A altivez da detenção da verdade

A Altivez da Detenção da Verdade

Hoje fui ao banco. Sim ainda há pessoas que vão ao banco e, acredite, ainda há pessoas nas filas dos bancos. Precisei ir porque deixei uma conta vencer. Em geral isso seria uma experiência comum e sem valor, exceto monetário (essa foi péssima…), mas algo diferente aconteceu. Um senhor que estava na fila, logo atrás de mim, começou a conversar comigo.

Não me lembro bem como a conversa começou, mas o assunto se iniciou em uma discussão sobre bancos, em como um de nossos ex-presidentes faliu o Banespa, entregando-os nas mãos de sua amante (palavras dele, por favor hein…) e também o Banco Nacional. Depois de alguma forma falou sobre o Chelsea e em como o dono deste time enriqueceu à base de vendas de bombas atômicas da antiga União Soviética (!).

Até então tudo bem, eu ouvia, interagindo e, de certo modo, até mesmo interessado no conhecimento (ou não), que o cidadão tinha a passar (até porque não tinha muito pra fazer ali). Mas de alguma forma o padrão de afirmativas começou a deteriorar de tal forma, que em algum momento ele chegou a enaltecer Hitler (prefiro entender que foi ironicamente, com o objetivo de justificar a crítica que faria ao estado de Israel) e afirmou, como o detentor de toda a sabedoria do mundo, que Israel mantinha campos de concentração na faixa de Gaza. Ao entrar no campo “religião”, afirmou categoricamente serem o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, ramificações da mesma mentira.

O pior, foi a justificativa para isso. “Aqueles grupos tribais eram um monte de analfabetos… O pessoal começou a escrevê-los 500 anos atrás. Olha só: até a mãe da rainha Elizabeth, a atual, era analfabeta…”.

Logicamente, a esta altura, já o estava contrariando em tudo o que dizia. Não me identifiquei como cristão, ou evangélico. Mas falei que ele dizer aquilo era absurdo, que ele desvalorizava o valor da cultura antiga, que existiam os escribas que eram responsáveis pela notação e escrita e que, na época de Esdras por exemplo, (não citei o nome Esdras), os hebreus tinham até mesmo notação musical, para o registro dos salmos, muitos deles lidos até hoje em nossas igrejas.

A conversa terminou com o senhor elaborando diversas afirmativas a respeito da Bispa Sônia que, pra não me alongar, não citarei aqui (não estou defendendo a bispa, mas claramente muitas das coisas eram provavelmente mentiras) e aí, finalmente, fui chamado ao caixa.

Você pode estar se perguntando porque estou escrevendo a respeito desta conversa, mas o que me chama atenção aqui é algo que vem contaminando boa parte das pessoas, seja na vida pessoal, nas igrejas, nas escolas e, principalmente, na internet, lugar onde pode-se dizer o que quiser quando quiser: a detenção da verdade.

Sim, diversas pessoas se consideram detentoras da verdade. Muitas vezes a pessoa não  sabe nada sobre um assunto, ou pior, sabe um pouco ou até bastante (mas não o suficiente), e toma algo por verdade, e faz questão de espalhar a sua verdade a todo o resto de uma “população ignorante” que, diferente dele, não percebe claramente a realidade a sua volta.

Hoje eu vejo isso o tempo todo. Vejo diversos ateus se considerando os “donos da verdade” e dizendo como cristãos de todo mundo podem acreditar nessa “bobagem” da Bíblia e, pior, como são cordeirinhos manipulados por crápulas sedentos de dízimos e ofertas.

Mas não vou ser imparcial. Essa atitude de ateus de todo o mundo também é uma represália a milhares de cristãos que fazem o mesmo há tanto tempo. Tudo o que importa sou eu, que oro e vou à igreja todos os domingos. Os outros são todos ignorantes que merecem queimar no fogo eterno para todo o sempre.

Querido leitor: é exatamente isso que eu quero deixar bem longe deste blog e de nossas discussões: a altivez da detenção da verdade. Nós somos cristãos, e claro, entendemos que o que acreditamos é a verdade e também acreditamos que esta verdade é a nossa libertação (Jesus Cristo, o caminho, a verdade e a vida). Mas não podemos nos considerar acima dos que não acreditam nisso e cairmos no erro da altivez e da ignorância da detenção da verdade.

Nós cremos, pela fé e pela razão. Por isso discutimos e estudamos Teologia. Para dar razão a nossa crença. Mas pode ser que muitas pessoas jamais acreditem naquilo que acreditamos. E muitas vezes não vai adiantar falar, provar, discutir ou, principalmente, brigar, porque a base de qualquer religião, e principalmente do cristianismo, é a fé. E fé, só depende de cada pessoa.

Portanto, o mais importante aqui é: não caiamos no erro de ridicularizar outras pessoas, sejam ateias ou seguidores de outras religiões, principalmente sem ouvir ou entender o que creêm. Não saiamos por aí distribuindo afirmações infundadas ou até mesmo agressivas sobre outros pensamentos. Eu, sempre estou disposto a falar sobre o que creio. Mas se estou disposto a falar, o mínimo que se espera, é que esteja disposto a ouvir. Cada pessoa crê no que quer, mesmo que isso pareça ridículo para você. Se Deus deu o livre arbítrio e o livre pensamento, quem somos nós para condenar alguém?

Nós cremos não só porque a nossa crença faz sentido em nossas cabeças, mas, principalmente, porque nossa fé de alguma forma mudou algo em nossos corações, em nossas mentes, em nosso ser. É por isso que pregamos o evangelho. Mas se isto serve para vivermos em uma guerra de quem é o ignorante ou quem é o verdadeiro detentor da verdade universal, há algo errado aí.

Não sejamos ignorantes. Não caiamos na altivez da detenção da verdade.

“Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo”. Filipenses2.3