Cinema | Resenha: “A Teoria de Tudo” – A vida de Stephen Hawking

poster a teoria de tudo

Contém “spoilers” do filme “A Teoria de Tudo” (The Theory of Everything – 2014)

“A teoria de tudo” trata da vida do famoso cientista Stephen Hawking, especialmente em seu aspecto pessoal, visto que é baseado no livro escrito por sua primeira esposa, e mãe de seus três filhos, Jane Wilde (interpretada no filme por Felicity Jones). É claro que o filme também mostra um pouco de sua vida acadêmica, em especial as teses que defendeu a respeito do espaço e tempo. Mas, ao meu ver, o filme fica devendo um pouco quando trata das verdadeiras contribuições científicas do Dr. Hawking, e não foi tão feliz em caracterizar seu pensamento, como foi por exemplo o filme “Uma mente brilhante”, que trata da vida do matemático John Nash.

No entanto, no aspecto pessoal, o filme é bem interessante, e apesar de ter o viés da literatura de Jane Wilde, não se vê problema em mostrar as dificuldades e até mesmo as fraquezas de um e de outro personagem. Vale ressaltar a impressionante atuação de Eddie Redmayne interpretando Stephen Hawking. Esse ator já ganhou o Bafta por esta atuação e concorre ao Oscar. Ele, além de ser fisicamente muito parecido com Stephen Hawking, consegue encenar todo a evolução de sua doença (Esclerose Lateral Amiotrófica) de forma marcante. Em alguns momentos parecer ser o próprio Hawkings interpretando.

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Eddie Redmayne e Stephen Hawking juntos na estreia do filme “A Teoria de Tudo”

“A teoria de tudo” foca em dois aspectos importantes na vida pessoal de Stephen Hawking: sua relação com o tempo, e sua relação (ou não relação) com Deus. Stephen Hawking, como cosmologista, sempre estudou as relação do espaço e tempo, os buracos negros e singularidades. Uma de suas principais teorias, tem o intuito de provar que o espaço e o tempo tiveram um início, assim como o universo se mantém em expansão. Essa relação com o tempo, é interessante, pois a Esclerose Lateral Amiotrófica é uma doença até hoje sem cura, cuja expectativa de vida é de 2 a 3 anos. Hawking convive com a doença há mais de 30 anos. Nesse tempo, teve filhos, viu-os crescer, continuou estudando, escreveu livros e viu-se tornar o cientista mais famoso de nossa época. Muita coisa para quem não tinha muito tempo de vida.

Já a sua relação com Deus, permanece obscura. Na verdade, Stephen Hawking se declara ateu, mas ele admite que algumas teorias, em especial a que trata do início do universo e da existência, suportam a existência de Deus. Mas ao mesmo tempo, ele refuta essa existência com outras teorias e ideias. Nos livros dele (em breve gostaria de fazer uma resenha sobre “O universo em uma casca de noz”, livro que li há algum tempo), percebemos essa dualidade, além do maravilhoso senso de humor que ele possui e que é bastante mostrado no filme.

O clímax do filme se dá justamente quando em uma entrevista ele é questionado sobre o seu ateísmo, e pergunta-se se há alguma filosofia ou ideia que lhe traz conforto. Nesse momento vemos Stephen se levantando e andando como em um milagre, mostrando que talvez, lá no fundo, Stephen Hawking ainda espera um grande milagre da existência que irá libertá-lo de sua condição. Na sequencia deste “delírio”, ele responde:

“É claro que somos apenas primatas evoluídos, vivendo em um planeta pequeno que orbita uma estrela comum, localizada no subúrbio de uma de bilhões de galáxias. Mas, …

… desde o começo da civilização, as pessoas tentam entender a ordem fundamental do mundo. Deve haver algo muito especial sobre os limites do universo. E o que pode ser mais especial do que não haver limites? Não deve haver limites para o esforço humano. Somos todos diferentes. Por pior que a vida possa parecer, sempre há algo que podemos fazer em que podemos obter sucesso. Enquanto houver vida, haverá esperança.

Stephen entende que há algo muito especial, além dos limites de nosso entendimento. Sua posição é acreditar naquilo que as teorias e os estudos lhe dão, e nenhuma teoria ou pensamento científico é capaz de provar (ou desprovar) a existência de Deus. Por isso, o ateísmo. Mas ele admite, que enquanto houver vida, há esperança, de sermos resgatados de uma realidade física tão insignificante, com corpos tão frágeis, doentes ou não, no planeta pequeno que orbita essa estrela comum, no subúrbio de uma galáxia (nessa mesma linha de pensamento, leia o post “O pálido ponto azul”, publicado neste blog alguns meses atrás).

Stephen Hawking é um exemplo magnífico de uma pessoa que, apesar de todas as dificuldades impostas, conseguiu obter extremo sucesso em sua vida. É o exemplo clássico para aquela passagem em João, capítulo 9, em que perguntam para Jesus quem havia pecado, para que o homem em questão fosse cego. E Jesus responde: “Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus.“. Ora, digam-me se não é ao menos supreendente, que a maior mente de nosso tempo, esteja “encarcerada” em um corpo debilitado, incapaz até mesmo de falar. E como esse ser incapaz de falar é a maior voz da ciência atual. Veja se isso não é uma espécie de milagre.

Enquanto houver vida, haverá esperança. Não há homem que em algum aspecto de sua vida, não esteja debilitado, atrelado a uma cadeira de rodas. E ao mesmo tempo, não há homem que não sonhe com o momento em que se libertará dessas limitações e desses sofrimentos, e poderá ser realmente pleno. Stephen Hawking sonha com essa plenitude. E todos nós também. Devo dizer, que a partir daqui, entra a questão da?

“E, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus.” Efésios 3.17-19

“Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia, porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.” Colossenses 1.15-20

stephen hawking

A altivez da detenção da verdade

A Altivez da Detenção da Verdade

Hoje fui ao banco. Sim ainda há pessoas que vão ao banco e, acredite, ainda há pessoas nas filas dos bancos. Precisei ir porque deixei uma conta vencer. Em geral isso seria uma experiência comum e sem valor, exceto monetário (essa foi péssima…), mas algo diferente aconteceu. Um senhor que estava na fila, logo atrás de mim, começou a conversar comigo.

Não me lembro bem como a conversa começou, mas o assunto se iniciou em uma discussão sobre bancos, em como um de nossos ex-presidentes faliu o Banespa, entregando-os nas mãos de sua amante (palavras dele, por favor hein…) e também o Banco Nacional. Depois de alguma forma falou sobre o Chelsea e em como o dono deste time enriqueceu à base de vendas de bombas atômicas da antiga União Soviética (!).

Até então tudo bem, eu ouvia, interagindo e, de certo modo, até mesmo interessado no conhecimento (ou não), que o cidadão tinha a passar (até porque não tinha muito pra fazer ali). Mas de alguma forma o padrão de afirmativas começou a deteriorar de tal forma, que em algum momento ele chegou a enaltecer Hitler (prefiro entender que foi ironicamente, com o objetivo de justificar a crítica que faria ao estado de Israel) e afirmou, como o detentor de toda a sabedoria do mundo, que Israel mantinha campos de concentração na faixa de Gaza. Ao entrar no campo “religião”, afirmou categoricamente serem o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, ramificações da mesma mentira.

O pior, foi a justificativa para isso. “Aqueles grupos tribais eram um monte de analfabetos… O pessoal começou a escrevê-los 500 anos atrás. Olha só: até a mãe da rainha Elizabeth, a atual, era analfabeta…”.

Logicamente, a esta altura, já o estava contrariando em tudo o que dizia. Não me identifiquei como cristão, ou evangélico. Mas falei que ele dizer aquilo era absurdo, que ele desvalorizava o valor da cultura antiga, que existiam os escribas que eram responsáveis pela notação e escrita e que, na época de Esdras por exemplo, (não citei o nome Esdras), os hebreus tinham até mesmo notação musical, para o registro dos salmos, muitos deles lidos até hoje em nossas igrejas.

A conversa terminou com o senhor elaborando diversas afirmativas a respeito da Bispa Sônia que, pra não me alongar, não citarei aqui (não estou defendendo a bispa, mas claramente muitas das coisas eram provavelmente mentiras) e aí, finalmente, fui chamado ao caixa.

Você pode estar se perguntando porque estou escrevendo a respeito desta conversa, mas o que me chama atenção aqui é algo que vem contaminando boa parte das pessoas, seja na vida pessoal, nas igrejas, nas escolas e, principalmente, na internet, lugar onde pode-se dizer o que quiser quando quiser: a detenção da verdade.

Sim, diversas pessoas se consideram detentoras da verdade. Muitas vezes a pessoa não  sabe nada sobre um assunto, ou pior, sabe um pouco ou até bastante (mas não o suficiente), e toma algo por verdade, e faz questão de espalhar a sua verdade a todo o resto de uma “população ignorante” que, diferente dele, não percebe claramente a realidade a sua volta.

Hoje eu vejo isso o tempo todo. Vejo diversos ateus se considerando os “donos da verdade” e dizendo como cristãos de todo mundo podem acreditar nessa “bobagem” da Bíblia e, pior, como são cordeirinhos manipulados por crápulas sedentos de dízimos e ofertas.

Mas não vou ser imparcial. Essa atitude de ateus de todo o mundo também é uma represália a milhares de cristãos que fazem o mesmo há tanto tempo. Tudo o que importa sou eu, que oro e vou à igreja todos os domingos. Os outros são todos ignorantes que merecem queimar no fogo eterno para todo o sempre.

Querido leitor: é exatamente isso que eu quero deixar bem longe deste blog e de nossas discussões: a altivez da detenção da verdade. Nós somos cristãos, e claro, entendemos que o que acreditamos é a verdade e também acreditamos que esta verdade é a nossa libertação (Jesus Cristo, o caminho, a verdade e a vida). Mas não podemos nos considerar acima dos que não acreditam nisso e cairmos no erro da altivez e da ignorância da detenção da verdade.

Nós cremos, pela fé e pela razão. Por isso discutimos e estudamos Teologia. Para dar razão a nossa crença. Mas pode ser que muitas pessoas jamais acreditem naquilo que acreditamos. E muitas vezes não vai adiantar falar, provar, discutir ou, principalmente, brigar, porque a base de qualquer religião, e principalmente do cristianismo, é a fé. E fé, só depende de cada pessoa.

Portanto, o mais importante aqui é: não caiamos no erro de ridicularizar outras pessoas, sejam ateias ou seguidores de outras religiões, principalmente sem ouvir ou entender o que creêm. Não saiamos por aí distribuindo afirmações infundadas ou até mesmo agressivas sobre outros pensamentos. Eu, sempre estou disposto a falar sobre o que creio. Mas se estou disposto a falar, o mínimo que se espera, é que esteja disposto a ouvir. Cada pessoa crê no que quer, mesmo que isso pareça ridículo para você. Se Deus deu o livre arbítrio e o livre pensamento, quem somos nós para condenar alguém?

Nós cremos não só porque a nossa crença faz sentido em nossas cabeças, mas, principalmente, porque nossa fé de alguma forma mudou algo em nossos corações, em nossas mentes, em nosso ser. É por isso que pregamos o evangelho. Mas se isto serve para vivermos em uma guerra de quem é o ignorante ou quem é o verdadeiro detentor da verdade universal, há algo errado aí.

Não sejamos ignorantes. Não caiamos na altivez da detenção da verdade.

“Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo”. Filipenses2.3