Resenha – Êxodo: Deuses e Reis

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Atenção: contém “spoilers” do filme “Êxodo: Deuses e Reis”.

Esta semana assisti ao mais novo filme religioso da atualidade: Exôdo: Deuses e Reis. Pelo nome, todos já adivinharam tratar-se da história de Moisés e da forma como este liderou o povo hebreu na sua saída/libertação do Egito. Mas apesar do nome, já adianto a vocês leitores, que este se trata muito mais de um filme baseado em um roteiro típico hollyhoodiano, do que em um filme que leve a sério o livro homônimo da Bíblia.

A direção fica a cargo de Ridley Scott e, te garanto, isso já diz muito do que esperar do filme. Ridley Scott é o diretor de alguns filmes de muito sucesso (e alguns fracassos também), incluindo alguns dos meus filmes favoritos como Blade Runner (1982) e Gladiador (2000) além de outros como Cruzada (Kingdom of Heaven – 2005), Alien, o Oitavo Passageiro (1979) e Prometheus (2012). Em geral, seus filmes são ricos em cenas de guerra, lutas, e personagens heróicos, além de cenários suntuosos. Tudo isso se vê em Exôdo. Um Egito tão épico quanto a Roma do Gladiador, e um Moisés tão general quanto Maximus Decimus Meridius. Sim, um general, esqueça o profeta neste filme.

Christian Bale interpreta Moisés neste filme. Na minha opinião, um erro. Não que este não seja um bom ator, pelo contrário, sua capacidade de transformação e foco nos personagens é exemplar. Não é a toa, que fez tanto sucesso como o Batman do Nolan e tem recebido tantas premiações por outras atuações. Mas escolher um ator sabidamente reconhecido pelo seu temperamento difícil e personalidade marcante para interpretar aquele que a Bíblia classifica como o mais manso entre os homens de seu tempo (Nm 12.3), não é muito coerente. Quanto à escolha dos demais atores, não vi problemas, apesar de alguns críticos terem sido ferrenhos com a escolha devido a natureza étnica de alguns deles (brancos, caucasianos interpretando egípcios e hebreus). Na verdade achei que o Joel Edgerton, por exemplo, ficou muito bem como faraó, e convenceu no papel.

A primeira parte do filme, para mim, é a melhor. Cheguei a achar que finalmente veríamos um filme de história bíblica bom no cinema. Pena que após a saída de Moisés do Egito e sua peregrinação, tudo se perde. Não que o filme fique tão ruim quanto o Noé do Darren Aranofsky (bons diretores também cometem seus fiascos), mas chega perto.

Eu sempre tenho medo das representações das histórias bíblicas no cinema. Primeiro porque o cinema sempre adapta as histórias, de forma a alterá-la, seja para deixar a linguagem mais fluida ou aumentar a ação, seja por falta de preciosismo mesmo. Isso já me incomoda, pois na Biblia, cada detalhe é importante. Segundo, certas representações bíblicas não podem ser bem exemplificadas visualmente. Neste sentido, eu entendo a escolha do Ridley Scott em deixar uma criança interpretar Deus, pois de que outra forma poderia representá-Lo? Mas infelizmente essa escolha se mostra terrível ao longo do filme. Deus fica com a personalidade de uma criança birrenta e sua relação com Moisés é péssima. Logo Moisés, o homem que mais se comunicava com Deus e na sua comunhão extrema, falava com Deus face a face. De tantos diálogos maravilhosos que poderiam ter sido simplesmente extraídos da bíblia entre Moisés e Deus, no filme, não há somente um que se salve ou que tenha um valor a mais.

Além disso, Moisés é tido como um agnóstico no filme. E mesmo após todas experiências com Deus e com o povo, ele parecia continuar duvidando. Moisés não evolui como personagem e muito menos chega aos pés do grande personagem bíblico que é.

Isso sem falar nos erros escriturários. Eu entendo que tente-se dar um entendimento mais racional às pragas do Egito. Mas dizer que as águas se tornaram sangue porque os crocodilos devoraram alguns pescadores é demais. Ia ser preciso muito mais mortos que no Dia D da Segunda Guerra Mundial, para tingir todo o Nilo de sangue. Era melhor que ele desse então a típica explicação da maré vermelha ou alguma semelhante. E é claro, desconsidere que a pólvora tenha sido inventada pelos chineses, pois Moisés e os “rebeldes judeus” já dominavam a técnica de causar explosões, 1300 anos antes de Cristo!

Bom, em resumo, Exôdo: Deuses e Reis trata-se de um filme fraco, que não representa a magnífica história bíblica que pretende contar. Não vou dizer que não vale como entretenimento e diversão, pois estaria exagerando. Assisti a este filme no chamado cinema 4D e é interessante você sentir o “ventinho” das flechas atiradas passando pelo seus ombros. O visual do Egito é magnífico, um pouco exagerado, mas magnífico. A representação dos escravos também é muito boa, em alguns momentos lembra fotografias da Serra Pelada aqui no Brasil. E as cenas de ação, bem, as cenas de ação, são o legado de Ridley Scott.

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General Maximus e “General” Moisés: ambos de Ridley Scott. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

“Era o varão Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra…
Não é assim com o meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa. Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a forma do SENHOR; como, pois, não temestes falar contra o meu servo, contra Moisés?” Números 12.3,7-8