Música: Castelo Forte, Cantata BWV 80 e Sinfonia “A Reforma”

“Castelo forte é nosso Deus.
Espada e bom escudo”
Primeiros versos do hino cristão “Castelo Forte”, baseado no Salmo 46.

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Partitura do Hino “Castelo Forte”, originalmente em alemão “Ein Feste Burg”, na sua versão em inglês “A Might Fortress is our God”.

Se você frequenta ou já frequentou alguma igreja evangélica tradicional, provavelmente você já ouviu o hino “Castelo Forte”, citado acima. O hino em questão foi escrito por ninguém mais ninguém menos que Martinho Lutero em torno do ano de 1529 e foi baseado no Salmo 46. Acabou se tornando algo como um hino de guerra da Reforma Protestante e se encontra na maioria dos hinários utilizados nas igrejas: é o número 581 da Harpa Cristã, e o 323 do Cantor Cristão.

Martinho Lutero nasceu, viveu e morreu na região da Saxônia, uma das regiões que hoje formam a Alemanha. Nasceu e morreu em Eisleben, e viveu em cidades como Eisenach (na Turíngia, onde teria traduzido o Novo Testamento do latim para o alemão) e Wittenberg, cidade da catedral onde afixionou as 95 teses que dariam início à Reforma. Conforme a Reforma se propagou por diversos países da Europa, inclusive no Leste Europeu, um homem chamado Veit Bach, na Hungria, teria se tornado luterano e devido à perseguição sofrida pelo Sacro Império Germânico, teria se mudado para a Turíngia (região ligada à Saxônia). Veit Bach era um reconhecido padeiro e músico amador, tocava cítara, e foi o pai da mais importante dinastia familiar de músicos do mundo ocidental: os Bach.

Cerca de dois séculos após Martinho Lutero (mais precisamente em 1685), nasce em Eisenach, na Turíngia, Johann Sebastian Bach, o mais célebre compositor desta família, tido por alguns como o maior de toda a música ocidental. Bach realmente trata-se de personalidade sem igual na história da música, com extensa obra, considerada atemporal e, até hoje, é repertório obrigatório na maioria das salas de concerto do mundo. Bach, assim como seus ascedentes, era luterano e foi o organista principal de catedrais de diversas cidades na região da Saxônia.

Entre os anos de 1727 e 1731, Bach compôs uma cantata coral em provável comemoração ao bicentenário da Confissão de Augsburgo (ainda que aparentemente a cantata só tenha sido apresentada algum tempo depois). A Confissão de Augsburg foi uma espécie de documento formal realizado pelos primeiros reformadores luteranos a fim de apresentá-la ao imperador do Sacro Império Germânico, Carlos V, e se tornou como uma profissão de fé. A cantata inclui em sua melodia a própria descrita acima, de Martinho Lutero, tornando-se portanto uma bela homenagem à Reforma e ao próprio reformador.

Passado mais um século, próximo ao 300º aniversário da igreja reformada, um compositor romântico muito conhecido, produz uma Sinfonia chamada “A Reforma”. Esse compositor é Felix Mendelsson-Bartholdy. Mendelssohn vinha de uma família judia alemã que teria se convertido ao cristianismo (tendo sido batizado em uma Igreja Reformada). Nasceu em Hamburgo e faleceu em Leipzig, na Saxônia. Mendelssohn, um prodígio desde criança foi um dos responsáveis pelo “ressurgimento” da obra de Bach no século XIX, tendo sido grande admirador deste, pois Bach, apesar de ter sido um músico de relativo sucesso durante a sua vida, só se tornou realmente reconhecido e tido como um dos maiores compositores de todos os tempos a partir do século XIX.

Em sua sinfonia, no último movimento, Mendelssohn inclui, nada mais nada menos, que a melodia do hino de Lutero citado e tão famoso. Claro que a melodia tinha todo o sentido dentro da obra, mas também foi considerada uma espécie de homenagem ao próprio Bach. Apesar de a obra não ter ficado pronta a tempo de ser executada nas comemorações do terceiro século da Confissão de Augsburg e, segundo alguns, o próprio Mendelssohn teria se declarado não totalmente satisfeito com o resultado final da obra, esta sinfonia é hoje muito mais conhecida que no tempo em que foi composta e é um marco para a Reforma Protestante. Eu, particularmente, tenho muito apreço por esta sinfonia, gosto muito de ouvi-la e já tive o prazer de tocá-la há alguns anos em apresentação da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo.

Abaixo coloco o link da apresentação desta sinfonia pela Sillicon Valley Symphony, regida por Michael Paul Gibson, em 2013. Perceba a partir de 23min22s a introdução da melodia do hino “Castelo Forte (Ein Feste Burg)” pelas flautas, iniciando o último movimento, a partir do qual a melodia é explorada de forma esplendorosa:

Alguém pode se perguntar se Martinho Lutero tinha ideia da repercussão que suas ações teriam na Igreja Cristã como um todo, ao longo de tantos séculos, ou mais especificamente, se ele tinha ideia que uma melodia relativamente simples, mas tão poderosa, pudesse vencer o tempo e marcar a história da música ocidental, ou ainda os nossos hinários cristãos. Provavelmente ele não poderia deslumbrar esse alcance. Mas o fato de ter realizado, mostra que diante de tudo que era mostrado para ele, ele decidiu realizar. E mesmo diante do medo da morte e das retaliações, ele escolher confiar no seu castelo forte.

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Partitura de “Ein Feste Burg” com a assinatura de Martinho Lutero

“Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações.
Portanto, não temeremos ainda que a terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares;
ainda que as águas tumultuem e espumejem e na sua fúria os montes se estremeçam.
… Bramam nações, reinos se abalam; ele faz ouvir a sua voz, e a terra se dissolve.
O SENHOR dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio.”

Salmo 46.1-3;6-7