Artigo | A metacognição em relacionamento com Deus

Hoje em dia é quase um mantra dizer: “o homem é um animal… Mas, um animal racional”. Mas afinal de contas, o que significa ser um animal racional?

Psicopatologicamente falando a consciência do homem se diferencia das dos animais pela chamada consciência superior, ou, consciência reflexiva (além de uma amplitude maior de consciência básica e de inconsciente). Nela se dão os processos de metacognição: auto-consciência, introspecção, reflexão.

Através da consciência superior é possível dar conta dos próprios processos mentais, e não só percebê-los, mas refletir sobre eles, evitá-los, desejá-los, transformá-los.  Também por meio dessa capacidade, é possível olhar no futuro, onde estará e como será em consequência dos atos, podendo decidir se quer continuar por esse caminho ou, por meio do uso da deliberação e da vontade, seguir caminhos diferentes. De certa forma, isso é o que o provê do assim chamado livre-arbítrio*.

A mim, parece claro que quando a Bíblia diz que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança (Gen 1.26), a consciência superior está exatamente implícita nesta frase. Afinal, não pode se tratar de semelhança física, já que Deus é espírito (Jo 4.24), muito menos da mente de Deus, como um todo, já que, antes ou depois da “Queda”, o homem jamais foi onisciente ou onipotente. A mim, trata-se justamente da capacidade de realizar processos que lhe permitem tomar decisões que realmente transforme seu destino. Deus tomou uma decisão ao criar ao mundo. E avaliou cada passo da criação (ao concluir que cada passo era bom). E decidiu assim tomar outros passos que culminaram naquela que seria a sua “obra-prima”: o homem. Mas para que o homem fosse essa “imagem e semelhança” era necessário dar-lhe exatamente essa consciência que lhe permitiu o livre-arbítrio e a capacidade de tomar decisões e avalia-las como o próprio Deus realizou. A “obra-prima” de Deus é uma criatura que só poderia adorá-lo de livre e espontânea vontade. Por isso, infelizmente, pudemos escolher pelo “pecado”. E cada homem que nasce deve fazer suas escolhas.

A grande questão aqui é exatamente fazer escolhas. E não só fazê-las, mas avaliá-las. E ao avaliá-las tomar novos passos. No entanto, muitos optam por ignorar a sua metacognição. Ou melhor, preferem utilizá-la somente para seus objetivos pequenos ou mundanos. Cansam-se facilmente em refletir sobre sua realidade, sua vida, sua morte, ou sobre o próprio Deus. Adiam as decisões que podem realmente mudar a sua vida. Que grande erro é ignorar exatamente aquilo que nos torna tão diferentes dos animais.

Quanto trabalho sem sentido. Quanto dinheiro acumulado, sem real valor. Quantos prazeres facilmente esquecidos, quanto entretenimento consumindo todo o finito tempo. Para quê? Para quem?

“Louco! Esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” Lc 12.20

Todo dia somos instigados a tomar diversas decisões. Deve-se decidir que horas irá acordar, o que irá comer, o que irá vestir, com que irá se relacionar. Você pode se contentar em tomar decisões como essas com muito mais habilidade que um outro animal. Ou pode optar por mergulhar em sua própria consciência da forma que só um ser humano pode fazer. E, possivelmente, se relacionar com Deus da forma que só um ser humano pode se relacionar.

“Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo.”Ap. 3.20

“Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem.” Jo 4.23

*Fonte: Compêndio de Psiquiatria Clínica do IPQ-USP. 1ª Edição – 2013.

porta