Documentário em Mente – O Sal da Terra

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O que significa ser o “Sal da Terra”? Essa expressão, muito conhecida no mundo cristão, é uma metáfora sublime e, ao mesmo tempo, complexa, citada por Jesus, e registrada no Evangelho de Mateus 5.13. Essa expressão também dá nome ao ótimo documentário de Win Wenders e Juliano Salgado, sobre a obra do grande fotógrafo brasileiro Sebastião SalgadoO Sal da Terra (2014) é uma produção franco-ítalo-brasileira e foi bastante aclamado e premiado, tendo sido nomeado ao Oscar em 2015.

Apesar da experiência do alemão Win Wenders à frente de ótimos filmes e documentários, a impressão que tenho aqui é que ele, espertamente, deixou o filme “rolar”. Ele opta por fazer “o simples”: contar um pouco da vida e obra de Sebastião Salgado, de forma lógica, direta e cronológica. No entanto, como ele mesmo reconhece, filmar um fotógrafo como Salgado não é simples pois, quase automaticamente, este toma as rédeas de enquadramento, cenário, iluminação e tende a não se mostrar frente às lentes de uma câmera. Por conta disso, o filme passa a impressão de ser uma grande obra do próprio Sebastião, só que em movimento. Tanto que, ao final, tive a impressão de não saber quase nada ainda sobre a pessoa de Sebastião Salgado, mas de ter aprendido muito sobre a natureza humana.

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Da esquerda para a direita: Win Wenders, diretor do documentário; Juliano Salgado, filho de Sebastião e co-diretor; Sebastião Salgado, fotógrafo “do homem e da terra”

Sebastião Salgado, por incrível que pareça, se formou em Economia. Quando jovem foi um ativista político durante a Ditadura Militar, época na qual optou por se exilar na Europa. Em Paris morou com a sua esposa Lélia onde teve dois filhos. O primeiro, Juliano, é co-diretor do documentário em questão.

Apesar de aparentemente bem-sucedido como economista, em Paris, Sebastião Salgado descobriu a fotografia, que acabou se tornando sua grande paixão. Apoiado pela esposa Lélia decidiu então se aventurar em grandes projetos com a câmera nas mãos. Viaja pela América Latina, Europa, África. Ao buscar se encontrar como profissional, Sebastião Salgado acabou encontrando a lastimável realidade humana.

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Sebastião Salgado em um dos seus primeiros projetos: “Outras Américas”, em que viajou por cerca de 7 anos pelas mais remotas regiões da América Latina.

O filme conta passo a passo a transformação de um economista em um aventureiro que passou a se especializar no registro das mais duras experiências humanas. O foco da maior parte do trabalho de Salgado no “Homem” e sua interação no meio, é o que dá o nome ao filme “o sal da Terra”. O homem é o sal da Terra. É o que dá ação a uma paisagem, sentimento a um horizonte ou sentido a um fenômeno qualquer da natureza. Mas em pouco tempo Sebastião descobriu o quanto esse sal é muitas vezes simplesmente (e violentamente) jogado por terra.

Ao fotografar refugiados, homens em guerra e miséria, Sebastião aparentemente perdeu a fé na humanidade. A “gota d´água” foi em Ruanda, onde após testemunhar genocídio tal, onde o corpo humano nada mais é do que um amontoado na rua, e onde uma população inteira simplesmente “desaparece”, Sebastião decide parar com o ofício. Tirar fotos e testemunhar tamanha crueldade humana, passa a não fazer mais sentido. Como ele diz: “quando voltei, minha alma estava doente”.

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Sebastião Salgado fotografando um campo de refugiados em Ruanda, no seu projeto “Êxodos”. A realidade encontrada no massacre em Ruanda foi demais para o fotógrafo.

O filme conta um pouco de como a ideia de se restaurar uma grande área de Mata Atlântica da antiga fazenda da Família Salgado, traz nova perspectiva ao fotógrafo que decide retornar ao ofício em um projeto que ele chama de “uma grande homenagem ao planeta Terra”: Gênesis. Quem já teve a oportunidade folhear esse livro, sabe de que obra maravilhosa estamos falando.

Apesar de não abandonar o sentimento humano, a partir desse momento o documentário embarca em uma proposta ambientalista que, apesar de fundamental, não parecia ser a ideia original. O sal então é deixado de lado, em prol da Terra.

É triste perceber o quanto o homem prejudicou a Terra. O quanto destruiu ecossistemas, habitats, faunas. Mas é ainda mais triste perceber o quanto o homem prejudicou a si mesmo. Como já fomos capazes de tantas maldades com outros da nossa própria espécie?

Não sei se ao final a mensagem do filme é positiva ou negativa. Entendo que a iniciativa do Instituto Terra mostra capacidade do homem em restaurar e corrigir. Não sei se isso vale para as perseguições, genocídios, holocausto.

Digo que, biologicamente, o corpo humano é em boa parte formado por água e sal. A mesma água e o mesmo sal que estão na Terra e já estavam lá no Gênesis. A mesma água e o mesmo sal que foram derramados das veias dos milhões de pessoas que um dia já sofreram atrocidades e que formam o sangue que hoje choca e clama a injustiça, como o de Abel clamou. A mesma água e o mesmo sal da terra… (Mas às vezes tão insípido…)

“Vós sois o sal da terra; mas se o sal se tornar insípido, com que se há de restaurar-lhe o sabor? para nada mais presta, senão para ser lançado fora, e ser pisado pelos homens.” Mateus 5.13

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Sebastião Salgado folheando “Gênesis”. Sua “carta de amor ao planeta”.