Filme e Livro em Mente | Na Natureza Selvagem – A felicidade em um ser social

O ser humano é um ser social. Desde a nossa mais tenra idade, somos voltados para o desenvolvimento de importantes habilidades sociais, que irão moldar toda a nossa vida. Em casos específicos, em geral patológicos, essas habilidades podem encontrar-se deficitárias, variando conforme o tipo e o momento do surgimento em um grande leque de alterações: autismo, esquizotipias, transtornos da personalidade, fobias sociais.

No entanto, apesar da nossa inerente capacidade de sermos sociais, até hoje ainda não sabemos ao certo qual o tipo de sociedade ideal e, por isso, ainda nos degladiamos em discussões sem fim acerca do capitalismo, socialismo, democracia, etc. E, mais que isso, ainda sofremos em meio a uma sociedade que cobra demais e marginaliza a muitos. É no meio desse conflito que temos a história real de Christhopher McCandles, conhecida pelo livro de Jon Krakauer e pelo filme homônimo “Na Natureza Selvagem” (Into the Wild – 2007).

poster filme e livro na natureza selvagem

“Na Natureza Selvagem” (“Into the Wild”). Filme e livro

Christhopher era o filho de Walt e Whilhelmina McCandles, donos de uma empresa de consultoria. Walt já havia trabalhado para a NASA e tinha uma inteligência, aparentemente proporcional à sua rigidez. Um casal bem-sucedido dentro do “american way of life”. Já adolescente, Christhopher e sua irmã descobriram que o pai tinha outro filho de um relacionamento anterior e isso parece ter mexido bastante com eles.

A crescente raiva da sociedade, do materialismo e de toda falsidade moral inerente a esses, não impediram que Christhopher se graduasse na Universidade de Atlanta em História e Antropologia. No entanto, após a graduação, ele decidiu fazer uma viagem sozinho pelos vários estados americanos, após ter doado todo seu dinheiro que tinha no banco a instituições de caridade, decidido a depender somente da natureza e dos que encontrava no caminho. Nesse momento ele muda seu nome para Alexander “Supertramp” (algo como super-andarilho), e deixa a todos que conhece sem saberem de seu paradeiro.

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Christhopher McCandles, durante sua peregrinação como “Alexander Supertramp”

Toda a história, as aventuras, as amizades, muito interessantes, vocês podem ver nas obras sobre a vida do Chisthopher, em especial no famoso filme de 2007, dirigido por Sean Penn, com Emile Hirsch no papel principal, e a presença de diversos atores conhecidos: Vince Vaugn, Kristen Stewart, William Hurt, Marcia Gay Harden. Não irei me deter aqui nessas histórias, mas vale a pena assistir ao excelente filme (que tem seus problemas de ritmo talvez, mas mesmo assim excelente), que conta ainda com uma trilha sonora toda especial, composta e cantada por Eddie Vedder (ex-vocalista do Pearl Jam).

Fato é que o objetivo de Christhopher após dois anos de peregrinação, foi chegar ao Alasca, onde objetivava viver dependendo totalmente da natureza, como escrevia em suas notas em seu diário e em seus livros que o acompanhava:

“Sem jamais ter de voltar a ser envenenado pela civilização, foge e caminha sozinho pela terra para se perder na floresta.”

Christhopher, ou Alexander Supertramp, viveu nessa região totalmente sozinho e isolado, se abrigando em um ônibus abandonado durante cerca de 4 meses. O ônibus é um capítulo à parte. Até hoje é trilha para aventureiros que desejam refazer a rota feita pelo Supertramp. O que um ônibus fazia abandonado em meio ao nada na região é um mistério, mas serviu de abrigo para Christhopher que o apelidou de “magic bus”, mostrando o caráter aparentemente místico com que encarava toda a sua experiência.

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Christhopher McCandles e o “Magic Bus”. Uma porção da sociedade, no meio do nada.

Os relatos escritos por Chris em seu diário e em suas notas que fazia em meio aos livros de Thoreau, Tolstoy, Jack London, demonstram como ele viveu da euforia ao extremo desespero, vendo-se em determinado momento “aprisionado” pela natureza que o cercava. Vivendo de pequenas caças que realizava e de sementes, Christhopher se viu cada vez mais magro, fraco e, possivelmente, envenenado pelas sementes que ingeria. Em 6 de setembro de 1992 foi encontrado morto por um grupo de caçadores, dentro do ônibus, com o corpo já em decomposição dentro de um saco de dormir. Na porta do ônibus:

“S.O.S. Preciso de ajuda. Estou aleijado, quase morto e fraco demais para sair daqui. Estou totalmente só, não estou brincando. Pelo amor de Deus, por favor, tentem me salvar. Estou lá fora apanhando frutas nas proximidades e devo voltar esta noite. Obrigado, Chris McCandles.”

Como essa frase tristemente se contrapõe à alegria inicial da aventura é de chocar os corações. E como ao final dela, diferente de em outros momentos, ele assina seu nome real e não Alexander “Supertramp”. Como consolo, dentro do ônibus, uma frase deixada por ele acalanta um pouco mais:

“Tive uma vida feliz, e agradeço ao Senhor. Adeus e que Deus vos abençoe a todos.”

chris placa

Entre as polêmicas que envolvem a história de McCandles, entre os muitos que o consideram um herói e entre aqueles que o consideram um suicida, muitas lições podem ser tiradas. Na natureza ou na sociedade, muitas vezes o homem irá se ver deslocado em sua existência. Desde as primeiras civilizações o homem forma grupos como um meio de adaptação a um ambiente possivelmente hostil. E desde as primeiras civilizações os grupos exigem do homem uma adaptação que nem sempre é simples. Se McCandles tinha algum transtorno psiquiátrico? Talvez. Me parece uma personalidade bastante esquizotípica. Mas que as angústias e a revolta apresentadas por ele são uma coisa real e viva nas sociedades de hoje, isso não há dúvidas.

Esse falso moralismo tão presente, não é exclusividade das sociedades ocidentais, nem muito menos de nosso tempo. O farisaísmo, em sua essência mais criticada, é exatamente isso. E como Jesus criticava o farisaísmo. Como Jesus era crítico da sociedade de sua época. Talvez hoje, diriam que ele era “de esquerda”.  Jesus inclusive, antes de iniciar seu ministério, se exilou por 40 dias no deserto, mantendo-se longe de toda contaminação espiritual que a sociedade poderia lhe trazer naquele momento.

No entanto, o que homens como Chris McCandles, Thimoty Treadwell (outro famoso morador de áreas selvagens habitadas por ursos), e outros tantos eremitas não percebem (ou percebem tarde demais), é que sem o convívio social, não somos completos. Sem pessoas para partilharmos nossas tristezas, nossas angústias, nossas alegrias não podemos ser felizes, como Chris escreveu em meio a um exemplar de Dr. Jivago, pouco tempo antes de morrer:

“A felicidade só é real quando compartilhada”

Viver socialmente é algo intrínseco a nós. Está em nosso DNA. No Gênesis, Adão não era completo e feliz, antes que Deus lhe desse uma “adjutora que estivesse como diante dele”. Isso, mesmo com Adão vivendo em total harmonia com a fauna e flora de um jardim natural que em nada lhe era hostil. Somente após a existência de um outro ser humano com quem pudesse compartilhar sua vida, suas alegrias, ele poderia ser realmente feliz. Outros grandes homens da Bíblia, passaram seus piores momentos quando estavam abandonados e se sentiam sozinhos, em especial em ambientes selvagens como o deserto: Elias, Jonas, Moisés, Agar. Parafraseando Tom Jobim: “… é impossível ser feliz sozinho.”

“O olhar de amigo alegra ao coração; as boas-novas fortalecem até os ossos.” Pv 15.30

Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também. E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição.” Cl 3.13-14

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Literatura em Mente – Rubem Alves e “O Povo”

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Pensem em uma persona contraditória. Agora pensem em Rubem Alves, provavelmente o teólogo brasileiro de maior expressão no meio secular, artístico e internacional. Digo isso, porque ao se falar no nome deste mineiro de Boa Esperança (irônico não?), falecido em Campinas em 19 de julho de 2014 aos 80 anos de idade, diversas pessoas do meio cristão se levantarão para defendê-lo, criticá-lo ou execrá-lo. De gênio a herege, muitos serão os adjetivos que se vêem associados a este senhor que, além de teólogo, foi psicanalista, educador, escritor e ex-pastor presbiteriano.

A verdade é que Rubem Alves foi muita coisa. E falou e escreveu muita coisa também. Algumas muito polêmicas, outras retiradas erroneamente de todo um contexto. É inegável que uma análise biográfica e da obra de Rubem Alves nos leva a enxergar um artista humano, sim, um artista, com todo o lirismo e sensibilidade que lhe é peculiar que, ao longo dos anos foi se separando cada vez mais da fé, ao menos, em seu sentido tradicional. É difícil bater o martelo mas, amargurado no final de sua vida com a doença que sofria, é provável que Rubem Alves tenha flertado com o ateísmo (minha opinião).

Ainda assim, não há como não respeitar uma pessoa tão inteligente e tão habilidosa em escrever. Veja só essa crônica, uma das últimas que escreveu à Folha de São Paulo, em novembro de 2012:

O Povo

“Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece”, observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo.

Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega: “Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos”. Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem.

Vou dizer aquilo sobre o que me calei: “O povo unido jamais será vencido”, é disso que eu tenho medo.

Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o “povo” tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo. Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se integrasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.

E a história do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão. Até que ela o abandonou.

Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos. E o que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: “Agora você será minha para sempre.” Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.

Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável.

O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras.

As mentiras são doces; a verdade é amarga.

Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo.

No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões.

E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos!

As coisas mudaram.

Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.

O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas.

As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.

Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro “O Homem Moral e a Sociedade Imoral” observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se “responsáveis” por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas.

Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.

Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras.

O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.

Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás.

Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer. O povo, unido, jamais será vencido!

Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos. Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol. Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de “boca-de-forno”, à semelhança do que aconteceu na China. De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção.” Isso é tarefa para os artistas e educadores.

O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança!

Rubem Alves – colunista da Folha de S. Paulo Em, 11 NOV 2012

Que crônica realmente genial. De modo abrangente, abarca um pouco de tudo o que Rubem Alves tanto ama: teologia, humanidade, civilização, filosofia, artes e educação. E digo mais, fala até mesmo de psicologia de grupo, julgando e investigando as atitudes do “povo”. Utilizando-se de exemplos bíblicos e históricos, Rubem Alves realiza uma crítica amarga ao ser humano, no momento em que este se insere num grupo, no caso, a sociedade como um todo.

Como explicar amontoados de pessoas que se agrupavam em praça pública, para assistirem a sessões de assassinatos e tortura? Para assistirem “bruxas” queimarem? Ou para gritarem “Barrabás”? E hoje ainda vemos grupos que se ajuntam para matar indivíduos que torcem para um time rival, ou para colocar fogo em um mendigo na rua, ou para estuprar uma adolescente em uma festa. Não que o homem seja inocente individualmente mas, sob o anonimato e a proteção do grupo, o homem às vezes se torna cruel:

“Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo”

Há uma imagem (errada) que temos do povo: a imagem do homem simples capinando sua roça para subsistência ou a da mulher que cozinha o pouco de comida que tem para seus filhos. As imagens, em si, não são incorretas. Nem os indivíduos que vivem de modo tão simplório. Mas entender a sociedade , ou o povo, como um agrupado de pessoas simplórias que são exploradas por companhias, aristocracias, burguesias, ou por políticos corruptos não está correto. O povo também é quem permite todas essas injustiças. De onde vem a cultura do “jeitinho” ou da “lei de Gérson”, ou da alienação, ou do “a culpa é toda deles”.

A Bíblia desde o Gênesis até o Apocalipse fala de “povos” e sociedades que erraram. E erraram demais. O povo pré-diluviano. O povo de Sodoma e Gomorra. O povo de Israel. O povo das 7 Igrejas do Apocalipse. Sempre que há um povo, há registro de erros graves. A isso, registra-se talvez algumas poucas exceções: lampejos de bons momentos do povo de Israel, e a Igreja Primitiva. E é interessante que, em sua crônica, Rubem Alves, qualifica alguns momentos em que “o povo fica bonito”, especialmente quando guiado por pessoas e sentimentos especiais.

O povo de Israel teve seu auge quando guiado pelo homem mais sábio de todos os tempos. A Igreja Primitiva era guiada por um sentimento singular de altruísmo e abandono das coisas deste mundo em prol de algo muito maior. Quando Rubem Alves diz “isso é tarefa para os artistas e educadores”, consigo compreender totalmente a importância que estes dois tem na sociedade de hoje. Se os artistas são sensíveis às questões que realmente são importantes, eles são capazes de alertar o povo para tais. Já em relação aos educadores, digo que este pode ser o grande diferencial das sociedades contemporâneas. Isso porque a educação tem poder transformador, em tornar pessoas do povo, em cidadãos. Rubem Alves, como um grande educador, entendia bem disso. Uma sociedade que valoriza o estudo é uma sociedade que evolui e aprende com os erros do passado. Uma sociedade que tende a não queimar pessoas e livros em praças públicas. E que tende a gerar, ler, entender, aceitar ou refutar grandes pensadores como o cidadão brasileiro Rubem Alves, sem precisar que isso se torne uma verdadeira guerra religiosa.

“O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras.” Tito 2.14

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Imagem em mente (01) – Responsabilidade social

Represa seca

Para iniciar esta seção “Imagem em mente”, onde alguma imagem será lançada para nossa reflexão, eu posto a imagem da represa de Jaguari no dia de 31 de janeiro de 2014, que faz parte do sistema Cantareira, principal distribuidor de água para a cidade de São Paulo que, como pode se ver está com o nível de água muito abaixo do normal.

José foi um grande governador do Egito porque soube poupar na hora certa para enfrentar o período de fome. Agora é a hora de todos nós cidadãos economizarmos água. E nós cristãos temos que ter essa consciência. Façamos nossa parte.

Artigo: Pilarização

Pilarização é, como o nome diz, a divisão  em pilares. Esse termo, não muito conhecido por aqui, é um tipo de organização social baseada na divisão e segregação, famoso por sua ocorrência na Holanda e Bélgica (verzuiling em holandês). Estas sociedades eram, e em algumas esferas ainda são, divididas verticalmente de acordo com diferentes religiões e ideologias.

Diferente de uma sociedade de castas, como ocorre na Índia, em que há uma divisão horizontal e hierárquica, ou mesmo do apartheid, na África do Sul, nos Países Baixos vemos uma divisão sem hierarquização, de modo que cada um dos pilares possui suas próprias instituições sociais e poderes: seus próprios jornais, seus próprios partidos políticos, bancos, escolas, hospitais e clubes esportivos. A divisão principal, no final do século XIX e século XX era entre protestantes (oriundos de tradição calvinista, forte nos países baixos), católicos e socialistas.

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Após o final da segunda guerra mundial iniciou-se um movimento para se acabar com este tipo de segregação na sociedade holandesa, mas como já foi dito, muitos resquícios desta sociedade ainda podem ser vistos. E uma foto tornou-se um símbolo desta segregação:

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Na foto em questão vemos os túmulos de um casal holandês (JWC van Gorkum e JCPH van Aefferden), no cemitério ao redor da cidade de Roermond. Ele era protestante. Ela era católica. Por isso foram proibidos de serem enterrados na mesma área do cemitério (ele faleceu em 1880 e ela em 1888). Esta foi a maneira que a família encontrou de homenagear o casal.

Bom, mas não estou aqui para um final clichê melodramático, mostrando como o amor é capaz de superar as mais difíceis barreiras e como ninguém pode separar e etc, até porque como disse Jesus “Não sabei vós que na ressurreição as pessoas não se casam nem se dão em casamento; mas são como os anjos no céu?” (Mt 30.22 / Mc 25.12). Estou aqui para mostrar como a pilarização está enraizada na cultura protestante por todo o mundo.

Seja abusando dos termos bíblicos como jugo desigual ou roda dos escarnecedores, sempre esteve enraizado na cultura evangélica a necessidade de se segregar. É verdade que o próprio termo igreja (eklésia) tem o sentido de se ser separado, tirado para fora. E é verdade que temos que nos afastar realmente da maldade, das impurezas e porque não evitar o “jugo desigual”. Mas quando cristãos (no caso, protestantes), relacionam-se somente com cristãos, trabalham com cristãos, contratam somente cristãos e fazem amizades somente com cristãos, isso passa a ser pilarização.

Nesse momento, talvez o mais atento dos leitores pode se perguntar, mas qual é o problema de se pilarizar o cristianismo? Ora, pilarizar é nos fecharmos em nosso “mundo que não é do mundo”. É ignorar o sofrimento e as necessidades dos outros e também tudo aquilo que eles podem nos ensinar. É ir contra o “Ide de Jesus”, mas não só contra o “Ide”, é ir contra o conhecimento, contra as relações humanas, contra o amor.

Portanto, não acho que a pilarização seja algo bom para nós cristãos. Não sou contra a criação de escolas ligadas a igrejas ou universidades, ou até mesmo partidos políticos. Só não acho que nós precisamos de toda aquela “bancada evangélica” defendendo os “interesses da Igreja” e ignorando todas as outras questões que são fundamentais à toda a sociedade.

Vós sois a Luz, não se pode esconder uma cidade edificada sob um monte Mt5.14. Nós não estamos aqui para nos esconder ou viver em uma redoma. Pelo contrário, deve partir do cristão o bom exemplo. E esse bom exemplo deve contemplar saúde, economia, cultura, meio ambiente. Deve contemplar honestidade e transparência. Um cristão que não contrata, não conversa, ou não ouve um não cristão, não é um bom exemplo. Um cristão que ignora as necessidades mais básicas das outras pessoas não é um bom exemplo. Não é luz.

Os ascetas defendem o caminho da santidade, como a reclusão e a fuga de toda a sociedade humana e tudo que ela oferece. Não deixa de ser um caminho válido. Mas também posso te dizer que não foi à toa que Jesus comeu e bebeu com publicanos e pecadores, e morreu ao lado de dois ladrões, em uma cruz, assim como em determinado momento se manteve recluso no deserto para santificação. Mas afinal, se Jesus não tivesse saído de sua “redoma”, que chance nós teríamos?

Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo. Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros. Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsisitindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.” Fp 2.3-8

“Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte. E, também, ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Ao contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus.Mt 5.14-16