Revista PSICOTEO / CPPC

No último mês, tive o prazer de publicar dois artigos na Revista PsicoTeo, publicação semestral do CPPC (Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos). É muito bom poder contribuir para a manutenção de uma comunidade cristã forte em meio à ciência e a academia, e o CPPC tem essa função. Se alguém tiver o interesse em adquirir a revista, envie email para secretaria@cppc.org.br

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Revista Psicoteologia

Edição nº 57 – primeiro semestre de 2016

Temática livre

Entrevista – Guilherme Falcão e Ageu Lisboa

Artigos: 

Agathofobia e a cidade dos demônios – Anderson Clayton Pires

Imagens – Amauri Munguba Cardoso

Desafios de uma interseção – Alice Levy Supino

A metacognição em relacionamento com Deus – Leonardo Afonso dos Santos

A recessão da esperança – Anderson Clayton Pires

O suicídio filosófico e a realidade do apego à vida – Leonardo Afonso dos Santos

CPPC – Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos – www.cppc.org.br

Artigo | A metacognição em relacionamento com Deus

Hoje em dia é quase um mantra dizer: “o homem é um animal… Mas, um animal racional”. Mas afinal de contas, o que significa ser um animal racional?

Psicopatologicamente falando a consciência do homem se diferencia das dos animais pela chamada consciência superior, ou, consciência reflexiva (além de uma amplitude maior de consciência básica e de inconsciente). Nela se dão os processos de metacognição: auto-consciência, introspecção, reflexão.

Através da consciência superior é possível dar conta dos próprios processos mentais, e não só percebê-los, mas refletir sobre eles, evitá-los, desejá-los, transformá-los.  Também por meio dessa capacidade, é possível olhar no futuro, onde estará e como será em consequência dos atos, podendo decidir se quer continuar por esse caminho ou, por meio do uso da deliberação e da vontade, seguir caminhos diferentes. De certa forma, isso é o que o provê do assim chamado livre-arbítrio*.

A mim, parece claro que quando a Bíblia diz que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança (Gen 1.26), a consciência superior está exatamente implícita nesta frase. Afinal, não pode se tratar de semelhança física, já que Deus é espírito (Jo 4.24), muito menos da mente de Deus, como um todo, já que, antes ou depois da “Queda”, o homem jamais foi onisciente ou onipotente. A mim, trata-se justamente da capacidade de realizar processos que lhe permitem tomar decisões que realmente transforme seu destino. Deus tomou uma decisão ao criar ao mundo. E avaliou cada passo da criação (ao concluir que cada passo era bom). E decidiu assim tomar outros passos que culminaram naquela que seria a sua “obra-prima”: o homem. Mas para que o homem fosse essa “imagem e semelhança” era necessário dar-lhe exatamente essa consciência que lhe permitiu o livre-arbítrio e a capacidade de tomar decisões e avalia-las como o próprio Deus realizou. A “obra-prima” de Deus é uma criatura que só poderia adorá-lo de livre e espontânea vontade. Por isso, infelizmente, pudemos escolher pelo “pecado”. E cada homem que nasce deve fazer suas escolhas.

A grande questão aqui é exatamente fazer escolhas. E não só fazê-las, mas avaliá-las. E ao avaliá-las tomar novos passos. No entanto, muitos optam por ignorar a sua metacognição. Ou melhor, preferem utilizá-la somente para seus objetivos pequenos ou mundanos. Cansam-se facilmente em refletir sobre sua realidade, sua vida, sua morte, ou sobre o próprio Deus. Adiam as decisões que podem realmente mudar a sua vida. Que grande erro é ignorar exatamente aquilo que nos torna tão diferentes dos animais.

Quanto trabalho sem sentido. Quanto dinheiro acumulado, sem real valor. Quantos prazeres facilmente esquecidos, quanto entretenimento consumindo todo o finito tempo. Para quê? Para quem?

“Louco! Esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” Lc 12.20

Todo dia somos instigados a tomar diversas decisões. Deve-se decidir que horas irá acordar, o que irá comer, o que irá vestir, com que irá se relacionar. Você pode se contentar em tomar decisões como essas com muito mais habilidade que um outro animal. Ou pode optar por mergulhar em sua própria consciência da forma que só um ser humano pode fazer. E, possivelmente, se relacionar com Deus da forma que só um ser humano pode se relacionar.

“Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo.”Ap. 3.20

“Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem.” Jo 4.23

*Fonte: Compêndio de Psiquiatria Clínica do IPQ-USP. 1ª Edição – 2013.

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Literatura | “O Alienista” de Machado de Assis.

“A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.”

Trecho de “O Alienista”

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Essa semana trago a obra “O Alienista” de Machado de Assis para análise e discussão. Acredito que essa obra muito tem a ver com o enfoque deste site, visto que propõe-se a enxergar a loucura de certo ponto de vista, no caso, o da ciência no final do século XIX. A ideia do livro não é, como veremos adiante, discutir sobre a “loucura” em si, mas, na verdade, abordar a “loucura” existente em tentar desvendar a “loucura”.

Isso atinge diretamente a ideologia cristã, pois o que é a loucura afinal, no momento em que a própria “mensagem da cruz é loucura para os que estão no mundo” (1Co1.18), ou ainda que “a sabedoria deste mundo é loucura aos olhos de Deus” (1Co3.19)? Vamos em frente então:

Resumo da história

“O Alienista” de Machado de Assis, é mais um dos clássicos da literatura brasileira. Existe um debate entre os especialistas se seria “O Alienista” um conto ou um romance curto. No entanto, parece haver pequena vantagem para o grupo que o considera um romance devido à sua estrutura narrativa. Foi publicado em 1882, já no auge da carreira de Machado e em sua fase realista, iniciada no ano anterior com a publicação de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.

O livro, que hoje conta com diversas publicações e adaptações, incluindo audiolivros e graphic novels, traz a história de Simão Bacamarte, “filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas” após seu regresso ao Brasil e sua escolha de Itaguaí como cidade.

A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo. Dito isso, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas.”

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O Alienista e suas diversas publicações, incluindo livros, audiolivro e graphic novels

Tudo referente à vida pessoal deste personagem é bastante conciso. Fato é que, a paixão pela ciência e, porque não, os próprios acontecimentos da vida, como a impossibilidade de ter filhos, fizeram-lhe por “mergulhar inteiramente no estudo e na prática da medicina”, e especificamente de seu “recanto psíquico”.

“A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico”.

Dessa forma, Simão Bacamarte decide pela criação de uma casa para “agasalhar e tratar todos os loucos de Itaguaí”. Um hospício. E aqui vemos o início das ironias tipicamente machadianas:

“Começou logo a construir a casa. Era na Rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí naquele tempo; tinha cinqüenta janelas por lado, um pátio no centro, e numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A idéia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII.”

Fato é que a casa foi construída, e aos poucos os “loucos” foram sendo introduzidos à esta. Com o tempo a casa foi-se enchendo de pessoas cada vezes mais consideradas “normais” pela sociedade, de forma que em seu auge, a casa acolheria quatro quintos da população de Itaguaí. Isso gera uma revolta na sociedade, ao passo que o próprio analista com base na “análise científica” percebe que seus métodos não podem estar corretos, liberando os internados. Dessa forma ele entende que os “loucos” não poderiam ser todos aqueles em que havia algum desequilíbrio das faculdades mentais, mas sim, o contrário, aqueles em que esse equilíbrio fosse pleno.

“De fato o alienista oficiara à Câmara expondo: — 1′: que verificara das estatísticas da vila e da Casa Verde que quatro quintos da população estavam aposentados naquele estabelecimento; 2° que esta deslocação de população levara-o a examinar os fundamentos da sua teoria das moléstias cerebrais, teoria que excluía da razão todos os casos em que o equilíbrio das faculdades não fosse perfeito e absoluto; 3° que, desse exame e do fato estatístico, resultara para ele a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto, que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto.

Dessa forma, a “Casa Verde” passa a agregar estes em que o equilíbrio lhe parecera perfeito. O mais interessante foi a forma utilizada pelo médico para “curar” a estes: o objetivo era justamente atacar onde estivesse “a perfeição moral dessa pessoa”!

Em um ano e meio, Simão Bacamarte obteve total sucesso de sua experiência. Mas isso não foi suficiente para apaziguar sua “alma científica”. Não. Uma nova teoria surgiria:

“Mas deveras estariam eles doidos, e foram curados por mim, ou o que pareceu cura não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro? E cavando por aí abaixo, eis o resultado a que chegou: os cérebros bem organizados que ele acabava de curar, eram desequilibrados como os outros. Sim, dizia ele consigo, eu não posso ter a pretensão de haver-lhes incutido um sentimento ou uma faculdade nova; uma e outra coisa existiam no estado latente, mas existiam.”

No entanto, ao concluir que em Itaguaí não haveria sequer um “mentecapto”, Simão Bacamarte entra em um novo dilema moral que só se solucionaria ao entender que achava em si as características do perfeito equilíbrio mental e moral. Sendo assim, seria o “alienista” o único “alienado” de toda a cidade, o que o levou a internar-se a si mesmo na “Casa Verde”.

Análise

Posso estar errado, mas percebo que havia no final do século XIX um certo encanto pela ciência e a razão, provavelmente advindo das ideias iluministas, que fazia as pessoas acreditarem que ainda criar-se-ia uma medicação, ou uma solução que pusesse fim aos principais males da humanidade. Esta ideia está presente em “Memórias Póstumas”, com o “Emplastro Brás Cubas” e está presente em “O Alienista”, como percebe-se no texto que se segue:

“O principal, nesta minha obra da Casa Verde, é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa dos fenômenos e o remédio universal”.

Podemos ver essa ideia presente na ciência da época. Sigmund Freud ao criar a psicanálise tinha ideias semelhantes. Tanto que na época pensou-se ser a cocaína, uma grande medicação em combate à depressão e estados melancólicos. O próprio Freud submeteu-se a uma cirurgia nasal que suspostamente tratava “neurose nasal reflexa”, com Wilhelm Fliess, acreditando que isso o deixaria “imune” a tal acometimento.

O objetivo de Machado de Assis, em “O Alienista”, não é analisar a “loucura” em si, mas através desta fazer uma análise crítica ao papel e à crescente importância que a ciência teria adquirido nesta época. Não que o livro seja contrário à ciência, muito menos às suas técnicas. Mas o que ele ilustra é justamente a possível “loucura” que uma “ditadura” da ciência pode levar. Segundo Gomes, R.*, o que interessa a Machado é “a grande loucura cientificista e positivista, que implica na busca dos limites entre razão e desrazão” e ainda “Aquilo de que se fala, portanto, é deste saber que, pretendendo esgotar – de forma objetiva e rigorosa – o conhecimento a respeito da mente humana, apoia-se numa pretensão de conhecimento total do mundo e, portanto, se destina ao fracasso.

“Por isso me esforcei para compreender a sabedoria, bem como a loucura e a insensatez, mas aprendi que isso também é correr atrás do vento.” Eclesiastes 1.17

Além disso, como colocamos na introdução desta resenha, o grande objetivo para nós passa a ser a fatídica pergunta: “o que é loucura, afinal?”. Considerem o alienista: médico com formação e reconhecimento em Portugal e Espanha, um homem dedicado à ciência e extremamente rigoroso com seu método, tem que mudar seu conceito e entendimento da loucura por diversas vezes para satisfazer seu conhecimento. Claro que falamos de um texto fictício, quase uma paródia. Mas o limite entre a normalidade e a insanidade é uma questão complexa mesmo para a psiquiatria atual. Da mesma forma, a Bíblia trabalha esse conceito ao comparar a fé à sabedoria do mundo, que à época de Paulo alcançava alto patamar com a razão e a filosofia grega e o helenismo. Para estes (os estudiosos gregos), crer na morte e ressurreição do filho de Deus só poderia ser uma loucura.

Não tenho a pretensão neste texto de chegar a uma resposta à pergunta citada acima. Não, isso seria cair no erro do alienista. Deixo tal embate para a própria ciência a qual sou apaixonado: a psiquiatria. No entanto, posso formular algumas assertivas: É loucura crer ignorando a razão. Mas loucura ainda maior é crer que a razão tudo pode discernir. Pois afinal, “quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo”?

“Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente…Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo.” 1Co 2.14,16

“Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana, agradou a Deus salvar aqueles que crêem por meio da loucura da pregação.” 1Co 1.21

*Gomes, R., autor de “O Alienista, loucura, poder e ciência”, artigo publicado em Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 5 (1-2):145-160, 1993 (editado em nov. 1994) e disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ts/v5n1-2/0103-2070-ts-05-02-0145.pdf

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