Artigo: Pilarização

Pilarização é, como o nome diz, a divisão  em pilares. Esse termo, não muito conhecido por aqui, é um tipo de organização social baseada na divisão e segregação, famoso por sua ocorrência na Holanda e Bélgica (verzuiling em holandês). Estas sociedades eram, e em algumas esferas ainda são, divididas verticalmente de acordo com diferentes religiões e ideologias.

Diferente de uma sociedade de castas, como ocorre na Índia, em que há uma divisão horizontal e hierárquica, ou mesmo do apartheid, na África do Sul, nos Países Baixos vemos uma divisão sem hierarquização, de modo que cada um dos pilares possui suas próprias instituições sociais e poderes: seus próprios jornais, seus próprios partidos políticos, bancos, escolas, hospitais e clubes esportivos. A divisão principal, no final do século XIX e século XX era entre protestantes (oriundos de tradição calvinista, forte nos países baixos), católicos e socialistas.

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Após o final da segunda guerra mundial iniciou-se um movimento para se acabar com este tipo de segregação na sociedade holandesa, mas como já foi dito, muitos resquícios desta sociedade ainda podem ser vistos. E uma foto tornou-se um símbolo desta segregação:

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Na foto em questão vemos os túmulos de um casal holandês (JWC van Gorkum e JCPH van Aefferden), no cemitério ao redor da cidade de Roermond. Ele era protestante. Ela era católica. Por isso foram proibidos de serem enterrados na mesma área do cemitério (ele faleceu em 1880 e ela em 1888). Esta foi a maneira que a família encontrou de homenagear o casal.

Bom, mas não estou aqui para um final clichê melodramático, mostrando como o amor é capaz de superar as mais difíceis barreiras e como ninguém pode separar e etc, até porque como disse Jesus “Não sabei vós que na ressurreição as pessoas não se casam nem se dão em casamento; mas são como os anjos no céu?” (Mt 30.22 / Mc 25.12). Estou aqui para mostrar como a pilarização está enraizada na cultura protestante por todo o mundo.

Seja abusando dos termos bíblicos como jugo desigual ou roda dos escarnecedores, sempre esteve enraizado na cultura evangélica a necessidade de se segregar. É verdade que o próprio termo igreja (eklésia) tem o sentido de se ser separado, tirado para fora. E é verdade que temos que nos afastar realmente da maldade, das impurezas e porque não evitar o “jugo desigual”. Mas quando cristãos (no caso, protestantes), relacionam-se somente com cristãos, trabalham com cristãos, contratam somente cristãos e fazem amizades somente com cristãos, isso passa a ser pilarização.

Nesse momento, talvez o mais atento dos leitores pode se perguntar, mas qual é o problema de se pilarizar o cristianismo? Ora, pilarizar é nos fecharmos em nosso “mundo que não é do mundo”. É ignorar o sofrimento e as necessidades dos outros e também tudo aquilo que eles podem nos ensinar. É ir contra o “Ide de Jesus”, mas não só contra o “Ide”, é ir contra o conhecimento, contra as relações humanas, contra o amor.

Portanto, não acho que a pilarização seja algo bom para nós cristãos. Não sou contra a criação de escolas ligadas a igrejas ou universidades, ou até mesmo partidos políticos. Só não acho que nós precisamos de toda aquela “bancada evangélica” defendendo os “interesses da Igreja” e ignorando todas as outras questões que são fundamentais à toda a sociedade.

Vós sois a Luz, não se pode esconder uma cidade edificada sob um monte Mt5.14. Nós não estamos aqui para nos esconder ou viver em uma redoma. Pelo contrário, deve partir do cristão o bom exemplo. E esse bom exemplo deve contemplar saúde, economia, cultura, meio ambiente. Deve contemplar honestidade e transparência. Um cristão que não contrata, não conversa, ou não ouve um não cristão, não é um bom exemplo. Um cristão que ignora as necessidades mais básicas das outras pessoas não é um bom exemplo. Não é luz.

Os ascetas defendem o caminho da santidade, como a reclusão e a fuga de toda a sociedade humana e tudo que ela oferece. Não deixa de ser um caminho válido. Mas também posso te dizer que não foi à toa que Jesus comeu e bebeu com publicanos e pecadores, e morreu ao lado de dois ladrões, em uma cruz, assim como em determinado momento se manteve recluso no deserto para santificação. Mas afinal, se Jesus não tivesse saído de sua “redoma”, que chance nós teríamos?

Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo. Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros. Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsisitindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.” Fp 2.3-8

“Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte. E, também, ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Ao contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus.Mt 5.14-16