já viram o filme, ganhador do Oscar de 2013, pois é interessante perceber as diferenças e fazer essa análise de tudo, através dos olhos de um homem que vivenciou tal horror. É impressionante percebermos que o único animal racional deste planeta, seja capaz de tal feito com outro de sua própria espécie. E o mais importante, que possamos entender a partir disso os nossos dias atuais, e não nos deixemos cegar pelo sistema, como aconteceu a Willian Ford, mas que estejamos sempre atentos ao sofrimento e contrários à crueldade ao nosso redor.

12 anos

Ps: Para aqueles que se confundiram ou se escandalizaram com o texto bíblico utilizado no filme pelos senhores de escravos para justificar os açoites aos escravos (Lucas 12), primeiramente, o texto traz uma descrição da realidade da época, justamente para fazer uma comparação na parábola, segundo, não serve de base para justificar a escravidão ou o açoite. Se nos lembrarmos bem, a escravidão vigorava durante o início do período cristão, e era algo normal, mas o apóstolo Paulo, com a carta de Filemon, nos deixa bem claro qual deve ser a nova postura do cristão diante desta prática, ao recomendar que Filemon receba o ex-escravo foragido, agora como um irmão, assim como ele próprio o considerava:

“Talvez ele tenha sido separado de você por algum tempo, para que você o tivesse de volta para sempre, não mais como escravo, mas, acima de escravo, como irmão amado. Para mim ele é um irmão muito amado, e ainda mais para você, tanto como pessoa quanto como cristão“. Fm 1.15-16

Há muitas recomendações para servos e senhores na Bíblia. Mas em nenhuma delas se vê base para suportar um sistema de depreciação e degradação humana (Ef 6; Cl 3 e 4 entre outras).