Música em Mente – “Dust in the Wind”

 

Dust In The Wind | Poeira no vento

 

I close my eyes | Eu fecho meus olhos

Only for a moment | Apenas por um momento

And the moment’s gone | E o momento se foi

All my dreams | Todos os meus sonhos

Pass before my eyes, in curiosity | Curiosamente passam diante dos meus olhos

 

Dust in the wind | Poeira ao vento

All we are is dust in the wind | Tudo o que somos é poeira no vento

 

Same old song | A mesma velha música

Just a drop of water in an endless sea | Apenas uma gota d’água em um mar infinito

All we do | Tudo o que fazemos

Crumbles to the ground though we refuse to see | Cai em pedaços embora nós nos recusemos a enxergar

 

Dust in the wind | Poeira ao vento

All we are is dust in the wind | Tudo o que somos é poeira no vento

 

Now, don’t hang on | Agora, não fique esperando

Nothing lasts forever but the earth and sky | Nada dura para sempre, apenas a terra e o céu

It slips away | O tempo foge

And all your money won’t another minute buy | E todo o seu dinheiro não comprará outro minuto

 

Dust in the wind | Poeira ao vento

All we are is dust in the wind | Tudo o que somos é poeira no vento

Dust in the wind | Poeira ao vento

Dust in the wind | Poeira ao vento

Everything is dust in the wind | Tudo isso é poeira no vento

 

Existem algumas bandas e músicas que podem não ser muito conhecidas da maioria das pessoas, mas provavelmente estão no “inconsciente musical coletivo”, quero dizer, é aquela música que você ouve e sabe que já ouviu antes, é capaz até de cantarolá-la. “Dust in the Wind” é provavelmente um desses casos e se você executar a versão abaixo, disponível no youtube, você irá perceber isso.

Digo isso porque recentemente esta música me chamou a atenção enquanto ouvia uma playlist em meu celular. Primeiro pela beleza da melodia e pelo belo solo de violino, mas especialmente pela letra também. Você pode acompanhar a tradução da música acima.

Percebendo o conteúdo da letra, não pude deixar de notar que de alguma forma ele teria se baseado em conceitos e metáforas extraídos da Bíblia. Fui investigar e, de fato, descobri que o autor da música, Kerry Livgren, tomou como base o “mais mal-humorado livro da Bíblia”, (parafraseando o famoso livro do pastor Ed René Kivitz), Eclesiastes, especialmente em seu tão presente texto “correr atrás do vento” (Ec. 1.14; 1.17; 2.11; 2.17; 2.26; 4.4; 4.6; 4.16; 6.9) associado também ao texto de Gênesis “és pó e ao pó voltarás” (Gn 3.19). A letra da música é simples e auto-explicativa, mas cabe uma boa reflexão em cada verso.

Kerry Livgren foi um dos fundadores da famosa Banda Kansas em 1974. Em 1977 compôs a música acima, que tornou-se um dos maiores sucessos da banda. Interessantemente, alguns anos após ter feito esta música, Livgren se converteu, tornando-se cristão protestante. Na verdade, ao ler a biografia dele, consigo perceber um interesse muito grande em cobrir o seu “vazio”. Eu diria que, uma pessoa que escreve um texto desse, com clara percepção de como nossa vida, nossos sonhos, nossas obras são tão passageiros, como “poeira no vento”, está perto de descobrir algo mais.

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Kerry Livgren – Um dos fundadores da Banda Kansas e autor de “Dust in the Wind”.

Livgren primeiramente teria se aproximado da “Doutrina Urântia”, baseada no “Livro de Urântia”. O “Livro de Urântia” trata-se de alguns textos escritos da década de 1930 em Chicago baseado em supostas revelações e que abordam ciência, religião e filosofia. Aborda o cristianismo de maneira própria que não caberia discutir aqui, mas cabe saber que até hoje ainda há seguidores. De qualquer forma, esse interesse por religião e, especialmente por Jesus Cristo, teria levado Livgren a uma série de debates na parte de trás do ônibus de seus tours, com Jeff Pollard da banda Lousiana´s Le Roux que fazia a abertura dos shows da Kansas. Jeff Pollard, vinha de uma família cristã e inclusive, pouco tempo depois, se dedicaria exclusivamente a seu ministério cristão, sendo hoje um conhecido pastor na Providence Baptist Church em Ball, Los Angeles. Após essas discussões, Kerry Livgren, teria abandonado a doutrina Urântia, para se apegar ao cristianismo evangélico. A experiência de conversão teria ocorrido em um quarto privado de hotel.

Após a conversão, Kerry Livgren passou a dedicar boa parte de sua carreira à música gospel, criando seu primeiro álbum solo “Seeds of Change” em 1980. Manteve-se na Banda Kansas até 1983, inclusive compondo músicas com cunho bastante religioso. Em 1983 se desliga da banda, vindo a formar o grupo AD, de rock cristão, que não fez tanto sucesso. Depois segue diversos projetos, especialmente em carreira solo, vindo inclusive a reintegrar a banda Kansas por alguns períodos na década de 90 e anos 2000.

Curiosamente, no início da década de 80 a banda Kansas chegou a ter três de seus integrantes cristãos: Kerry Livgren, Dave Hope e John Elefante. John Elefante, juntamente com seu irmão Dino é bastante conhecido no meio gospel por ter produzido músicas para a banda Petra e Shout. Apesar de tanto “amor cristão” na banda, as coisas não andaram bem por muito tempo, tendo os diversos conflitos de interesse levado ao desmantelamento da Kansas.

Hoje, Kerry Livgren tem diversas músicas de cunho religioso. Aparentemente se dedica a um de seus maiores projetos, uma cantata orquestrada chamada “A Ressurreição de Lázaro”. Além disso, é professor de escola dominical em sua igreja em Topeka, no estado de Kansas nos Estados Unidos (Topeka Bible Church). Apesar de tão famoso por suas músicas, Livgren afirma que isso é apenas uma parte de sua vida. Em sua biografia Seeds of Change: The Spiritual Quest of Kerry Livgren (“Sementes da Mudança: A Busca Espiritual de Kerry Livgren”), ele afirma:

“Eu sou um homem de família, tenho um papel na minha igreja, eu estou correndo com uma gravadora, um estúdio, uma empresa de produção, uma fazenda, e eu tenho mais hobbies e interesses do que há horas no dia.”

Um homem tão produtivo tem a certeza de que somente em Deus podemos encontrar algo mais do que “poeira no vento”. Salomão, o homem mais sábio e, provavelmente, um dos mais produtivos de sua época, chegou a essa conclusão há mais de 2500 anos. Claro que isso não nos impede de nos deleitar e “louvar a alegria” como está em Eclesiastes 8.15, como a feliz melodia do solo de violino da música Dust in the Wind, que me dá a clara impressão de estar sendo levado tranquilamente pelo vento.

“Tenho visto tudo o que é feito debaixo do sol; tudo é inútil, é correr atrás do vento… Fiquei pensando: Eu me tornei famoso e ultrapassei em sabedoria todos os que governaram Jerusalém antes de mim; de fato adquiri muita sabedoria e conhecimento. Por isso me esforcei para compreender a sabedoria, bem como a loucura e a insensatez, mas aprendi que isso também é correr atrás do vento.” Eclesiastes 1.14,16-17

Música: “God is love”, de Marvin Gaye – Um músico entre os extremos

God Is Love |Deus É Amor

Oh don’t go and talk about my father | Oh, não fale mal de meu pai
God is my friend | Deus é meu amigo
Jesus is my friend | Jesus é meu amigo
He made this world for us to live in, and gave us everything | Ele fez esse mundo para nós vivermos, e nos deu tudo
And all he asks of us is we give each other love. | E tudo que ele pediu em troca, foi nós darmos amor para cada um
Oh ya | Oh sim
Don’t go and talk about my father | Oh, não fale mal de meu pai
Cause God is my friend | Porque Deus é meu amigo
Jesus is my friend | Jesus é meu amigo
He loves us whether or not we know it | Ele nos ama independentemente de nós sabermos ou não
Just loves us, oh ya | Ele simplesmente nos ama
And He’ll forgive all our sins | E ele vai perdoar todos nossos pecados
Forgive all our sins | Perdoar todos nossos pecados
And all He asks of us, is we give each other love. | E tudo que ele pediu em troca, foi nós darmos amor para cada um
Oh ya | Oh sim
Love your mother, she bore you | Ame sua mãe, ela lhe deu a luz
Love your father, he works for you | Ame seu pai, ele trabalha pra você
Love your sister, she’s good to you | Ame sua irmã, ela é boa pra você
Love your brother, your brother | Ame seu irmão, ele é seu irmão
Don’t go and talk about my father, He’s good to us, | Oh, não fale mal de meu pai, ele é bom para nós
God is my friend | Deus é meu amigo
Jesus is my friend | Jesus é meu amigo
For when we call in Him for mercy, Mercy Father | Quando você o chamar para pedir clemência
He’ll be merciful, my friend | Ele vai ser misericordioso, meu amigo
Oh, yes He will |Oh sim, ele vai
All he asks of us, I know, is we give each other love, | E tudo que ele pediu em troca, foi nós darmos amor para cada um
Oh ya | Oh sim

A uma primeira vista parece apenas uma música gospel, com mensagem simples e correta, e um título já visto por diversas vezes no cenário musical religioso. E realmente é, e talvez passasse desapercebida não fosse ela escrita e interpretada por Marvin Gaye (com a ajuda de Anna Gordy Gaye, James Nyx e Elgie Stover), em 1971, no auge de sua carreira e em um de seus álbuns mais consagrados: “What´s going on”, album este que angariou a sexta colocação na lista da revista Rolling Stone, dos 500 maiores álbuns de todos os tempos e é tido por alguns como o maior álbum de soul music da história. Repare bem na letra da música acima e depois associe-o aos fatos que se seguem.

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What´s going on – Álbum de 1971. O mais icônico álbum de Marvin Gaye, foi considerado em 2003 pela Revista Rolling Stone o sexto melhor álbum de todos os tempos.

Marvin Gaye, para aqueles que não conhecem ou nunca ouviram falar (o que eu duvido), é um dos mais famosos cantores de soul e R&B americano, conhecido por músicas que provavelmente você já ouviu por aí como “Let´s get it on“, “Got to give it Up“, “Ain´t no mountain high enough” e “Sexual Healing“. Seu estilo e originalidade até hoje inspiram artistas no mundo inteiro.

O que poucos sabem, especialmente aqui no Brasil, é sobre a sua trágica biografia. E apesar de extremamente triste, muito tem a ver com o tema de nosso site. Marvin Gaye nasceu em Washington D.C., em 1939. Seu pai, Marvin Pentz Gay Sr., era pastor na Igreja evangélica “The House of God”, que tem em seu cerne um pouco de judaísmo ortodoxo e pentecostalismo (me parece próximo à Igreja Adventista do Sétimo Dia, aqui no Brasil). Desde cedo, Marvin Gaye começou a cantar e tocar na Igreja de seu pai, demonstrando grande talento.

A criação de Marvin na sua casa, até onde se sabe, sempre foi muito rígida, e ele costumava apanhar do pai diariamente. Seu envolvimento com a música começou com o doo-woop, e mais tarde viria a ingressar na famosa gravadora Motown, primeiramente como baterista, mas depois veio a demonstrar seu talento com discos-solo. Apesar de diversas desavenças com a gravadora ao longo dos anos, Marvin Gaye conseguiu com o tempo se impor como um artista original e de muito respeito, atingindo seu ápice artístico com o disco citado acima, “What´s going on“.

Na vida pessoal, durante sua carreira como músico, Marvin sempre oscilou entre as drogas e a depressão. E a relação com o pai se já era ruim, tornava-se cada vez pior. No ano de 1983, com a saúde mental muito abalada, Marvin se isola e retorna para a casa dos pais. Por diversas vezes ameaçou cometer suicídio. Em meio às diversas brigas e embates com seu pai, numa manhã, em 1 de abril de 1984, após uma discussão por causa de alguns documentos, seu pai toma um revólver, que havia sido lhe presenteado pelo próprio filho algum tempo antes, e dispara contra ele. Marvin Gaye morre, um dia antes de completar 45 anos.

Essa biografia, de um artista que é tido como um dos maiores da música popular americana, especialmente do soul e do R&B, nos traz diversas reflexões e joga por terra muitos conceitos presentes até hoje entre religiosos mais tradicionais:

– A educação rígida religiosa não foi suficiente para livrar Marvin Gaye dos “males” deste mundo, muito menos torná-lo mais religioso.

– Seu talento musical, o dom que possuia, não foi suficiente para trazer-lhe felicidade ou paz, ainda que fosse seu escape em muitos momentos difíceis.

– O fato de Marvin Gay Sr, ser um pastor, não impediu que lhe faltasse o amor necessário entre pai e filho. Ainda que alguns defendam, que à época do homicídio estivesse senil ou mesmo alterado por conta de um tumor cerebral, cometeu um dos mais horrendos crimes que um homem poderia cometer.

Ou seja, em tudo, precisamos ter sabedoria. Quantas famílias de cristãos, ou até mesmo pastores, vemos destruídas, por conta de uma relação extremamente rígida ou autoritária? Isso é extremamente comum. Devemos nos lembrar que Deus está acima de tudo, mas a família, está acima da Igreja. Nada deve impedir uma boa e saudável relação familiar. E o cristão não deve se eximir de buscar na ciência e na pedagogia a melhor forma de orientar os seus filhos. O que não falta é literatura nesta área, bem como profissionais aptos a ajudar.

Além disso, devemos considerar para as nossas vidas, uma boa orientação com relação aos nossos talentos. Não existe uma fórmula para isso, e eu também não serei tão puritano para dizer que ao músico só lhe serve caminho da música religiosa. Com certeza não. Mas muitos, infelizmente passarão a vida como Marvin Gaye, que revezava em suas músicas o temor a Deus, como compôs na ótima música descrita acima, e em outras, um erotismo exacerbado, como em “Sexual Healing”. Além disso, a vida de shows e estrada dos músicos está diretamente ligada à exposição às drogas e promiscuidade. Não que muitos não possam vencer essa terrível ligação, mas não há como negar que a exposição entre estes é maior.

Sabedoria. Sejamos pais e filhos sábios. Músicos e artistas sábios. Homens e cristãos cada dia mais sábios. Pois, de que vale ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder a sua alma? De que vale ser um grande ícone musical se, isto não lhe traz paz? Se a família Gay (somente Marvin filho adicionou o sufixo “e” ao sobrenome) levasse mais em consideração toda a letra da música descrita acima, talvez toda a história fosse diferente. Poderíamos ter Marvin Gaye. Talvez com outras músicas. Talvez com outras ideias. Talvez cantando até hoje.

Quando eu era filho em companhia de meu pai, tenro e único diante de minha mãe, então, ele me ensinava e me dizia: Retenha o teu coração as minhas palavras; guarda os meus mandamentos e vive; adquire a sabedoria, adquire o entendimento e não te esqueças das palavras da minha boca, nem delas te apartes. Não desampares a sabedoria, e ela te guardará; ama-a, e ela te protegerá. O princípio da sabedoria é: Adquire a sabedoria; sim, com tudo o que possuis, adquire o entendimento. Estima-a, e ela te exaltará; se a abraçares, ela te honrará; dará à tua cabeça um diadema de graça e uma coroa de glória te entregará.” Pv. 4.3-9

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Música: Castelo Forte, Cantata BWV 80 e Sinfonia “A Reforma”

“Castelo forte é nosso Deus.
Espada e bom escudo”
Primeiros versos do hino cristão “Castelo Forte”, baseado no Salmo 46.

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Partitura do Hino “Castelo Forte”, originalmente em alemão “Ein Feste Burg”, na sua versão em inglês “A Might Fortress is our God”.

Se você frequenta ou já frequentou alguma igreja evangélica tradicional, provavelmente você já ouviu o hino “Castelo Forte”, citado acima. O hino em questão foi escrito por ninguém mais ninguém menos que Martinho Lutero em torno do ano de 1529 e foi baseado no Salmo 46. Acabou se tornando algo como um hino de guerra da Reforma Protestante e se encontra na maioria dos hinários utilizados nas igrejas: é o número 581 da Harpa Cristã, e o 323 do Cantor Cristão.

Martinho Lutero nasceu, viveu e morreu na região da Saxônia, uma das regiões que hoje formam a Alemanha. Nasceu e morreu em Eisleben, e viveu em cidades como Eisenach (na Turíngia, onde teria traduzido o Novo Testamento do latim para o alemão) e Wittenberg, cidade da catedral onde afixionou as 95 teses que dariam início à Reforma. Conforme a Reforma se propagou por diversos países da Europa, inclusive no Leste Europeu, um homem chamado Veit Bach, na Hungria, teria se tornado luterano e devido à perseguição sofrida pelo Sacro Império Germânico, teria se mudado para a Turíngia (região ligada à Saxônia). Veit Bach era um reconhecido padeiro e músico amador, tocava cítara, e foi o pai da mais importante dinastia familiar de músicos do mundo ocidental: os Bach.

Cerca de dois séculos após Martinho Lutero (mais precisamente em 1685), nasce em Eisenach, na Turíngia, Johann Sebastian Bach, o mais célebre compositor desta família, tido por alguns como o maior de toda a música ocidental. Bach realmente trata-se de personalidade sem igual na história da música, com extensa obra, considerada atemporal e, até hoje, é repertório obrigatório na maioria das salas de concerto do mundo. Bach, assim como seus ascedentes, era luterano e foi o organista principal de catedrais de diversas cidades na região da Saxônia.

Entre os anos de 1727 e 1731, Bach compôs uma cantata coral em provável comemoração ao bicentenário da Confissão de Augsburgo (ainda que aparentemente a cantata só tenha sido apresentada algum tempo depois). A Confissão de Augsburg foi uma espécie de documento formal realizado pelos primeiros reformadores luteranos a fim de apresentá-la ao imperador do Sacro Império Germânico, Carlos V, e se tornou como uma profissão de fé. A cantata inclui em sua melodia a própria descrita acima, de Martinho Lutero, tornando-se portanto uma bela homenagem à Reforma e ao próprio reformador.

Passado mais um século, próximo ao 300º aniversário da igreja reformada, um compositor romântico muito conhecido, produz uma Sinfonia chamada “A Reforma”. Esse compositor é Felix Mendelsson-Bartholdy. Mendelssohn vinha de uma família judia alemã que teria se convertido ao cristianismo (tendo sido batizado em uma Igreja Reformada). Nasceu em Hamburgo e faleceu em Leipzig, na Saxônia. Mendelssohn, um prodígio desde criança foi um dos responsáveis pelo “ressurgimento” da obra de Bach no século XIX, tendo sido grande admirador deste, pois Bach, apesar de ter sido um músico de relativo sucesso durante a sua vida, só se tornou realmente reconhecido e tido como um dos maiores compositores de todos os tempos a partir do século XIX.

Em sua sinfonia, no último movimento, Mendelssohn inclui, nada mais nada menos, que a melodia do hino de Lutero citado e tão famoso. Claro que a melodia tinha todo o sentido dentro da obra, mas também foi considerada uma espécie de homenagem ao próprio Bach. Apesar de a obra não ter ficado pronta a tempo de ser executada nas comemorações do terceiro século da Confissão de Augsburg e, segundo alguns, o próprio Mendelssohn teria se declarado não totalmente satisfeito com o resultado final da obra, esta sinfonia é hoje muito mais conhecida que no tempo em que foi composta e é um marco para a Reforma Protestante. Eu, particularmente, tenho muito apreço por esta sinfonia, gosto muito de ouvi-la e já tive o prazer de tocá-la há alguns anos em apresentação da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo.

Abaixo coloco o link da apresentação desta sinfonia pela Sillicon Valley Symphony, regida por Michael Paul Gibson, em 2013. Perceba a partir de 23min22s a introdução da melodia do hino “Castelo Forte (Ein Feste Burg)” pelas flautas, iniciando o último movimento, a partir do qual a melodia é explorada de forma esplendorosa:

Alguém pode se perguntar se Martinho Lutero tinha ideia da repercussão que suas ações teriam na Igreja Cristã como um todo, ao longo de tantos séculos, ou mais especificamente, se ele tinha ideia que uma melodia relativamente simples, mas tão poderosa, pudesse vencer o tempo e marcar a história da música ocidental, ou ainda os nossos hinários cristãos. Provavelmente ele não poderia deslumbrar esse alcance. Mas o fato de ter realizado, mostra que diante de tudo que era mostrado para ele, ele decidiu realizar. E mesmo diante do medo da morte e das retaliações, ele escolher confiar no seu castelo forte.

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Partitura de “Ein Feste Burg” com a assinatura de Martinho Lutero

“Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações.
Portanto, não temeremos ainda que a terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares;
ainda que as águas tumultuem e espumejem e na sua fúria os montes se estremeçam.
… Bramam nações, reinos se abalam; ele faz ouvir a sua voz, e a terra se dissolve.
O SENHOR dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio.”

Salmo 46.1-3;6-7