Literatura | “O Alienista” de Machado de Assis.

“A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.”

Trecho de “O Alienista”

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Essa semana trago a obra “O Alienista” de Machado de Assis para análise e discussão. Acredito que essa obra muito tem a ver com o enfoque deste site, visto que propõe-se a enxergar a loucura de certo ponto de vista, no caso, o da ciência no final do século XIX. A ideia do livro não é, como veremos adiante, discutir sobre a “loucura” em si, mas, na verdade, abordar a “loucura” existente em tentar desvendar a “loucura”.

Isso atinge diretamente a ideologia cristã, pois o que é a loucura afinal, no momento em que a própria “mensagem da cruz é loucura para os que estão no mundo” (1Co1.18), ou ainda que “a sabedoria deste mundo é loucura aos olhos de Deus” (1Co3.19)? Vamos em frente então:

Resumo da história

“O Alienista” de Machado de Assis, é mais um dos clássicos da literatura brasileira. Existe um debate entre os especialistas se seria “O Alienista” um conto ou um romance curto. No entanto, parece haver pequena vantagem para o grupo que o considera um romance devido à sua estrutura narrativa. Foi publicado em 1882, já no auge da carreira de Machado e em sua fase realista, iniciada no ano anterior com a publicação de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.

O livro, que hoje conta com diversas publicações e adaptações, incluindo audiolivros e graphic novels, traz a história de Simão Bacamarte, “filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas” após seu regresso ao Brasil e sua escolha de Itaguaí como cidade.

A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo. Dito isso, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas.”

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O Alienista e suas diversas publicações, incluindo livros, audiolivro e graphic novels

Tudo referente à vida pessoal deste personagem é bastante conciso. Fato é que, a paixão pela ciência e, porque não, os próprios acontecimentos da vida, como a impossibilidade de ter filhos, fizeram-lhe por “mergulhar inteiramente no estudo e na prática da medicina”, e especificamente de seu “recanto psíquico”.

“A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico”.

Dessa forma, Simão Bacamarte decide pela criação de uma casa para “agasalhar e tratar todos os loucos de Itaguaí”. Um hospício. E aqui vemos o início das ironias tipicamente machadianas:

“Começou logo a construir a casa. Era na Rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí naquele tempo; tinha cinqüenta janelas por lado, um pátio no centro, e numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A idéia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII.”

Fato é que a casa foi construída, e aos poucos os “loucos” foram sendo introduzidos à esta. Com o tempo a casa foi-se enchendo de pessoas cada vezes mais consideradas “normais” pela sociedade, de forma que em seu auge, a casa acolheria quatro quintos da população de Itaguaí. Isso gera uma revolta na sociedade, ao passo que o próprio analista com base na “análise científica” percebe que seus métodos não podem estar corretos, liberando os internados. Dessa forma ele entende que os “loucos” não poderiam ser todos aqueles em que havia algum desequilíbrio das faculdades mentais, mas sim, o contrário, aqueles em que esse equilíbrio fosse pleno.

“De fato o alienista oficiara à Câmara expondo: — 1′: que verificara das estatísticas da vila e da Casa Verde que quatro quintos da população estavam aposentados naquele estabelecimento; 2° que esta deslocação de população levara-o a examinar os fundamentos da sua teoria das moléstias cerebrais, teoria que excluía da razão todos os casos em que o equilíbrio das faculdades não fosse perfeito e absoluto; 3° que, desse exame e do fato estatístico, resultara para ele a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto, que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto.

Dessa forma, a “Casa Verde” passa a agregar estes em que o equilíbrio lhe parecera perfeito. O mais interessante foi a forma utilizada pelo médico para “curar” a estes: o objetivo era justamente atacar onde estivesse “a perfeição moral dessa pessoa”!

Em um ano e meio, Simão Bacamarte obteve total sucesso de sua experiência. Mas isso não foi suficiente para apaziguar sua “alma científica”. Não. Uma nova teoria surgiria:

“Mas deveras estariam eles doidos, e foram curados por mim, ou o que pareceu cura não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro? E cavando por aí abaixo, eis o resultado a que chegou: os cérebros bem organizados que ele acabava de curar, eram desequilibrados como os outros. Sim, dizia ele consigo, eu não posso ter a pretensão de haver-lhes incutido um sentimento ou uma faculdade nova; uma e outra coisa existiam no estado latente, mas existiam.”

No entanto, ao concluir que em Itaguaí não haveria sequer um “mentecapto”, Simão Bacamarte entra em um novo dilema moral que só se solucionaria ao entender que achava em si as características do perfeito equilíbrio mental e moral. Sendo assim, seria o “alienista” o único “alienado” de toda a cidade, o que o levou a internar-se a si mesmo na “Casa Verde”.

Análise

Posso estar errado, mas percebo que havia no final do século XIX um certo encanto pela ciência e a razão, provavelmente advindo das ideias iluministas, que fazia as pessoas acreditarem que ainda criar-se-ia uma medicação, ou uma solução que pusesse fim aos principais males da humanidade. Esta ideia está presente em “Memórias Póstumas”, com o “Emplastro Brás Cubas” e está presente em “O Alienista”, como percebe-se no texto que se segue:

“O principal, nesta minha obra da Casa Verde, é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa dos fenômenos e o remédio universal”.

Podemos ver essa ideia presente na ciência da época. Sigmund Freud ao criar a psicanálise tinha ideias semelhantes. Tanto que na época pensou-se ser a cocaína, uma grande medicação em combate à depressão e estados melancólicos. O próprio Freud submeteu-se a uma cirurgia nasal que suspostamente tratava “neurose nasal reflexa”, com Wilhelm Fliess, acreditando que isso o deixaria “imune” a tal acometimento.

O objetivo de Machado de Assis, em “O Alienista”, não é analisar a “loucura” em si, mas através desta fazer uma análise crítica ao papel e à crescente importância que a ciência teria adquirido nesta época. Não que o livro seja contrário à ciência, muito menos às suas técnicas. Mas o que ele ilustra é justamente a possível “loucura” que uma “ditadura” da ciência pode levar. Segundo Gomes, R.*, o que interessa a Machado é “a grande loucura cientificista e positivista, que implica na busca dos limites entre razão e desrazão” e ainda “Aquilo de que se fala, portanto, é deste saber que, pretendendo esgotar – de forma objetiva e rigorosa – o conhecimento a respeito da mente humana, apoia-se numa pretensão de conhecimento total do mundo e, portanto, se destina ao fracasso.

“Por isso me esforcei para compreender a sabedoria, bem como a loucura e a insensatez, mas aprendi que isso também é correr atrás do vento.” Eclesiastes 1.17

Além disso, como colocamos na introdução desta resenha, o grande objetivo para nós passa a ser a fatídica pergunta: “o que é loucura, afinal?”. Considerem o alienista: médico com formação e reconhecimento em Portugal e Espanha, um homem dedicado à ciência e extremamente rigoroso com seu método, tem que mudar seu conceito e entendimento da loucura por diversas vezes para satisfazer seu conhecimento. Claro que falamos de um texto fictício, quase uma paródia. Mas o limite entre a normalidade e a insanidade é uma questão complexa mesmo para a psiquiatria atual. Da mesma forma, a Bíblia trabalha esse conceito ao comparar a fé à sabedoria do mundo, que à época de Paulo alcançava alto patamar com a razão e a filosofia grega e o helenismo. Para estes (os estudiosos gregos), crer na morte e ressurreição do filho de Deus só poderia ser uma loucura.

Não tenho a pretensão neste texto de chegar a uma resposta à pergunta citada acima. Não, isso seria cair no erro do alienista. Deixo tal embate para a própria ciência a qual sou apaixonado: a psiquiatria. No entanto, posso formular algumas assertivas: É loucura crer ignorando a razão. Mas loucura ainda maior é crer que a razão tudo pode discernir. Pois afinal, “quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo”?

“Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente…Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo.” 1Co 2.14,16

“Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana, agradou a Deus salvar aqueles que crêem por meio da loucura da pregação.” 1Co 1.21

*Gomes, R., autor de “O Alienista, loucura, poder e ciência”, artigo publicado em Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 5 (1-2):145-160, 1993 (editado em nov. 1994) e disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ts/v5n1-2/0103-2070-ts-05-02-0145.pdf

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Cinema | Resenha: “Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância”

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Contém “spoilers” do filme “Birdman ou a Inesperada Virtude da Ignorância” e do conto “Um homem célebre” de Machado de Assis.

Essa semana assisti a um dos filmes favoritos ao Oscar 2015: “Birdman ou a Inesperada Virtude da Ignorância”. Dirigido e produzido por Alejandro Iñárritu, é um filme muito original e cheio de metalinguagem, que conta a história de Riggan Thomson (Michael Keaton) um ator que no passado fez muito sucesso interpretando um superherói (Birdman) e que agora decide realizar uma peça na Broadway, em busca de um novo caminho e reconhecimento na carreira.

Primeira coisa a se destacar: o elenco. Michael Keaton, Edward Norton, Naomi Watts, Emma Stone, Zach Galifianakis. Ótimo elenco. Mas apesar do ótimo elenco, e das ótimas atuações, cada um em seu arquétipo do show business americano, o filme (olha a metalinguagem aí) é de um só: Michael Keaton, provavelmente no melhor papel de sua carreira.

É impressionante como o papel caiu como uma luva nas mãos deste ator que, na vida real, possui muitas semelhanças com o personagem: MIchael Keaton foi o primeiro “Batman” no cinema, no filme de Tim Burton, e depois de certo tempo, caiu no ostracismo. Tinha voltado recentemente no novo “Robocop”, o filme do Padilha, mas acredito que este filme é sua real volta ao cinema, e que o consagra como ator.

Com relação aos aspectos técnicos do filme: Iñarritu realmente se superou. A edição parece como um plano sequencia longo e contínuo, sem cortes, algo raro e muito difícil de se fazer. Em uma entrevista, Iñarritu afirmou que usar uma tomada para o filme faria o protagonista estar em “uma realidade incontornável” e levaria o público a esse sentimento. Fora isso, as transições, tomando uma mesma imagem e transformando-a, as alucinações do protagonista, que se confundem com a realidade, e a fotografia (por conta de Emanuel Lubezki, o mesmo de Gravidade, filme de outro diretor mexicano, Alfonso Cuarón), tudo isso contribui para esse sentimento a que o diretor se refere. E a trilha sonora, com a bateria descompassada, tocando o tempo todo? Simplesmente demais. O baterista Antonio Sanchez desenvolvia a música, percebendo o ritmo da cena.

Assistindo ao filme, um conto de Machado de Assis me veio imediatamente à mente: “Um homem célebre”, presente no livro “Várias Histórias”. O livro conta a história de Pestana, um célebre compositor de “polcas”, que queria muito compor uma obra maior, uma ópera, ou um concerto, algo que não fosse tão popular quanto as suas polcas, e que o tornaria realmente célebre e bem conceituado. O conflito de Riggan Thomson no filme é exatamente esse: ele deseja se livrar do estigma de um ator popular, famoso por ter interpretado um superherói, e quer se tornar um ator e diretor conceituado.

Ao longo do processo (e no filme, acompanhamos apenas os dias mais próximos à estreia da peça), Thomson vai encontrando diversas dificuldades, assim, como Pestana na criação de sua grande obra, ao ponto de começar a questionar sua capacidade como ator e diretor, ao mesmo tempo que começa a reabraçar a sua realidade como Birdman, assim como Pestana, acaba tendo que reabraçar sua realidade como compositor de polcas.

Um ponto-chave no filme é a conversa que Thomson tem com uma crítica famosa do New York Times, que acaba sendo um apontamento a todos os críticos e a todas as agremiações de cinema, que por trás da segurança da tela de seus computadores, destroem carreiras, peças ou filmes sem pestanejar. Considere que este filme é o favorito ao Oscar deste ano, e Michael Keaton, já tanto criticado, é um dos indicados a melhor ator (já ganhou o Globo de Ouro). Mais uma vez, olha a metalinguagem aí, e me diga se a vida não imita a arte.

Fato é que quando Thomson se liberta desse estigma, e assume sua realidade como ator, independente de rótulos, ele alcança uma interpretação digna de nota, e ao mesmo tempo, muito próxima à loucura e, como seu personagem na peça em que interpreta, chega a atirar (de verdade) contra si mesmo. O final, não poderia ser outro. No hospital, o agora Birdman, resolve se juntar aos pássaros que viu ao céu, e voar, literalmente, para a liberdade.

O filme é muito feliz em trabalhar o conflito de Riggan Thomson. E ao final, dá-se o tom de realidade e fantasia, sempre misturados ao longo do filme. Por isso, o final só pode ser entendido dentro da metáfora assumida no filme. Ao assumir a “ignorância” e não se importar com o conceitual, ou com o intelectual, ele se torna livre. E a liberdade o torna um virtuose, cheio de habilidades.

Até mesmo o título do filme, e sua duplicidade, dão o tom da trama e da metalinguagem envolvida: “Birdman ou A inesperada virtude da Ignorância”. “Birdman”, é título popular, de blockbuster. “A inesperada virtude da Ignorância” é título de filme conceituado e intelectual. Mas independente de popular ou conceitual, este é um só filme que traz por meio dos bastidores da atuação, um conflito que é muito humano: o que fazer para ser lembrado ou respeitado.

Essa duplicidade e este conflito me lembram a Parábola do Publicano e do Fariseu, descrita em Lucas capítulo 18, a partir do versículo 10: o fariseu buscava o conceito e o respeito dos outros ao seu redor, por isso orava alto, anunciando suas benfeitorias. O publicano, por sua vez, orava longe e batia no peito, pedindo perdão por seus pecados. Jesus demonstra que a verdadeira virtude estava na ignorância do publicano e não na intelectualidade e proselitismo do fariseu.

Ora, é normal buscarmos o respeito e a lembrança alheia. Esse é um desejo normal, mas não podemos nos deixar dominar por ele. Pode-se dizer que quando esse passa a ser nosso único objetivo, nos tornamos egoístas e solitários, como os personagens do filme “Birdman”. E quando o que os outros vêem e pensam sobre nós se torna nossa maior preocupação, nos tornamos como os fariseus dos tempos de Jesus, que viviam para mostrar aos homens a sua glória.

“Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar: um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho. O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado.” Lc 18.10-14

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Literatura em Mente: Conto “Viver!”, de Machado de Assis

“Os homens têm tal apego à própria miserável vida que aceitam as mais duras condições para conservá-la.” – Montaigne

Machado de Assis provavelmente é o maior nome da literatura nacional. Escritor de enorme reconhecimento, fundador da Academia Brasileira de Letras, escreveu clássicos da literatura nacional como Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Infelizmente, tenho a impressão que, ou por erro nosso, ou infelicidade da nossa querida língua portuguesa, Machado não tem o reconhecimento internacional que merece (e, não fosse pelas leituras obrigatórias de vestibular, talvez não tivesse o nacional também). No entanto, especialmente este ano de 2015 em que o Salão do Livro de Paris escolheu homenagear a literatura brasileira, Machado parece estar ganhando mais espaço internacional.

Apesar de ser um dos mais famosos romancistas brasileiros, alguns críticos defendem que é como contista que Machado atinge seu ápice artístico. E entre os diversos contos escritos por ele, separo especialmente o conto “Viver!” para uma breve discussão. Se você ainda não leu este conto, aconselho que o faça. Tomará no máximo uns 10 a 15 minutos, quando muito. Este conto faz parte da coletânea Várias Histórias, publicada em 1896 e pode ser facilmente encontrado na internet (a obra de Machado já se encontra em domínio público, então pode baixá-la sem peso na consciência).

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Machado de Assis e seu livro “Várias Histórias”, de 1896, onde se encontra o conto “Viver!”, citado no texto

“Viver!” é o relato de um diálogo de Ahasverus, o último homem vivo, no fim dos tempos, com Prometeu, aquele que na mitologia grega teria dado o fogo da vida para os homens. Machado escolhe Ahasverus como o último homem tendo como base a lenda do “Judeu Errante”. Isso é uma história, realmente uma lenda, de origem medieval, na qual um homem judeu, vivendo em Jerusalém à época da crucificação de Cristo, teria sido cruel com este durante a sua via crucis. Como consequencia à sua instigância para que Jesus continuasse a caminhar, ele foi condenado a caminhar até o fim dos tempos, ou seja, não morreria até lá.

“Chego à cláusula dos tempos; este é o limiar da eternidade. A terra está deserta; nenhum outro homem respira o ar da vida. Sou o último; posso morrer. Morrer! Deliciosa idéia! Séculos de séculos vivi, cansado, mortificado, andando sempre, mas ei-los que acabam e vou morrer com eles.”

Como podemos ver, Ahasverus não tem uma visão otimista da vida, claro, e vê na morte o fim de um milenar sofrimento. Em geral, esta é a visão dos escritores realistas sobre a vida e a morte e Machado descreve isso muito bem em sua obra. Ao encontrar-se com Prometeu, Ahasverus continua a descrever a “alegria” de finalmente ter a possibilidade de pôr fim a tanto martírio.

O diálogo dos dois realmente é muito interessante, sendo realmente a riqueza do conto. E Prometeu passa a contra argumentá-lo até que lhe faz uma oferta de continuar a vida e ser o começo de uma nova criação. A ideia, que parecia inicialmente ridícula ao humano, passa, a consumi-lo de forma que, de repente, já está completamente vislumbrado com ela. E mesmo um homem que viveu milênios, passa a se apegar a sua centelha de vida como uma criança que busca o fôlego ao nascer. Ao final do conto, duas águias que circulavam à visão de Ahasverus travam um último diálogo, ao olhar para o homem, dando a entender que tudo aquilo não passava de um delírio de um homem morimbundo, que odiava tanto a vida, justamente porque a amava muito.

“Uma águia. — Ai, ai, ai deste último homem, está morrendo e ainda sonha com a vida. A outra. — Nem ele a odiou tanto, senão porque a amava muito.”

A citação de Montaigne no início do texto, se encaixa muito bem com a moral de “Viver!”. Não existe ser humano que não nasça com essa “sede” de viver!, assim mesmo, com exclamação. E não há homem que não sofra com a possibilidade do fim de sua existência.

Jesus Cristo sabia disso, e não foi à toa que ele chorou à porta da sepultura de Lázaro, entendendo a situação humana, e o ressuscitou, dando esperança a todos nós. Ao morrer não era o fim da existência de Lázaro e Jesus pode provar isso mostrando que é Senhor sobre os céus e sobre a terra, e tem poder para trazer, manter ou salvar toda alma e espírito humano.

Todo homem tem sede de viver, e esse sentimento só pode ser saciado em Cristo Jesus.

“… Eu vim para que tenham vida e a tenham com abundância.” Jo 10.10b
“Aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna.” Jo 4.14