Teatro: “12 Homens e uma sentença” – O valor do testemunho e a realidade sob os nossos olhos

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Este fim de semana tive a oportunidade de ir ao teatro e assisti à boa peça “12 homens e uma sentença” de Reginald Rose, há mais de três anos em cartaz em diversos teatros, sob direção de Eduardo Tolentino, em curtíssima temporada no Teatro Nair Bello.

O texto de Reginald Rose já foi levado duas vezes ao cinema, a mais conhecida delas foi em 1957 (12 Angry Man), com direção de Sidney Lumet e atuações de, nada mais nada menos, Henry Fonda, Martin Balsam, Lee J. Cobb; filme este conhecido como um dos melhores filmes de tribunal já feitos, teve três indicações ao Oscar, entre outros prêmios.

Cartaz do filme de 1957

Cartaz do filme de 1957

A história tem um plott bem simples, mas poderoso: 12 homens são convocados como júri para decidir sobre a culpa ou a inocência de um garoto pobre de 16 anos, acusado de matar o próprio pai. Leve-se em consideração que, em caso de culpa, a condenação é a morte por cadeira elétrica. E a decisão, tanto por culpado ou por inocente, deve ser unânime.

Esse cenário, que a uma primeira vista parece ser uma realidade tipicamente americana, com suas específicas leis e condutas, serve para uma discussão muito mais profunda sobre as nossas visões e perspectivas diante de algo que nos é apresentado; como deixamos as primeiras impressões, a opinião dos outros, e os nossos próprios preconceitos e crenças interferirem em nossos julgamentos. E como muitas vezes não percebemos que os nossos julgamentos podem afetar duramente os outros, de forma direta ou indireta.

Não digo que a peça seja perfeita. Em termos de atuação, ficamos o tempo todo frente a um cenário com 12 homens e é claro que alguns deixam escapar às vezes um texto mais decorado, ou recitado. Mas estão em alguns momentos, em algumas frases e na transformação geral que ocorre, as riquezas da peça. Vale ressaltar a ótima atuação de Zécarlos Machado, interpretando o jurado número 3.

Os jurados, que inicialmente parecem convictos (com exceção de um – o jurado número 8) da culpa, têm por base o testemunho de duas pessoas que dizem ter ouvido e/ou visto o garoto cometer o crime.

É interessante o valor que se dá ao testemunho das pessoas. Em análise estatística, o mais baixo grau de referência é justamente os relatos ou testemunhos, mesmo em se tratando de especialistas. Na medicina, para algo ser tomado por verdade, deve ser provado por meio de metaanálises, ensaios clínicos ou estudos de corte e relacionados. Mas no dia a dia, as pessoas dão valor aos testemunhos (porque não tratar uma pneumonia com chá de gengibre, se a vizinha relatou que funcionou?). E os testemunhos e relatos também assumem importância, quando falamos de justiça e direito, pois do contrário, poucos seriam condenados.

A Bíblia demonstra que na época da Lei, havia-se essa preocupação, quanto ao valor dos testemunhos. Tanto que uma pessoa não poderia ser condenada à morte com base no testemunho de apenas uma pessoa. Deveria haver pelo menos duas (Dt 17.6; 19.15). E nada era considerado mais criminoso que dar um falso testemunho, tanto que este é um item dos 10 mandamentos (Dt. 5.20). O testemunho de um homem era uma das coisas mais importantes que ele possuía. Claro que isso não bastou para que os fariseus e acusadores de Cristo contratassem pessoas que testemunhassem falsamente contra ele. Daí já vemos a falha da Lei.

É interessante que nos tribunais, antes de seu relato a testemunha deve jurar com a mão sob a Bíblia. Pra ser sincero, não sei se isso é feito aqui no Brasil, mas é algo bem típico dos tribunais americanos (pelo menos nos filmes). E isso é citado na peça. Mas a ideia da peça não é (só) duvidar da idoneidade dessas pessoas, considerando se são hipócritas o suficiente para mentir após ter jurado sob algo tão sagrado. A ideia é tentar entender como este testemunho pode ser alterado pela realidade da pessoa que fala e pode ser entendido pela realidade da pessoa que ouve.

É atribuída a Nelson Rodrigues a famosa frase “Toda unanimidade é burra”. Não sei se concordo plenamente com essa citação, mas com certeza concordo com a sequência dela: “Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.” E é exatamente isso que vemos nos nossos dias. Como exemplo podemos ponderar: se fizéssemos uma pesquisa, com certeza a grande maioria da população, quase a unanimidade, consideraria os “mensaleiros” como grandes corruptos e criminosos, mas uma boa parte dessa população não saberia dizer o porquê, nem mesmo detalhar a chave da acusação. Não que não os sejam realmente, criminosos e corruptos, mas consegue-se perceber que isso é tomar para si uma verdade coletiva, sem pensar sobre o assunto?

Num mundo onde descarta-se o outro e a opinião do outro de forma tão recorrente, onde as pessoas são levadas a julgar e condenar o outro na base do estereótipo, e do que é simplesmente apresentado pela mídia (não estou defendendo, mas vide as tão famosas reportagens denúncias que expõem e condenam, sem dar direito a resposta, ou mesmo sem retratações nos casos em que a justiça decide pela inocência do réu); em que uma pessoa é linchada por um erro que cometeu (entre tantos outros que cometeram o mesmo erro) num estádio de futebol; em que um jovem pobre é um típico drogado ou criminoso, como na peça; em que um pastor é sempre um ganancioso capitalista ou que um padre é sempre um pedófilo; num mundo assim, é interessante termos alguns momentos para pensar e refletir, especialmente naqueles nossos julgamentos que possam interferir em nossas vidas ou nas do próximo.

Vale a pena assitir a peça com esse pensamento. E vale a pena sempre termos cuidado com a realidade que nos é apresentada. Vivemos uma época de muita informação e pouco aprofundamento. Todo mundo lê as manchetes, mas poucos lêem as entrelinhas. Salomão pediu sabedoria a Deus, justamente para que pudesse julgar bem. Não é porque não temos a sabedoria ou a importância de Salomão que devemos julgar livremente, de qualquer medida. Até porque por essa mesma medida, podemos também ser julgados.

“Eu quero a verdade que só me é dada através do seu oposto, de sua inverdade. E não aguento o cotidiano. Deve ser por isso que escrevo.” Clarice Lispector

Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça.” Jo 7.24

“Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós.” Mt 7.2

A altivez da detenção da verdade

A Altivez da Detenção da Verdade

Hoje fui ao banco. Sim ainda há pessoas que vão ao banco e, acredite, ainda há pessoas nas filas dos bancos. Precisei ir porque deixei uma conta vencer. Em geral isso seria uma experiência comum e sem valor, exceto monetário (essa foi péssima…), mas algo diferente aconteceu. Um senhor que estava na fila, logo atrás de mim, começou a conversar comigo.

Não me lembro bem como a conversa começou, mas o assunto se iniciou em uma discussão sobre bancos, em como um de nossos ex-presidentes faliu o Banespa, entregando-os nas mãos de sua amante (palavras dele, por favor hein…) e também o Banco Nacional. Depois de alguma forma falou sobre o Chelsea e em como o dono deste time enriqueceu à base de vendas de bombas atômicas da antiga União Soviética (!).

Até então tudo bem, eu ouvia, interagindo e, de certo modo, até mesmo interessado no conhecimento (ou não), que o cidadão tinha a passar (até porque não tinha muito pra fazer ali). Mas de alguma forma o padrão de afirmativas começou a deteriorar de tal forma, que em algum momento ele chegou a enaltecer Hitler (prefiro entender que foi ironicamente, com o objetivo de justificar a crítica que faria ao estado de Israel) e afirmou, como o detentor de toda a sabedoria do mundo, que Israel mantinha campos de concentração na faixa de Gaza. Ao entrar no campo “religião”, afirmou categoricamente serem o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, ramificações da mesma mentira.

O pior, foi a justificativa para isso. “Aqueles grupos tribais eram um monte de analfabetos… O pessoal começou a escrevê-los 500 anos atrás. Olha só: até a mãe da rainha Elizabeth, a atual, era analfabeta…”.

Logicamente, a esta altura, já o estava contrariando em tudo o que dizia. Não me identifiquei como cristão, ou evangélico. Mas falei que ele dizer aquilo era absurdo, que ele desvalorizava o valor da cultura antiga, que existiam os escribas que eram responsáveis pela notação e escrita e que, na época de Esdras por exemplo, (não citei o nome Esdras), os hebreus tinham até mesmo notação musical, para o registro dos salmos, muitos deles lidos até hoje em nossas igrejas.

A conversa terminou com o senhor elaborando diversas afirmativas a respeito da Bispa Sônia que, pra não me alongar, não citarei aqui (não estou defendendo a bispa, mas claramente muitas das coisas eram provavelmente mentiras) e aí, finalmente, fui chamado ao caixa.

Você pode estar se perguntando porque estou escrevendo a respeito desta conversa, mas o que me chama atenção aqui é algo que vem contaminando boa parte das pessoas, seja na vida pessoal, nas igrejas, nas escolas e, principalmente, na internet, lugar onde pode-se dizer o que quiser quando quiser: a detenção da verdade.

Sim, diversas pessoas se consideram detentoras da verdade. Muitas vezes a pessoa não  sabe nada sobre um assunto, ou pior, sabe um pouco ou até bastante (mas não o suficiente), e toma algo por verdade, e faz questão de espalhar a sua verdade a todo o resto de uma “população ignorante” que, diferente dele, não percebe claramente a realidade a sua volta.

Hoje eu vejo isso o tempo todo. Vejo diversos ateus se considerando os “donos da verdade” e dizendo como cristãos de todo mundo podem acreditar nessa “bobagem” da Bíblia e, pior, como são cordeirinhos manipulados por crápulas sedentos de dízimos e ofertas.

Mas não vou ser imparcial. Essa atitude de ateus de todo o mundo também é uma represália a milhares de cristãos que fazem o mesmo há tanto tempo. Tudo o que importa sou eu, que oro e vou à igreja todos os domingos. Os outros são todos ignorantes que merecem queimar no fogo eterno para todo o sempre.

Querido leitor: é exatamente isso que eu quero deixar bem longe deste blog e de nossas discussões: a altivez da detenção da verdade. Nós somos cristãos, e claro, entendemos que o que acreditamos é a verdade e também acreditamos que esta verdade é a nossa libertação (Jesus Cristo, o caminho, a verdade e a vida). Mas não podemos nos considerar acima dos que não acreditam nisso e cairmos no erro da altivez e da ignorância da detenção da verdade.

Nós cremos, pela fé e pela razão. Por isso discutimos e estudamos Teologia. Para dar razão a nossa crença. Mas pode ser que muitas pessoas jamais acreditem naquilo que acreditamos. E muitas vezes não vai adiantar falar, provar, discutir ou, principalmente, brigar, porque a base de qualquer religião, e principalmente do cristianismo, é a fé. E fé, só depende de cada pessoa.

Portanto, o mais importante aqui é: não caiamos no erro de ridicularizar outras pessoas, sejam ateias ou seguidores de outras religiões, principalmente sem ouvir ou entender o que creêm. Não saiamos por aí distribuindo afirmações infundadas ou até mesmo agressivas sobre outros pensamentos. Eu, sempre estou disposto a falar sobre o que creio. Mas se estou disposto a falar, o mínimo que se espera, é que esteja disposto a ouvir. Cada pessoa crê no que quer, mesmo que isso pareça ridículo para você. Se Deus deu o livre arbítrio e o livre pensamento, quem somos nós para condenar alguém?

Nós cremos não só porque a nossa crença faz sentido em nossas cabeças, mas, principalmente, porque nossa fé de alguma forma mudou algo em nossos corações, em nossas mentes, em nosso ser. É por isso que pregamos o evangelho. Mas se isto serve para vivermos em uma guerra de quem é o ignorante ou quem é o verdadeiro detentor da verdade universal, há algo errado aí.

Não sejamos ignorantes. Não caiamos na altivez da detenção da verdade.

“Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo”. Filipenses2.3