Artigo: Negro espiritual

“Free at last, free at last (Finalmente livre, finalmente livre)
I thank God I’m free at last (Eu agradeço a Deus, finalmente sou livre)
Free at last, free at last
I thank God I’m free at last”

Antigo Negro Espiritual, compilado em 1940 por J. W. Work e citado por Martin Luther King em seu famoso discurso “I have a dream”.

Negro espiritual (negro spiritual) são aquelas famosas canções que tem origem na comunidade cristã afro americana. Considera-se que elas tiveram seu início ainda nos tempos de escravidão e por isso em geral, as melodias tem um tom contemplativo e até mesmo melancólico, apesar de, claro, apontarem para a esperança de dias melhores (seja na terra ou nos céus).

Em geral, a esperança que se percebe nestas canções se refere à liberdade, que os primeiros compositores realmente apreciavam, tendo em vista sua situação de escravos. Há até mesmo alguns negro espiritual que parecem ter sido utilizados para indicar ou orientar os negros o caminho da liberdade (física, no caso), como é o caso de Wade in the Water:

Ande na água (criança)
Ande na água
Ande na água
Deus vai balançar (atormentar) a água

Apesar do aspecto metafórico de “água” no caso, (o mesmo que se vê em “Águas Purificadoras” do Ministério Diante do Trono ou ‘Faz chover”, interpretado por Fernandinho), e do fato dele fazer menção ao Anjo que mexia a água do Tanque de Betesda, no Novo Testamento, acredita-se que este hino servia de instrução aos escravos ao ponderar que o caminho pela água era o melhor para se fugir, tendo em vista que não poderia ser rastreado por cachorros.

Recentemente ouvi também que os negro espiritual se utilizam de uma escala pentatônica, de modo que pode-se tocar utilizando-se apenas das teclas pretas do piano. Não sei se isso vale para todas as canções (até porque no início eram melodias cantadas por escravos que por certo não tinham educação musical clássica, ou mesmo acesso a um piano), mas de fato muitas delas encaixam-se nesse perfil.

Uma das cancões negro espiritual mais famosas hoje é “Amazing Grace”. Isso é bastante interessante pois a letra desta canção foi escrita justamente por um inglês chamado John Newton, que antes de se converter teria sido mercador de escravos, em navios negreiros.

“Sublime graça! Como é doce o som,
Que salvou um miserável como eu!”

Tradução dos versos iniciais de “Amazing Grace”

O sofrimento vivido por um negro escravo, nos séculos XVIII e XIX, realmente não pode ser traduzido em palavras e é uma daquelas barbaridades humanas difíceis de explicar.

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!…
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! .
Trecho de “Navio Negreiro” de Castro Alves

Ao longo do século XX, várias lutas ainda foram travadas em prol dos direitos dos negros e do fim da discriminação. Neste cenário, uma pessoa se destaca, como um homem que pregava um sonho como objetivo e a paz e o perdão como o caminho: Martin Luther King Jr. Esse pastor batista americano, homônimo de nosso reformador da igreja, foi o ícone desta luta e terminou seu discurso mais famoso dizendo:

“…E quando isto acontecer, quando nós permitimos o sino da liberdade soar, quando nós deixarmos ele soar em toda moradia e todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho negro espiritual:
“Livre afinal, livre afinal.
Agradeço ao Deus todo-poderoso, nós somos livres afinal.””

Trecho final do discurso de Martin Luther King em Washington D.C. em 28 de agosto de 1963 (foto abaixo)

IhaveadreamMarines

Martin_Luther_King_-_March_on_Washington

A música tem um papel muito importante na vida cristã, especialmente nas dificuldades. Paulo e Silas cantavam hinos enquanto estavam presos na Macedônia. Davi compôs diversos Salmos em momentos de aflição. Os negros escravos e discriminados que depositaram sua fé em Jesus Cristo, cantavam o sonho da liberdade, o mesmo sonho citado por Martin Luther King, e a fé lhes dava esperança de redenção. Pode-se perceber que nenhum deles viu seu sonho se concretizar em vida, mas sem dúvida o fizeram em vida após a morte, onde todos cantaremos a liberdade plena que vivenciaremos em Cristo Jesus!

“Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória em que nos há de ser revelada. Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus. Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou. Na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de DeusRomanos 8:18-21